O que é amar a Deus? Seguindo as palavras do Catecismo tem-se uma ideia abstrata: Deus, Ser espiritual, perfeitíssimo, criador do Céu e da Terra etc. É uma definição; entretanto, ela não basta. Qualquer um de nós derramaria seu sangue para sustentá-la; mas, simplesmente por esta verdade, Deus não atrai todo o nosso amor. Isso se dá pelo fato de que, para a nossa natureza humana amar inteiramente, temos a tendência a conhecer.
Como amar e conhecer a Deus
Existem dois modos de conhecer: pela inteligência e pelos sentidos. E nós precisamos obter esses dois conhecimentos para amarmos adequadamente.
É por esse motivo que Deus, ao mesmo tempo que nos deu a Revelação e a Filosofia, pelas quais podemos conhecê-Lo em abstrato, também criou uma quantidade indizível de seres feitos à sua imagem e semelhança para, ao contemplarmos esses seres, de algum modo indireto, podermos vê-Lo e amá-Lo.

As coisas visíveis são um trampolim para amar a Deus
Essa verdade transborda na Ladainha Lauretana. O objetivo dessa oração é louvar Nossa Senhora, mas louvá-La comparando-A com coisas visíveis, para que assim o fiel possa amá-La mais inteiramente.Vas honorabile, Vas insigne devotionis, Rosa mystica, Turris davidica, Turris eburnea, são objetos materiais que o católico que está rezando a Ladainha é chamado a conceber mentalmente, e aí, por uma semelhança com Nossa Senhora, amá-La melhor.
Torre de marfim: imagina-se uma torre reluzente, lustrosa… cada um pode imaginar um edifício conforme mais simpatizaria e mais de acordo com sua natureza. Um imagina uma torre possante, com ameias grandes, colocada à beira de uma estrada, dominando a passagem. Outro concebe uma torre esguia, altaneira, posta no alto de um monte para vigiar. Um poderia idear um marfim mais branco, enquanto o primeiro um mais amarelado. A terceira conjectura poderia ser uma torre colocada junto ao mar, erigida no alto dos penhascos, uma torre feita para aguentar todas as borrascas e com vistas para o inimigo que se aproxima, a fim de denunciá-lo com o toque de um olifante. Todos esses aspectos correspondem a algum lado da alma de Nossa Senhora.
Se eu tivesse dons, eu desenharia incontáveis torres, representando múltiplas imagens que eu faria de Nossa Senhora, na base de cada torre.
Ao invocar Turris eburnea, eu direi como é que gosto de pensar em Nossa Senhora sob aquele aspecto, e imaginaria desse ou daquele jeito, conforme o momento e a situação.
Qual é o mecanismo desse pensamento? Através de minha imaginação, eu construí, pintei uma figura concreta e, com base nessa figura que eu vejo, eu passo a amar melhor quem eu não vejo: Nossa Senhora.
A Ladainha é toda assim, e é uma prova de como essas coisas materiais existem para amarmos a Deus.
Almas deiformes
Diz o Gênesis que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança. Ele deseja que alguns homens sejam tão eminentes, que os demais, olhando para esses, pensem n’Ele. Forma-se assim uma cascata de homens deiformes – a expressão é usada pelos Padres da Igreja. Mas deiformes não apenas pela fisionomia, pelo seu modo de ser, por aquilo que se conhece deles nos lembrem a Deus Nosso Senhor, mas também homens que pela voz, pela música, por este ou por aquele modo magnífico, se assemelham a Ele.
Quando vemos algo que nos aproxima de Deus, essa é a hora do amor a Ele: “Oh! Como Ele é magnífico! Como Nossa Senhora é esplêndida! Se uma simples criatura é assim, como será a criatura das criaturas que é a Santíssima Virgem? E como será o próprio Criador, Deus Nosso Senhor? Um dia eu O verei face a face. Dia virá em que contemplarei a face de Nossa Senhora! Então eu me extasiarei!”
Reversão perfeita entre as invocações de Nossa Senhora e os atributos da Santa Igreja
A Ladainha Lauretana, como tudo na Santa Igreja, é muito organizada. Ela é composta por grupos de invocações: primeiro um conjunto de Mater, depois outro de Virgo. O que é mais: ser virgem ou ser Mãe de Deus? Virgem as há incomparavelmente numerosas – ou as houve, pelo menos –, mas ser Mãe de Deus é uma só!
Por mais variadas e belas que sejam as invocações com que a Santa Igreja se refere a Nossa Senhora, em nenhuma delas deixaremos de encontrar uma relação entre Ela e o amor de Deus. Essas invocações, ou celebram um dom de Deus ao qual Maria Santíssima soube ser perfeitamente fiel, ou um poder especial que Ela tem junto ao seu Divino Filho. Ora, o que provam os dons de Deus senão um amor especial do Criador? E o que prova o poder de Nossa Senhora junto a Deus senão esse mesmo amor?

Inúmeras vezes temos comentado como há uma espécie de reversibilidade dos atributos de Nossa Senhora e da Igreja Católica; nós poderíamos fazer recitar a Ladainha Lauretana ou a Salve Rainha aplicando cada um daqueles dizeres à Igreja, e veríamos como a reversão é perfeita e como, a seu modo, a Ladainha tem uma aplicação lindíssima à Santa Igreja. Naturalmente é preciso saber fazer algumas adaptações, mas feitas as transposições, essa oração se presta como matéria de meditação a respeito da Esposa Mística de Nosso Senhor.
Piedoso costume de rezar a Ladainha após a Comunhão
Eu tenho por costume rezar a Ladainha Lauretana sempre após a Comunhão, e isso por uma razão muito simples: depois de ter feito várias orações a Nosso Senhor, sempre por meio de sua Mãe Santíssima, ao encerrar a visita d’Ele, peço a Ela que diga a Ele o que eu não consegui dizer e que gostaria de ter feito melhor… Que Ela complete, na minha Comunhão, no meu convívio com Ele, o que ficou deficiente, ou aquilo que, como Mãe, Ela quereria que eu tivesse feito.
É mais ou menos como um homem que recebe o rei em sua casa, mas percebe que não tem os recursos para receber aquela visita. Porém, a rainha, que está presente e é a mãe do rei, é sua parente. Então ele diz a ela: “Minha rainha, minha mãe, eu sei que eu não o recebi bem. Dizei ao rei, vosso filho, algumas palavras de minha parte, aquilo que eu gostaria de ter dito, mas não fui capaz de fazê-lo…” Então ela diz, o rei sorri e responde: “Sim, ele estava mesmo empenhado em me receber bem!”
A todos eu aconselho que rezem essa Ladainha diariamente, se possível diante de alguma imagem de Nossa Senhora, pedindo a Ela que faça com que tenham sempre muita confiança n’Ela como na Mãe perfeita, que perdoa tudo, que ama sempre e que atrai a cada instante para Nosso Senhor Jesus Cristo.
Cada invocação será para suas almas como uma gota de mel!
Na presente edição foram utilizadas as seguintes fontes bibliográficas:
Legionário n. 410, 21/7/1940.
Catolicismo n. 34, outubro de 1953.
Conferências: 1951, 8/9/1963, 6/6/1964, 8/12/1964, 19/5/1965, 23/5/1966, 10/8/1968, 4/11/1968, 19/3/1970, 20/6/1970, 31/5/1975, 28/6/1975, 31/7/1976, 1/8/1976, 25/9/1976, 6/6/1978, 29/12/1978, 6/10/1979, 4/3/1980, 4/4/1980, 26/4/1982, 5/6/1982, 16/7/1982, 20/3/1983, 22/5/1983, 21/5/1984, 9/3/1985, 12/4/1985, 2/5/1985, 17/7/1985, 26/11/1985, 24/4/1986, 5/8/1988, 1/9/1988, 25/9/1988, 27/11/1988, 16/4/1989, 8/5/1990, 9/5/1990, 19/8/1990, 17/9/1990, 9/10/1990, 27/11/1990, 3/2/1991, 23/4/1991, 28/5/1991, 23/8/1991, 7/1/1992, 13/3/1992, 25/10/1992, 5/12/1992, 17/10/1993, 16/8/1994, 6/10/1994, 23/5/1995, 3/6/1995.
Alguns excertos publicados em números anteriores foram aqui inseridos para melhor compor o conjunto dos comentários de Dr. Plinio à Ladainha Lauretana.



