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Imagem de harmonia nívea, régia e maternal

Uma harmonia suprema e nívea de tudo quanto há em Nossa Senhora, a obra-prima da Criação, é um dos traços mais marcantes da imagem de Nossa Senhora de Coromoto. Admirando-a, compreende-se que não se deve viver a não ser em função da misericórdia de Maria Santíssima.

Nós temos um tesouro ainda não tão usado quanto poderia ser: é a imagem de Nossa Senhora de Coromoto, na Sede do Reino de Maria.

Nossa Senhora manifesta o desejo de estar no meio de nós

Aquela é uma linda imagem que nos foi dada por um membro do Grupo da Venezuela, o diretor do bureau em Caracas. Ele meteu-se pela Venezuela adentro – ou afora – e encontrou em Guanare uma imagem de Nossa Senhora de Coromoto, em mármore e de bom tamanho, posta de lado. É uma estatuária muito bonita, certamente feita na Europa, representando aquele santinho de Coromoto, e é mais majestosa do que naquele santinho. Ele dirigiu-se ao bispo, que a vendeu sem dificuldades. A imagem foi comprada e trazida por navio até São Paulo.

A imagem de Nossa Senhora de Coromoto chega ao Brasil

Fotos: Arquivo Revista
Catedral de Guanare, Venezuela

No dia 1o de março de 1972, um membro do Grupo da Venezuela, estando em peregrinação em Guanare, entrou no prédio do antigo Seminário local. Junto à parede do pátio externo, estava uma imagem de Nossa Senhora de Coromoto, talhada em mármore, praticamente abandonada e com irreverentes riscos de lápis na face. O membro do Grupo, impressionado com a magnificência da imagem, perguntou como poderia adquiri-la; indicaram-lhe que procurasse o bispo diocesano. Dirigindo-se imediatamente ao Palácio episcopal, obteve de Dom Ángel Polachini, a compra da imagem por um preço irrisório.

Duas semanas depois, a imagem foi transladada para Caracas, de onde foi embarcada a bordo do navio Nopal Progress, no dia 11 de maio de 1972, chegando ao Brasil neste mesmo mês.

Fotos: Arquivo Revista
Imagem de Nossa Senhora de Coromoto, no dia e local em que foi encontrada

Entretanto, por problema na documentação, a imagem ficou retida por mais de um ano no Porto de Santos, de onde só pôde ser retirada em 26 de junho de 1973. Nesse mesmo dia, às 17h chegou à Sede do Reino de Maria, dentro de uma grande caixa de madeira e envolta em serragem tal como havia sido embalada na Venezuela. Dr. Plinio, com muitos membros do Grupo, foram recebê-la, e uma exclamação brotou dos lábios de todos ao verem a tampa da caixa sendo aberta, a serragem caindo e deixando exposto o lindíssimo rosto de Nossa Senhora.

Nessa mesma noite caiu em São Paulo uma grande tempestade que lavou por inteiro a imagem, fazendo desaparecer inclusive os riscos da face. E, na manhã seguinte, ela estava surpreendentemente limpa!

Fotos: Arquivo Revista

Nós temos aí uma manifestação do desejo de Nossa Senhora, sob a invocação de Coromoto, de estar no meio de nós. Esta imagem é uma razão a mais para termos confiança na bondade de Nossa Senhora.

Uma ou outra vez, tenho um centésimo de minuto para respirar, na minha sala de trabalho; vou ao terraço e dali olho a imagem de Nossa Senhora de Coromoto. E agrada-me, mas enormemente, ver os membros do Grupo que saem ou que entram e que se ajoelham diante dela, e que rezam a Nossa Senhora pedindo as graças que querem, fazendo atos de amor, de ação de graças, de reparação e depois se retiram. Sobretudo quando os vejo pararem de fato, se ajoelharem, oscularem os pés de Nossa Senhora e do Menino Jesus.

Aquele pátio é uma espécie de teatro, porque em volta há uma arquibancada de prédios de apartamentos. E sente-se atrás de muitas venezianas algum olho que nos acompanha. Eu, sem ver o olho por detrás da veneziana, vejo o comentário desse olho, e percebo o bem que uma atitude como essa faz.

Majestade prefigurativa dos grandes lances da História

Entretanto, acho que ainda não se descobriu entre nós o papel da imagem de Nossa Senhora de Coromoto. Não que não lhe tenhamos devoção. É até bonito, às vezes eu vejo de minha janela: não há um que ­entre na Sede do Reino de Maria e que não reze, não oscule a imagem. Mas não sabem lê-la.

Esta imagem é materna, é majestosa, é digna, e tem qualquer coisa que diz o seguinte: “Eu conheço a misericórdia e a amo até os últimos limites de minha alma. Mas eu conheço a justiça também e a adoro até os últimos limites de minha alma. Eu aceito tudo, Eu adoro tudo”.

Fotos: Arquivo Revista

Para ser franco, é curioso o seguinte: essa imagem não tem um grande valor artístico. Ela é mais um artesanato do que uma obra de arte. É uma boa produção de alto artesanato. Mas ela tem muita expressão! Não tem aquele gênero de expressão inefável e inconfundível da imagem de Nossa Senhora de Fátima Peregrina.

E ela tem mais majestade do que as fotografias indicam. Uma majestade que eu diria profética e prefigurativa dos grandes lances da História. Majestade como esta eu nunca vi em uma imagem de Nossa Senhora. Pode ser que outros tenham visto, pois essas coisas têm algo de impressão pessoal, e eu estou longe de querer impor a minha impressão a todo mundo, mas eu a sinto assim: de uma majestade extraordinária, junto com misericórdia.

Ela é um pouco parecida com a “graça de Genazzano”: não é sempre que aparece do mesmo modo. A intensidade de expressão da imagem muda um pouco, sobretudo quanto à realeza: esta parece ora maior, ora menor. Não a realeza maior ou menor, mas às vezes mais translúcida, às vezes mais opaca.

Uma Rainha que manda e que defende

Ela está sentada numa cadeira de espaldar alto, que forma como que uma muralha atrás d’Ela, e Ela está absolutamente perpendicular ao assento, como uma rainha, com o tronco muito ereto, e cuja face olha inteiramente o que Ela tem que olhar.

A cadeira com esse espaldar alto, bem mais alto que Nossa Senhora, e aquela curva em cima – eu até não gosto desse tipo de curva, mas ali está muito feliz –, fazem sentir muito a transcendência e a elevação que Ela tem no arrière-fond da cabeça: a inteira noção da própria majestade. Tem-se a impressão de que Ela leva no subconsciente toda a noção do que está atrás d’Ela e de toda a importância que isso representa.

As colunas que ladeiam o espaldar têm dois capiteizinhos ­triangulares que insinuam muito vagamente duas colunas de uma catedral, e, por detrás, uma abóbada. Insinuam muito vagamente e de um modo muito gauche, mas creio que, se se alterasse, a imagem perderia algo.

Fotos: Arquivo Revista

O manto é uma muralha na defesa daqueles a quem Ela ama e a quem governa. A coroa de rainha indica essa autoridade em virtude da qual Ela manda. Tem-se a impressão de uma rainha posta para o mando, e que se um adversário se puser diante d’Ela, encontrará da parte d’Ela a autoridade e a reação necessária.

“Se querem Me agradar, olhem para Ele”

A majestade vem também de uma consciência de governo, um senso de ver as coisas no seu conjunto. Ela tem a visão superior das coisas, sabe como se compaginam e sabe como mandar para que andem direito.

Ela tem o direito de mandar na ordem universal. E o que é esse direito de mandar? Onde se exprime de um modo muito interessante é na relação d’Ela com o Menino, porque Ela O segura como quem manda n’Ele. Mas, de outro lado, Ela O aponta, como quem diz: “Olha, Eu valho por causa d’Ele; o primeiro plano é Ele. E se vocês querem Me agradar, olhem para Ele, voltem-se para Ele, porque Eu vivo para Ele. Eu não sou, em última análise, senão Ele. Eu vivo para Ele, Eu sou uma relação, uma função d’Ele, não sou outra coisa senão isso”.

De maneira que, ao mesmo tempo que Ela manda n’Ele, Ele é o primeiro dos súditos d’Ela, mas Ele é o cetro d’Ela; e Ela está aqui como se fosse o trono d’Ele, no qual Ele Se senta. Ele está sentado n’Ela e Ela no trono, e há assim uma espécie de regra de três que mostra bem a majestade d’Ela como o trono digno d’Ele. Ela enfeita a Ele; Ela faz realçar a majestade d’Ele.

Alma forte, sentimentos delicados

Ela possui uma fisionomia terna, uma fisionomia feminina, delicada. Ela tem ao colo o seu Filho; é a Mãe que acaricia, que agrada seu Filho. Há nisso uma espécie de contrário harmônico com o porte d’Ela.

Ela, na fisionomia e na Criança que tem na mão, apresenta algo de extremamente delicado. Como ligar essa delicadeza com a impressão forte de energia, que o resto todo suscita? É ou não é verdade que há uma diferença que não é uma contradição, é uma diversidade harmônica? É agradável olhar para tanta delicadeza tendo ao fundo tanta força. E ainda podemos procurar aí uma nota de unidade: é a Mãe que com força defende aquilo que lhe é caro; é a alma forte que defende os sentimentos delicados que tem; é a força na luta em defesa da delicadeza. Entre a força e a delicadeza há um contraste, mas que magnífico contraste! A delicadeza é quase a razão de ser da força; a força é a defesa da delicadeza. Como é bonito ver a força e a delicadeza reunidas nesta imagem, e como essas ideias de força e delicadeza se repetem!

Brancura nívea na qual Deus transparece

Em qualquer hora do dia, a primeira impressão que a imagem me causa é de um branco de uma brancura tal, que se diria que ela é feita de uma matéria que não é bem da Terra. É uma brancura para a qual convém um adjetivo um pouco pretensioso que, por algo, poder-se-ia chamar de onomatopaico e que se presta bem – a língua portuguesa tem coisas dessas – eu diria que ela é de uma brancura nívea. O que não quer dizer só a brancura de neve, mas o “níveo”, com este “i”… no caso a letra “i” tem qualquer coisa dessa brancura, e o “níveo” exprime bem esse tipo de brancura. Brancura nívea.

Fotos: Arquivo Revista
Dr. Plinio com os membros do grupo da Venezuela, diante da imagem de Nossa Senhora de Coromoto, em 28 de agosto de 1989

E à noite, sobretudo, se tem a impressão de estar em presença de um material que teria vindo da lua. Não da lua dos exploradores, mas da lua da arte. E que essa brancura indica a essência divina e extraterrena do personagem. Claro, Nossa Senhora não tem essência divina, mas está penetrada da graça de Deus, saturada da graça, Deus vive n’Ela de todos os modos. Então, uma transparência de Deus que esta brancura nívea realça inteiramente.

Naturalmente, à noite, esse resplendor se acentua mais, porque a brancura não é só o que contrasta mais com as sombras – o que é um comentário verdadeiro, mas evidente –, mas é outra coisa: tem-se a impressão de que, na luz do dia, o mármore reflete a brancura e, na luz da noite, a brancura mora como uma luz dentro da matéria, de maneira que se a apertássemos sairia luz em estado líquido, como se houvesse ­eflúvios de luz dessa cor morando ali, e a própria psicologia de Nossa Senhora – imaculadíssima, puríssima, toda feita de habitar nesse níveo – fosse uma espécie de substância que habita na imagem; porque a Santíssima Virgem mora num Céu níveo, onde o diapasão de todas as coisas é esse.

É, a meu ver, a primeira nota de majestade e de grandeza que d’Ela emana: é a participação num outro mundo e a presença dentro d’Ela de uma vida divina que ninguém tem e que A coloca fora de comparação e confronto com qualquer coisa.

Toda voltada para os valores celestes, e, ao mesmo tempo, para quem está diante d’Ela

A partir dessas impressões, e realçadas pela luz noturna, começam então outras: a sensação de que Ela tem consciência, de que está estável porque resolveu fixar a sua posição neste local, e esse estável está ligado à imagem pelo seguinte: a posição, a atitude toda é de muita calma, de quem não tem pressa nenhuma e de quem está se sentindo perfeitamente bem. O tempo não existe, é para passar séculos sentada assim. É propriamente o que se pode chamar de felicidade de situação.

De outro lado, tem-se a impressão de que Ela tem uma dupla atenção: uma para os valores internos d’Ela e celestes, e outra atenção minor para quem está diante d’Ela. Ela está toda posta em solicitude para quem está na frente. Sendo tão superior, tem-se a impressão de que Ela não nota porque não quer notar a extrema inferioridade de quem está diante d’Ela. Mas Ela nem faz a comparação e, com isso, eleva a pessoa à categoria d’Ela.

Não há uma análise de quem está na frente d’Ela: “Você tem ­culpa, você não tem, você é bom, você é ruim”, mas há uma pergunta: “Você existe e, portanto, Eu tenho misericórdia. O que você quer?” E, por causa do olhar e de uma pequena propensão da cabeça para a frente, essa pergunta é dirigida de tal maneira, que se tem a impressão de que Ela é toda atenção.

Incompatível com pedidos ruins

Ela possui um senso moral firmíssimo, de maneira que não seria possível pedir diante dessa imagem uma coisa que não fosse boa. Nota-se que Ela perdoa qualquer mal, mas que Ela não atenderia a pedido ruim nenhum. Isso seria de uma incompatibilidade com Ela completa e a pessoa ficaria fulminada, causaria horror, o que é outra nota da majestade d’Ela. Conscientemente, altamente rejeitante, porque Ela é feita exatamente desses extremos harmônicos, que constituem a beleza, a perfeição da imagem.

Fotos: Arquivo Revista
Dr. Plinio diante da imagem de Nossa Senhora de Coromoto, em 1988

Coisas tacanhas são também contra a majestade d’Ela, embora uma pessoa pudesse pedir a Ela, com alguma razão, uma coisa muito pequena. Vamos dizer, por exemplo: “Minha Mãe, eu estou tão cansado, eu gostaria de encontrar um táxi…” Eu tenho a impressão de que se faria um pedido que seria agradável a Ela. Quer dizer, todos esses pequenos favores pessoais poderiam ser pedidos.

Caráter virginal e delicadeza dos traços

E onde se nota a misericórdia? Eu acho que ela se afirma no caráter virginal e na extrema delicadeza dos traços. A extrema harmonia de cada traço, um com o outro. São muito harmônicos, muito bem apanhados.

Ela é hierática como uma estátua medieval, mas com qualquer coisa de sumamente acessível. O pouco de cabelo e o manto que descem da cabeça; o drapeado muito amplo, muito bonito, muito majestoso… ele tem qualquer coisa de toga de juiz, de magistrado e de manto de rainha. Ele indica a abundância, mas também um à vontade em que Ela fica. Ela tem poder para ficar assim, queiram ou não queiram, façam ou não façam, liguem ou não liguem, Ela tomou conta do lugar e Ela ficará. Ela é verdadeiramente uma Rainha.

Nesse sentido, excetuando a imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima, esta imagem é, de longe, a mais expressiva das que nós temos, de não poder sofrer ­comparação com nenhuma. Eu respeito muito todas as outras imagens que possuímos: a do Oratório – Imaculada Conceição –, a de Nossa Senhora Auxiliadora, a imagem que está na Sala da Tradição – Nossa Senhora do Carmo –, a da Sala do Reino de Maria – Nossa Senhora de Paris –, mas nenhuma dessas possui esse conjunto que tem esta aqui.

Fotos: Arquivo Revista

Eu acho certo parentesco entre a imagem de Nossa Senhora Auxiliadora, da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, e esta de Nossa Senhora de Coromoto. Mas acho que aquela tem – ao menos para mim por causa daquele episódio conhecido1 – qualquer coisa de indelével, como uma alta expressão de auxílio e de ajuda; e esta aqui é mais completa.

Esta seria a descrição da imagem. Agora viria uma exclamação: eu tenho a impressão de que, de momento, a única exclamação seria: “Nívea!” E isso como começo, porque são tantos os aspectos que esta imagem contém, harmoniosamente, ­equilibradamente, que se eu dissesse: “Ó Mãe nívea, ó Rainha nívea…”, tudo isso caberia; mas evidentemente há qualquer coisa que está dito no “níveo” que precisaria ser mais bem explicitado e que domina tudo o que foi dito… Talvez fosse a harmonia suprema e nívea de tudo quanto há em Nossa Senhora, a obra-prima da Criação.

O timbre da palavra “nívea”

Eu não sei se para todos a palavra “nívea” soa como para mim; ela me diz enormemente! Nívea: alvura cor de neve, especial.

Há uma palavra que é parecida com o “níveo”: alvinitente. Mas eu julgaria meio empolada, errada; acho que ninguém aceitaria e nem eu a proporia. Seria preciso limar mais as palavras, mas eu creio que dizer harmonia nívea, régia e maternal exprimiria um pouco mais o total do que queremos.

A exclamação deveria começar por “nívea”, embora, para tomar um ar poético, devesse ser assim: “Ó nívea, régia, suprema e maternal, transcendente!”

Um exercício de transcendência ao analisar a imagem

Esta imagem se presta muito para a transcendência, pois o próprio da transcendência é algo que existe absolutamente em Deus e é, ao mesmo tempo, muito parecido com tudo o que conhecemos e inteiramente diferente de tudo quanto conhecemos. Ou, exprimindo-me melhor, é inteiramente parecido com a coisa análoga e inteiramente diferente da coisa análoga. Isso é propriamente a transcendência. Então, são esses aspectos: absoluto, parecido e inimaginável. Isso é a transcendência.

Ora, o que encanta a todos nesse “níveo” é que ele nos dá uma ideia sensível de uma condição da matéria; a condição do próprio branco, que é diferente de todos os brancos que conhecemos e que, por assim dizer, transcende todos os outros brancos. Então, ele é muito parecido com os outros brancos, mas é inimaginável. E é por essa razão que este “níveo” vale tanto para fazer uma imagem.

Fotos: Arquivo Revista
Dr. Plinio diante da imagem de Nossa Senhora de Coromoto, em 8 de setembro de 1990

Essa transcendência já estava insinuada na própria exclamação. Esse branco está para o nosso branco, mais ou menos como as coisas de Deus estão para as coisas criadas. Dá-nos a impressão de qualquer coisa da luz incriada.

A matéria de que é feita a imagem toma, debaixo da luz, um aspecto que cria a ilusão de que ela está para a matéria comum numa relação de transcendência, de maneira que ela tem predicados análogos à matéria comum, mas, ao mesmo tempo, diversos.

Uma vida inconcebível sem a misericórdia

O índio Coromoto foi o homem do “rio chinês”: Nossa Senhora fez um milagre, ele deu a Ela todo o contentamento, toda a alegria e depois A abandonou, tornou-se inimigo d’Ela. Ela venceu, convertendo-o à última hora. Mas, muito mais do que isso, sem comparação, este foi o ponto de partida de uma lição para o mundo inteiro.

Nós devemos pedir a Nossa Senhora que nos dê a compenetração dessa misericórdia. Que Ela nos faça compreender que nossa vida espiritual não anda sem o concurso da misericórdia d’Ela. E que receber a misericórdia não é para o homem nenhuma vergonha; antes é um benefício muito grande, que condiz completamente com a nossa condição de criaturas e também com a nossa condição de pecadores. E nós não teríamos nenhum direito a essa misericórdia.

No aceitar a misericórdia, há uma manifestação de humildade, há uma manifestação de reconhecimento das próprias faltas e do próprio nada, que é indispensável para agradar a Deus. Nenhum Santo há que não esteja no Céu por misericórdia de Deus, da qual Nossa Senhora é a dispensadora. Todas as misericórdias passam por Ela.

Ao encerrar estas considerações, sugiro que tenhamos esta intenção especial: em primeiro lugar, que sejamos objeto das larguíssimas misericórdias de Nossa Senhora; em segundo lugar, que recebamos a graça de ter essa confiança na misericórdia d’Ela, essa dedicação, esse apego à misericórdia d’Ela que faça com que, para cada um de nós, a vida seja inconcebível sem essa misericórdia. Que nós não compreendamos um passo na vida, um instante de nossa existência, a não ser em função da misericórdia de Nossa Senhora.

1) Trata-se da graça recebida quando menino, entre 10 e 11 anos, quando estava passando por uma provação por causa de uma rasura que fizera num boletim do colégio.

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