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Virgo potens

Poder recebido de Deus para ser exercido sobre todo o universo

Algo muito bonito é o seguinte: Nosso Senhor passou trinta anos de sua vida oculto; depois Ele iniciou sua vida pública, mas Ele não a começou de modo ex abrupto. Com a solenidade própria com a qual se iniciam todas as grandes coisas, houve três atos inaugurais, que constituíram uma espécie de pórtico da vida pública de Nosso Senhor:

Primeiro foi o batismo d’Ele, durante o qual houve a revelação de sua missão e da união d’Ele com o Padre Eterno (cf. Mt 3, 13.16-17). Depois de uma vida que tinha sido trinta anos de retiro, não há logo a ação, mas antes há um ato religioso e uma proclamação de Deus.

O segundo ato é um retiro, e nele, oração, penitência e uma primeira batalha d’Ele contra seu grande inimigo, o demônio (cf. Mt 4, 1). Em terceiro lugar, um milagre estrondoso: a transformação da água em vinho em Caná (cf. Jo 2, 1-11).

Somente depois desses três fatos, a vida pública d’Ele se inicia. Eles são uma espécie de tríptico, ou de três toques de clarim, que anunciam, à sua maneira, o poder de Nosso Senhor.

E isso é muito lógico: antes de tudo Ele faz proclamar a sua união com o Padre Eterno; depois Ele diminui o poder do demônio para agir melhor e para começar a sua vitória. Em terceiro lugar, Ele faz um milagre que é mais uma manifestação de seu poder divino. Somente depois Ele começa a falar.

Nas Bodas de Caná dá-se algo lindo: a primeira manifestação do poder de Nossa Senhora. Na primeira manifestação da onipotência d’Ele, está a primeira manifestação da onipotência d’Ela. Ela tem um poder real porque Deus faz o que Ela pede; Deus realiza o que Ela suplica.

Leticia V.
Bodas de Caná – Santuário da Imaculada Conceição, Maryland, Estados Unidos

Nossa Senhora recebeu seu poder diretamente de Deus. E esse poder dado a Ela sobre todo o universo é absoluto.

Em certa ocasião, eu li uma revelação de um santo onde ele descrevia como o demônio dizia que certa alma devia ser condenada, pois cometera tais e tais pecados. Nossa Senhora, sorrindo, colocou a ponta de seu manto sobre aquela alma e ela foi salva.

Esse fato exprime a ação salvadora de Nossa Senhora de um modo quase como se fosse um tanto arbitrário: salva pela vontade d’Ela e sem nenhum outro motivo. Ela quis aquela alma, conseguiu-lhe uma graça avassaladora e a salvou; não se discute mais! E todas as criaturas, até os mais altos Anjos, sentem-se honradas em receber suas ordens.

Ela tem o poder de tocar os corações e de transformá-los.

Ser senhora de todas as almas é mais que ser soberano de todos os mares, de todas as vias, de todos os astros etc. O que Ela possui? Ela chama a Si as almas e tem o poder de levá-las para o bem. Isso mostra a onipotência suplicante d’Ela.

Nas dificuldades devemos implorar que esse poder d’Ela se exerça sobre nós: “Virgem poderosa, rogai por mim! Virgo potens, que obre tudo quanto é do desejo de Deus!”

Virgem poderosa que esmagará o mal em nossos dias

Para o mundo contemporâneo, não há outro caminho senão a ordem perfeita do Catolicismo, ou o caos completo da aniquilação. Não é, pois, sem angústia que até mesmo alguns espíritos nos quais não arde a Fé católica indagam se a Igreja não soçobrará ao vendaval da crise moderna.

É para essas almas cegas que a invocação da Ladainha Lauretana Virgo potens constitui tema de proveitosa meditação. Não é das baionetas pagãs, nem do ouro semítico, nem de qualquer outro recurso humano que a Igreja espera o grande triunfo que salvará mais uma vez a civilização. A Igreja é divinamente indestrutível e sê-lo-á amanhã, como já o era ontem. É só de Deus, Nosso Senhor, que lhe virão, no momento oportuno, os milagres que asseguraram o triunfo de Constantino, o recuo de Átila e a derrota dos muçulmanos em Lepanto.

De Maria Santíssima, diz a Sagrada Liturgia: “Só tu esmagaste todas as heresias”. Mais possante que os modernos Césares, invencível como nunca o foram os modernos sinédrios, há uma Virgem poderosa que esmagará o mal em nossos dias, Ela que já esmagou outrora a cabeça orgulhosa da terrível serpente. Sua força, já o dissemos, não está no ouro, nem nos canhões. Sua força está na sua caridade, que é invencível, na sua humildade, que é incomensurável, na sua pureza, que é indizível.

Conjuguem-se embora, contra a infalível Cátedra de São Pedro, o demônio, o mundo e a carne, a Virgem potente triunfará. E, no momento da derrota, todo o ouro dos seus adversários lhes será inútil como se fosse lama, seus canhões inoperantes como se fossem brinquedos.

Ao ouvir essas palavras, é possível que um sorriso desdenhoso exprima em certos lábios céticos uma desaprovação irritada. Um dia virá, porém, – e quem sabe se não é amanhã – em que a Virgem potente triunfará suscitando uma nova legião de cruzados, ou dando ao Papa a vitória incruenta e gloriosa que teve outro Pontífice, São Leão I, quando, armado só com a Cruz de Cristo, fez recuar o terrível rei dos Hunos.

Não, a despeito do riso dos céticos, das injúrias dos perversos e da incredulidade dos medrosos, é a Virgo potens que vencerá!1

1) CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Virgo potens. In: Maio, mês das flores… Belo mês de Maria. São Paulo: Edição da Rádio Bandeirante, 1938, pp. 96-98.

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