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A cavalaria do espírito

Cavaleiro é o guerreiro católico no esplendor de sua virtude e de toda sua capacidade. Ele deve ter uma penetração, uma dedicação, uma combatividade de alma para, a todo momento, discernir a Revolução e combatê-la. Isso supõe que quem luta precisa ter finura, perspicácia e garra para combater as batalhas do espírito.

A iniquidade e o mal se requintaram com a eclosão da Revolução. Por causa disso, teria sido necessário que houvesse, já naquela ocasião, cavaleiros mais valorosos do que no tempo de Roland.

Por que o mal se requintou? Porque ele contou no seu serviço com militares mais valentes, com generais mais competentes? É uma questão para discutir. Mais valentes, não creio; talvez mais competentes sim, porque da mesma forma como a cultura e a civilização foram se desenvolvendo, também a arte militar foi se aprimorando. De maneira que se pode concluir que ela avançou muito, mas a Cavalaria não cresceu com isso.

Um exemplo de guerreiro que não chegou a ser verdadeiro cavaleiro

Eu me lembrei disso intensamente quando fui visitar o Castelo de Chambord, na França. Um dos últimos senhores desse castelo foi um Marechal da França, Maurice de Saxe,1 aparentado com o Rei. Ele era um general extraordinário, que ganhou muitas batalhas; o Rei travou uma série de guerras e ele o ajudou a vencê-las. Mas todos percebiam que a Europa entraria numa longa era de paz e esse homem ficaria, portanto, durante muito tempo, sem as responsabilidades de uma chefatura militar. Já velho, ele provavelmente não serviria mais na guerra. Então o Rei quis dar-lhe uma grande recompensa. Sendo um homem de muita categoria, parente do próprio Rei, não havia mais nada para dar a ele, nem mesmo títulos de nobreza, porque já tinha tudo. Então o Rei tomou o Castelo de Chambord e deu-o de presente para o Marechal.

Era o castelo que tinha sido dos antigos reis da França, e que não estava ocupado nessa ocasião. É uma verdadeira maravilha! Pode-se sustentar que ele é mais bonito que Versailles.

Sabe-se por historiadores sérios do tempo que esse guerreiro fortíssimo tinha uma doença contraída em razão de sua vida dissoluta… Essa enfermidade provocou-lhe uma tal podridão, que as pontas de seus dedos iam caindo… Ele não podia mais segurar as rédeas do cavalo e então ele guerreava deitado de bruços, numa espécie de caminha de vime, apoiado nos cotovelos que ainda estavam intactos.

Por causa dessa moléstia, quando ele fazia um gesto dando uma ordem, apareciam aqueles dedos moles, porque os ossos lhe saíam pela carne… Era assim que ele comandava os soldados a avançarem. Esse é um cavaleiro? Não! Isso não é mais a Cavalaria! Ele é um guerreiro; um cavaleiro ele não é!

Arquivo Revista
Dr. Plinio diante do Castelo de Chambord, em outubro de 1988

O verdadeiro cavaleiro

O que é ser verdadeiro cavaleiro? É o guerreiro católico no esplendor de sua virtude, no esplendor de toda sua capacidade! Esse é o verdadeiro cavaleiro.

Em primeiro lugar: os cavaleiros desapareceram; em segundo lugar, a guerra se transformou.

A Revolução é muito mais apodrecedora dos caracteres do que conquistadora por tiros. Por exemplo, o mal que uma televisão faz é incomparavelmente pior do que o bem que poderia fazer um exército de cruzados. E isso numa noite! Mas não adianta reprimir a televisão à força, porque fazem outra… organizam uma clandestina e recomeça tudo. O que é preciso é ganhar as batalhas do espírito.

Essas batalhas do espírito supõem que quem luta tenha toda a finura, a penetração, o espírito profético, a garra para lutar e combater nessas batalhas, de maneira a ganhá-las! Mas isso exige maior dedicação e muito mais entrega do que precisa ter um guerreiro comum, porque este vai para a guerra, volta, se deita na cama e fica esperando outra batalha…

Na batalha do espírito não! Nela a luta é noite e dia, noite e dia…

O cavaleiro do século XXI

Por exemplo: um homem vai a uma loja comprar uma caixinha para guardar clipes sobre sua mesa de trabalhos; pode ser que lhe ofereçam um objeto com certa influência revolucionária: ele deve recusá-lo. Ele vai a outra loja comprar um par de sapatos; precisa observar se eles são revolucionários. Passa uma pessoa e o cumprimenta; ele tem que analisar se esse cumprimento não foi um gesto revolucionário. Ele deve estar habilitado a ver o sentido da Revolução, percebê-la e repeli-la em tudo; do contrário, ela entra e toma conta da situação.

O cavaleiro do século XXI, ou seja, o homem da Contra-Revolução, deve ser tal que tenha isso profundamente entranhado no espírito; que tenha uma dedicação à causa contrarrevolucionária a bem dizer quase sem exemplos; que em todo momento, em toda ocasião, saiba ver a Revolução e a Contra-Revolução. Se ele não fizer isso, pode fazer o que quiser, quando ele comparecer perante Deus, atrás dele estarão várias portas abertas através das quais a Revolução entrou.

Analisemos, por exemplo, a situação de um pai: se ele não incutir esse espírito em todos os seus filhos, que netos ele terá? Se um pai simplesmente relaxar nesse ponto, pode ser que seu filho se torne um colosso da Revolução. E como ele vai dar conta disso diante do juízo de Deus?

Tudo isso é uma coisa fantástica, mas supõe uma perspicácia, uma penetração, uma dedicação, uma combatividade de alma que é maior que a do guerreiro. E para isso nós fomos chamados! De que adiantaria termos nascido e vivermos, se quando morrermos deixarmos abertas atrás de nós as portas por onde a Revolução volta? Poder-se-ia dizer o que Nosso Senhor afirmou: “Melius erat illi si natus non fuisset – teria sido melhor para ele não ter nascido!” (Mt 26, 24).

O contrarrevolucionário deve desconfiar do inimigo até no auge da vitória

E como é isso dentro do Grupo? Todos estão lutando, levam aqui dentro uma vida difícil, com uma série de restrições; mas sabem bem que um que conserve certo hábito revolucionário está passando esse hábito para outros e, com isso, pode entrar o espírito da Revolução inteiro. Já calcularam a dedicação que precisariam ter? Eu digo “precisariam”, porque nem sempre temos… E do que serve uma obra contrarrevolucionária onde está aninhado o espírito revolucionário?

Então, nas menores coisas, o cavaleiro do século XXI deve estar com o espírito atento, desconfiado. E desconfiado até no auge da vitória, porque pode parecer que a Revolução teve uma derrota tal que nem adianta pensar mais em Contra-Revolução, os otimistas vão se deitar e descansar… No dia em que o primeiro otimista deitar para descansar, a Revolução põe a cabeça fora.

Então, qual é o resultado? É que os cavaleiros do século XXI terão que ser, por excelência, os homens dedicados a essa tarefa.

Nós não podemos imaginar que um país inteiro se dedique a essa tarefa se não houver um punhado de homens que seja tão excelente nela, que dê o exemplo para todos os outros.

O cavaleiro medieval foi o paradigma do cavaleiro de todos os tempos. Esperamos que no Reino de Maria os cavaleiros sejam mais paradigmáticos ainda!

A decadência da Cavalaria se deu pela falta de vigilância

Dir-se-á: “Mas o cavaleiro do século XXI é superior aos cruzados?”

Não tem comparação! Os cruzados são admiráveis, mas uma parte da decadência da Ordem dos Templários, por exemplo, veio dessa falta de vigilância: nos intervalos da guerra com os mouros, eles eram convidados pelos árabes para ir às cidade dos inimigos a fim de ver o luxo que havia lá; como era tudo bonito: os tapetes, as cortinas, as almofadas, os mármores e tudo mais…

Arquivo Revista
Dr. Plinio durante conferência em setembro de 1989

Granada, por exemplo. Até aquela data, os palácios dos mouros eram muito mais bonitos que os dos Reis da Espanha. Hoje ainda rivalizam. Os cristãos olhavam aquilo e se encantavam. E o árabe dizia-lhes:

— Fique com esse tapete, leve-o… dê para o seu chefe, diga que eu mandei para ele. Olhe aqui esta almofada; quando você estiver cansado, estenda-se, ponha a cabeça aí e veja como ela é leve…

— Ah, muito obrigado!

O homem ia visitar a cidade inimiga e voltava com os braços carregados com o peso da própria derrota! O resultado disso foi que as residências dos Templários começaram a se encher de objetos lindos, de cristais maravilhosos, de pratarias que os árabes lhes presenteavam. Eles sabiam que estavam se intoxicando. O que faltou? Os superiores não tiveram perspicácia para ver isso.

A responsabilidade do contrarrevolucionário no Reino de Maria

No Reino de Maria, depois de a Revolução estar derrotada, se a responsabilidade de uma Sede do Grupo devesse estar no ombro de cada um, alguém se sentiria capaz de todas as perspicácias, de todos os discernimentos, de todas as intransigências necessárias? Eu receio muito que não. Mas como é que isso vai para a frente, então? Eu sei a resposta: “Não, nós nos apoiamos em Dr. Plinio”. Não se iludam! Dr. Plinio vai morrer, e se os espíritos não estiverem muito em ordem, no dia da morte dele haverá gente que sentirá um alívio… Não tenham ilusão! E, a partir desse alívio, o que vem? Vem a Revolução. É uma coisa evidente.

E nós estamos então preparados para isso? Até que ponto somos cavaleiros? É uma pergunta que, em seriedade de consciência, não se pode deixar de pôr.

Quando se gosta de rir, de brincar, de ser folgazão e não se é uma pessoa séria, o que pode acontecer? Só pode dar em ruína! Então devemos pedir a Nossa Senhora esse alto espírito de Cavalaria, que é a trans-Cavalaria! É, por certo, a Cavalaria do corpo, mas é muito mais a Cavalaria do espírito!

(Extraído de conferência de 11/9/1989)

1) Filho ilegítimo de Augusto II, Rei da Polônia. Viveu de 1696 até 1750.

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