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Mater misericordiæ

Uma invocação que satisfaz todas as aspirações de confiança

De todas as invocações de Nossa Senhora nunca nenhuma me tocou tanto, desde pequeno, quanto Mater misericordiæ. Essa jaculatória é enfática, eu quase ousaria dizer truculenta como eu próprio. Ela satisfaz inteiramente as aspirações de minha confiança. Na linha pessoal, o que mais me atrai em Nossa Senhora é a consideração d’Ela como Mãe misericordiosa, que tem toda forma, sorte e graus de compaixão, de perdões, de tutelas, proteções e até de privilégios, mas que também é Rainha.

A doçura de minha mãe deu-me a primeira noção – a melhor que tive – da doçura de Nossa Senhora. Eu olhava para minha mãe e via como ela me queria bem, de todos os modos possíveis ela me envolvia no afeto que tinha por mim.

Os professores de Catecismo me diziam, com toda razão, que Nossa Senhora é Mãe de misericórdia. Mãe quer dizer amor; amor misericordioso e – numa insistência muito bonita – amor amoroso.

A mãe perfeita não procura sua própria felicidade ou seu próprio prazer; a única preocupação que tem é a perfeição espiritual, intelectual e até física de seus filhos. Para isso vive a mãe ideal.

Nossa Senhora é mãe, a Mãe ideal, cheia de misericórdia e de compaixão para com seus filhos. Ela ama cada um de nós mais do que cada mãe individualmente ama seu filho. Ela trata cada homem com todo carinho, preocupação e afeto, como se esse fosse seu filho único.

A Ela eu posso pedir qualquer coisa; desde que seja boa, honesta, Ela me concede. Se não pode me dar aquilo que eu estou pedindo, dar-me-á algo melhor, mas deixar de atender as orações que faço a Ela, isso não acontece.

Mater misericordiæ é o arco-íris que se estende de ponta a ponta, estabelecendo um nexo entre Deus e minha pessoa, petit vermisseau et miserable pécheur.

A consideração da bondade de Nossa Senhora foi o que sempre apaziguou muito a minha alma – além do Sagrado Coração de Jesus, Ele acima de tudo, sem comparação. Foi ao sentir e ver isto: “Realmente não tem! Nosso Senhor me venceu mesmo na hora em que Ele estabeleceu a Medianeira. A desproporção entre Ele e mim é tal, que me atrai até o teto, mas me faz disparar correndo até o abismo… Há uma tal superioridade, que eu tenho vontade de chegar até Ele, mas ao mesmo tempo tenho vontade de cavar um abismo no chão, aí um poço e, dentro deste, um buraco… e lá de dentro dizer de cabeça baixa: ‘Miserere mei Deus (Sl 50, 1)!’, ou exclamar como São Pedro: ‘Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um pecador!’ (cf. Lc 5, 8)

Arquivo Revista
Nossa Senhora das Mercês – Convento das Mercedárias, Santiago de Compostela

Mater misericordiæ é o arco-íris que se estende de ponta a ponta, estabelecendo um nexo entre Deus, com aquela infinitude, e minha pessoa, petit vermisseau et miserable pécheur.1

Ela é minha advogada. Considerá-La sob esse título aliviou minha alma enormemente! Tal como um advogado, Ela tem verdadeiro parti pris2 por mim, e mesmo se eu chegasse a um extremo de infâmia, que fizesse esgotar a paciência do Sagrado Coração de Jesus, eu teria a Ela, mandada por Ele, para me resgatar.

Alívio e defesa nas dores

Nossa Senhora sempre intervém nas situações sem saída. Há uma frase nas Escrituras que eu creio que é do Apocalipse: “Tens uma chave que quando fecha ninguém abre e quando abre ninguém fecha” (cf. 3, 7). É bem verdade, mas Nossa Senhora tem uma chave que abre tudo quanto está fechado e que fecha tudo quanto está aberto. Sem contradizer o Apocalipse, foi dado a Ela um tal poder, que o curso dos acontecimentos mais irremediavelmente comprometidos, Ela os altera quando quer.

Nossa Senhora é misericordiosa, Ela perdoa, contemporiza, favorece, nos socorre nos momentos em que menos imaginamos, nas horas de sacrifício, de dor e dificuldade… Ela chega a extremos de que só no dia do Juízo Final teremos notícia!

Deus enim, qui onus imponit, manum etiam supponit. Isso significa que Deus, quando deposita um peso em cima da cabeça de alguém, sob os pés ele põe a mão para aguentar o peso.

A previsão da dor que o homem deve ter o põe em ordem, lhe dá paz e faz bem aos nervos. Mas a previsão da dor que ele não deve sofrer, o agita, o perturba, o põe em desconfiança e o tira das vias de Nossa Senhora. Às vezes há dores até pequenas, mas que o homem simplesmente não aguenta. É curioso, mas Nossa Senhora intervém com misericórdia e faz maravilhas para afastá-las dos nossos caminhos.

Hampel Auctions(CC3.0)
Mucius Scævola coloca sua mão no fogo (Coleção particular)

Nessas ocasiões, Ela é Mater misericordiæ! Ela remedeia, afasta e dá um jeito. Ela não é simplesmente uma juíza de torneio, que fica vendo com indiferença se nós pagamos o preço. Não! Ela acompanha passo a passo e pede por nós: “Pater, si fieri potest, transeat a me calix iste(cf. Mt 26, 39).3 Nós devemos pedir que Ela reze conosco e afaste de nós o que for possível afastar. Eu peço e peço muitas vezes; devo confessar que rogo com ênfase, porque toda a boa ordenação da alma pede para afastar determinadas dores que percebemos que estão fora do nosso caminho e da nossa via. Para isso Ela tem misericórdias inenarráveis!

É pensando nisso que muitas vezes me desagrada o famoso gesto de Mucius Scævola,4 porque nele está ausente Nossa Senhora, e dor sem Ela é impraticável. Eu simplesmente não aguentaria.

Eu me desintegraria na hipótese do sofrimento sem o auxílio de Nossa Senhora. Ela, sendo medianeira, intercessora junto a Ele, põe na oração d’Ela o valor que não existe na minha e consegue o que eu não mereço. Aí eu tenho uma especial paz de alma.

Há outras dores, porém, que não são assim, e são situações em que até podemos pedir que Ela, ao menos, faça com que a cruz não arranhe as costas, mas sempre dizendo “si fieri potest…” (cf. Mt 26, 39).

No altar de nossa capela, acima da imagem de Nossa Senhora, está escrita aquela linda frase: “Nolite timere. Ego sum – Não temais, sou Eu” (cf. Jo 6, 20). É n’Ela que podemos e devemos depositar uma confiança sem limites!

Nossa Senhora é misericordiosa, perdoa, contemporiza, favorece, nos socorre nas horas de sacrifício, de dor e dificuldade. Ela chega a extremos de que só no dia do Juízo Final teremos notícia!

Perdão ao pecador

Ela é Mãe de misericórdia, paciente, suavíssima, insondavelmente doce, que se dobra mais que ninguém, não apenas sobre o menor homenzinho, mas sobre o pecador mais infame. Ela intercede por ele, quer salvá-lo e está sempre disposta a perdoar e mais uma vez perdoar… Ela é cheia de um perdão tão grande, que ninguém pode medi-lo. Até nas horas de pecado – notem bem esta expressão – o nosso recurso é Nossa Senhora.

Ela usa para com o indivíduo atolado no mau hábito – até mesmo quando é culposamente adquirido –, de misericórdias, e eu ousaria dizer, de considerações especiais, por onde ele, esforçando-se no mínimo que pode, Ela já toma em consideração e sorri. E às vezes até sem isso.

Eu acho que um dos requintes de beleza da santidade d’Ela, por onde mais A sentimos Mater misericordiæ, é sua atitude face ao devedor insolvável, que fez porcarias de toda ordem, deformou-se a si próprio, mas recorreu a Ela e recobrou a paz.

Bianca N.

Se eu devesse formular uma invocação que exprimisse um dos aspectos que mais amo em Nossa Senhora, eu A chamaria “Nossa Senhora dos impasses culposos”, ou seja, ignorando o que foi mal feito, Ela sorri e diz: “Venha cá. Vamos arranjar. Um pouco eu já mudei você por dentro…”

Devemos ver Nossa Senhora sorrindo benignamente para nós, disposta a nos perdoar e auxiliar até nas horas em que tenhamos tido a infelicidade de ofendê-La. Mesmo num momento triste como esse, o pecador, voltando-se para Ela, será no mesmo instante atendido, perdoado e receberá a graça para se reerguer e reencetar o bom caminho.

Isso é tão verdade, que se Nossa Senhora fosse visitada pela mãe de Judas, Ela a trataria de modo a fazer bem à sua alma, procuraria consolá-la, salvá-la, dizendo a respeito do filho dela tudo o que precisava ser dito. Mas isso é certo, porque Ela é Mãe de misericórdia.

Se o próprio Judas, depois da traição, ao invés de ficar desesperado, tivesse recorrido a Nossa Senhora, fosse procurá-La arrependido, Ela o teria atendido com toda a bondade, como a um filho – o vendilhão e o traidor do Filho d’Ela por excelência. Ela teria sido amena com ele, perdoado, e ele se teria salvado. Se ele fosse a Ela, apenas por medo do Inferno, Ela podia obter para ele a graça de um arrependimento sincero. Ele poderia até recusar, mas Ela faria isso, porque Ela é Mãe de misericórdia.

Se assim é com Judas, tanto mais Ela será conosco que, graças a Deus, não cometemos pecados infames como o de Judas.

Eu creio que, para a nossa época, e também no Reino de Maria, não haverá verdadeira devoção a Nossa Senhora se não nos colocarmos já de início nessa ideia da misericórdia e da persistência d’Ela diante de um impasse culposo, mesmo quando, dentro do impasse, o auxílio d’Ela for recusado.

Devemos ver Nossa Senhora sorrindo benignamente para nós, disposta a nos perdoar e auxiliar até nas horas em que tenhamos tido a infelicidade de ofendê-La. O pecador, voltando-se para Ela, será no mesmo instante atendido, perdoado e receberá a graça para se reerguer.

Não há saída para nada. Ou fazemos assim ou nós, homens todos, de um modo ou de outro, em ponto maior ou menor, acabamos trocando os pés pelas mãos. E toda nossa doutrina a respeito da maldade humana, tão, tão, tão verdadeira, iria contra o princípio axiológico, se não tivesse o ápice desse horror todo. Ela, Imaculada, com o sorriso d’Ela, tirando de dentro do impasse, seja como for, desde que se olhe para Ela. Isso eu acho absolutamente capital.

Um sorriso que marcou a devoção por toda a vida

É preciso ter em vista que tudo quanto digo a respeito de Nossa Senhora, eu faço considerando-A como A “vi” na igreja do Coração de Jesus, em menino. A minha vida teria sido outra se Ela não me tivesse concedido aquela graça.

Aceitar que Ela seja assim misericordiosa conosco é uma graça d’Ela, por onde reconhecemos nossa miséria e consentimos em ser tratados com essa bondade, em que não entra em nada orgulho de nossa parte.

A predileção de Nossa Senhora pelas almas que Ela chama é tal, que quando uma alma dessa cai, desde que ela peça ajuda, Nossa Senhora, por um traçado próprio que varia de alma para alma, reconstitui tudo e eventualmente até com juros.

Exemplo disso é um fato que contam a respeito de uma religiosa que fugiu do convento e vinte anos depois voltou. Para sua surpresa, viu que Nossa Senhora tinha assumido o papel dela no convento, de modo a ninguém ter percebido sua ausência; quando ela regressou, Nossa Senhora se distanciou.

Nos espaços do sublime, às vezes, temos a impressão de que Ela fica nos “sublimizando” aos olhos de Deus. Esse é o papel de Nossa Senhora.

“Querem seguir os meus passos? Sigam esta luz”

Nossa Senhora nos chamou e não nos deixa no meio do caminho. Ela é Mãe de misericórdia, nos pega de qualquer jeito e quer nos levar avante continuamente.

A misericórdia d’Ela é a razão pela qual eu espero na misericórdia infinita de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ela é o canal e eu só posso receber a graça através do canal competente.

Arquivo Revista
Nossa Senhora Auxiliadora – Santuário do Sagrado Coração de Jesus, São Paulo

Muitas vezes há almas que se julgam abandonadas, sentem que estão na estaca zero, ou até na menos zero… Não é verdade! Pode parecer que Ela abandona uma alma, mas muitas vezes, é quando essa alma se julga abandonada que Nossa Senhora está mais próxima.

Confiar n’Ela, no socorro d’Ela, mesmo quando nos imaginamos abandonados é o supremo da fidelidade a Ela. Que Nossa Senhora nos dê essa confiança n’Ela!

Essa misericórdia de Nossa Senhora é o cerne da minha vida espiritual e de todos aqueles que conheço. Se Nossa Senhora não existisse, eu desanimaria imediatamente de me santificar e de trabalhar para a santificação dos membros de nosso Movimento.

A misericórdia d’Ela é a razão pela qual eu espero na misericórdia infinita de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ela é o canal e eu só posso receber a graça através do canal competente. Por ele a graça vem numa exuberância enorme, embora não pareça.

A ideia de Nossa Senhora que ajuda sempre, perdoa sempre e que está continuamente de braços abertos e sorrindo para mim, tenha eu andado bem ou mal, essa ideia d’Ela como Mãe de misericórdia nunca se apagou do meu espírito, e tem sido a luz de minha vida.

Querem seguir os meus passos? Sigam esta luz. A luz é a confiança e o sorriso de Nossa Senhora.

1) Do francês: vermezinho e miserável pecador.

2) Do francês: opinião pré-concebida, antecipada. Dr. Plinio usa a expressão no sentido de que Nossa Senhora, antecipadamente a qualquer falta, ama e deseja socorrer aqueles que são fracos.

3) Do latim: “Pai, se for possível, afasta de mim este cálice”.

4) Gaius Mucius, herói de guerra romano. Dr. Plinio se refere ao famoso fato de quando Roma estava sitiada pelo rei etrusco Lars Porsena, em 508 a. C. Mucius se ofereceu para invadir o acampamento inimigo e matar o soberano. Entretanto, como nunca o tinha visto, assassinou equivocadamente uma outra pessoa. Sendo preso e interrogado, sem temor diante do rei, revelou que desejava matá-lo e para castigar o seu próprio erro, meteu sua mão direita no fogo. O rei etrusco, surpreso com a cena, ordenou a libertação de Mucius e levantou acampamento. Mucius recebeu o cognome de Scævola – canhoto –, por ter, com o ocorrido, deixado inválida sua mão direita.

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