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Nos perigos, desvelo e cuidado maternos

O zelo de Dona Lucilia fazia-a sumamente atenta ao filho, sendo vigilante em relação a qualquer perigo, sobretudo aos espirituais.

O desvelo de uma mãe aumenta quando aumenta o perigo, e diminui à medida que este diminui. Se o menino está brincando dentro de casa, ela toca a vida tranquila. Se a criança faz alguma estripulia, o coração materno bate e fica horrorizado, só sossega quando tudo acaba.

Numa ponte, andando do lado de fora do corrimão…

Lembro-me de mamãe me contar fatos de minha infância. Eu era um menino muito tranquilo e obediente, mas extravagante, e fazia coisas que a deixavam apavorada.

Arquivo Revista
Plinio menino

Ela me contava que uma vez fomos passar uma temporada em Águas da Prata, em São Paulo, perto da divisa com Minas. É um lugar com águas que fazem muito bem para o fígado, do qual ela sofria.

Fomos lá passar as férias, meu pai, ela, minha irmã e eu, para ela fazer uso dessas águas. E havia naquele local um rio muito pitoresco e uma ponte. Esta última era feita de madeira e tinha um corrimão de cada lado. Mas o corrimão não ficava na extrema ponta de cada tábua; havia um espaçozinho entre a ponta e o corrimão, do lado de fora.

Certo dia mamãe estava com outras senhoras conversando junto dessa ponte, quando me vê, já pelo meio da ponte, andando do lado de fora do corrimão.

Era uma ponte comprida, alta; o rio, pedregoso e impetuoso. Se eu caísse, poderia com facilidade bater em cima de uma pedra, machucar-me muito, o rio talvez me levaria, e eu seria capaz de morrer. Ela, até extremamente anciã – morreu com noventa e dois anos –, contava isso com susto, como se tivesse acontecido ontem.

Dona Lucilia refletiu e disse: “Se eu me zangar com ele, vai ficar assustado e pode cair. É melhor eu começar a sorrir como se estivesse achando muito engraçadinho o que ele está fazendo”.

Eu tinha uma verdadeira loucura por ela. Porém, não tinha noção de que estava fazendo uma coisa má, achava que era algo muito divertido. E quando a vi sorrir, eu comecei mais animadamente a andar. Quando ela me viu pôr o pé firme na terra, passou-me um pito.

Nossa Senhora está rezando por mim e me ajudará!

O susto e o perigo fazem com que o desvelo de uma mãe cresça ainda muito mais. Assim age Nossa Senhora conosco. Vendo-nos em apuros, Ela vai nos amar e ajudar muito mais.

Portanto, quando vier alguma solicitação, alguma tentação para pecar, pensemos nisto: “Minha Mãe Celeste, neste momento, do alto do Céu está olhando para mim com particular atenção e dando-me força. É como se toda a história do mundo parasse e Ela olhasse só para mim. Ainda que eu não sinta, Ela está rezando por mim e me ajudará!”

Arquivo Revista
Fotografia do passaporte de Dona Lucilia

Chegando em casa pelas quatro da manhã…

Outro fato se deu quando eu era ainda muito moço. Minha mãe tinha a ideia de que o jovem vacila mais do que o homem maduro, ou seja, pode mudar com mais facilidade e, por isso, ela receava que eu mudasse de modo de ser.

Sempre fui de deitar-me tarde. Talvez seja por alguma remota ancestralidade espanhola que eu tenho. Mas meus horários sempre foram como os da Espanha. Naturalmente, levantava-me tarde também, não tinha remédio…

Por certo, a aurora é muito bonita, mas para nós será sobretudo bonita quando amanhecer o Reino de Maria. Neste reino da Revolução no qual vivemos, só o que nos convém é a noite.

Naquele tempo, eu chegava em casa por volta das onze horas, meia-noite, às vezes meia-noite e meia, quinze para uma. Não porque ela marcasse hora, mas porque era meu costume.

Entretanto, em uma dessas vezes cheguei lá pelas quatro horas da manhã. Fui jogar baralho em casa de uns primos meus que me haviam convidado. E combinamos – coisa de “enjolras” – de fazer uns riscos vermelhos no rosto daqueles que perdessem a partida.

Ora, eu não prestava muita atenção na partida e, por essa razão, perdia. Não tinha o menor interesse naquilo e também não me incomodava de pintar ou não o rosto, porque chegava em casa, lavava-o antes de dormir.

Resultado: eu perdi monumentalmente nessa noite e me pintaram o rosto com pinturas burlescas, engraçadas. Depois eles mesmos me levaram de automóvel até minha casa, e eu nem pensei nas consequências disso.

Cheguei tarde. Eu tinha a chave da casa e, quando abri a porta, encontrei ao lado de dentro Dona Lucilia, “em pezinha”, muito apreensiva. Ela havia me procurado, mas na casa onde eu tinha estado eu quase nunca ia, por isso não passou pela cabeça dela telefonar para lá. De maneira que mamãe me procurou, não me encontrou, não sabia onde me encontrar e pensou: “O que aconteceu com o Plinio?”

Temor das más companhias

Dona Lucilia temia muito menos um desastre ou qualquer coisa assim do que as más companhias. Eu não tinha estado com nenhuma má companhia, mas quando abri a porta e ela me viu entrar com o rosto todo pintado, teve um verdadeiro susto e perguntou: “Mas você, a esta hora e com essas pinturas no rosto?! O que é isso?!”

Eu dei risada e expliquei-lhe o que era. No primeiro momento, ela teve dificuldade de mudar o estado temperamental, mas depois viu que era uma coisa completamente inocente e que eu tinha feito uma “enjolrada”.1

Despedimo-nos afetuosamente e mamãe foi dormir. Eu fui fazer minha toilette e daí a pouco reinava a paz na Alameda Barão de Limeira, 77.

(Extraído de conferências de 7/4/1985 e 12/9/1985)

1) Derivado de “enjolras”. Palavra afetuosa utilizada por Dr. Plinio para designar seus discípulos mais jovens, os quais surgiram aproximadamente a partir de 1970. Havia neles acentuado grau de debilidade, se comparados com aqueles que os antecederam, os da “geração nova” (cf. Dr. Plinio n. 81, p. 17). Entretanto, a Providência concedeu aos “enjolras” uma maior capacidade de se entusiasmar pelo aspecto simbólico das coisas.

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