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Esplêndida lição de doçura

Gravidade, seriedade, força, doçura, bondade, afabilidade e firmeza, características da alma de Dona Lucilia. Pelo fato de ter correspondido à graça, ela não só deu a devida glória a Deus, mas tornou-se também incentivadora para que outros pratiquem a virtude.

Qualquer pedregulho que se encontre pela rua, Deus o criou para sua glória e, se este deixasse de existir, em algo diminuiria a sua glória extrínseca.

Tudo que existe dá glória a Deus

Alguém poderia objetar: “Nosso Senhor disse que um passarinho não cai morto sem que Ele saiba; igualmente nem um fio de cabelo cai de nossa cabeça (cf. Mt 10, 29-30); então, se um morrer e outro cair, isso diminui a glória extrínseca de Deus?”

Na prodigiosa coleção de passarinhos criados por Deus, desde o primeiro até o último que existirá, cada pássaro teve a sua trajetória, riscou o horizonte e a glória de Deus ficou marcada pelo fato de ele ter sido criado. Ele deixar de existir é menos importante do que o fato de ter existido. Entretanto, com a criatura humana não se dá isso. A alma não pode deixar de existir e, tendo correspondido à graça, dará glória a Deus por toda a eternidade.

Perguntaram-me: “Se Dona Lucilia não tivesse correspondido, o que teria ficado faltando à glória extrínseca de Deus?”

Em resposta a essa pergunta eu diria o seguinte: faltaria uma certa composição de doçura, de gravidade, de seriedade, de força, de bondade, de afabilidade e de firmeza, que constituem a característica da alma dela. Essa característica que dá glória a Nossa Senhora e a Deus no Céu não estaria presente no grau que deveria. Seria, para servir-me de uma comparação, como um piano ou um órgão do qual se tirasse uma das notas.

“A você eu tenho por inteiro”

O que se poderia dizer a respeito desse conjunto de atributos que caracteriza Dona Lucilia?

Havia de minha parte em relação a ela uma atitude fundamental, anterior e superior a todos os agrados, que era um querer bem estável, fixo, que não variava, não diminuía nunca e que eu votava a ela com todo o meu amor e todo o meu afeto. E ela tinha um conhecimento muito exato disso.

Certa vez, encontrando-me no corredor de casa, ela cruzou-se comigo por acaso. Cada um de nós ia fazer alguma dessas coisas da vida quotidiana dentro de uma casa, sem importância. Ela parou e, como se ela estivesse continuando alto uma reflexão começada, apoiou a mão sobre meu ombro, e disse: “Meu filho, eu só tenho você, mas você eu tenho por inteiro”.

A meu ver, dificilmente se poderia fazer um comentário a alguém que fosse mais amistoso, mais afetuoso do que esse. Eu não imagino um comentário que denotasse mais amizade do que esse.

Eu quereria que Nossa Senhora pudesse dizer para cada um de nós isto: “Meu filho, Eu só tenho você – e agora vem o principal –, mas você Eu tenho por inteiro”. Se eu pudesse saber que Nossa Senhora disse isso de um filho meu ou de mim, eu ficaria radiantíssimo. Meu comentário seria: “A partir deste momento eu posso morrer!”

Eu sei bem que eu não deveria morrer nesse momento, a não ser que Deus dispusesse o contrário, porque nós temos muitos serviços ainda a prestar, mas eu queria dizer com isso que a minha vida estaria realizada.

Alma cristalina, isenta de egoísmo

Havia em Dona Lucilia aspectos aparentemente contraditórios os quais, para os compreendermos bem, devemos ir ao fundo dessa aparente contradição.

Mamãe tinha muito desapego de si mesma e muito amor a Deus. O desapego se demonstrava por uma série de sinais, cada um mais luminoso, mais claro do que o outro. E o principal deles era que, na intimidade da vida de família, onde é frequente que as pessoas se elogiem a si próprias ou àqueles que lhes são muito próximos, ela não o fazia.

É frequente encontrar uma mãe que elogia a sua filha ou o seu filho. Nisso entra um amor natural, legítimo, da mãe para com os filhos, mas entra também um certo egoísmo: “Veja, meu filho é assim; o seu, eu tenho observado, não é; portanto, eu estou na sua frente e você fica sabendo que, na batalha da vida, eu estou vencendo”. São misérias, mas são coisas que existem.

Nunca vi que ela se elogiasse a si própria ou que procurasse fazer-se valer acima de outra pessoa, de um parente, de um amigo, de um conhecido. Pelo contrário, eu a vi numa disposição muito boa a olhar para as pessoas pelo lado melhor e considerar esse lado. Pessoas indiferentes a ela, mas como tinham aquela qualidade, ela gostava. Isso era frequente. Algum caso bonito que ela soubesse de alguém, ela contava para terceiros. E nunca ficava à espreita para ver se essa pessoa respondia ou não ao elogio dela. Era inteiramente desinteressada.

Com isso, ficava fácil a ela tomar para com os outros uma atitude de grande bondade porque, quando não se é egoísta, de boa vontade se dá o que se tem. Ela era bem o contrário do egoísmo, de maneira que dava o que tinha, mas largamente, generosamente, afetuosamente, às escâncaras. E a bondade dela transparecia assim cristalinamente, magnificamente. Não era uma bondade qualquer. Às vezes se vê, por exemplo, uma pessoa que passa por um mendigo na rua e lhe dá uma esmola. Essa pessoa manifestou em relação ao mendigo uma certa bondade. Mas há bondade e bondade. Há pessoas que dão uma esmola para um mendigo, jogam uma nota de dinheiro no chapéu que ele está estendendo para receber a esmola, jogam e vão embora. Há outras pessoas que fazem isso, mas com uma compreensão afetuosa da vida dura do mendigo e como quem, ao mesmo tempo, considera o mendigo e gostaria de atenuar a vida dele se tivesse meios; não podendo, exprime-lhe por um olhar carinhoso o que tem para com ele.

Essa segunda atitude era eminentemente a de mamãe em relação a todo mundo que precisasse dela para qualquer coisa.

Uma lição de vida: compaixão para com os que erram

Havia uma pessoa de minha família com que eu tinha relações difíceis. Ela tinha andado mal em certas ocasiões e eu tinha manifestado desagrado com isso, porque era meu dever coibi-la para não continuar no mau caminho em que estava.

Um dia eu cheguei em casa vindo do trabalho e, como fazia sempre, ia diretamente à procura de mamãe. Era algo que eu fazia instintivamente: “Onde está mamãe?” Cheguei e vi essa pessoa sentada no hall da casa com um ar muito desanimado, muito desagradado. Eu entrei no quarto de mamãe, falamos um pouquinho algumas coisas, banalidades, e ela em certo momento me disse o seguinte: “O vaso de cristal que tem aqui na entrada da casa, sabe o que aconteceu?”

Era um vaso lindíssimo, que tínhamos herdado de minha avó, mãe dela. Autêntico cristal da Boêmia, como já não se fabrica mais hoje em dia. E eu o prezava muito.

Ela continuou: “Fulano chegou aqui e involuntariamente esbarrou no vaso, que caiu no chão e se partiu em mil pedaços. Acontece que ele está precisando de você para um grande favor e sabe como você se contrariaria enormemente com o rompimento desse vaso. Ele está muito receoso do desagrado que você possa mostrar por isso”.

Eu, começando a me zangar, mas ao mesmo tempo ouvindo a voz dela que eu já sabia por todas as experiências possíveis que ia pleitear a causa do culpado.

E ela me acrescentou numa voz mais doce: “Tenha pena dele!” Esse “tenha pena dele” era tão suave e tão, tão impregnado da pena que ela tinha dele e da pena que ela achava que se deveria ter para com todo mundo que estivesse em apuros, em aflição. Ela me disse: “Tenha pena dele e faça o seguinte: vá para o hall e faça uma brincadeira qualquer com ele que indique bom humor, e depois diga a ele que esse negócio de vaso, que se compra outro, que não se incomode, para ele ficar contente”.

Se fosse pedido por qualquer outra pessoa eu não iria, mas o pedido dela… era tiro e queda. Eu me levantei, fui para o hall, o homem estava estatelado. Os cacos de cristal, a empregada já tinha levado para o lixo. Eu lhe disse umas brincadeiras e depois ele se sentou mais aprumado, e dali a pouco já estava contente. Na hora do jantar ele estava como se não tivesse acontecido nada.

Ela praticara uma excelente ação e tinha me ensinado a como se deve ser doce em relação à pessoa que, não tendo feito uma ação que diretamente ofenda a Deus, fez uma ação neutra do ponto de vista moral, algo que pode acontecer com qualquer um, em relação à qual, portanto, é preciso ter compaixão. Então, para o filho dela, ela deu uma esplêndida lição.v

(Extraído de conferência de 31/3/1993)

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