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Regina Angelorum

Está nos hábitos de Deus fazer coisas ótimas e depois criar um filão magnífico dentro do ótimo. Tomemos, por exemplo, dentre os animais, o reino dos gatos. Há gato de todo gênero, mas no meio há o angorá, sedoso, maravilhoso, único, incomparável!

Se isso existe entre os gatos, existirá também entre os homens? Um filão de almas que Ele ama especialmente, gratuitamente, e ao qual, de modo especial, Ele dá um chamado, um dom, um requinte, por assim dizer, de deixar todos os Anjos de boca aberta no Paraíso?

Deus quer o entrelaçamento entre o mundo angélico e os homens

A Criação é um todo, não há dois mundos fechados, os Anjos de um lado e os homens de outro. O mundo angélico e o mundo dos homens se entrelaçam, e Deus deseja que eles se comuniquem; os Anjos ajudam, regem e protegem os homens. Nós devemos ocupar no Céu – se até lá nos levar a misericórdia de Nossa Senhora – os lugares que os anjos malditos não ocuparam porque foram precipitados no Inferno. Nós devemos, por assim dizer, estar misturados na glória dos Anjos, que é muito superior à nossa por muitos lados.

André Thévet (CC3.0)
Pseudo-Dionísio

A hierarquia angélica

No Céu, existem três grupos de coros de Anjos e cada um deles com três coros. São eles: Serafins, Querubins, Tronos; Virtudes, Potestades, Dominações; Principados, Arcanjos e Anjos.

Há uma relação entre Querubins e Serafins que é uma verdadeira maravilha. Quanto mais alto, mais bonito o relacionamento interno entre esses coros.

O primeiro grupo contempla diretamente a Deus. Não vê a Deus inteiro, mas vê tudo o que é capaz de ver em Deus e tudo quanto são capazes de ver os que estão abaixo.

Nesse conjunto, os Querubins e os Serafins são mais contemplativos; os Tronos ainda são inteiramente contemplativos, mas um tanto voltados para a ação. Eles dominam e, por isso, são chamados Tronos. Eles dirigem um verbo para a categoria intermediária – as Dominações, as Potestades e as Virtudes –, para usar uma expressão humana, eles transmitem uma ordem que é o leitmotiv1 da ação. Como uma gota de estalactite que cai e vai formar uma estalagmite e, a partir disso, as estalagmites vão crescendo até as estalactites, assim é o trânsito dos Tronos para os Anjos das categorias intermediárias.

Os Anjos intermediários cuidam, nos vários graus, dos vários níveis da ação diretiva, e os outros Anjos, de vários níveis da ação executiva.

A hierarquia eclesiástica, um reflexo da hierarquia celeste

Segundo esse critério, é muito bonito analisar a Igreja Católica como um todo, a riqueza da contemplação e de todos os vários graus de diretrizes que existem nela. A tal ponto que o Pseudo-Dionísio diz que a hierarquia na Igreja é modelada segundo a hierarquia celeste.

Ao longo dos séculos, a Igreja instituiu a hierarquia eclesiástica na imitação da hierarquia celeste. Ela a instituiu assim pelo princípio da transmissão, segundo o qual as criaturas transmitem necessariamente, nessa ordem, as coisas. Nós chamamos a isso de princípio de transição harmônica, e o Pseudo-Dionísio chama de princípio de transmissão.

Por esse motivo nós podemos ver a Igreja Católica enquanto contemplativa, por exemplo, nos camaldulenses, e assim todos os vários graus da Igreja em comparação com esse elemento angélico.

Estudar as inter-relações entre os seres, isso é ver o unum.

Podemos também tomar a figura de um católico característico e verificar de que maneira na alma dele esses três elementos se realizam. Porque esse é um critério para conhecer qualquer alma e o “thau” de qualquer pessoa. Estudado isso em determinada alma, estudar as inter-relações, e aqui está o bonito: não é tanto estudar o aspecto contemplativo, ou diretivo, ou executivo, mas como se inter-relacionam o contemplativo com o executivo e o diretivo, e o executivo-diretivo com o executivo-executivo. Quando se vê a articulação dessas três partes entre si, aparece um fundo do unum.

Em síntese: qualquer alma tem esses três elementos, e eles são bonitos de olhar não só, nem principalmente cada elemento em si, mas a sua inter­-relação.

Para se conhecer o “unum” da alma humana

O ponto final da doutrina é o seguinte: decompor os aspectos da alma nesta ordem hierárquica é estudar as relações entre os ­vários ­aspectos dela; depois de estudá-las, analisar as relações entre si; isso é ver o unum. Ele é o píncaro do castelo das relações.

Francesco Botticini (CC3.0)
Assunção de Nossa Senhora – Galeria Nacional de Arte de Londres

Ou seja, a relação primeiro-segundo-terceiro coros de Anjos internamente é feita de três grupos de relações, dentro de cada um. Há depois uma relação de relações que é a relação dos grupos entre si, e não com os seus elementos internos. Relação, portanto, do primeiro coro de três grupos, com o segundo coro dos três grupos, depois do segundo com o terceiro e do primeiro com o terceiro.

Quando se examina de alto a baixo essa hierarquia, o que é cada Anjo, vê-se que todos eles são, a seu modo, uma síntese dela. Portanto, é uma condição inerente ao ser espiritual constituir, cada um a seu modo, uma síntese dessa hierarquia. Absolutamente, nenhum deles é a síntese. Eles são, cada um deles, como que um reflexo e, nesse sentido, síntese de tudo. Tanto é assim que cada um deles vê Deus face a face.

Feito o estudo de baixo para cima – relação de cada um dos três setores angélicos dentro de um coro, depois os três coros angélicos –, tem-se um todo do universo angélico. É uma relação de relações, porque o primeiro elemento é relação e o resto é a relação das relações. No auge dessa relação de relações tem-se um unum.

Com os homens não há coros, mas há os aspectos internos na alma. Como toda alma humana, em alguma medida, espelha algo de tudo isso, se alguém quiser conhecer o unum de uma alma humana, faça decomposição e recomposição, e terá caminhado em algo para o conhecimento do unum dessa alma.

Acredito que propriamente a síntese de todos esses coros angélicos é Nossa Senhora, a Regina Angelorum. E quando se diz que Ela é a Rainha dos Anjos, apesar de Ela ser mera criatura, como era esse reflexo n’Ela?

O requinte: superação da ordem posta pelo próprio Deus

Deus, ao fazer a ordem, faz algumas coisas que, superando a ordem, parecem contestá-la, e que têm uma forma e um tipo de esplendor e de beleza quase desconcertantes e cuja consideração, Ele, por assim dizer, reserva para Si e para almas muito eleitas que Ele quer associar ao conhecimento disso. Não são caprichos d’Ele, porque a sabedoria d’Ele não tem caprichos, mas são os requintes d’Ele.

Deus faz algumas coisas que têm uma forma, um tipo de esplendor e de beleza quase desconcertantes. Não são caprichos, são os requintes d’Ele…

E disso é bem um exemplo o ter criado o gênero humano e colocado uma pura criatura, e ainda mais, feminina, como Rainha dos Anjos. Colocou-a acima da ordem angélica prodigiosa, porque Ele quis dar algo que, de si, não caberia naquela natureza. Mas Ele daquilo faz um charme, que seria, por assim dizer, uma ­ilegalidade, a qual propriamente é, ao lado do esplendor da ordem, um superesplendor, e que é o charme dentro da ordem, é o encanto, o empolgamento dentro dela, o inesperado.

É o inesperado, é o desconcertante. Gratuito e desconcertante. É porque Ele quis e porque quis fazer daquele jeito. É por esta forma que Ele dá a entender que n’Ele há outras coisas que nós ainda não divisamos, e que percebemos que estão no reino do possível.

Ele como que nos diz o seguinte:

— Eu fiz esta maravilha, entenda-me. Eu seria capaz de “n” outras maravilhas, compreenda-me. A união hipostática, você nunca a imaginaria! Aqui está ela, e agora veja com quem Eu me uni e o que aconteceu.

Podemos então facilmente conjecturar qual é o auge, qual é a perfeição de santidade que tem Nossa Senhora.

Como todas as regras se confirmam n’Ele! Mas de outro lado, que terrível e admirável exceção a todas as regras e que mistério dentro d’Ele! É aqui, nesta espécie, que é ao mesmo tempo um sol e uma montanha que vela o sol, que se encontra propriamente o paraíso d’Ele.

Flávio Lourenço
Padres da Igreja Latina: São Gregório, São Jerônimo, Santo Ambrósio e Santo Agostinho – Igreja de Santa Maria Maior, Trento, Itália

Podemos então facilmente conjecturar qual é o auge, qual é a perfeição de santidade que tem Nossa Senhora, e como essa perfeição excede a tudo quanto nós podemos imaginar.

Pináculo de toda a Criação

Como Nossa Senhora tem uma natureza humana igual à nossa, pela sua própria natureza Ela não teria mais poderes sobre os astros ou sobre os homens do que nós temos. De maneira que, para Ela ter o reinado de todo o universo, Ela precisa ter a graça de Deus. É exatamente enquanto ponto de convergência de todas as graças de Deus que Ela é, portanto, Rainha.

Quando se diz que Ela é a Rainha, não significa apenas que Ela tem o mando, mas que Ela tem a superioridade sobre seus súditos que convém a uma rainha em relação àqueles a quem ela governa.

A palavra Rainha, nessa ordem de coisas, não significa uma pura potência representativa de decoro ou potência governadora. É também isso, e é eminentemente isto: Ela dirige o coro dos músicos celestes, Ela movimenta isso que se poderia chamar o “mecanismo” da interação dos Anjos uns com os outros, Ela dirige, segundo a vontade de Deus, essa movimentação e essa luta dos Anjos bons e dos anjos maus em torno de toda a face da Terra. Deus manda este ou aquele Anjo proteger este ou aquele Santo, e os Santos fazem coisas extraordinárias pelas orações dos Anjos, pela ajuda que estes lhes prestam de todas as maneiras e pelas graças de que os Anjos são os intermediários, sob a direção d’Aquela que é a verdadeira, única e suprema rainha da Contra-Revolução abaixo de Deus, que é Nossa Senhora.

Mas é mais do que isso. É algo cuja santidade abarca tudo de um modo inimaginável. Nossa Senhora está para além dos mais altos Serafins! Toda a corte celeste junta não pode comparar-se a Nossa Senhora, de tal maneira Ela é o pináculo da Criação.

Exemplo de uma suavidade levada ao extremo

Alguém poderá dizer: “Mas, uma vez que Nossa Senhora faz ­toda a vontade de Deus, que diferença há entre Deus governar e Nossa Senhora governar? Há uma pequena diferença. Lembro-me de que, no encerramento de uma Semana de Estudos, eu dei este exemplo:

Deus, para levar sua suavidade ao último ponto, entregou o reino do gênero humano a Nossa Senhora.

Flávio Lourenço
Nossa Senhora dos desamparados – Basílica de Nossa Senhora das Mercês, Barcelona

Imaginem um diretor de colégio que briga com os alunos. Os alunos são indisciplinados, ele os vence, mas depois, para amainar um pouco as coisas, ele se retira durante algum tempo e deixa sua mãe dirigindo o colégio, para a mãe, com a suavidade feminina, ajeitar a situação, consertar, cicatrizar muitas feridas etc. A mãe faz, no governo, aquilo que ele não faria, embora ela fazendo o que ele não faria, ela faça o que ele está querendo dela.

Assim é Nossa Senhora com os homens. O gênero humano foi dado a Nossa Senhora para Ela governá-lo, para que Ela possa pôr uma suavidade que Deus, como Juiz, acabaria não podendo pôr tão inteira. Então, para levar sua suavidade ao último ponto, Ele entregou o reino do gênero humano a Nossa Senhora. Mas, como esse gênero humano está integrado em todo o universo, Ele entregou-Lhe todo o universo para governar. Nossa Senhora, a obra-prima de toda a Criação, é a Rainha de todas as criaturas.

É por meio d’Ela que Ele reina

Sendo, portanto, Rainha da Criação, Nossa Senhora, pela sua dignidade de Mãe de Deus, Mãe santíssima e augustíssima de Nosso Senhor Jesus Cristo, fica acima dos seres que poderiam ter sido criados e não foram. Ela é, portanto, a Rainha dos possíveis, com o necessário desconto: como os possíveis parecem ser uma terra que não tem ápice, não vamos pôr um ápice nessa terra, mas Ela tem que ter algo que A coloque numa posição supereminente até no próprio reino dos possíveis e, portanto, essa mera ideia comum de Rainha do criado é uma ideia pobre e insuficiente para o que nós pensamos de Nossa Senhora.

Portanto, vejamos todas as riquezas que se desprendem dessas considerações: Nossa Senhora tem em Si todas as realezas que Deus Nosso Senhor pôs em suas mãos. É por meio d’Ela que Deus exerce a realeza d’Ele. De maneira que nossa posição de cortesão de Nossa Senhora no Céu é uma posição incomparável.

Há uma razão que me leva especialmente a achar isso: eu era meninote, rapazinho, antes de ler o Tratado de São Luís Grignion, e percebia em mim uma propensão muito vincada pela devoção a Nossa Senhora. Eu pensava: “Quando eu chegar ao Céu, eu quero pertencer à corte de Nossa Senhora. Eu sei que das cortes, a principal é a do rei, e que a rainha-mãe tem uma ‘cortesinha’ própria, secundária, meio murchinha, feita de algumas fidalgas velhas, alguns gentis-homens gastos etc. E que, em comparação com a corte de Deus, que merece tudo, a corte de Nossa Senhora deve ser colateral. Não sei o que há em mim que eu digo: Está bem, se eu tiver que ir para uma corte colateral no Céu, eu quero aquela, mas onde Nossa Senhora estiver, é lá que eu quero estar!” Então, vinha a objeção: “Mas você perde alguma coisa da visão direta de Deus etc.”, a que eu respondia: “Isso eu não sei, eu quero estar onde Ela estiver, o ­resto se explica depois. Enfim, eu não sei como é… Sei que meu lugar é lá”.

Depois eu percebi, pela doutrina católica, que Nossa Senhora não é a Rainha-mãe dos Céus, mas Ela é a Rainha por excelência do Céu.

Mistério a desvendar…

Se Ela é a Rainha dos Anjos, Ela tem que ter de um modo supereminente uma vinculação com eles tal, que não é tanto Ela que é assumida pelo Anjo, mas Ela que assume os Anjos, apesar de ser criatura humana.

Este é um certo mistério a aprofundar: para nós compreendermos bem a plenitude da condição de católico, qual é a relação d’Ela com os Anjos enquanto Rainha que os assumiu? O que vou dizer agora é hipotético: não se trata de uma plenitude de suficiência, porque essa um simples católico tem, mas uma plenitude de superexcelência, que seria essa vinculação angélica que Ela, como Mãe e Rainha da Igreja, tem e confere àqueles a quem Ela quer, e que se disseminaria provavelmente de um modo muito mais amplo na época do Reino d’Ela.

Este é um certo mistério a aprofundar: qual é a relação de Nossa Senhora com os Anjos enquanto Rainha que os assumiu?

Flávio Lourenço
Paraíso e Inferno – Pinacoteca Nacional de Bolonha, Itália

Aí nós teríamos um vislumbre do que é o Segredo de Maria, que não se cifra a isso, mas cifra-se em saber como é que uma criatura meramente humana de tal maneira assumiu os Anjos.

Não adianta uma pessoa me responder: “É claro, é porque é a Mãe de Deus!” Não é isso. É claro que é por causa disso, mas minha pergunta não é por que razão, mas é: “Como é?” Essa é a pergunta. Dado que Ela é mera criatura humana e que eles são Anjos, como é que se deu essa superação?

Ser esmagado por uma mulher? Seria humilhante para o demônio que um homem o aplastasse? É natural, porque ele é um anjo e sentir-se aplastado por um homem é uma coisa horrível. Agora, por isso mesmo também se sentir aplastado – por Jesus Cristo, certamente – na pessoa de Maria, que é mulher, é para ele particularmente humilhante.

Uma corte com a beleza magnífica da fidelidade

Se nós imaginarmos os Anjos todos reunidos, não só os que estão no Céu, confirmados em graça porque resistiram à tentação de Satanás e tomaram posição a favor de Deus, mas também os que estão no Inferno, mas que antes da prova estavam no Céu gloriosamente também; então, quando o número de Anjos era consideravelmente maior ainda do que o é agora, e todos luziam diante de Deus… se nós considerarmos o conjunto da corte celeste, a beleza dessa corte deveria ser extraordinária, estonteante!

Ahmet Düz, Dreiländer- & Oberrheinfotograf (CC3.0)

Hoje, a corte celeste é menos numerosa do que já foi, mas ela tem uma outra beleza: é que todos que estão lá foram fiéis! Ela tem a beleza magnífica da fidelidade, e os Anjos não vão mais ser tentados, não vão pecar, por toda a eternidade eles estão fixados na virtude e contemplando a Deus face a face. Ou seja, o esplendor da corte celeste atual, debaixo desse ponto de vista, é maior do que antes do pecado dos anjos.

Nossa Senhora, o ponto de partida do “prælium magnum”

Se Nossa Senhora fosse vista por todos os Anjos, antes mesmo de Ela ser criada, e eles tivessem conhecimento de como Ela seria, todos saberiam que Ela os eclipsaria completamente em formosura, em beleza, em virtude, em união e em intimidade com Deus. Tudo leva a crer que, quando Satanás se revoltou, uma das razões da sua revolta no Céu se deu quando isso lhe foi revelado. Deus revelou a ele, como conexão com o mistério da Encarnação do Verbo, que Nossa Senhora seria a Mãe de Deus e, portanto, Rainha dos Anjos, Rainha dele.

Os homens ainda não existiam, mas Deus contou a ele como seria um homem; foi-lhe revelado que existiriam. Ele viu que o homem seria muito inferior: com carne em vez de ser um puro espírito, e daí para fora… Por causa disso o demônio revoltou-se contra Deus. Ele ficou indignado, sobretudo porque ele viu que os Anjos teriam acima de si não só o Homem-Deus, mas uma pura criatura que não era senão criatura.

Flávio Lourenço
São Miguel combatendo o demônio – Galeria Nacional de Parma, Itália

O Homem-Deus, afinal de contas, tinha a natureza divina hipostaticamente ligada à natureza humana; mas Nossa Senhora é uma mera criatura, e Rainha dos Anjos: Regina Angelorum! Rainha, portanto, de todas as hierarquias de Anjos que Deus criou!

Colocada acima dos Anjos como Esposa do Espírito Santo

Segundo São Tomás de Aquino, os Anjos são muito mais numerosos do que os homens. E ele dá para isso uma imagem que facilmente pode ser compreendida.

A extensão ocupada pelas franjas do tapete é muito menor do que a ocupada pelo centro do tapete. São Tomás diz que num tapete bem ordenado, segundo a natureza das coisas, a franja ocupa uma extensão menor, porque ela vale menos do que o restante do tapete. Todas as coisas excelentes têm em abundância maior as qualidades mais excelentes. E um tapete excelente tem que ter muito mais corpo do que franja. Donde ele conclui que a Criação de Deus tem muito mais Anjos do que homens. Este é um raciocínio muito bonito.

Regina Angelorum é Nossa Senhora da onipotência e dos imprevistos bons.

Então podemos imaginar a cena no Céu: miríades de Anjos escalonados hierarquicamente e cantando a glória de Deus. À frente deles, um chamado Lúcifer – porque trazia consigo o facho da luz –, o mais belo, o mais próximo de Deus, o mais querido… Mas ele era, no fundo, um “ingratão”. Deus, revelando a ele que o Verbo Se encarnaria e que, além do mais, a Mãe desse Verbo seria a esposa do Espírito Santo e seria maior do que todos os Anjos, uma revolta: “Não quero!”

Os Anjos entram numa espécie de colóquio: alguns bradam como São Miguel “Quem é como Deus?”, e outros dizem que não querem obedecer. Daí uma grande guerra nos Céus que resultou na precipitação de Satanás e dos anjos malignos no inferno.

Rainha dos Anjos, Senhora da onipotência e dos imprevistos bons

Eu acho que seria muito boa coisa se desenvolvêssemos a devoção a Nossa Senhora dos Anjos, Regina Angelorum. Nossa Senhora dos Anjos é Nossa Senhora da onipotência, Nossa Senhora dos imprevistos bons.

O reinado de Nossa Senhora é o reinado das súplicas que Ela faz e do valor das orações que Ela oferece. “O espírito é pronto, diz Nosso Senhor, a carne é fraca” (cf. Mt 26, 41), é preciso que Nossa Senhora robusteça nosso espírito. E, para isso, nós precisamos da ajuda daqueles que são puros espíritos: os Anjos!

Se é verdade que Nossa Senhora age por meios dos Anjos, e que Ela manda exércitos inteiros deles em socorro de certas almas, é razoável, desde já, pedir muito a Ela que mande seus Anjos à Terra para agir sobre nós, para nos livrar de nossos defeitos, para nos proteger contra o pecado, para nos ajudar em nossa luta espiritual, em nossas dificuldades de todo dia, em nosso apostolado, para lutarem do nosso lado! Assim como a Terra está cheia de demônios que lutam do lado de lá, se Satanás está mandando seus agentes, então está na glória de Deus que Ele não venha lutar diretamente, mas que mande seus agentes também! Portanto, nosso pedido deve ser este.

Que Nossa Senhora robusteça nosso espírito e envie à Terra seu exército tão completo quanto possível.

É só isso? Os tronos dos anjos que caíram estão sendo preenchidos no Céu, gradualmente, pelos homens que vão se santificando. Então, nós devemos pedir a Nossa Senhora que não mande um exército incompleto à Terra, mas que Ela mande o seu exército tão completo quanto possível. Ou seja, que Ela o envie com todos os Santos que estão no Céu. Assim, peçamos: Regina Angelorum et Sanctorum Omnium, festina et emitte de cœlo, auxilium tuum, amen! O que significa dizer: “Apressai-vos e enviai do Céu a vossa ajuda”.

Aí nós estaremos bons para resistir quando vierem as infestações do demônio. Elas marcam e machucam mais do que todos os tormentos dos homens, mas Nossa Senhora vencerá mandando seus Anjos para ajudar os fiéis que Ela tem aqui na Terra.

1) Do alemão: fio condutor.

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