A eclosão da Revolução Industrial foi preparada com muita antecedência por meio da dissolução dos costumes que modelaram e mantinham viva a civilização católica ocidental. Sem essa preparação, tal Revolução teria encontrado a repulsa de varões e damas temperantes, e a História teria seguido outro rumo.
Certa ocasião, li um trecho das memórias de uma grã-duquesa russa que narra fatos do período entre a queda do czar e a implantação do comunismo. Ela estava em Moscou e foi à Ópera daquela cidade. No tempo da monarquia, ela ocupava uma das frisas douradas, em cima; com a Revolução, ela perdeu esse privilégio e passou a assistir aos espetáculos embaixo. E ela conta o interesse que sentiu em assistir à peça misturada com o povo.
As Revoluções são preparadas com antecedência
Outra atitude característica desse estado de espírito lê-se nas memórias de Eduardo VIII.1 Quando ele foi coroado Príncipe de Gales, vestiu-se com aquelas roupas arcaicas e teve vergonha perante toda a geração dele.

No meu tempo, que é mais ou menos o dele, os que não eram príncipes achavam delicioso fazer papel de nobre. Mesmo os mais republicanos, se dessem a eles manto e coroa para serem coroados Príncipe de Gales, aceitariam na certa. Entretanto, os príncipes de sangue tinham vergonha.
Compulsando memórias do Ancien Régime percebe-se como, por um estado de espírito análogo, a Revolução Industrial foi preparada com muita antecedência.
Com efeito, as pessoas que foram enganchadas pela Revolução Industrial tinham passado por uma transformação preparatória, de maneira a estarem, em relação a essa Revolução, como fugitivos num cais à espera de um navio que iria levá-los embora.
Assim o mundo pré-industrial estava enfarado do que a situação anterior lhe dava e já desejava loucamente o que o mundo da máquina vinha lhe dar.
Indícios da Revolução Industrial e falta de almas que lhe coarctassem o caminho
Para compreendermos o problema a fundo, seria preciso perguntar quais as razões desse enfaramento e o que foi feito para produzi-lo. Porque se a Revolução Industrial tivesse encontrado varões e damas normais, temperantes, verdadeiros católicos, ela não poderia ter vindo como uma torrente e teria sido retorcida em muitos aspectos pela recusa geral, e esse retorcimento sadio indicaria para a posteridade o que era preciso fazer para alterá-la.
Entretanto, houve uma revolução preparatória que se exprime bem num trechinho que li em uma das cartas da Marquesa de Maintenon2 para a Princesa des Ursins.3
A Madame de Maintenon era esposa morganática de Luís XIV, e a Madame des Ursins era uma figura muito singular, porque era uma senhora de uma grande nobreza francesa. Quando os Bourbons foram governar a Espanha, ela se transformou em camareira-mor da Rainha. Ela dominava completamente a família real.
Essas duas damas viveram cerca de cem anos antes da Revolução Francesa. Suas cartas foram escritas, portanto, em fins do século XVII, começo do século XVIII.

A Madame de Maintenon escrevia à Madame des Ursins comentado a respeito do pedido que esta lhe havia feito sobre o envio de moças, sensatas e piedosas, para se casarem com nobres espanhóis. A Madame de Maintenon dizia não poder atender ao pedido, porque essas moças não existiam mais na França, somente em Saint-Cyr.4
Saint-Cyr era o colégio dirigido por Madame Maintenon, no qual ela recolhia moças da nobreza pobre e as formava, realizando depois casamentos com fidalgos ricos do interior que queriam tomar ares da corte. Era um grande estabelecimento de ensino.
Na carta, Madame de Maintenon dizia que os homens eram os culpados pela perversão das mulheres, porque as obrigavam a se habituarem às piores coisas: fumar, usar rapé, tomar café – na época era reputado excitantíssimo –, beber vinho a ponto de se embriagarem e portarem-se não mais com o ar correto da antiga corte.
Esse é um fenômeno que eclode muito antes de Maria Antonieta, antes do reinado de Luís XV, que era menino de colo quando isso se deu.
Apetência pela Revolução Industrial
Eu vejo nesse fenômeno, que se estendeu até certo ponto pela antiga corte, uma apetência pela Revolução Industrial que, se tivesse se iniciado naquela ocasião, as pessoas teriam corrido para ela com sofreguidão, porque todas as composturas, as lentidões, as solenidades, as tranquilidades e o espírito culto e leve da antiga corte, os maridos obrigavam as mulheres a perder.
Parece forçado afirmar ter se criado aí, com cem anos de antecedência, a apetência de um filão da sociedade europeia pela Revolução Industrial. É preciso não esquecer que foi por esses e por muitos outros fenômenos congêneres e contemporâneos que se preparou, cem anos antes, a apetência pela Revolução Francesa, irmã da Revolução Industrial. De maneira que se poderia levantar a pergunta: quais foram outros fenômenos congêneres que levaram a essa apetência?

É evidente que tal fenômeno não se deveu apenas a esse grupinho, o qual era uma chaga resultante de um estado geral e que encontrou condições especiais para explodir na corte de Luís XIV.
Há aqui todo um capítulo da História por desvendar. Remonta até onde? Também não sei. Entretanto, antes de se fazer a história da apetência, nós não podemos imaginar sequer que a Revolução Industrial chegasse ao ponto em que chegou, se tivesse encontrado uma repulsa enorme do homem que a teria transformado pelo costume. A História teria seguido outro rumo.
Imaginem todo um continente indignado que remexe todas essas tendências com inteligência e eficácia, porque os costumes têm um poder de modificação, de rejeição, de assinalação magnífico que nenhum planejador tem. É o gênio de um povo, é a genialidade do costume que obteria isso. Não adianta combater com um plano. Ou há uma nação inteira que modela isso ou não sai. O costume é muito mais genial do que qualquer gênio.
A força do costume
Após essa longa digressão, chegamos ao ponto: essa reação precisa ser feita pelo costume. Isso nos coloca diante de uma tese que me é muito cara e que é, realmente, a genialidade do costume. As coisas da Idade Média nasceram, em geral, do costume. Ninguém as planejou. Por exemplo, o feudalismo.
O costume é o grande planejador que falta em nosso século. A máquina dirigida pelo técnico eliminou o costume.
A Revolução Industrial arrasou com o que dava origem aos costumes porque ela não encontrou diante de si um costume que se opusesse a ela. Foi-lhe possível arrasá-lo porque este era como uma árvore serrada em quase toda a sua circunferência, que se mantinha de pé à espera de um vento.
Há um certo momento na História do mundo, e isso se deu no Ocidente, em que o costume começa a decair. Ele morrendo, morre a civilização. E o resultado está no que estamos vendo em nossos dias.
Lendo a correspondência da Madame de Maintenon, em que se vê bem a genialidade do costume e o quanto ele é insubstituível, consegui explicitá-lo, bem como o seu papel.
A força do costume na civilização ocidental católica é muito maior do que na oriental, porque aquela equilibra, com a continuidade do costume, um caminhar sem estagnação, que nós notamos ao longo de toda a Idade Média, nos melhores séculos dela.
É preciso notar que, apesar disso, as civilizações pagãs, elas mesmas, tinham uma força de costume enorme; dentro delas se notam aberrações não pouco numerosas e muitas gravíssimas, é verdade, mas, apesar disso, muito sábias, boas, com uma estabilidade extraordinária. E a Revolução, destruindo os costumes, destruiu também essas nações. Não há mais uma Pérsia, uma Índia, uma Indochina, uma China, um Japão, como outrora, porque os costumes foram destruídos.
Foi destruída essa capacidade de gerar costume, genial, magnífica, misteriosa – às vezes, malfazeja – que é a própria vida de uma nação.
Papel da extinção de um costume no processo revolucionário
Quanto mais glorioso e maior foi um costume, tanto mais a erradicação dele produz problemas de toda ordem. Depois de ele ter sido uma ajuda, passa a ser uma ameaça. Mais ou menos como quando se arrancam as raízes de uma árvore: saem bichos de toda espécie, pois há, por baixo de sua raiz, uma vida que não imaginamos.
Do mesmo modo, por baixo de um costume que resolve mil coisas, há um formigamento de fatores que entrariam em desordem se ele cessasse.
Para a descrição do processo revolucionário, seria importantíssimo saber quando a Revolução quer promover a extinção de um costume, que gênero de costumes ela ataca de preferência, que relação há entre a situação do costume e o método de ataque inaugurado por ela, que modos de defesa têm os que querem manter os costumes, até que ponto essa defesa supõe uma reação ou uma adaptação e até que ponto o costume, recebendo adaptação, se deteriora ou não.

Há mil problemas interessantíssimos ligados a isso que não são diretamente questões de opinião pública, mas com uma influência evidentíssima sobre ela, por meio de hábitos, móveis, etiquetas, situações físicas.
Haveria tanta coisa extraordinária, bonita, útil, fecunda para estudar dentro disso!
O que é o costume? Como ele se estagna e é eliminado?
O que se pode entender como costume?
Há o costume da vida social. Por exemplo, um que houve aqui em São Paulo – não o conheci, acho que foi em todo o Brasil, talvez na América Latina – que consistia nisso: jantava-se por volta das sete horas e, antes de dormir, servia-se uma espécie de lanche da noite, com comidas mais leves, com ambiente próprio, diferente do almoço e do jantar.
Foi um costume que se prolongou, creio, durante uns cem anos. Quando eu me dei conta de mim, ainda havia uma ou outra casa onde esse costume persistia. Chás para dormir: então, camomila, pãezinhos, cuja receita nacional era preciso conhecer para perceber como eles, ao mesmo tempo, apaziguavam a fome e não provocavam polvorosas digestivas.
Outro costume interessante a ser estudado: Quando apareceu a calça no gênero humano e que efeito ela teve? O que houve na transição da túnica para o culotte usado no fim da Idade Média e que avançou Ancien Régime adentro? É um costume que dura séculos.
Que sintomas na psicologia humana isso significa? O que mudou? Por que mudou a tal ponto que os últimos redutos caíram e se suprimiram a saia da mulher, a batina do padre, a toga dos professores? A que corresponde, nos interesses da Revolução, essa eliminação?
Outra modalidade é a eliminação dos trajes distintivos de uma profissão. A farda, a batina, a toga do juiz, do professor, a cabeleira dos magistrados ingleses; quantas vezes teriam acabado com isso aqui entre nós se tivesse havido… Por que todas essas coisas vão desaparecendo? Os trajes de cerimônia, inclusive.
A nota dominante da explicação é o igualitarismo. Mas, como o costume foi se estagnando, foi perdendo a raiz para ser extirpável? Esse é o ponto. Além disso, como já estavam prontos outros costumes, que foram entrando de tal maneira que quando se introduziram pareciam a solução natural para a época e nem se cogitou em outro?
Profundidade dos costumes
Em matéria de costumes, quando se analisa bem, tudo tem profundidade. Até os costumes mais superficiais ligam-se a realidades profundas.
Eu alcancei o tempo das chupetas de cor escura, natural da borracha, feitas com celuloide branco. Em certo momento, passaram a ter um celuloide um pouco mais colorido, depois inteiramente colorido, com a borracha colorida também, e cores festivas.
Ora, a mudança da cor da chupeta, que parece ser algo sem nenhuma profundidade, no fundo, prende-se ao seguinte: a entrada do conceito de vida puramente alegre e a eliminação do conceito de vida sério, que cercava até a criança, o qual é anterior a essa mudança na fabricação das chupetas.
Uma criança que só teve chupetas de cores que fazem sorrir, colocada num contexto onde tudo deleita, cercada somente pelo sorriso, é envolta pela ilusão de encontrar uma vida onde tudo é inebriantemente gostoso. Porque todo gostoso parece ter acesso fácil ao inebriante.
Mas é preciso haver um equilíbrio pelo qual a criança tenha o agradável misturado com algo de sério. Ela deve compreender que a vida apresenta as duas coisas e é para ser tomada no bloco: o gostoso e o ruim juntos.
Uma estampa num quarto de brinquedos
Lembro-me do meu quarto de brinquedos, onde havia uma estampa com dois cachorros da raça Dackel. É um cão marrom, lustroso, com pelo naturalmente curto que não precisa ser cortado, com orelhas enormes pendentes e um grande focinho.

Na estampa, um deles estava deitado e outro sentado de cócoras com as duas patas para a frente. Mas as relações entre eles não eram muito boas, estavam ligeiramente tensas. Ambos, em relação ao ambiente, também se mantinham numa posição um pouco “bismarckiana”.
Aquilo fora ideia da governanta. Com certeza, ela pediu a mamãe uma quantia pequena a fim de comprar a estampa, mandou enquadrá-la de modo decente e prendeu-a no quarto de brinquedos.
Quantas vezes analisei esses Dackels! E um número enorme de vezes, subconscientemente, comparei aquela cena com a vida e as relações entre os homens…
Não haveria perigo de pôr esses Dackels num quarto de brinquedos de uma criança de hoje. Entretanto, preferem-se gatinhos fazendo voltinhas, bebendo leite ou fazendo coisas graciosas, que têm seu papel necessário, mas não único.
Costumes nas diferentes épocas
Os costumes dos quais nos damos conta são aqueles que vimos morrer. Porque enquanto está vivo, o costume se encontra de tal maneira entranhado no homem que se torna uma segunda natureza.
Inúmeros costumes que constituíam os restos da seriedade, da gala, inclusive festiva, e da autoridade presentes nas manifestações da vida foram morrendo, não propriamente pela extinção, mas por uma modificação. De maneira que os mesmos costumes passaram a não ter mais essa marca para, depois, desaparecerem.
Ainda em pequeno, com a idade de oito anos, presenciei os costumes da Belle Époque, pois a Europa tinha entrado em guerra e a evolução da moda se tornou muito mais lenta. E até o fim da guerra a nota dominante ainda era plutôt Belle Époque; lentamente os costumes se transformaram naquilo que seriam depois, quando o verdadeiro élan foi a imagem de uma Europa democratizada, com os três grandes Impérios lançados ao chão, restando apenas as monarquias secundárias, a ruína das aristocracias e das Casas Reais.
Nessa época, contrataram professores leigos para São Paulo. Professores de curso secundário de uma cidade pequena como Itu eram caracteristicamente assim: bigode franzido à kaiser, chapéu-coco, colarinho alto, gravatas com nó grande, em geral anelzinho ordinário na mão, de bengala, com um ar de certa gala, certa autoridade. Um homem respeitável, que respeitava a si próprio e se fazia respeitar pelos alunos.
Os professores secundários do meu tempo eram bem inferiores: americanizados, chapéu mole, gravata com laço e paletó mais ou menos como os modernos. A bengala sumiu, o colarinho amoleceu, o ar do professor se tornou jovial, e ele passou do homem imponente ao conquistador de simpatias. E que, portanto, começa a mendigar do aluno um pouco de disciplina, porque não quer um mundo regido pela disciplina, pela seriedade. Então, o aluno travesso é prestigiado, é favorecido. O aluno sério é tido como uma criança banal.

Esse espírito alcança até mesmo um Chefe de Estado, um presidente da República, os quais também perdem muito da pompa que os cercava antes da guerra.
Novos costumes nos trajes
Os trajes das senhoras passam a ser vagamente como o masculino; começam a aparecer senhoras – aliás, já antes da guerra – usando palheta como os homens. Ainda não era a calça como o homem, mas para andar de bicicleta prendiam embaixo as saias, em dois gomos. Era um vago desenho da calça que ia entrando. Viam-se também senhoras andando a cavalo pela rua, não mais de amazonas, mas cavalgando à maneira dos homens.
Lembro-me, quando pequeno, das senhoras usando uma imensidade de fitas, laçarotes, chapéus grandes, enfeites…Tudo foi se simplificando. Aparecem as joias falsas e elas começam a usá-las. Cortam o cabelo, algumas começam a fumar, a tratar os homens com ar de camarada; o “você” se generaliza entre rapazes e moças, criando muito mais intimidade. Antigamente tratavam-se como senhor, senhora.
Um ambiente de riso e gargalhadas inunda inclusive a vida cotidiana. Se nas refeições de uma família não se ri sempre, ela facilmente adquire a fama de fracassada e frustrada. Conversa séria, nunca! A discussão tipo parlamentar, como eu assisti em casa de minha avó, sobre ateísmo, monarquia, sobre diversos outros assuntos, vai sendo substituída por comentários sobre teatro, fita de cinema, política local, e ainda sobre o que dizem os outros…
O respeito desaparece. Os homens com mais de trinta anos empurram para um plano secundário os veneráveis patriarcas do seu tempo, de sessenta e setenta anos. Os patriarcas fazem menos uso da palavra e aqueles a utilizam mais, os jovens, de vinte ou trinta anos, se impõem sobre os que têm trinta para quarenta, porque a era é da juventude, e quanto mais moços, mais autoridade para se pronunciar e se impor possuíam.
Novos estados de espírito
As velocidades ficaram cada vez maiores. Antigamente o chauffeur, para fazer andar o automóvel, precisava abri-lo, tirar de dentro a manivela e tocar com ela o motor, do contrário este morria.
Em geral, chauffeur era um homem sério e para ser apreciado devia dar ideia de responsabilidade. As fotografias desse tempo não mostram nenhum chauffeur rindo enquanto guia, porque assim ele transmitia segurança. Ao contrário, sempre teso, ainda que todos dentro estivessem rindo.
Com o tempo, os chauffeurs mudaram de fisionomia. Eles não se misturavam na conversa da família, mas iam tomando um estado de espírito superficial. Assim, durante décadas conseguiu-se conciliar esta realidade: homens superficiais executando bem serviços sérios.
A estrutura de funcionalismo seja do banco, seja das repartições burocráticas, em todos os lugares, era a invasão do riso e da brincadeira na hora do trabalho. A chamada “antiga tradição”, entretanto, vigorava e as coisas ainda funcionavam primorosamente… E isso parecia um desmentido aos espíritos animados de certo sopro profético e que previam o resultado de tudo.
Costume para diminuir o chefe
O automóvel do chauffeur ligado à manivela era forçado a velocidades vertiginosas, mas ainda pequenas para contentar a apetências. A cada lançamento de automóvel, a parte em que o homem se senta estava sempre mais baixa, o automóvel mais comprido, mais achatado e mais veloz. E a desculpa para isso era a necessidade de oferecer menos superfície ao vento… E, na realidade, o automóvel se transformava de objeto de aparato, em mero objeto de transporte.

Depois da Segunda Guerra, um outro aspecto de “progresso”: o automóvel passa a ser sobretudo transportador de gente, sem aparato, e somente para vencer as distâncias. Antes, ele funcionava também como um pedestal, ou uma vitrine onde se apresentava o casal. Depois das mudanças, o dono é encaixado ali como mercadoria.
Outro ponto interessante: começa a aparecer a parte de trás do automóvel, onde vão as mercadorias em penca. E a linha do automóvel passa a ser uma linha que se calcula do espelho de trás com o da frente. E a “caixa” onde estão os donos ocupando um papel ótico, cada vez menor.
Além do mais, começam-se a fabricar automóveis cuja parte mais importante é a da frente, porque desaparecem os chauffeurs e os donos passam a dirigir. Atrás vão as crianças. Há, então, um achatamento contínuo do proprietário e da proprietária. Mais ainda do proprietário, porque muitas vezes é a mulher quem guia. E, ao lado, ele, que não faz nada. E ela não só dirige, mas vai guiando também a família, o interior da casa, e às vezes até os negócios. Portanto, a diminuição do antigo chefe está se acentuando e ninguém percebe, apesar de ser evidente.
Havia um automóvel chamado “baratinha”,5 no qual eu andei muito. Eu não guiava, porque nunca tive jeito para isso e não tinha automóvel, mas viajei muito na parte de trás dele. Era um estilo esportivo que eu detestava. Para subir na “baratinha”, a pessoa precisava pisar num lugar estreitamente calculado para não estragar a pintura e, por fim, pôr-se dentro daquilo sem cair como um saco, a fim de não quebrar a mola. Para entrar nele, eu era obrigado a uma ginástica horrível, mas, não tinha remédio, porque sendo dos mais moços de minha roda era sempre mandado para trás…
Muitas coisas mudaram ao mesmo tempo e eu descrevi não só a morte de um costume, mas de certo conjunto de costumes ligados a um mesmo princípio e hábito mental que desapareceram.
(Extraído de conferências de 27 e 28/8/1986)
1) Eduardo Alberto Cristiano Jorge André Patrício Davi (*1894 – †1972), Rei do Reino Unido e dos Domínios Britânicos e Imperador da Índia de 20 de janeiro de 1936 até a abdicação em dezembro do mesmo ano.
2) Françoise d’Aubigné (*1635 – †1719).
3) Marie-Anne de La Trémoille (*1642 – †1722).
4) Maison Royale de Saint-Louis. Internato para meninas nobres empobrecidas, fundado em 1686, na região francesa de Saint-Cyr.
5) Carro Ford, versão Roadster.



