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São Tomé e as santas alegrias da contrição

O Apóstolo São Tomé é um exemplo perfeito de como unir a alegria à tristeza na contrição. Ele pregou o Evangelho aos povos do Oriente, demonstrando como o verdadeiro arrependimento traz consigo uma execração do próprio pecado e uma admiração pela virtude alheia.

Por que Nosso Senhor disse que seus discípulos praticariam milagres ainda maiores do que os d’Ele? Qual é o princípio a que isso obedece?

Farão milagres ainda maiores

Não é fácil responder a essa pergunta, mas me parece que entre as múltiplas respostas que podem concorrer para a explicação do caso, há uma digna de nota. Quem viu Nosso Senhor, quem da divina boca d’Ele ouviu a sua doutrina, esse já tinha uma espécie de milagre evidente diante dos olhos. Era algo tão sobrenatural, tão divino, tão fora de qualquer proporção humana, que para um homem de fé já não seria necessária outra coisa.

Por essa razão também, Nosso Senhor censurou aqueles que Lhe pediam milagres. “Essa geração malvada e ingrata, só crê por causa dos milagres” (cf. Mt 12, 38-39). Há uma bem-aventurança, portanto, em crer sem os milagres. E a São Tomé Ele fez uma crítica análoga: “Tomé, tu creste porque viste; bem-aventurados os que não viram, mas creram” (Jo 20, 29). Era natural que quem tivesse contato com os Apóstolos, que continuavam a obra de Nosso Senhor, mas que não tinham – porque ninguém pode ter – a irradiação d’Ele, que esses fizessem milagres maiores.

Psicologia dos que necessitam de milagres para crer

São Tomé fez milagres espantosos. Um milagre se somava a outro. A cada vez o rei dizia: “Se vier mais um milagre, então eu crerei. São Tomé fazia um milagre talvez maior do que o anterior e o rei não acreditava. Por fim, o rei acabou expulsando-o do reino.1

Flávio Lourenço
São Tomé recebe o cinto da Santíssima Virgem – Museu de Belas Artes de Bilbao, Espanha

É interessante fazer o estudo da psicologia dos que insaciavelmente necessitam de milagres para crer. De fato, estes não têm vontade de crer. E, por causa disso, um ou dois milagres que lhes poderiam bastar, para eles são insuficientes. Querem uma série de milagres. E quando estes os acachapam, matam ou expulsam quem fez o milagre! É a prova de que e para quem não quer, não há milagre que baste.

O homem pode sempre recusar o seu assentimento, e uma espécie de apetência de milagre, de fome de milagres, de evidência, denuncia, no fundo da alma, uma espécie de recusa preguiçosa da graça, como quem diz: “Eu não estou disposto a pensar, a me esforçar, a abrir a minha alma. Se vós arrombardes a minha alma à força de milagres, então eu atenderei e crerei. Sem isto eu não crerei”. É um misto de preguiça, de alma estreita, fechada sobre si mesma, de recusa da graça. Por maiores que sejam os milagres, essas almas, muitas vezes – não digo sempre – acabam a cada milagre se tornando mais duras, recusando mais essa graça e acabam odiando aquele que praticou os milagres.

Há, portanto, algo que devemos considerar e que é a maldade humana: como o homem, viciado pelo pecado original e pelos consentimentos sucessivos que deu aos pecados atuais, pode ter a sua alma fechada para a graça de Deus; e como nada, a não ser certas graças fulminantes, e que às vezes não passam através dos milagres, pode abrir uma alma para as grandes transformações.

Eu tenho a impressão de que, por causa disso, certos povos ou certas pessoas muito supersticiosas são difíceis de converter, por precisarem da ação palpável do preternatural sobre o natural para crer, não tendo a alma tão elevada, tão aberta, quanto a daqueles bem-aventurados que não viram, mas creram.

São Tomé, alma ávida de execrar a própria falta

É interessante notarmos, por fim, a atitude de São Tomé. Ele andou mal. Ele duvidou da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo e foi o único que não estava presente na Assunção de Nossa Senhora. Entretanto, ele foi objeto do maravilhoso carinho de Nossa Senhora.

Quando Maria Santíssima ia subindo ao Céu, Ela desatou a correia que Lhe servia de cinto e jogou do alto para ele, sendo o único que recebeu d’Ela um dom que valia quase mais do que ter presenciado a sua dormição. Assim são os castigos de Nossa Senhora: severos, enérgicos, maravilhosamente doces depois. De tal maneira enérgicos e de tal maneira doces, que não se sabe que mais admirar, se a energia ou a doçura. E propriamente o que extasia é a coincidência de tanta energia da doçura e de tanta doçura na energia. Não se compreende como numa alma podem caber coisas antitéticas em tal grau e completando-se de um modo tão magnífico.

São Tomé, convertido por essa doçura e, ao mesmo tempo, por essa severidade de Nosso Senhor, corroborado na graça por essa doçura e por essa severidade de Nossa Senhora, tornou-se uma alma verdadeiramente penitente.

Uma alma penitente odeia o pecado que cometeu

O que é uma alma verdadeiramente penitente? É aquela que, quando faz o mal, com vergonha e com tristeza, conta o mal que fez e gosta de repetir que o fez. Aproveita as ocasiões que com naturalidade e compostura se lhe apresentam, para insistir em que fez mal. Faz uma espécie de flagelação de si próprio aos olhos dos outros e diz: “Em tal lance de minha vida, é bom que vocês saibam, eu andei mal. Aquele foi o mal que eu fiz; e eu o odeio tanto e me odeio a mim enquanto tendo feito aquele mal, que eu gosto de contar para os outros, para que me execrem por causa daquilo, porque eu me execro e sou faminto da execração dos outros”.

Arquivo Revista
Dr. Plinio em 1968

Tal é a alma verdadeiramente penitente: aquela que mesmo depois de se ter arrependido, de ter expiado, de ter praticado anos de virtude, ainda tem, diante de si, aquele pensamento de Davi num dos salmos penitenciais: “Peccatum meum contra me est semper. Tibi soli peccavi, et malum coram te feci – Eu pequei só na tua presença, ó meu Deus, e meu pecado está o tempo inteiro de pé diante de mim” (cf. Sl 50). Ou seja, eu estou o tempo inteiro de pé diante do meu pecado e o meu ódio contra ele só se extinguirá com minha vida. Sempre que eu possa falar mal dele e possa conclamar todos os povos a falarem mal dele e me ajudarem a execrá-lo, eu não deixarei de o fazer, porque eu odeio o meu pecado. E é só com isso que minha ­alma se aquieta.

Quem não gosta de ser repreendido, e quando é admoestado ouve com uma certa impaciência a repreensão, tendo alívio quando se muda de assunto, esse não tem o arrependimento verdadeiro dos seus pecados. O verdadeiro arrependimento é ter um ódio crescente ao próprio pecado. Quanto mais passa o tempo, tanto mais se compreende o mal feito e se o odeia, e tanto mais se tem um pesar daquilo e um desejo de ultrajar o mal feito.

Pontos para exame de consciência

São Tomé ia por toda parte evangelizar e não receava contar o pecado que cometera àqueles a quem queria atrair para a verdadeira Fé. Ele não teria receio de escandalizar? De causar má impressão? Não. A verdadeira penitência eleva, ajuda os outros a também se arrependerem, a até odiarem o seu próprio pecado. Isto é o que faz a verdadeira penitência.

Se nos voltarmos, nesse momento, para um exame de consciência sobre nós mesmos e nos perguntarmos a respeito de nossos pecados, qual é a nossa atitude? Quando há propósito, gostamos de contar os nossos pecados para pessoas que depois vão esgravatar aquilo e nos mostrar, ponto por ponto, as agravantes do que fizemos? Gostamos do contato das pessoas que nos punem pelos pecados que cometemos? Gostamos de nos lembrar do mal que fizemos e de fazer o papel de advogados contra nós mesmos, aduzindo, um por um, os elementos agravantes que possam nos ocorrer?

O fato de termos vivido longe da Igreja Católica, da influência de Nossa Senhora, de termos sido espíritos mundanos, orgulhosos, egoístas, sensuais, tudo quanto fizemos antes de nossa conversão, nós temos bem presente? Falamos mal disso? Censuramos? Gostaríamos que alguém nos censurasse?

Hoje em dia, em relação à tibieza, à mania de brinca-brinca, às faltas de correspondência à graça, à ingratidão em relação à graça, à vulgaridade de espírito, a quantas outras coisas desse gênero, gostamos de que falem mal de nós a esse respeito? Temos sofreguidão ou somos lânguidos e indiferentes? Ou nós rugimos de raiva quando nos chamam a atenção?

Implacáveis conosco no julgamento de nossos próprios defeitos

Para concluir, devemos nos dirigir, neste ato, a todos os santos penitentes que há no Céu. Quantas almas foram penitentes nesta Terra? E no Purgatório? Devemos pedir que elas tenham pena de nós, façam com que compreendamos o mal que fizemos, caiamos em nós e tenhamos as santas alegrias da contrição, a santa e jubilosa tristeza da contrição, aquele ódio ao mal, ao mal em nós, que é um dos pontos de partida do espírito contrarrevolucionário.

Flávio Lourenço
São Tomé Apóstolo – Igreja de São Tomé, Valência, Espanha

Que tenhamos probidade de nos considerarmos a nós mesmos, que sejamos implacáveis conosco no julgamento de nossos próprios defeitos. É isso que devemos pedir com toda a alma a esses santos, junto com o amor e a admiração pela virtude. Uma admiração enlevada, trazida pela virtude; a alegria de que outros foram inocentes, não praticaram o mal que nós praticamos; que os outros praticam um bem que não praticamos; a satisfação de nos sentirmos pequenos diante de nossos irmãos.

Excelente meio de reparação: alegria pela virtude dos outros

Devemos lembrar que a inveja da graça fraterna é um pecado contra o Espírito Santo. Quando vemos que um irmão é mais do que nós na ordem da graça e o invejamos, isso constitui um pecado. O contrário, a alegria pelo dom fraterno, dá glória ao Espírito Santo. E se nós queremos reparar os nossos pecados, um dos melhores meios de reparação é termos alegria pela virtude dos outros.

Pensarmos em tanta virtude de pessoas que nós conhecemos, em tanta virtude maior do que a nossa, nesse, naquele ponto… como são superiores a mim! “Meu Deus, eu Vos dou graças, eu Vos dou graças por vossa grande glória que brilha na pessoa deste, daquele ou daquele outro”.

Almas sem inveja, alegres da virtude dos outros, tristes pelo seu próprio pecado, estas são as almas nas quais Nossa Senhora entra e sobre as quais domina – Ela que é o templo do Espírito Santo – trazendo consigo o Espírito Santo; Ela que é Mãe de Deus Filho, trazendo consigo Nosso Senhor; Ela que é Filha do Padre Eterno, trazendo consigo o Padre Eterno.

Que Nossa Senhora faça germinar em nós o amor da Santíssima Trindade, nos dê esse espírito de contrição, Ela que é a Virgem das virgens, inocentíssima, mas pela qual passaram todas as graças de arrependimento, de atrição e de contrição, que encheram e encherão até o fim do mundo a face da Terra.

(Extraído de conferência de 21/12/1968)

1) Dr. Plinio faz alusão à ficha hagiográfica lida por ele nessa ocasião, mas que não consta da transcrição desta conferência.

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