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Sedes Sapientiæ

Sedes Sapientiæ, o que é?

Na Ladainha rezamos: Sedes Sapientiæ, ora pro nobis – Sede da Sabedoria, rogai por nós!

O que se diz de Nossa Senhora muitas vezes pode ser dito também da Igreja. Ela é também uma sede de sabedoria; nela, cada palavra tem um sentido. Por isso é preciso vermos o que significa Sedes Sapientiæ.

Sedes Sapientiæ, o que é? Primeiramente pergunta-se o que é Sedes, depois o que é Sapientiæ; fica-se sabendo então o que é Sedes Sapientiæ. É assim que pensa um homem que tem vigor de alma e faz andar seu pensamento.

Então, o que é Sede? É o lugar de onde parte o governo, a direção, o impulso para um movimento. Por exemplo: esta é a Sede do Reino de Maria, e é daqui que parte o impulso, o governo, a direção do nosso Movimento.

O que é sabedoria? É uma virtude que se faz da conjugação de muitas virtudes, de maneira tal que ela tem a sublimidade daquilo que é arquitetônico. Para poder avaliar bem essa sublimidade, é preciso imaginar um material disperso que servirá para a construção de um palácio: grandes blocos de mármore, peças de bronze, cristais, vitrais etc. Quando estão colocados em armazéns à espera de serem instalados para fazer o palácio, é uma coisa.

Todo esse material é rico e nobre, de boa qualidade e, portanto, merece atenção. Convém que ele seja colocado à disposição de um grande arquiteto, porque então formarão um palácio.

Arquivo Revista
Dr. Plinio durante uma conferência no dia 31 de maio de 1980 Sede do Reino de Maria, São Paulo

De modo análogo a sabedoria é o palácio de todas as outras virtudes. Ela tem, portanto, uma categoria particularmente alta e, a este título, bem pode se chamar de sublime.

Sabedoria: palavra esquecida, tão pouco cuidada em nossos dias. Afinal de contas, o que é? Ela é o conhecimento da hierarquia dos verdadeiros fins. O conhecimento de que tais fins servem, uns de meios para os outros, chegando até o mais alto dos fins, que é Deus, porque tudo foi construído visando a Ele e para Ele, em torno d’Ele. É a virtude fundamental pela qual o homem quer conhecer o fundo, a realidade última das coisas e quer penetrá-las inteiramente. Não apenas as meras individualidades, mas o universo, o cosmos, para compreender o sentido de sua própria existência, da vida humana, o que todas as coisas significam, por que existem, para o que servem. E não é somente pelo desejo de compreender, mas é com o intuito de, depois, dirigir a sua própria existência, governar todos os seus atos, segundo a resposta que obtiver para essa pergunta.

O Dom de Sabedoria e o Dom de Ciência

A distinção entre o Dom de Sabedoria e o Dom de Ciência é das tais precisões inebriantes de beleza que a Igreja possui, e que vale a pena examinar.

O Dom de Inteligência é o dom de intus legere: ler dentro. Por meio dele, é-se capaz de compreender as coisas de maneira a saber utilizar essa compreensão para as meditações divinas. Por exemplo, certo botânico precisa conhecer algo de muito elevado e complexo a respeito das laranjas; alguém, por meio do Dom de Inteligência, pode compreender tal enigma que ele não consegue entender. Um santo pregador que precisasse usar esse exemplo para tocar a alma de certo homem em determinado ponto, usaria do Dom de Inteligência.

A sabedoria é superior à inteligência, pois ela é a compreensão de como as coisas se devem ordenar para a perfeição do conjunto. Ela é a ordenação da inteligência, de toda a vontade e da sensibilidade rumo a Deus; é a virtude máxima que nos afasta do pecado.

Sábio x estulto

Isso diferencia um espírito sábio de um espírito estulto. O estulto é aquele que não se preocupa em conhecer qual é o fim último para o qual todas as coisas existem, o significado mais profundo que está por detrás de tudo; ele não pauta a sua existência no dirigir-se para esse fim, mas quer apenas divertir-se, gozar, e gozar no sentido mais vil da palavra, pois ele não se lança somente em imoralidades – que evidentemente é o pior –, mas deseja gozar não pensando em nada de profundo, vivendo na superficialidade e sem se preocupar com nada.

A sabedoria é o palácio de todas as outras virtudes. Ela tem, portanto, uma categoria particularmente alta e, a este título, bem pode se chamar de sublime.

Eu conheço gente que não pratica propriamente ações imorais, mas que é completamente falha de sabedoria. Quantas senhoras são esposas fiéis, mães que cuidam de modo satisfatório de seus deveres, frequentam os Sacramentos, mas não têm sabedoria! Por quê? Porque um ajuste da vida a essa última perspectiva, elas não têm. Fora da horinha da oração, elas vivem olhando isto e aquilo, conversando, falando, extrovertendo-se, mas sem nenhum pensamento elevado, sem dar nenhum sentido profundo para sua existência.

Um elogio à sabedoria

A sabedoria é para a alma humana como a torre é para a igreja: é a parte mais alta, onde estão os sinos, os campanários. É nesse sentido que esta é uma virtude sublime.

São Luís Maria Grignion de Montfort, em sua obra O amor da Sabedoria Eterna e Encarnada (n. 187), mostra que a sabedoria é a virtude que leva o homem à fé. A fé é, por sua vez, uma virtude sobrenatural superior a todo louvor, da qual nascem todas as outras. É por meio dela que o homem crê no que lhe foi revelado e presta, portanto, o rationabile obsequium. De maneira que a sabedoria é um pressuposto da virtude radical da fé. Tudo isso são excelências da sabedoria.

Nossa Senhora é a Sede da Sabedoria, porque a Sabedoria Encarnada residiu n’Ela. É nos braços d’Ela que Nosso Senhor Jesus Cristo Se manifesta mais à vontade aos homens.

Silvio M.
Catedral de Santiago de Compostela, Espanha

A sabedoria é exigida de todo aquele que tem qualquer forma de poder. Se ele não possui sabedoria, em suas mãos o poder se transforma num instrumento de perdição. Evidentemente, com maior empenho Deus a exige dos governantes. A glória de um monarca é ser sábio, porque com sabedoria ele salva o seu povo. E aqueles que têm o principado na ordem eclesiástica, sobremaneira devem possuí-la.

O sábio verdadeiro não é uma pessoa que leu muitos livros ou o cientista que conhece muito; o verdadeiro sábio é o santo. Ou seja, é aquela pessoa que tem seriedade e que raciocina com base na fé, tirando dela todas as conclusões adequadas.

A sublimidade da sabedoria está em que Nossa Senhora é chamada, é qualificada, é aclamada, é invocada como Sedes Sapientiæ. Para Ela ser a Sede da Sabedoria, quão alta é essa virtude que tem como sede a própria Mãe de Deus!

E quem é a Sabedoria? A Sabedoria é Nosso Senhor Jesus Cristo, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Nossa Senhora é a Sede da Sabedoria, porque a Sabedoria Encarnada residiu n’Ela. E até o Corpo terreno Nosso Senhor Jesus Cristo formou-se da carne e do sangue d’Ela.

Por assim dizer, nos braços de Nossa Senhora Ele se apresenta como um mestre sentado numa cátedra. É nos braços d’Ela que a Sabedoria Eterna e Encarnada, Nosso Senhor Jesus Cristo, Se manifesta mais à vontade aos homens.

N’Ela estava contida toda a sabedoria que vem de Deus para depois ser estendida aos homens.

Nossa Senhora não possui apenas cada virtude num grau insondável, Ela possui algo muito superior, que é uma ordenação insondavelmente perfeita das virtudes opostas, e isso é a sabedoria. Nossa Senhora excedeu em profundidade de pensamento todas as meras criaturas e assim, portanto, Ela é a perfeita intelectual.

Mas, uma coisa curiosa: com exceção do Magnificat, nos Evangelhos não consta que Nossa Senhora tenha demonstrado aquela imensa sabedoria pelo uso de sua palavra. Ela a conservou para Si, quis ser desconhecida e o foi, de fato, como desejou.

Ela ficou posta numa espécie de segredo ou de mistério até o começo de sua existência, quando nem os Anjos sabiam da Encarnação e, vendo a virtude d’Ela, se perguntavam: “Quem é esta?” (Ct 5, 5). Deus, alguma coisa revelava, mas sobre a futura Rainha dos Anjos, quase que nem aos próprios Anjos Ele Se manifestou. E o Padre Eterno consentiu nisso para satisfazer o desejo que Ela tinha de não aparecer.

A sabedoria é manifesta em toda a vida de Nossa Senhora

É bonito deitar os olhos em Nossa Senhora e ver como, em todos os aspectos de sua vida, é notável a sabedoria.

O Magnificat é uma joia perfeita, na qual temos o espírito de Nossa Senhora; ele não nasce de uma exacerbação do sentimento, nem da irreflexão que se atira.

Conhecedora dos planos de Deus, Ela sempre calculou bem as coisas. Tomemos por exemplo o diálogo com o Arcanjo Gabriel, onde Ela recebeu o anúncio de que deveria ser a Mãe do Salvador: o Evangelho diz que, após a saudação, Ela ficou perturbada e cogitava qual seria o significado daquelas palavras. Qualquer pobre criatura humana que ouvisse de um Anjo esta saudação: “Ave, cheia de graça, o Senhor é convosco…” (Lc 1, 28) perderia a cabeça… Em lugar de ter uma grande e desordenada emoção que o fato poderia Lhe causar, Ela “cogitabat qualis esset ista salutatio – Ela cogitava qual era esta saudação” (cf. Lc 1, 29), e respondeu com uma objeção de caráter eminentemente racional: “Como pode ser isso, pois não conheço varão?” (cf. Lc 1, 34). Então o Anjo explicou-Lhe o sentido da mensagem: “Não Vos perturbeis, Maria, porque o Espírito Santo baixará sobre vós…” (cf. Lc 1, 30). E quase como num silogismo, Ela respondeu: “Ecce ancilla Domini! Fiat mihi secundum verbum tuum – Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em Mim segundo a vossa palavra” (Lc 1, 38). Ela poderia ter dito: “Segundo a vontade d’Ele”. Não! Uma vez que Ele manifestara sua vontade por meio daquele mensageiro, era para dizer: “Faça-se em Mim, segundo a vossa palavra”. Ela fez um ato de fé e imediatamente um ato de obediência. Tudo numa sabedoria perfeita e numa seriedade em altíssimo grau.

Magnificat, joia perfeita de sabedoria

O Magnificat é uma tese exposta com todos os argumentos. Nele Nossa Senhora canta muito equilibradamente as grandezas de Deus: a grandeza em sua misericórdia; a grandeza em sua justiça; o vácuo de todos os homens diante d’Ele e seu domínio sobre todo o universo. Esse é o hino triunfal da grandeza divina!

Flávio Lourencço
Anunciação – Museu do Prado, Espanha

No momento em que Santa Isabel A glorifica enquanto Mãe do Salvador, Ela responde demonstrando como Se considerava nada diante da grandeza infinita de Deus. E Ela canta isso de modo excelente, com um fogo e um sentimento extraordinários (cf. Lc 1, 39-55); sobretudo com equilíbrio e numa construção absolutamente racional, que poderia ser comparada a um raciocínio de São Tomás na Suma Teológica.

Ela compôs esse hino sob inspiração do Espírito Santo, no momento em que foi saudada por Santa Isabel, mas todo ele é pensado e articulado a fundo. Nessas poucas palavras d’Ela que se registram no Evangelho figura essa nota racional.

Ao analisar o Magnificat nota-se que nele não há uma palavra que sobre, não há um pensamento que não esteja colocado em seu lugar. É uma joia perfeita, na qual cada pedra está posta em seu corte para dar uma ideia global do conjunto.

Aí temos o espírito de Nossa Senhora, tão diferente da bobeira dos sentimentalismos fátuos, dos entusiasmos vazios próprios da “heresia branca”. É um cântico da razão; ele não nasce de uma exacerbação do sentimento, nem da irreflexão que se atira.

A alma católica é cheia de razão, de pensamento em tudo o que faz

Outras palavras d’Ela registradas pelos evangelistas é quando reencontrou o Menino Jesus no Templo. Nesse episódio, sua pergunta é cheia de aflição, de angústia, mas feita como quem pede uma explicação: “Meu Filho, por que fizeste isso conosco? Teu pai e eu Te procurávamos aflitos” (cf. Lc 2, 48).

Aí compreendemos como a alma católica é uma alma cheia de razão, de pensamento, de densidade em tudo o que diz e faz. Nossa Senhora, Sede da Sabedoria, representa assim a nós, como o exemplo da razoabilidade, o exemplo da ponderação e da medida em tudo o que se pensa e se diz.

E assim compreendemos, de modo descritivo, aquilo que sabemos de outra maneira sobre Nossa Senhora: que Ela é a Sede da Sabedoria.

Por isso a virtude da Sabedoria é, por excelência, uma virtude mariana. E então entendemos o que é ter o espírito de Maria, o que é ser escravo de Nossa Senhora: é procurarmos ter essa sabedoria, essa ponderação, essa grande estruturação de raciocínios, de ideias, de pensamentos, como couber em nosso nível intelectual, mas buscando fazer tudo com a razão dominada pela fé, e com o sentimento servindo de escravo à razão. De maneira que ele vibra quando a razão manda e cessa de vibrar quando a ela se opõe. E se, em certo momento, a razão não vibra, ou seja, o sentimento não vibra com ela, é a razão que vence e não o sentimento.

Teodoro Reis
Encontro do Menino Jesus – Santuário do Sagrado Coração de Jesus, São Paulo

Esse é o espírito de Nossa Senhora, uma escola de vida espiritual na imitação d’Ela.

Nossa Senhora foi o foco de luz que iluminou a Igreja nascente

Algo de que não se fala muito a respeito de Nossa Senhora é o seguinte: Ela estando presente entre os Apóstolos, é impossível que eles tenham trabalhado, tenham difundido os ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo e que os evangelistas tenham escrito os Evangelhos, sem consultá-La.

Era possível que esse foco de luz não iluminasse os Apóstolos? Tudo quanto os Apóstolos e evangelistas fizeram o que é, senão a luz que procede desse foco? Ou seja, que eles recorreram frequentemente a Ela, porque o espírito dos Evangelhos é o próprio espírito d’Ela.

Nesse pormenor nota-se o papel de Nossa Senhora presente e visível na Igreja nascente; percebe-se as relações d’Ela com a pregação na Igreja primitiva e mais especialmente com o Evangelho. Isso é algo verdadeiramente maravilhoso!

Vê-se também o papel da ortodoxia e da sabedoria na santidade de Nossa Senhora. Esse não é um papel colateral como a “heresia branca” quereria fazer sentir, mas é fundamental.

Uma súplica a Nossa Senhora

É de se esperar e de se ter certeza de que o Reino de Maria vai importar numa difusão ou numa efusão extraordinariamente abundante da sabedoria. Podemos imaginar que o Divino Espírito Santo – Esposo de Nossa Senhora – a rogos d’Ela refará em nós tudo o que a Revolução estraçalhou, exasperou, por culpa nossa e com consentimento nosso.

Que Ela nos perdoe e nos obtenha a restauração e, mais que a restauração, o aprimoramento excelente desejado. De maneira que o resultado disso consista em afervorar nossas orações para pedir esta graça: que Ela nos dê essa sabedoria, que é o amor do mais alto, do elevado e do sublime.

A virtude da Sabedoria é, por excelência, uma virtude mariana. Ter o espírito de Maria, ser escravo d’Ela é procurar ter essa sabedoria, buscando fazer tudo com a razão dominada pela fé.

Ela é a chave de tudo, Ela é a Porta do Céu, Ela é a Porta da Sabedoria, Ela é a Cátedra da Sabedoria!

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