A invariável bondade de Dona Lucilia não cessou de se fazer sentir mesmo depois de sua morte, notadamente em relação aos discípulos de Dr. Plinio, que passaram a pedir sua intercessão junto a Jesus e Maria, vendo-se sempre atendidos. Em reconhecimento, um deles procurou retratá-la em pintura a óleo, com base nas últimas fotografias dela. O “Quadrinho” – como ficou conhecido – encantou Dr. Plinio e se tornou uma vívida e constante lembrança daquela figura materna, diáfana e acolhedora…
No que diz respeito às devoções, há dentro da Santa Igreja uma liberdade de acordo com o movimento das almas. Por exemplo, se eu comecei uma novena a Nossa Senhora e, de repente, me ocorre pedir a Santo Antônio de Pádua, pode ser uma prova de inconstância e, portanto, uma coisa não bem-feita; mas, em certas ocasiões, pode ser que eu não faça mal, porque conheci, pelo movimento da graça, que aquilo calhava melhor.
Intercessão de Dona Lucilia junto a Nossa Senhora
No tocante ao pedido de intercessão de Dona Lucilia, uma devoção conduz à outra; ou seja, se for bem vista e bem usada, a devoção a ela leva ao afervoramento na devoção a Nossa Senhora. Se a devoção a Maria Santíssima for bem praticada, conduz, muito facilmente e sem alfândegas, ao recurso a ela. Essas coisas são livres como o ar.


Na Igreja, para tudo aquilo que não é matéria de pecado há muita liberdade, conforme os sopros da graça.
Para meu foro interno, é certo este ponto: diminuir a devoção a Nossa Senhora, nunca! Por exemplo, eu ficaria apavorado se alguém diminuísse a reza do Rosário para orar mais a mamãe. Não! Adquiriu esse hábito, deve conservá-lo até morrer! Entretanto, pode-se pedir que Dona Lucilia reze o Rosário conosco, aos pés da Santíssima Virgem.
Não significa que o papel de mamãe seja automático e que ela seria, portanto, um botão o qual, pressionado, leva postalmente um pedido a Nossa Senhora. Contudo, pode haver favores que, pedindo por meio de Dona Lucilia, nós obtemos da Mãe de Deus, e que, não rogando por esse meio, não obteríamos. Portanto, nesse caso, é uma coisa que depende de nós rogarmos a intercessão dela, porque Nossa Senhora quer essa intercessão para nos atender. Se não houvesse essa intercessão, não nos atenderia.
Tomemos como exemplo a cena que se passava após a sagração do rei da França. A escrófula é uma doença localizada, que deixa a pele em estado muito repugnante. E o rei tocava os escrofulosos, dizendo: “Le roi te touche, Dieu te guérisse”.1 E muitos saíam de lá se dizendo curados.
Imaginemos que um escrofuloso afirmasse o seguinte: “O rei me cura pela graça de Deus. Então, muito melhor do que ser tocado pelo rei é ser tocado pelo Santíssimo Sacramento. Logo, não quero ser tocado pelo rei e vou comungar”. Talvez não sarasse de sua escrófula…
Embora ele tivesse razão – é muito melhor comungar do que ser tocado pelo rei –, para obter aquela cura era desígnio de Deus glorificar o monarca; e, portanto, fazer a cura apenas mediante o pedido do rei.
Vê-se, assim, como nessas mediações não há nada de automático. Nós estamos tão viciados na automação, que temos uma tendência a imaginar o automático.
Realizar o plano da Providência recorrendo a Dona Lucilia
Compreendo que uma alma aflita, conhecendo que Nossa Senhora quer que se peça determinada graça por meio de Dona Lucilia, agarre-se nela com a convicção confusa de que, com isso, realiza o plano da Providência. Não é que ela esteja passando por cima da Providência, mas está obedecendo à Providência.
Essas reflexões se desdobram em comentários colaterais inúmeros. Por exemplo, eu vi, mais de uma vez, pessoas, homens e senhoras que, quando deitam todo empenho em fazer alguma coisa, por exemplo, algo caligraficamente bem executado, dizem: “Agora não me interrompa, porque vou fazer tal coisa”. E se eriçam para fora e se aplicam para dentro.
Não é nem um pouco o modo de mamãe se aplicar. Poder-se-ia interrompê-la em algo mais especial que estivesse fazendo, que ela era absolutamente a mesma. Interrompia, ou então dizia: “Sua mãe agora não pode atender, espere um pouquinho”. Mas um “espere um pouquinho” que convidava a ficar ali perto, junto dela.
Quando ela queria fazer as coisas bem-feitas, não era com mania de perfeição, pois esta deixa a pessoa como que sem fôlego, ofegante. Dona Lucilia sempre possuía fôlego, embora se notasse que ela estava indo além de suas forças. Tudo isso tinha uma doçura que não sei descrever; é só olhando para o Quadrinho.
Se querem saber qual é o principal ponto de atração da alma de mamãe para a minha, olhem para o fundo do olhar dela no Quadrinho e compreenderão. Aquilo diz muito mais do que qualquer palavra ou descrição. Olhem para o Quadrinho e notarão que ele não exprime em nada uma tendência de alma definida. É uma espécie de benevolência distinta para o que der e vier; voltada para todos, mas no momento para ninguém. Ela está apenas olhando. Há ali duas atitudes diversas que se ombreiam de tal modo que – para os meus olhos de filho, pelo menos –, constituem um encanto: é o tão completo dar-se, com uma distinção por detrás, que diz afavelmente: “Conta, peso e medida em tudo, está muito bem”.
A força de presença que ela tinha era única, e o Quadrinho possui isso, de maneira que, quando o recebi, eu disse: “Este Quadrinho veio para reforçar a sensação da presença dela”.
Comunicação de alma por meio do Quadrinho
Quando um discípulo meu pintou esse quadro – tendo como base uma das últimas fotografias dela – fê-lo durante uma longa viagem, dentro de uma Kombi, nas condições mais desfavoráveis que se possa imaginar para um trabalho desse tipo. O resultado foi que ele terminou a pintura e não gostou. Então, apagou tudo, exceto os olhos, que lhe pareciam ter ficado bons. Assim, no pano, restaram apenas aqueles dois olhos. E ele tinha a impressão de que os olhos dela lhe suplicavam que retomasse a pintura. Ele então fez e, apesar de outras vicissitudes, saiu aquela obra-prima.

Pois bem, eu me comovo imaginando aqueles dois olhos no tecido. Seria quase o que mamãe foi para mim: dois olhos ao longo da vida… Todo o resto, um tecido. Mas aqueles dois olhos eram, para mim, um firmamento!
Ainda me recordo do instante em que, no fim de um longo expediente, a pessoa que me trazia o Quadrinho disse: “Fulano pintou um retrato de Dona Lucilia e gostaria de oferecer ao senhor”.
Algo constrangido, o meu interlocutor abriu o envelope, tirou o quadro e me apresentou, talvez pouco confiante no meu favorável acolhimento. De fato, devo confessar que, embora eu conhecesse os dotes artísticos do pintor, parecia-me um tanto ousado pretender que ele lograsse reproduzir na tela uma figura que correspondesse à imagem de mamãe como eu a conservava na alma.
Perguntar-me-ão: “Então o senhor recebeu com dúvidas o quadro?” Não. Eu o recebi sem nenhuma dúvida. Era um gesto afetuoso para comigo, o qual se tratava de tomar com bondade, mas estava certo de que daquele envelope não sairia sequer uma decepção, apenas um bom desejo que eu acolheria com gosto e carinho.
Não será difícil imaginar, pois, minha surpresa, meu agrado, quando me foi posto nas mãos. Olhei e logo percebi uma semelhança com mamãe, sobretudo no olhar, e numa presença de estado de espírito, eu quase ousaria dizer, uma comunicação de alma, que eu achava estivesse reservada para o Céu.
Rápida e silenciosamente, passei por várias sensações: “Não, tem de ser melhor! Mas é! Como? Não tem dúvida!” etc. É evidente que a pintura me tocara de modo profundo.
A moldura perfeita
Após contemplar o retrato, analisei a moldura e, uma vez mais com surpresa, verifiquei que, no seu gênero e para seus efeitos, era perfeita. A imagem de Dona Lucilia se achava tão bem no interior da moldura que, se ela própria tivesse escolhido uma dentro daquele diapasão, não seria diferente. A guarnição correspondia inteiramente à época, ao estilo e ao modo de ser da imagem reproduzida no Quadrinho. Por assim dizer, eu sempre a vi no ambiente dessa moldura e, por isso mesmo, ninguém pensaria em trocá-la…

Em seguida, passei a conjeturar onde colocá-lo. A escolha natural era a casa dela, e nesta, no meu escritório. Não se encaixaria bem num dos salões, já ornados com boas obras de arte, nem no meu quarto de dormir, pois eu queria estar acordado para contemplar o olhar dela na pintura…
Portanto, ficou assente que ele ocuparia lugar na mesinha em que hoje se encontra.
Confiança, paz de alma e alegria
Ao ser posto ali, pareceu-me que a imagem de mamãe ressaltou-se naquele ambiente, e na pintura avivaram-se características que eram bem dela: sem nenhum esforço, sem dificuldade alguma, trazer consigo um sulco de luz, incutir confiança, paz de alma, alegria e instalar-se naquilo que era seu.
De tal maneira que, no conjunto de móveis de minha primeira infância, tão velhos, tão antigos, o Quadrinho entrou como se fosse um complemento natural. E ele é a alma do escritório, embora neste haja também um lindo Crucifixo, presente dos membros do nosso Movimento quando fiz 50 anos. Acontece que este Crucifixo, imagem do Homem-Deus, governa o escritório como que acima dele, enquanto o Quadrinho o faz ali dentro, é homogêneo com aquele ambiente. Dir-se-ia que Dona Lucilia esteve ali há pouco, sentou-se atrás do Quadrinho e se pôs a nos observar através dos olhos do seu retrato.
Cabe perguntarmos a que corresponde o Quadrinho. Acredito que ele simboliza a presença de uma mãe, e de uma mãe tal que, quem não tenha visto ao menos essa pintura, não pode fazer exata ideia de como ela foi. Quer dizer, para conhecê-la, seria preciso contemplar com essa fidelidade o Quadrinho, no qual se tem a impressão de sentir até o leve e discreto arfar da respiração de Dona Lucilia, o pulsar do seu coração, a sua tranquilidade sofrida e resignada, prateada e lilás, e os anos que se foram cumulando. Tudo isso se sente no retrato e, sem isso, não se pode dar por tê-la conhecido.
Reflexo do amor materno de Nossa Senhora
Resta sabermos a que desígnio da Providência corresponde o fato de esta fisionomia assim se manifestar e pairar dessa maneira sobre tantos que invocam sua intercessão, marcada por dita maternalidade, e que julgam ter recebido um carinho, uma forma de apoio interno, de proteção, de ânimo doce para as coisas difíceis. A que corresponde uma assistência materna dentro da linha geral das vicissitudes humanas?
Como modelo perfeito e exemplar, acima de todos os outros amores, bondades e doçuras maternais, está o amor de Maria a Jesus, que d’Ela nasceu após nove meses de uma gloriosa gestação. Deus haveria de querer que o primeiro olhar de Jesus na Terra fitasse algo que fosse o resumo de todas as maravilhas do universo: os olhos do Menino se abriram e encontraram o olhar de Nossa Senhora, viram a face esplendorosa da Mãe, discerniram sua alma e seu Imaculado Coração. E então, podemos supor, o Divino Infante sorriu.
Nossa imaginação se perde ao tentar conceber como terá sido esse primeiro olhar do Filho para a Mãe incomparavelmente mais bela que toda a Criação, a Rainha mais bela que o reino.
Igualmente nos sentimos pequenos ao pensarmos noutro olhar d’Ele para Nossa Senhora: o último. Antes de o Redentor se despedir da Terra, seus olhos se baixaram sobre os de Maria e se entrecruzaram. Nessa derradeira troca de olhares, havia algo talvez ainda mais belo do que houve na primeira, quando Ele entrou na vida. E a face de Nossa Senhora era mais formosa, sem comparação, do que eram horríveis todos os horrores da época. O amor d’Ela era mais esplêndido do que era hediondo o próprio deicídio. Entre olhar e olhar, que nexo magnífico!
Nosso Senhor Jesus Cristo desejou, portanto, um afeto de mãe quando abriu os olhos; e quis um carinho materno quando os fechou. Isso basta para nos dar a entender o significado do afeto de mãe e o papel que ele deve desempenhar na formação dos homens. Porque todas as mães que vieram depois de Maria Santíssima, precedendo-nos com o sinal da fé, foram convidadas a serem mães católicas, com a cintilação de algo que Nosso Senhor viu em Nossa Senhora.
E nas maiores alegrias, nas ternuras mais delicadas, nos abandonos mais terríveis, convinha que d’Eles nos lembrássemos. Como a proporção e a harmonia entre o grandioso e a bondade teriam permanecido entre os homens se todas as mães tivessem sido inteiramente mães! Como a palavra “doçura” teria tomado outro sentido! E como a majestade materna teria sido grandiosa! Infelizmente, nas engrenagens do mecanismo da vida humana, faltou muito do azeite do amor materno.
O Quadrinho, imagem do amor de Maria aos homens
E então podemos compreender os desígnios da Providência em relação ao Quadrinho, que vem representar exatamente um reflexo desse amor de mãe, uma centelha do insondável carinho materno de Nossa Senhora para conosco.
No Quadrinho, mamãe não parece ter em vista a excelência, o estupendo resplendor daquilo que um dia ela alcançaria por meio das suas orações. Porém, parece ter visto a cada um inserido naquela mesma intimidade, tratando com ela, com sua distinção própria, nas distâncias e até nos afagos, no calor da intimidade. Ela está ali representada como quem diz: “Diga-me como é você e no que nos afinamos. É por aí que nos quereremos inteiramente bem!”
Peçamos, pois, à Santíssima Virgem que nos faça aproveitar dessa imagem do seu amor aos homens, para assim nos unirmos ainda mais a Ela e a seu Divino Filho.
1) Do francês: “O rei te toca, Deus te cure”.






