Ao ver a imagem de Nossa Senhora de Coromoto, Dr. Plinio sentiu-se atraído por sua majestade e espírito contemplativo. Na história dessa aparição impressionou-o a insistência do amor maternal de Maria Santíssima diante da dureza de coração do índio Coromoto.
Eu conheci a invocação de Nossa Senhora de Coromoto durante o Concílio.1 Havia lá, naturalmente, bispos venezuelanos, como do mundo inteiro; e uma noite, um bispo amigo veio até nossa sede em Roma, tirou da carteira uns três ou quatro santinhos; parecia meio embaraçado sem saber o que fazer deles.

Eu olhei, achei que ali havia algo muito mais que um simples santinho, e perguntei que imagem era aquela. Ele explicou ser Nossa Senhora de Coromoto.
Eu fiquei encantado, pedi a ele um dos santinhos e guardei-o um pouco maquinalmente dentro da carteira, sem prestar maior atenção. No dia seguinte, ordenando meus papéis, encontrei-o: “Que majestade…! A imagem mais majestosa que eu já vi é esta aqui!”
Uma Rainha majestosa e contemplativa
Apesar de a estampa não ter grande valor artístico no que diz respeito propriamente à execução material, o porte da imagem e a expressão do olhar tinham uma elevação régia, uma majestade como eu gosto de considerá-la, como Ela me parece mais plenamente majestosa, ou seja, com uma grande consciência de sua elevação, com uma grande dignidade, mas, ao mesmo tempo, com nada de apropriativo, nada de fruitivo. Nada n’Ela dizia: “Veja, aqui estou Eu, sou extraordinária”. Ela possuía um olhar de pensamento posto inteiramente em Deus, nos Anjos, no Céu, enfim, naquilo que era, de algum modo, superior a Ela, como é Deus, Nosso Senhor. Era o olhar de uma Rainha, ao mesmo tempo de uma contemplativa e uma mística de primeiríssima categoria, e que olhava todas as coisas da Terra através dessa luz superior, mística, que convém tão bem àquele que é adornado com o esplendor da realeza.
Das imagens de Nossa Senhora que eu conhecia, essa era, talvez, uma das que mais me falavam à alma. Comecei a rezar a Nossa Senhora de Coromoto. Por causa disso, eu pus o santinho na minha carteira e nunca mais o tirei dali. Afinal, ele se escangalhou de tanto usar, se desfez.

Eu não sabia que havia uma imagem d’Ela, pensei que fosse apenas um quadro. Somente outro dia,2 incidentemente, eu soube de toda a história de Coromoto, depois de tantas vezes ter ouvido falar a respeito do fato, sem nunca ter ouvido contar os pormenores.
Nossa Senhora aparece ao índio Coromoto
Quando se diz Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora de Lourdes etc., esses nomes designam lugares. Coromoto não é um lugar, é o nome de uma pessoa. O local onde se venera a efígie de Nossa Senhora de Coromoto é uma pequena cidade da Venezuela chamada Guanare, onde morava o índio Coromoto.
A imagem de Nossa Senhora de Coromoto não tem uma dimensão considerável; ela é tão pequena, que quase precisa ser vista numa lupa.
Entretanto, qual é a história magnífica dessa invocação?
Certo dia, na segunda metade do ano de 1651, ou da primeira de 1652, o cacique dos Coromotos, em companhia de sua mulher, dirigia-se tranquilamente a uma parte da montanha onde tinha uma terra de lavoura.
Ao chegar ao cruzamento de uma quebrada ou de algum rio, uma formosíssima Senhora de beleza incomparável apresenta-se aos índios, caminhando sobre as cristalinas águas da plácida corrente.
Maravilhados, contemplam a majestosa Dama, que lhes sorri amorosamente e diz ao cacique, no seu idioma, que subisse onde estavam os brancos para que lhe deitassem água sobre a cabeça, para ir ao Céu. Estas palavras iam acompanhadas de tanta unção e força persuasiva, que atraíram o coração do índio e o dispuseram a cumprir os desejos de tão encantadora Senhora.3
Esse fato se passou quando a Venezuela estava ainda nas primeiras fases de sua história.

Um espanhol de nome Juan Sánchez, de passagem pela região, foi procurado pelo cacique, que lhe relatou o ocorrido e declarou que ele e toda a tribo estavam dispostos a cumprir os desejos da tão excelsa Senhora. Juan Sánchez dispôs-se a levá-los para a terra dos brancos. Então, toda a tribo dos Coromotos, composta de uma centena de pessoas aproximadamente, acercaram-se do rio Guanaguanare. O abnegado espanhol cumpriu o prometido com o maior cuidado, sem poupar meio algum para tornar-lhes cômoda e agradável a permanência em Tucupío. Os aborígenes construíram ali seus ranchos, receberam as terras distribuídas e alegres assistiam à explicação doutrinária que com muitos frutos lhes dava o castelhano.
No princípio satisfeito, pouco depois deixa-se levar por maus sentimentos
O cacique a princípio assistia satisfeito às instruções, mas depois foi pouco a pouco se desgostando com a nova situação e, desejando a solidão de seus bosques, afastou-se das reuniões de Juan Sánchez, sem querer aprender a Doutrina Cristã, nem receber as saudáveis águas do Batismo.
Na tarde de sábado de 8 de setembro de 1652, Juan Sánchez convocou os índios que trabalhavam em Soropo para uma reunião e solicitou ao cacique que assistisse aos atos religiosos que lá se realizavam. O índio negou-se rotundamente a esse convite, e enquanto os seus companheiros honravam com suas humildes preces a Rainha do Céu e da Terra, ele, com grande desgosto e ódio, saiu apressadamente.
Ele converteu-se e dava contentamento a todos, quando, de repente, um mau movimento se apoderou de sua alma: desejou voltar para a região de onde vinha, deixando completamente a prática da Religião.
Na choça do Cacique Coromoto estavam a sua mulher, a irmã desta, Isabel, e um filho desta última, indiozinho agraciado de somente doze anos. […] Quando menos o esperavam as duas índias, chegou o cacique, triste e alterado. Sem dizer uma palavra jogou-se imediatamente no catre. As mulheres atribuíram o tédio e o descontentamento que nele notavam a um acesso de ira, e nenhuma atreveu-se a dizer-lhe a menor palavra.
Coromoto assim posto entristecia a Virgem. E Nossa Senhora, Mãe de misericórdia, nossa vida, doçura e esperança, teve pena dele, perdoou essa primeira infidelidade: ele tinha sido agraciado por um milagre e havia sido levado a uma aldeia para se converter…

Passaram-se apenas uns instantes da chegada do cacique quando, de modo visível e corpóreo, a Virgem Santíssima apresentou-Se no umbral da choça do cacique. De todo o seu ser desprendiam-se copiosos raios de luz, que banhavam o estreito recinto da choça e eram tão fortes, tão poderosos, que, segundo declarou a índia Isabel, eram como os do Sol quando está ao meio-dia. E, não obstante, não deslumbravam nem cansavam a vista daqueles indígenas que contemplavam tão grande maravilha.
Sob os efeitos desse inesperado resplendor que trocavam as trevas da noite para a claridade do dia, o cacique virou o rosto e no mesmo instante reconheceu a mesma bela Mulher que meses antes tinha contemplado sobre as águas da plácida corrente de suas montanhas, e cuja recordação jamais tinha podido apagar de sua memória.
Distintas às do cacique eram as emoções das duas índias e da criança, às quais encheu de satisfação e contentamento o fato de contemplar Aquela criatura incomparável, alegria dos Anjos e dos escolhidos, espelho onde se refletem as infinitas perfeições da Divindade.
Ela apareceu a Coromoto e apareceu sorrindo, afagando-o e convidando-o a voltar ao bom caminho. Coromoto estava de tal maneira empedernido, que recusou à Rainha do Céu o pedido materno d’Ela.
Ódio gratuito Àquela que só lhe queria bem
Quando viu Nossa Senhora na entrada da casa, ele ficou indignado e, fato de que eu nunca ouvi falar em minha vida, ele se pôs em movimento para agredir Nossa Senhora, mas para agredi-La fisicamente!
O índio pensava provavelmente que a grande Senhora vinha para reprová-lo por seu mau procedimento e impedir-lhe a fuga. Passados alguns segundos… o cacique rompeu o silêncio e dirigindo-se à Senhora, lhe disse como afronta: “Até quando me queres perseguir? Bem podes voltar, que já não hei de fazer mais o que me mandas. Ontem deixei meus campos e meus bens, e vim aqui para ter aborrecimentos!”
Essas palavras, inconsideradas e desrespeitosas, desagradaram muito a mulher do cacique, a qual repreendeu seu marido, dizendo: “Não fales assim com a bela Mulher, não tenhas tão mau coração”.
O cacique não pôde suportar por mais tempo a presença daquela Senhora, que permanecia no umbral dirigindo-lhe um olhar tão terno e carinhoso que era capaz de dobrar o coração mais duro e empedernido. Desesperado, dá um salto fora de sua rede, pega o arco da parede e saca uma pontiaguda flecha com a má intenção de ameaçar com ela a Senhora, chegando, na sua loucura, a dizer-lhe: “Ao Te matar, me deixarás!”
Ou seja, é um ato diabólico, não se pode explicar isso de outra maneira. Há certas formas de maldade que transcendem a simples maldade humana. Tem-se a impressão de que esse homem estava possesso do demônio.

Nesse preciso instante, a excelsa Senhora entrou na choça, sorridente e serena, mais formosa e refulgente que o Sol e mais bela que a Lua no seu esplendor. Adiantou-Se e aproximou-Se do cacique, o qual, diante do império e da majestade de sua grandeza, ou porque a Virgem o encurralara de modo que não teve lugar para o tiro, rendeu as armas e jogou o arco no solo.
Contudo, lançou-se ainda sobre a Senhora para agarrá-La pelos braços e jogá-La fora… Estendeu ligeiramente os braços e fez um movimento para o ar, para pegar a Santíssima Virgem. Mas nesse preciso instante, a celestial visão desapareceu repentinamente e densas trevas sucederam à viva luz que iluminara a choça. Somente se percebia a pálida luz do fogão, que projetava a negra silhueta do cacique sobre a parede.
Vê-se que coisa horrorosa. Primeiro, quis agredi-La com flechas, mas os movimentos dele se tornaram hirtos, outro milagre. A maldade nele era tão grande que ele resolveu então tentar golpear Nossa Senhora. Sua mulher o reteve e a aparição se desfez.
Um ato de bondade maravilhoso, por cima de uma dupla ingratidão
As índias e o menino sentiram grande pena pela péssima conduta do índio e pelo desaparecimento da bela Mulher. A esposa do cacique repreendeu novamente seu marido, reprovando seu torpe e inconsiderado procedimento para com a soberana Senhora.
O cacique, fora de si e mudo de terror, permaneceu longo tempo imóvel, com os braços estendidos e entrelaçados, na mesma posição que permaneceram quando tinha querido dominar a Virgem. Estava com uma mão aberta e outra fechada, que apertava o quanto podia, pois tinha algo nela e, na sua pouca inteligência, julgava que era a bela Mulher que havia apanhado.
A índia Isabel, sem entender ainda o que sucedera, disse ao cunhado:
— Sabes o que aconteceu?
Balbuciante e temeroso, o índio contestou:
— Eu aqui A tenho presa…
As duas mulheres, profundamente impressionadas e comovidas, um pouco pelo que acabavam de presenciar, um pouco sob o impulso soberano da curiosidade, disseram:
— Mostra, queremos vê-La…
O cacique se aproximou então das duas, abriu a mão e os quatro indígenas reconheceram ser uma imagem que julgaram ser a efígie da bela Mulher. Ao abrir o cacique a mão, a diminuta imagem desprendeu raios luminosos que produziram grande esplendor, o que creram os índios ser fogo natural que a Senhora lançava contra eles. Um suor frio correu pelo corpo do índio.
Com o mesmo aborrecimento e ódio de antes, embrulhou a milagrosa imagem numa folha e a escondeu entre as palhas do teto de sua choça, dizendo: “Aí hei de Te queimar, para que me deixes”.
Ele tinha na mão uma pedrazinha; essa pedra talvez fosse para atirar em Nossa Senhora, não sei. O fato é que quando a aparição se dissipou e ele olhou para a pedra, viu outro milagre: nela, a imagem de Nossa Senhora impressa. Um ato de bondade maravilhoso por cima de outro ato de bondade. Mas a maldade desse homem foi ainda tão grande, que ele pegou essa pedra e jogou-a no telhado da casa…
O indiozinho resolveu avisar Juan Sánchez do ocorrido. Este não acreditou e, para se desvencilhar do menino, mandou-o buscar duas mulas que estavam soltas no pasto; indo o menino sozinho, sem laço nunca conseguiria prendê-las.
O menino correu ao campo para apanhá-las. Entretanto, apanhou o cabresto com toda a facilidade e encontrou as duas mulas juntas muito quietas, como se estivessem num sono profundo.
Juan Sánchez, ao vê-lo trazendo as duas mulas em tão pouco tempo, ficou maravilhado e começou a dar crédito ao que ele dizia. Saíram juntos, Sánchez e o indiozinho, montando as mulas, e puseram-se logo a caminho para Coromoto.
Com grande alegria para o menino, o cacique, sua esposa e sua irmã estavam então juntos, fora, ao lado da casa. Sem ser visto por ninguém, entrou o menino na choça com o coração palpitando de júbilo, tomou a milagrosa imagem que estava ainda no mesmo lugar onde a havia colocado seu tio, e a trouxe correndo para Juan Sánchez, o qual, ao receber das mãos do menino a venerável imagem, sentiu profunda emoção, pois reconheceu nela a efígie da Augusta Mãe de Deus, Maria Santíssima, e com respeito a colocou num relicário de prata que sempre costumava trazer no pescoço.

De regresso à sua casa em Soropo, Juan Sánchez colocou a imagenzinha, que veio então a chamar de Nossa Senhora de Coromoto, num altarzinho.
Mãe de todas as misericórdias
No domingo, 9 de setembro, o cacique resolveu fugir para os montes. Preveniu os demais índios, que se prepararam imediatamente para acompanhar o seu capitão. Este, apenas entrou no bosque, foi mordido por uma cobra venenosa. Vendo-se mortalmente ferido e reconhecendo nisso um castigo do Céu por seu péssimo procedimento com a excelsa Senhora, começou a arrepender-se, clamando a grandes brados pelo santo Batismo.
Por especial providência de Deus, achava-se na ocasião naquele lugar um moreno crioulo da cidade de Barinas, bom cristão e da honrada família dos Ochogavies. Este, no momento, chegou e o batizou.
O cacique recomendou aos índios que se mantivessem com os brancos e, resignado, em meio a dores lancinantes, rendeu o último suspiro, voando sua alma, já purificada na espiritual piscina da graça, à eterna mansão da glória.
Eu não conheço narração que revele, da parte de Nossa Senhora, Mãe de todas as misericórdias, tanta misericórdia quanto nesta narração!
Parece que há uma espécie de porfia entre Nossa Senhora e o índio chamado Coromoto para ver se Ela vence ou não a maldade dele. E quando se pensa que ele fez algo que poria Nossa Senhora completamente desalentada, Ela entra com outra maravilha. Afinal de contas, chega até o momento em que Ela não tem, por assim dizer, outro remédio senão castigá-lo, mas ainda castigando-o, indu-lo à conversão e depois fá-lo batizar por um crioulo que estava ali de passagem. A própria passagem do crioulo pela região era um desígnio providencial para que a alma dele fosse salva, e para mostrar, assim, que Ela vence sempre.
Nossa Senhora estava “obstinada” em converter o Coromoto
É impossível levar mais longe a obstinação no mal! Para Nossa Senhora não há impossíveis, mas dir-se-ia que é inimaginável por nós que Nossa Senhora levasse tão longe a “obstinação” d’Ela em converter esse homem. É realmente a última palavra do que se possa imaginar em matéria de condescendência! Depois de ter querido golpear Nossa Senhora, atirar-Lhe flechas, Ela faz o milagre com a pedra, e depois disso ainda o converte. Nós não podemos imaginar até onde, de um modo mais excelso e mais excelente, a misericórdia pode chegar! Bem, chegou até lá e esse homem se converteu.

Alguém poderia dizer: “Mas, Dr. Plinio, o pecado que cometeram os judeus, matando Nosso Senhor, não foi maior do que o desse índio tentando golpear Nossa Senhora?” Eu digo: É claro! Tudo quanto toca à Pessoa divina e humana de Nosso Senhor Jesus Cristo, desde logo sobrepassa qualquer dimensão e não tem comparação com absolutamente nada. Entretanto, é preciso considerar uma coisa: que Nosso Senhor, na Paixão, estava na sua prostração, na sua humilhação, no seu aspecto humano, mas Nossa Senhora, na visão, estava numa revelação esplendorosa. O índio Coromoto, com uma evidência maior do que alguns dos verdugos que estavam agredindo Nosso Senhor, sabia que era a Mãe de Deus que estava diante dele e, apesar disso, a maldade dele foi tão grande que ele tentou agredi-La. Eu não quero dizer com isso que seja mais grave isso do que o deicídio, mas que, pelo menos sob certo aspecto, isso revela uma dureza de alma ainda maior. Pois bem: para esse homem, tanta bondade e tanta misericórdia.
Nossa Senhora das misericórdias inexcogitáveis
Uma pedrinha comum, que se tornou um símbolo magnífico da misericórdia de Nossa Senhora! Até quando nós jogamos uma pedra contra Ela, Nossa Senhora nos entrega a sua efígie, como quem diz: “Meu filho, ama-Me!”
Esta imagem começou a ser venerada e visitada pelos católicos, construiu-se ali uma pequena igreja, depois um santuário onde essa pedrinha está exposta dentro de um relicário, num lugar de honra. Mas ela é tão pequena, que está assestada sobre ela uma iluminação, de maneira que os católicos que vão lá podem divisar com facilidade essa obra-prima da misericórdia. Nossa Senhora dos perdões incalculáveis! Nossa Senhora das misericórdias inexcogitáveis!
Do bastante que tenho lido sobre aparições e revelações de Nossa Senhora, eu não conheço nada mais tocante e que mais fale da insistência do amor materno, do amor cheio do perdão d’Ela, do que Nossa Senhora de Coromoto. É o mais insigne ato de misericórdia praticado por Nossa Senhora em suas aparições, em suas revelações, até hoje!
1) Concílio Vaticano II (1962 – 1965).
2) Em 1971.
3) As fichas foram retiradas, com adaptações, de: Hermano Nectario María. La maravillosa historia de Nuestra Señora de Coromoto de Guanare. 4.ed. Madrid: Villena, 1975.



