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Sancta Maria, Sancta Dei Genitrix e Sancta Virgo virginum

A primeira invocação, ­Sancta Maria, é genérica. Logo depois vêm dois atributos: Sancta Dei Genitrix e Sancta Virgo virginum. Esta última é uma das jaculatórias da Ladainha Lauretana que eu acho magnífica!

Virgindade, fulgor de todas as virtudes de Nossa Senhora

Sancta Virgo virginum, o que significa? A virgindade é o fulgor de todas as virtudes de Nossa Senhora; no abismo de qualidades de Maria Santíssima, essa virtude tem um lugar eminente, Ela passou a ser conhecida pelos séculos como a Virgem por excelência.

Nossa Senhora é tão pura e de tal maneira virgem, que está superior às outras virgens, como uma virgem está superior a quem não o é. Em todos os séculos, ninguém será virgem como Ela!

É nesse sentido que na Ladainha Lauretana Ela é aclamada como a Virgem das virgens, tal é o requinte de pureza d’Ela. Nossa Senhora tem uma virgindade tão sublime que, em comparação com a d’Ela, nada é virgindade. Ela é uma Virgem extraordinária, que tem uma virginalidade suprema, inesgotavelmente perfeita, inexcogitável, inimaginável, e para a qual se volta nossa alma. Essa é Nossa Senhora, maravilha das maravilhas de Deus!

Nós podemos dizer que o espírito moderno bufa com isso. Por quê? Porque a virgindade tem uma porção de aspectos que causam implicância a ele.

O primeiro desses aspectos – no sentido de chamar mais a atenção e não por ser o mais importante – é algo de segregacionista que existe na virgindade. A virgindade não se mistura, não se envolve; ela se mantém a uma certa distância, não é promíscua; ela foge às intimidades de qualquer pessoa, é muito recatada. Se há uma virtude que cria em torno da pessoa que a possui uma atmosfera de recato, de ambiente privado, uma esfera reservada, é precisamente a virgindade.

Flávio Lourenço
Virgem da Humildade – Rijksmuseum, Amsterdã

Quando se fala de uma virgem, tem-se a impressão de uma pessoa que goza de certa dose de felicidade e de bem-estar interno. Enquanto a virgindade conduz ao equilíbrio e harmonia internos, contentamento consigo mesmo, felicidade que vem de dentro para fora, de cima para baixo e enche aquele que é puro, a impureza, pelo contrário, promove agitação, instintos desvairados, necessidade de encontrar a fonte de prazer fora de si para se alimentar e, portanto, uma espécie de permanente insatisfação.

Virgem-Mãe, opostos que coexistem em Nossa Senhora

A virgindade tem tudo; ela só não tem a glória da maternidade. Mas Aquela que foi a Virgem das virgens, e que, portanto, deveria, pela natureza das coisas, ser privada da glória da maternidade, foi, por outro lado, a Mãe por excelência porque foi Mãe de Deus! N’Ela, para a glória da virgindade, até esses opostos coexistiram: ser a Mãe de Deus – mãe por obra e graça do Espírito Santo, mas mãe inteiramente verdadeira –, conservando intacta a virgindade. É uma espécie de cúmulo de glória insondável e – quer pela perfeição natural que apresenta, quer sobretudo pela obra da graça –, que nos deixa completamente desnorteados!

A virgindade tem tudo; ela só não tem a glória da maternidade. Mas Aquela que foi a Virgem das virgens, foi, por outro lado, a Mãe por excelência porque foi Mãe de Deus!

E aqui está outro aspecto contrarrevolucionário dessas invocações: isso constitui uma ordem de desigualdade em relação a toda outra espécie de bens criados! É o anti-igualitarismo levado a uma plenitude inimaginável. Essa é a Rainha de todas as criaturas, Rainha dos Anjos, como Rainha dos Santos, é a nossa Rainha! A plenitude da virgindade coincidiu com a perfeição da maternidade. Uma perfeição tal que não é a da natureza, é a da graça.

Compreende-se facilmente como isso deve nos encher de admiração e fazer-nos avaliar melhor qual é a santidade de Nossa Senhora e que obra-prima insondável Deus realizou criando-A. Mas isso deve fazer-nos sentir também o aspecto revolucionário e gnóstico dos erros que são calcados aos pés cada vez que católicos recitam esta Ladainha ou olham para a imagem de uma Virgem que é Virgem-Mãe, de uma Mãe que é Mãe de Deus.

Sancta Virgo virginum, ora pro nobis”. Para nós isso é tão banal e, às vezes, cantado pela “heresia branca”1 fica tão abobado, tão vazio de sentido, que até se perde a noção da grandeza que essa invocação contém. Mas, quando cantado com a voz e os instrumentos da Igreja, com a piedade dos verdadeiros fiéis, compreendendo o que isso quer dizer, é um brado de tributo e é o esmagamento de toda espécie de heresia!

Elevada pureza, misericórdia incomparável

Nossa Senhora leva-nos a amar n’Ela a perfeição com um quê de diáfano que não é imaginável, e que, entretanto, Ela tem numa abundância, por sua vez, também não imaginável. Isso dá a ideia então da pureza, da misericórdia incomparável.

É exatamente por essa excelsitude que Ela possui as perfeições num grau inimaginável e, consequentemente, em um grau indizível a misericórdia. Ela é capaz de uma inflexão, de curvar-Se para os mais miseráveis e de assistir, com uma abundância torrencial, os que menos merecem! De maneira que, por ser inimaginavelmente alta, Ela é, mais que ninguém, a protetora dos fracos.

Ela é capaz de uma inflexão, de curvar-Se para os mais miseráveis e de assistir, com uma abundância torrencial, os que menos merecem! Ela é, mais que ninguém, a protetora dos fracos.

Flávio Lourenço
Virgem do Amparo – Catedral de Orvieto

Poder-se-ia pensar: “Por ser tão pura, Ela tem horror aos impuros”. Sim, mas é preciso ver como é esse horror. Não é dizendo: “Impuro! Fique onde está!” Mas é dizendo: “Meu filho, no que você se meteu! Mesmo assim Eu continuo a ser sua Mãe, e por isso Me curvo até você, por mais que você esteja nessa baixeza. Até lá chega minha misericórdia para salvá-lo”.

E isso confere a Ela uma harmonia reunindo os dois extremos da criação, constituindo mais um título de grandeza que Ela possui.

Como eu gostaria que houvesse uma catedral dedicada a Ela onde esses dois aspectos – de Rainha intangível e inacessível e de Rainha que Se curva com um sorriso sobre os mais miseráveis, os mais leprosos, os mais indignos – fossem vistos juntos num mesmo olhar.

É isso que no Reino de Maria deve despertar o talento dos artistas, dos músicos, dos oradores sacros etc.

Por exemplo, instituir uma festa de Sancta Virgo virginum, em louvor de todos aqueles que morreram mantendo a virgindade – homens e mulheres – e promover procissões, cânticos, rojões e várias outras comemorações.

Fecundidade virginal

Se alguém diante da invocação Sancta Virgo virginum imaginasse o esplendor da virgindade de Nossa Senhora, veria naquele esplendor um preceito: “Seja puro também!” Levada pela beleza da virgindade, a pessoa se entusiasma e gosta de vê-La simbolizar a pureza.

Nosso Senhor quis ter como pai adotivo um virgem, São José. Ele tinha feito voto de castidade e o manteve durante a vida inteira. A Sagrada Eucaristia é o vinho que gera as virgens; é dela que nasce, pela graça de Deus, a admiração pela pureza e a força de alma para se manter nessa virtude.

O estado de pureza é muito duro. Sem o auxílio sobrenatural ele não se mantém. Se alguém me disser: “Eu não consigo conservar a pureza”, a minha resposta é: “Ninguém consegue, exceto se apelar para o sobrenatural, pedir a Nossa Senhora e, por meio d’Ela, a Nosso Senhor Jesus Cristo, a graça necessária para conservar esse estado”. O estado de pureza é nobremente difícil, mas, com o auxílio da graça, ele é possível, e até pode acabar se tornando fácil e, por causa disso, o Reino de Maria é viável. A graça poderá nos dar um grande número de gerações castas, sobre as quais o Reino de Maria se assentará.

O Reino de Maria será o Reino d’Aquela que, antes de tudo, foi Virgem, e cuja fecundidade resultou de sua virgindade.

Flávio Lourenço
São José com o Menino – Castelo de Chapultepec, Cidade do México

O Reino de Maria será o Reino d’Aquela que, antes de tudo, foi Virgem, e cuja fecundidade resultou de sua virgindade. Ela não teria sido escolhida para ser Mãe de Cristo se não fosse Virgem.

Ele será o Reino da pureza e por isso ele vai ser o Reino das proles abundantes e fecundas. Ele vai ser o Reino da educação sobrenatural, casta e forte. Ele vai ser a Cidade de Deus perfeita, em que a Fé domina a alma e a alma domina a matéria. E com todas essas circunstâncias, ele será a época de maior glória e de maior esplendor da humanidade.

O Reino de Maria será a civilização da castidade. Não adianta querermos construir o Reino de Maria com pedras deterioradas e com madeira podre. Ele não precisa disso! Isso é o lixo que a “Bagarre” há de queimar. Os puros é que vencerão. No Sermão da Bem-aventurança está dito: “Bem-aventurados os puros, porque verão a Deus” (cf. Mt 5, 8). E eu digo: “Bem aventurados os puros, porque eles – e só eles – verão o Reino de Maria!”

Que Nossa Senhora nos ajude a compreender essa verdade, amá-la e dedicar a vida a ela.

1) Expressão metafórica criada por Dr. Plinio para designar a mentalidade sentimental que se manifesta na piedade, na arte e na cultura em geral. As pessoas por ela afetadas se tornam moles, medíocres, pouco propensas à fortaleza, assim como a tudo que signifique esplendor.

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