Nós todos assistimos a madrugadas e conhecemos bem a passagem, em geral cheia de poesia, mas cheia também de incertezas, da noite para o dia.
Eu conheci muito isso, porque quando eu estava na Faculdade de Direito como aluno, na proximidade dos exames eu passava as noites em claro com um primo que era meu companheiro de estudos. Naquele tempo, em São Paulo, os restaurantes fechavam muito mais tarde, e alguns permaneciam sempre abertos; eram muito melhores do que essa fábrica de comida que hoje chamam de restaurante. Quando chegavam mais ou menos as quatro horas da manhã, nós mandávamos vir de um restaurante alguma coisa magnífica para comer, e estava convencionado que isto fosse na hora em que a noite se transformava em dia.
Nossa Senhora é a Estrela da Manhã: alva, brilhante, pura!
Eu estava na minha mesa, com as janelas abertas, estudando, e com a fome sempre desperta, olhava para o céu para ver se o dia estava chegando e se a hora do bem-viver também. Em frequentes madrugadas, eu notei algo curioso: antes de haver o que se pode chamar propriamente aurora, há um primeiro estado em que não se sabe bem se o céu está ou não mais claro. Há uma espécie de esbranquiçamento de alguns pontos, que dão a impressão de que é um começo do dia… e a dúvida, que não se punha antes, começa a se pôr, e não sabemos se é uma coisa subjetiva, se é algo na vista ou se realmente o céu está clareando… parece escurecer novamente, e aparece a estrela matutina, a estrela d’alva, como muitos a chamam.
Ela é conhecida assim porque começa a aparecer no céu ainda escuro; ela é uma promessa de que o dia está chegando e de que daí a pouco amanhecerá.
Imersos no mundo da Revolução, devemos invocar a Stella Matutina
Não é bem uma imagem desta época em que o mundo revolucionário ainda existe, mas o começo do Reino de Maria já vai nascendo? É exatamente o que eu acho: dentro desse crepúsculo horroroso, nesse momento em que o dia está “nasce-não-nasce”, está vindo, mas ainda é noite, nós, que representamos ilhotas de bem no mar revolto de água suja, de barro, de lama, de infâmia, dentro da bagunça, dentro do inesperado… é a Nossa Senhora, enquanto Stella Matutina, que devemos rezar!
Nossa Senhora é aclamada pela Igreja como a Estrela da Manhã, que prepara a vista para olhar o Sol mais tarde. É a Estrela da Manhã: alva, brilhante, pura! Nossa Senhora é a promessa do dia! Na noite inteira da espera, Ela é a nossa luz, Ela anuncia que o dia vai chegar. Assim como a estrela da manhã anuncia o Sol, Ela anuncia a Deus e o império do Sol sobre o mundo, ou seja, o império de Jesus Cristo, Senhor Nosso, o Sol de justiça.
Ela começa a brilhar com brilho especial, como quem diz: “Essas trevas todas… mas isso acabou! Eu venho trazer outra coisa. Eu venho trazer outra luz, eu venho trazer outros propósitos!” Ela é a estrela que nos faz esperar a manhã do Reino d’Ela!
Nossa Senhora é a Estrela que nos anuncia a aurora de seu Reino
O dilúculo! A alegria do dilúculo é maior do que a alegria da mera noite. Na minha mente, a bonita invocação Stella Matutina, que está na Ladainha, evoca esse dilúculo, porque Ela é uma primeira luz, de algum modo estranha à luz que vai brilhar, mas que já é luz. E nisso existe o primeiro gáudio. São os momentos em que a brisa do dilúculo já sopra, embora não o vejamos ainda. Esses são os momentos de alegria coletiva em que sentimos, por uma consolação, que o dia virá.
Que comece a nascer em nós essa era nova que deve tomar conta de toda a Terra.
É preciso pedir luzes especiais; rezando o “emitte Spiritum tuum et creabuntur”, pedir que cada vez mais o Divino Espírito Santo nos encha do seu espírito, que a Estrela da Manhã Se levante cada vez mais brilhante para nós.
Devemos nos dirigir a Nossa Senhora, Stella Matutina, pedindo que Ela faça vir o dia, que Ela nos comunique – das alturas imarcescíveis onde Ela paira – a torrente de suas virtudes, de sua bondade, de sua misericórdia, para nós termos a força e a coragem de ser como Ela, e que comece a nascer em nós essa era nova que deve tomar conta de toda a Terra. Este é o pedido para que venha o Reino de Maria.
E com este conselho eu encerro estas palavras: olhem sempre para a Santíssima Virgem, chamada a Estrela da Manhã! Olhando para Ela, nós vamos para frente. Ela saberá para onde nos guiar.



