Quando um ateu se torna católico, ou alguém que leva uma existência de pecado passa a viver na graça de Deus, afirma-se que tais pessoas se converteram. Entretanto, também os bons devem pedir a graça da “conversão”, ou seja, mudança muito acentuada que os leva a progredir sempre mais na prática da virtude.
Para comentar a luta entre o entusiasmo e a náusea no interior da alma humana, sirvo-me de uma metáfora tirada do mundo físico.
“Quero mais!”
Um corpo que se nutre fica naturalmente mais forte. Na medida em que ele se fortalece, torna-se capaz de um esforço maior, porém pedirá mais nutrição, e isso vai num círculo que se diria vicioso se não fosse de acordo com a ordem posta por Deus.
No caso do corpo humano, entram outros fatores e há um momento em que o organismo chega a seu apogeu e, depois, começa a decair. Mas, de si, se o homem não tivesse a vida circunscrita e sujeita ao deperecimento, não sei que gigantes se constituiriam.
Com a alma humana passa-se algo semelhante. Se ela realmente correspondeu ao brilho do que ela viu, deve querer mais. O comentário perfeito de quem ama o bem não é apenas “Que magnífico!”, mas também “Quero mais!”, “Mais a fundo, mais inteira e perfeitamente!”
Suponhamos alguém que me oferece um cálice de licor, e eu apenas tomo um tragozinho e digo: “Estupendo!”, mas não continuo a beber. A ênfase da palavra “estupendo” não convence… Porque, se fosse estupendo mesmo, eu quereria mais.
Com mais razão ainda isso se dá com as coisas relacionadas ao amor de Deus.
Quando a Escritura afirma que Ele é um Deus ciumento (cf. Ex 20, 5), o ciúme d’Ele chega até lá: Ele quer que O amemos de tal maneira que, à medida que vamos amando mais, o próprio ritmo desta benquerença vá crescendo.

Se analisarmos nossas almas, veremos que com elas se dá isso de curioso: queremos alguma coisa, depois a desejamos ainda mais; entretanto, há um determinado momento em que a alma mais desejosa daquilo sente a sua capacidade de querer estancada. Embora isso não seja justo acontecer em relação a Deus, nas coisas terrenas e materiais é compreensível.
Um lugar com um lindo panorama
Conta-se este episódio da vida de São Pio X: Quando era bispo, ele foi realizar uma visita pastoral por regiões com paisagens muito bonitas, e foi hospedado por um padre num lugar com um panorama lindo!
Quando estiveram a sós, o primeiro pedido que o sacerdote fez ao seu prelado foi: “Excelência, eu queria mudar de lugar”.
São Pio X disse ao padre: “Mas com esse panorama maravilhoso, o senhor quer mudar de lugar? O senhor nunca mais deveria querer sair daqui!”
O padre ficou quieto.
Na manhã seguinte, ele acordou São Pio X bem cedinho, exclamando: “Excelência, Excelência, venha ver o nascer do Sol!”
Já na véspera São Pio X tinha se levantado cedo para contemplar a aurora.
São Pio X levantou-se e foi ver o nascer do Sol.
Como a cena se repetisse diariamente, ao quarto dia São Pio X disse ao padre: “Meu caro, eu já vi nascer o Sol. Agora preciso cuidar de outras obrigações”.
Quando, mais tarde, São Pio X saiu do quarto, o sacerdote, insinuando o pedido feito na primeira conversa a sós, disse: “Excelência, eu também já vi nascer o Sol…”

Este pequeno fato que, segundo os biógrafos, São Pio X contava sorrindo, exprime de um lado a miséria humana, mas de outro denota um bom senso no que tange às coisas meramente naturais. Para estas, tal atitude é compreensível; para as coisas divinas, não.
A previdência na vida espiritual
Se o homem introduz esse procedimento na ordem sobrenatural, ele comete o erro de, em certo momento, ter a inclinação de se saciar também do que é de Deus.
Para a alma aumentar a sua capacidade de amar a Deus e buscá-Lo sempre mais, é preciso receber da parte da graça uma operação misteriosa que os autores espirituais chamam de “conversão”. Assim como um ateu pode ficar católico, ou como um pecador se converte entrando para a vida da graça, assim uma pessoa boa pode progredir muito no bem; e essas mudanças muito acentuadas para o bem podem ser chamadas de “conversão”. Portanto, neste sentido da palavra, uma pessoa que esteja em um alto grau de virtude ainda pode passar por uma conversão.
E, mais ainda, a graça a que nós correspondamos bem hoje prepara-nos para a conversão de amanhã.
Os grandes lances da vida espiritual são as conversões, com as quais aumenta a capacidade de querer e, consequentemente, cresce a fome das coisas divinas.
Essa conversão nós devemos pedi-la, antes de começar a se verificar a náusea. Porque a oração do nauseado ou do tentado de náusea facilmente é uma oração que não tem ênfase. Nós devemos rogar a Nossa Senhora, com a ênfase de hoje, graças para combater a náusea que poderá vir amanhã. Esta é a previdência na vida espiritual.
(Extraído de conferência de 16/2/1982)



