Populares da semana

Relacionados

Alma admirativa, de bondade extrema

Nunca um movimento de vaidade ou apego, profundamente admirativa, assim era Dona Lucilia na ancianidade; a serenidade era uma nota tônica, cheia de reflexão, fruto de toda uma vida.

Desde muito pequeno, entre outras coisas, eu admirava em mamãe a serenidade muito grande que ela difundia em torno de si. Naquele tempo não saberia explicitar, porque uma criança com três ou quatro anos não tem os instrumentos verbais para exprimir as ideias que vão se formando na cabeça. Mas eu sentia um bem-estar extraordinário perto dela, levando em consideração essa calma que se notava vir de toda uma vida, do passado inteiro dela, e que se prolongava e duraria até o fim de sua existência, como constatei quando ela faleceu.

Arquivo Revista
Dona Lucilia em janeiro de 1959

Monumental serenidade no transe da morte

O último ato que ela teve antes de morrer foi este: ela estava com noventa e dois anos e com uma doença cardíaca adiantada – banal em pessoas idosas dessa idade – e, por isso, com dificuldade de respiração. Ela compreendia que a qualquer momento podia morrer, porque se a respiração encalha, morre-se. E sabia bem, também, que se ela mandasse me chamar para assisti-la, eu iria imediatamente. Entretanto, a noite anterior à sua morte ela a passou quase toda acordada, com um incômodo maior do que a dor, que é a falta de ar. Ela não pediu para me ver nenhuma vez, não me chamou.

Quando, afinal, clareou o dia, era mais razoável que ela me chamasse. No entanto, eu estava me restabelecendo de uma crise de diabetes fortíssima, eu quase havia morrido. E ela tinha preocupação de não me incomodar e, sobretudo, não queria que eu assistisse à sua morte para evitar o trauma que isso me poderia causar; porque é sabido que os diabéticos sofrem muito com acontecimentos assim.

Em certo momento, chegou a hora, ela sentiu que morreria. Com toda a serenidade fez um grande Nome do Padre e morreu. Foi o fim de uma longa serenidade, mas uma serenidade que tinha ao mesmo tempo qualquer coisa de monumental, que eu não saberia descrever.

Arquivo Revista
Dona Lucilia um mês antes de seu falecimento

Esfriando no afeto, por amor ao filho

Há em minha casa, numa salinha cor de rosa, um quadro que representa a mãe dela.1 Era uma senhora excepcionalmente bonita. Mamãe não era uma pessoa bonita nem monumental como minha avó, mas possuía uma grande serenidade e era cheia de reflexão, profundamente refletida.

Ela refletia sobre todas as coisas a fundo, serena e seriamente. De maneira que a respeito de qualquer coisa ela tinha algo a dizer, que era muito bom, muito bem pensado, muito ponderado, e era dito com inteiro desapego. Nunca notei nela o menor movimento de vaidade, de apego a respeito do que dizia. Ela falava com calma, nunca se apressava e nunca era vagarosa demais. Era como um rio que corria sem tropeço, mas com normalidade; ela se exprimia com uma voz muito carinhosa, até aveludada; dizia às vezes coisas duras de ouvir, porque era seu dever dizer. Mas dizia tão bem que quando ela, a mim, dizia coisas duras, censurando-me por defeitos, eu ficava encantado e desejoso de que ela censurasse mais, pelo prazer de ouvi-la, de tal maneira eu tinha encanto por ela.

Quando ela fez talvez uns oitenta anos, notei que algo no seu modo carinhoso de me tratar estava mudando um pouco. Até então, desde pequeno, ela me tratara como a pessoa a quem mais queria bem na família, a ponto de os familiares brincarem com ela de todos os modos, dizendo ser isso excessivo. Ela não se incomodava e continuava do mesmo jeito.

De repente, isso diminuiu. Depois eu soube, por um dito dela, que ela estava reduzindo as manifestações de afeto porque percebia estar já muito idosa e a morte estar se aproximando, e eu sentiria demais a falta dela se esse afeto mútuo fosse tão grande. Ela preferia que isso declinasse um tanto para que a ausência que eu sentisse dela fosse menor.

Não sei se chego a exprimir bem todo o desapego que ia a ponto de me deixar pensar que ela estava esfriada no afeto para comigo! É um requinte difícil de imaginar!

Amabilidade materna no convívio com todos

Até ela morrer eu não recebia quase ninguém do Grupo em casa, porque recebendo um, tinha que aceitar outro, e depois outro, e encheria minha casa de gente, e a casa era dela, existia para ela. E não seria natural que ela vivesse cercada de tantos rapazes, por melhores que fossem. Há um certo isolamento próprio à pessoa idosa, sobretudo quando é senhora, e que faz parte da dignidade de uma casa de família.

Arquivo Revista
Hall de entrada do apartamento de Dr. Plinio

Contudo, quando tive o acesso de diabetes, os membros do Grupo, independentemente desse hábito de não irem em casa, começaram a frequentá-la. Julguei natural, porque eu estava muito doente, e até era agradecido a essas manifestações de carinho. Foi então que eles entraram em contato com Dona Lucilia, começando a apreciá-la enormemente.

Os médicos tinham marcado para eu receber visitas em determinadas horas do dia, fora disso não podia acolher ninguém. Era natural que eles começassem a chegar entre os horários estabelecidos e depois fossem embora. Ora, o que aconteceu foi que nesse período eles enchiam a casa, mais para vê-la do que para me ver, porque ela constituiu uma espécie de descoberta para eles.

E ela, muito amável, mandava servir para eles doces, biscoitos, essas guloseimas que as senhoras têm sempre em casa. E depois, começava a ter cuidados com eles que, em geral, as senhoras não têm para com os que não são da família. Por exemplo, no hall a iluminação é um pouco escassa e, passando por lá, ela viu dois que faziam leitura; ela andava de cadeira de rodas nesse tempo. Chegando ao quarto, ela mandou a empregada voltar lá a fim de dizer aos rapazes que ela receava pela vista deles se ficassem lendo ali, e que se dirigissem ao salão de visitas, acendessem as luzes e lessem o que quisessem. E tinha uma série de pequenas atenções assim. Isso os encantava.

Arquivo Revista
Escritório de Dr. Plinio no Primeiro Andar

No período reservado às visitas, entre os visitantes calculados estava ela. Era natural que ela quisesse estar numa parte desse período a sós comigo, mas eles não se davam conta e iam para o meu escritório, onde eu ficava reclinado num sofá; e mamãe sentada numa cadeira ao meu lado… Ela arranjava um jeito de sair um pouco antes de terminar a hora, e quando a sala esvaziava, ela voltava!

Ela não me dizia nada, mas eu percebia o joguinho dela e, naturalmente, o protegia em toda a linha. Era a única coisa que ela fazia, e não mais do que isso. Era o comprazer-se com os rapazes, achá-los muito bons, mas querer reservar um pedacinho do filho único dela para si mesma.

Chegado o momento de ela também sair, a enfermeira dizia:

— Dona Lucilia, está na hora.

Ela dizia, às vezes:

— Não, não está.

— Está sim.

Ela não tinha nenhum relógio. No apartamento havia um desses que se coloca em cima das mesas e das estantes, mas ela não podia enxergá-lo pelas vistas muito diminuídas.

Dizia ela:

— Eu aqui com o Plinio sinto que a hora não acabou.

Eu dizia:

— É claro que não acabou, mas é claro!

Ora, em tudo isso ela tinha uma certa medida, porque depois, daí a pouco, a enfermeira dizia:

— Dona Lucilia, agora está na hora.

Ela dizia:

— Agora chegou a hora mesmo.

Despedia-se e ia para seu quarto.

Sozinha, um embaraço durante a noite

Conto um episódio muito íntimo, mas extraordinário.

Arquivo Revista
Dona Lucilia em Paris

Para manter a respiração bem, mamãe não se deitava de um modo inteiramente horizontal. Ela mandava pôr nas costas vários travesseiros de tamanhos diferentes, os quais ela graduava, de maneira que ora punha um travesseiro, ora punha outro.

Uma noite a enfermeira dela bateu à porta de meu quarto, contíguo ao de mamãe:

— Dr. Plinio, venha ver um pouquinho onde Dona Lucilia está…

Perguntei:

— Houve algo com a saúde dela?

A enfermeira respondeu:

— Não, mas venha ver.

Eu a encontrei no chão, tentando colocar os travesseiros na cama para depois ela mesma reerguer-se. Dormindo, ela havia rolado da cama, e aquele edifício de travesseiros tinha rolado também. Não querendo interromper o sono da enfermeira, ela fazia um esforço enorme, apesar da falta de respiração, a fim de conseguir repor os travesseiros para depois ela mesma voltar à cama.

Eu acho que poucas pessoas teriam esse gesto e, no primeiro embaraço, chamariam a enfermeira, é claro! Ela estava lá, era paga para isso!

Eis alguns fatinhos que me levavam a admirá-la tanto.

Aprendendo a compreender pela admiração de mamãe

Outro aspecto bonito era o modo pelo qual ela admirava as coisas.

Em 1914 ela esteve sete meses na Europa e fez ali uma operação gravíssima de vesícula biliar. Naquele tempo era uma cirurgia dificílima, hoje é banal; mas ela saiu-se bem.

Lembro-me mais dela em Paris do que em outros lugares, e lá, recordo-me bem que a atitude dela era de uma admiração constante. Ela sabia perceber a cultura francesa, o modo de ser francês, nas menores coisas. E como quem fala com criança, ela se dirigia à minha irmã e a mim: “Prestem atenção nisto, olhem para aquilo. Vejam aquilo outro”.

Eram as coisas que as crianças podiam admirar, como ela também. Por exemplo, passávamos diante de muitas lojas. Minha irmã queria parar diante de lojas que vendiam tecidos e eu, muito guloso, queria parar diante daquelas que vendiam comida.

É a índole masculina e a feminina… O mundo dos tecidos para mim é brumoso e inexistente. Mas o mundo gastronômico altamente existente!

Passando diante de uma confeitaria, eu olhava para a comida exposta e às vezes elogiava alguma coisa. Eu gostava muito de doces feitos com café; os franceses fazem doces de café de primeiríssima ordem! Se ainda não tínhamos tomado lanche, mamãe entrava para eu comer aquilo que havia admirado. Ela me fazia saborear, mas me fazia compreender a fundo: “Olha que delícia, isto é assim, de tal jeito”. Eu ia prestando atenção para sentir o gosto da coisa. E na saída eu pedia: “Posso levar alguns doces?” E sempre podia! Então, levava um pacotão para o hotel e, lá, comedoria.

Desse modo ela me ensinou a ver Versailles, o Louvre, a ver todas essas coisas e a começar a compreendê-las pela admiração intensa que ela tinha por isso tudo.

Cristian Bortes(CC3.0)
Igreja Saint-Germain l’Auxerrois, Paris

Divulgação(CC3.0)
Princesa Isabel no exílio

Um encontro com a princesa Isabel

No hotel no qual ficamos, estava hospedada uma princesa oriental; não me lembro dela, mas parece que era muito moça e bonita. Todas as manhãs tinha um cavalo parado à porta do hotel, muito bem ajaezado, para ela o tomar e ir passear no Bois de Boulogne. Mamãe a olhava e admirava…

Recordo-me também do fato de ela e minha avó terem conhecido a Princesa Isabel, em Paris. Por ser monarquista, mamãe admirava muito essa princesa, outrora Regente do Império Brasileiro, filha de D. Pedro II. Enquanto este esteve na Europa, ela fez a libertação dos ­escravos.

Mamãe contava o encontro com a princesa com pormenores cheios de admiração, sem excluir de vez em quando algum episódio engraçado que acontecia.

Ela foi com minha avó assistir à Missa na Igreja de Saint-Germain l’Auxerrois, que fica próxima ao Louvre. Antes de a Missa começar, elas viram a Princesa Isabel – que não conheciam senão por fotos – entrar no presbitério. Era o tempo antigo, no qual as princesas e os príncipes assistiam à Missa desde o presbitério.

Quando a Missa acabou, elas permaneceram certo tempo rezando e viram que a Princesa Isabel se voltou para uma senhora que estava ao seu lado, disse-lhe qualquer coisa e continuou a rezar. Essa senhora desceu os degraus e dirigiu-se a vovó e a mamãe: “A Princesa Isabel notou que as senhoras são brasileiras e mandou-me verificar quem são, porque ela gostaria de cumprimentá-las um instante”.

Tudo quanto há de mais explicável: uma atitude de quem estava exilada do Brasil que, tendo oportunidade de encontrar brasileiros, desejava conversar.

Elas, muito monarquistas, foram logo lá; aquela senhora era dama de honor da princesa, a Baronesa de Muritiba. Houve apresentações e a princesa contou-lhes que tinha conhecido meu bisavô e um tio do meu pai, o conselheiro João Alfredo, que trabalhou com ela para a libertação dos escravos. Grandes cumprimentos, e a Princesa Isabel convidou-as para tomar lanche. Como se fazia naquele tempo, convidou não só vovó e mamãe, mas a família inteira que estava em Paris.

Admirando a bondade da princesa

Na hora marcada para o lanche, apareceram várias outras senhoras levando consigo as crianças. Por quê? Fazia parte do modo de ver as coisas naquele tempo levar as crianças para encontros como esse, pois significava uma aquisição para a vida inteira poderem dizer que tinham conhecido a Princesa Isabel. Percebe-se o fio razoável disso.

Arquivo Revista
Dr. Plinio em 8 de fevereiro de 1993

Fomos umas sete ou oito crianças. Aliás, eu nem tinha exatamente ideia de quem era a Princesa Isabel, tinha quatro anos. Eu já ouvira falar de princesas e príncipes, como todo menino, mas as ideias que se faz a esse respeito nessa idade são muito incertas.

Entre as crianças estava Tito, um sobrinho de minha mãe, surdo-mudo. Ele era mudo porque era surdo, mas havia feito um curso especial e já falava torrencialmente, muito alto e com voz rouca. Não o deviam ter levado, mas com sentimentalismo brasileiro, ficaram com pena de ele se sentir inferiorizado, vendo ser o único que não ia porque era surdo. Ademais, ele percebia mais ou menos, pelo movimento dos lábios dos demais, que se tratava de uma visita à princesa. Não quiseram isso e levaram-no.

E ele estava lá no meio dos outros. Quando entrou a princesa, todos se puseram de pé e ela percorreu a roda das pessoas. A recomendação para todos nós, crianças, era beijar a mão da princesa; todos fizeram e nós também. Chegando a vez do Tito, ela não percebeu que ele era surdo-mudo, e com muita afabilidade deu-lhe a mão, mas ele disse:

— A senhora é a Princesa?

— Sim.

— Ih, não vale nada! Eu estou habituado a ver rainhas e princesas com coroa até no baralho. Onde está sua coroa?

A mãe do menino fazia sinal para que ele se calasse e dizia:

— Fique quieto!

— Não, eu digo as coisas porque elas são assim!

Não podia sair pior. Então, a Princesa Isabel com muita bondade, chamando-o de filho disse:

— Meu filho, é assim, você tem razão. Eu não tenho mais coroa! Mas sou princesa e amiga de sua avó.

— Isso não me importa, vovó não é princesa. Eu queria ver uma princesa de verdade.

A Princesa Isabel fez-lhe várias carícias até ele se acalmar, porque isso tem naturalmente algo de reação nervosa. Depois ela passou para outra pessoa.

Mamãe contava essa cena da princesa entrando na sala, todos se levantando, os cumprimentos, depois ela chegar perto do Tito e a atitude de bondade para com este. Mamãe contava tão cheia de admiração, que eu admirava a Princesa, mas ­admirava também mamãe por ver como ela ­sabia admirar a Princesa.

(Extraído de conferência de 4/2/1993)

1) Dona Gabriela Ribeiro dos Santos.

Artigos populares