Os homens abandonaram a Deus e se puseram em luta contra Ele. O que poderá salvar a humidade é um movimento de arrependimento e um pedido de perdão e isto deve-se pedir a Nossa Senhora, através do sofrimento.
Se nós prestarmos atenção nos acontecimentos atuais; o modo pelo qual eles se desconchavam, se desconcatenam e se jogam uns contra os outros, indica uma anomalia de tudo: das relações, dos modos de ser… e fazem com que sintamos verdadeiro horror diante deles. Assim, por exemplo, o crime parece ter excedido o próprio crime. Ora, o que é isso?
Uma atitude de arrependimento e um pedido de perdão poderiam salvar a humanidade
Não é senão a purulência, a desagregação, a fermentação doentia e maldita de uma causa que chega a profundidades quase insondáveis. Que causa é essa?
Os homens abandonaram a Deus e se puseram em luta contra Ele. Posta esta luta, o mal que se declarou nas entranhas morais da humanidade – mais do que em suas entranhas físicas –, é algo tão tremendo, que os piores acontecimentos podem se dar e as pessoas nem têm a ousadia de contar.
Se a humanidade não vê este mal, ela fica ainda mais cega e, consequentemente, ela vê menos e assim vai rolando de cegueira em abismo e de abismo em cegueira, até precipícios dos quais não se tem ideia. É desta maneira que ela vai despencando.
O que poderia salvá-la? Um ato, um movimento de arrependimento e um pedido de perdão: “Sabemos que chegamos onde chegamos. Está evidente em tudo quanto acontece hoje em dia de modo ostensivo, escandaloso, clamoroso”.

Pois bem, se isso é assim, os homens deveriam fazer um ato de confiança, um ato de justiça e dizer: “Senhor, nós sabemos que merecemos o castigo. As nossas consciências estão agitadas por uma dor interior que não nos dá sossego um só instante… como diz o Salmo: o meu pecado eu o conheço, ele está de pé sempre diante de mim como um juiz e como promotor insaciável sempre me increpando: ‘Infame, vê o que fizeste! Miserável, mede o que és! Foge de horror diante de tua própria sombra, envergonha-te, dobra-te diante de Deus e pede que Ele tenha pena de ti. Peça a Deus não apenas misericórdia, mas castigo! Que Ele, na sua clemência, te envie uma forma de castigo que não te destrua, mas que extinga em ti essas maldades das quais te transformastes um verdadeiro símbolo vivo. Ajoelha-te, miserável, põe o rosto em terra e diga quoniam iniquitatem meam ego cognosco: et peccatum meum contra me est semper – a minha iniquidade eu a conheço, e de pé diante de mim está sempre o meu pecado (Sl 50, 5)’”.
Intercessão onipotente de Nossa Senhora
Nesse momento, depois de pesado e medido todo o horror do pecado cometido, na hora em que o desespero poderia tomar conta de nós, mas tendo feito este ato de confiança em Deus, de suas mãos bondosas partiria um raio. Um raio benfazejo, doce, suave, não como um raio de sol, mas de lua. Um olhar da Virgem Maria poderia pousar sobre nós e, com doçura, Ela nos diria:
“Filho, és miserável, tens razão em reconhecer. Chora teu pecado como eu o chorei aos pés da Cruz, quando meu Filho, na sua divina agonia, previa todos os pecados do mundo que desfilavam diante d’Ele numa farândola terrível. Naquele momento, tu estavas entre os pecadores; e quando tu passaste, eu chorei por ti. Mas chegou a hora das lágrimas, chegou a hora da doçura, chegou a hora do perdão. Pede perdão porque eu sou Mãe, e tu sabes bem o que é uma mãe, tu não és tão ruim para te esqueceres disso. Tu sabes que podes, por meio de uma Mãe, obter tudo, todos os perdões estão ao teu alcance. Meu filho, tem coragem, bate no peito e pede-me perdão. Eu pedirei perdão a teu Divino Criador, meu Divino Filho: ‘Perdoa-lhe porque eu estou pedindo. Eu sei bem, meu Filho, que ele não merece, mas Tu me deste a vocação de ser Aquela que salva os que não merecem; Aquela que atende os que não têm mais direitos, que não são mais nada, os crápulas, os horríveis, os nojentos… Até estes têm um lugar no meu Coração e a Ti eu peço por eles: Salva aquele miserável, salva este mundo miserável, perdoa-lhe, tem compaixão dele’”.
Pelo sofrimento, o perdão
Então chegaria a hora áurea, a hora maravilhosa da confiança! A cabeça do pecador um tanto vergada, se levantaria um pouquinho, olharia para o ar e teria, em certo momento, a coragem de fitar a lua. Ele se lembraria daquela frase: “Nossa Senhora electa ut sol, pulcra ut luna – eleita como o sol, bela como a lua” (cf. C 6, 9) e poderia pensar: “A lua não empalideceu, não se desfez de horror quando olhei para ela. Pelo contrário, ela continuou a deitar sobre mim aquela luz triste, aquela luz de pranto, mas que não deixa de ser uma luz que brilha e promete perdão.
“Eu não mereço, mas, meu Deus, eu quero sofrer”. O sofrimento é o modo do pecador obter resgate. “Dai-me um pouco de tranquilidade, fazendo-me sofrer e concedendo-me amor pelo sofrimento, para que eu sinta que ele me limpa e que, este sofrimento castigando-me, Vós me perdoais.
“Senhor, o Divino Espírito Santo diz nas Escrituras: ‘O pai que poupa a vara odeia seu filho’ (Prov 13, 24). Aqui estou eu pecador, Senhor. Dai-me essa sublime prova de amor, passe-me a varada, eu vo-lo peço de todo o coração”.
Caminhar para a penitência é tomar uma atitude de alma como essa. E quando a varada descer, é preciso amá-la e tentar osculá-la. Isso significa, na dor da varada, dizer: “Meu Pai, Vós me castigais e, portanto, não me esquecestes. Se Vós não me esquecestes, pelo fato de Vos lembrardes, começa a descer sobre mim o perdão. Então, meu Pai, eu Vos peço: perdoai-me inteiramente!”
Com sua morte, Nosso Senhor abriu–nos as portas do Céu

Eu li no Funck-Brentano1 um fato que me comoveu profundamente:
Um camponês do interior da França tinha um filho, e juntos trabalhavam na propriedade rural da família. Esse filho cometeu contra o pai uma ação péssima. Como ele não gostava de trabalhar, o pai deu-lhe como penitência levantar-se ainda de madrugada e começar a cultivar uma parte enorme da terra deles que estava inculta.
O rapaz, de manhã, levantou-se e foi fazer o trabalho. Era, portanto, um filho que tinha certa inclinação para a penitência.
Quando uma primeira luz da aurora começou a deitar seus lampejos, ele percebeu ao longe um vulto que nas trevas ele não tinha discernido. Era um homem que trabalhava também. Ele aproximou-se e reconheceu que era seu pai.
O pai dera ao filho um terrível castigo, mas assumira para si uma parte da penitência. Ele condenou o filho a começar a trabalhar muito cedo. Naquela mesma hora, o homem alquebrado, transido de dor, levantava-se e oferecia a Deus, feita por ele, uma parte do trabalho que o filho deveria fazer. De que modo misericordioso isso nos lembra a bondade divina!
Na nossa linguagem comum, às vezes dizemos: “Este redimiu, aquele redimiu”. São expressões que, por analogia, têm inteiramente sua verdade, mas o Redentor é um só: Nosso Senhor Jesus Cristo, Homem-Deus, que morreu na Cruz por nós e, pelo mérito infinitamente precioso do seu Sangue, nos resgatou. Foi Ele quem quebrou os grilhões da morte, liquidou o império do pecado e, subindo ao Céu, abriu suas portas para todos os miseráveis.
Exemplo dessa misericórdia vemos com aquele miserável tão invejável, tão simpático, tão objeto da piedade que passou para a História com o título de Bom Ladrão, São Dimas, a quem Nosso Senhor fez a primeira promessa de entrada no Paraíso: “Hodie mecum eris in Paradiso – hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23, 43).
Nossas almas devem estar povoadas destas considerações quando constatamos dramas em nossas vidas – talvez pecadoras – e, sobretudo, quando nos damos conta do grande drama da humanidade contemporânea.
Na hora em que o mundo inteiro for sacudido, não tenhamos ilusões
Nós devemos compreender que chegou a hora de o mundo inteiro ser sacudido; é a hora das prevenções e das cautelas contra as grandes dores que devem vir sobre nós e, assim, nos prepararmos para elas. E na hora em que essa sacudida se der, voltemos nosso espírito a Nossa Senhora e peçamos forças.
Com efeito, nós podemos imaginar aquilo que foi, na vida de Nossa Senhora, a agonia d’Ela. Fala-se com tanta propriedade da agonia de Nosso Senhor Jesus Cristo no Horto. Nada melhor, nada de comparável! Mas imaginemos um pouco como terá sido com a Santíssima Virgem. Ela, com a sabedoria que possuía, com o comércio contínuo com os Anjos e com a Santíssima Trindade, acompanhar de longe – e às vezes de perto –, a atuação do Divino Filho d’Ela, no país que Ele deveria mais imediatamente resgatar e salvar. Ela terá notado naquela opinião pública – ora deslumbrada, ora revoltada, ora agitada; jamais bastante grata, admiradora e súdita – a revolta, o descontentamento, a tendência a ver deformadas as coisas.

E Ela não se terá lembrado da hora em que, tendo nos braços o mais belo dos meninos, levou-O ao Templo de Jerusalém, o mais sagrado dos edifícios da Terra, tendo junto a Ela São José, o mais casto, o mais varonil, o mais nobre dos príncipes que jamais houve na Terra, descendente do Rei Davi? Naquela ocasião, Ela foi interpelada por Simeão; este Profeta Lhe prenunciou que seu Coração seria transpassado com um gládio de dor e previu todos os sofrimentos que Lhe adviriam.
Quando Ela percebeu que tomava um vulto satânico certa agitação crescente na cidade, outrora sagrada, mas que em breve receberia sobre si a fulminação da maldição de Deus, e notou que aquilo podia conduzir à morte de seu Divino Filho e previu a morte do Divino Filho, o que Ela sofreu? Que martírio Ela teve?
E quando foi ao encontro d’Ele no caminho do Calvário e O viu carregando a Cruz; Eles se abraçaram naquela situação terrível, cada um dilacerado de dor pela dor do outro, e subiram talvez juntos, o Calvário. Ela ficou de pé junto à Cruz durante todo o tempo até receber o corpo de seu Filho morto e a tragédia terminada. Nós podemos imaginar tudo quanto Ela sofreu nessa previsão?
Quiçá algum dia teólogos eruditos e seguros constatarão que há fundamento teológico para surgir, no firmamento da Igreja, mais uma invocação a Maria Santíssima: Nossa Senhora da Previsão e do Coração Dilacerado e Confiante.
Ela previu tudo e, entretanto, não Se deixou derrubar por nada. Ela sequer desmaiou ou caiu sentada, mas esteve de pé, o tempo inteiro, junto à Cruz.
Quando o Divino Cadáver foi posto sobre o seu colo, Ela O recebeu com a cabeça baixa, atenta, mas o busto ereto numa atitude de adoração, em relação à qual todas as adorações do Céu não eram nada!
Quem sabe se algum dia essa invocação será introduzida na Ladainha de Nossa Senhora para servir de modelo para nós?
Devemos compreender que no mundo de hoje as coisas chegaram a um grau que não nos permite ilusões e, portanto, a “Bagarre”,2 com os seus horrores, vem. Então, desde já, nós devemos começar a pedir a Nossa Senhora forças e confiança na misericórdia de Deus, que tem seu canal, seu espelho, seu magnífico símile n’Ela.
(Extraído de conferência de 21/6/1995)
1) Frantz Funck-Brentano (*1862 – †1947). Historiador e bibliotecário francês.
2) Do francês: conflito desordenado e profundo. Palavra usada por Dr. Plinio para se referir ao grande castigo de Deus à humanidade, se esta não se voltar para Ele, profetizado por Nossa Senhora em Fátima.



