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Vas spirituale, Vas honorabile, Vas insigne devotionis

Eu acredito que as graças, quando são recusadas pelos povos, voltam aos esplendores do Pai Celeste. Mas, o que significa isso?

Não é, como se poderia imaginar, cessar de estar presente nos acontecimentos do mundo. As coisas se desenrolam como se essa glória, recusada, mas asilada nos esplendores do Pai Celeste, ficasse nos lugares onde se irradiou, representada por Anjos atinentes a essas perfeições.

Nossa Senhora é um vaso que transborda de espiritualidade, de honra e de devoção insigne.

De maneira que, rezando a esses Anjos, é possível obter a ação dessas graças. No próprio território onde elas foram recusadas, forma-se uma espécie de batalha entre os Anjos e os demônios, a fim de obter que elas ressurjam. Ressurjam? Não é ressurgir, porque aí elas estariam mortas, mas é para que elas se tornem sensíveis.

Nessa perspectiva eu acrescentaria que nós devemos admitir que refloresçam no mundo, e até acrescidos, os Anjos que a Revolução foi enxotando ao longo da História. E é pelo fato, por assim dizer, de eles pairarem no mundo, que eles confluem para as nossas almas.

Nossa Senhora, vaso que transborda de espiritualidade, de honra e de devoção

Rezando a Ladainha de Nossa Senhora, eu deitei minha atenção muito atraída, uma atenção mais compreensiva e com mais discernimento em três invocações pouco comentadas e que possuem muita beleza: Vas spirituale, Vas honorabile e Vas insigne devotionis. Nossa Senhora é um vaso que transborda de espiritualidade, de honra e de devoção insigne.

Não sei por que, ao proferir essas invocações, eu imagino um vaso de alabastro, em forma de cálice de Missa e não um vaso qualquer.

Vas spirituale – Vaso da espiritualidade, é o local onde estão todos os valores do espírito, que, em outras palavras, são todos os valores em ordem à religião e à Fé.

Vas honorabile – Vaso de honra. Significa um recipiente precioso, cheio de honra. Nossa Senhora possui todas as formas e graus de honorabilidade para distribuí-los aos homens. Ela é o ponto onde se polariza tudo quanto há de bem na criatura, por isso toda honra existente em todos os séculos está ligada a Ela e é uma participação de sua honra.

Maria é o vaso por excelência onde confluem e continuam a existir todas as graças recusadas.

Nossa Senhora tem consciência de sua própria dignidade, uma dignidade tão alta que contém em si toda espécie de participação com Deus. É impossível não ver Nossa Senhora como uma verdadeira Rainha, mas, por outro lado, como alguém de uma ternura, uma bondade materna, um desejo de afagar indizíveis, que vêm com uma dileção especial. Ela é a Mater pulchræ dilectionis.

Em geral as descrições das aparições de Nossa Senhora falam da suavidade, da bondade, da doçura d’Ela, e também de sua imensa majestade régia.

Ela pode fazer-se ver vestida com pobreza ou pode ser representada do modo que for, Ela é sempre o Vaso da honra. A posse de uma participação com Deus e a consciência dessa dignidade Lhe dão um prestígio que nem todas as honras do mundo poderiam Lhe conferir; elas são como lataria ordinária em comparação com o que Ela recebe de Deus.

D’Ela a liturgia canta: “Omnis gloria ejus filiæ regis ab intus (Sl 44, 14) – Toda a glória da filha do rei lhe vem de dentro”. Não vem do que usa, não vem daquilo que aparenta, mas de algo que está no interior d’Ela e que se manifesta no exterior.

Vas insigne devotionis – Vaso de devoção insigne. É o cálice precioso em que toda a piedade está contida. Quem dele se aproxima fica tocado por aquela devoção. Nossa Senhora, por assim dizer, nos contagia, e então voamos até Ela!

Sem a integridade de Nossa Senhora o mundo já teria terminado

Ela é o Vas honorabile, Vas spirituale, Vas insigne devotionis, e eu ousaria dizer que Ela é o vaso por excelência onde confluem e continuam a existir todas as graças recusadas. Ou seja, se não fosse o fato de essas graças continuarem a existir em Nossa Senhora e, portanto, não serem inteiramente rejeitadas pelo gênero humano – e isso é o mais importante –, a retração delas seria um castigo pavoroso e inimaginável. Como numa outra ordem de ideias: se não fosse Nossa Senhora estar na Terra, eu acho que era inevitável que o mundo tivesse acabado no deicídio.

Ela é a Arca que recolheu tudo o que os homens rejeitaram e na qual está armazenado tudo quanto é belo e verdadeiro.

Gabriel K.
Nossa Senhora aos pés da Cruz de Jesus – Convento de Santo Agostinho, Quito

É porque esses esplendores permanecem no gênero humano d’Ela e n’Ela, é porque Ela é imaculada e possui um estado de integridade e de aceitação perfeita, que as catástrofes não se determinam. Nesse sentido, Ela é verdadeiramente a Arca da Aliança, porque tudo está guardado e aceito n’Ela, e por isso há perdão para o resto.

Em Nossa Senhora está toda a beleza que há, que houve e haverá na História

A partir desse princípio, nós poderíamos fazer uma ideia da alma de Nossa Senhora, reconstruindo os esplendores que houve na História, imaginando-os num auge que não tiveram, mas que, guardados n’Ela, ver-se-ia o grau que alcançariam nos momentos supremos.

Ela é o Vas honorabile, a Arca que recolheu tudo o que os homens rejeitaram e na qual, como no Livro da Vida, está armazenado tudo quanto é belo, bom, grande, verdadeiro, e em proporções inimagináveis.

Sempre que nós sentíssemos saudades do passado, deveríamos imaginá-lo vivendo n’Ela de modo prodigioso; e por causa disso, teríamos consolação nas derrotas que sofremos desde que o mundo é mundo.

Se recuamos na História até o início, temos o Paraíso. Pensando no Paraíso, sentimos uma tristeza sem nome imaginando-o deserto… Nele as plantas frutificando, florescendo, os animais se reproduzindo, mas vazio de homens… Mas isso não é verdade, porque toda a beleza do Paraíso é conhecida por Nossa Senhora, é amada por Ela, e isso dá uma glória a Deus como o resto do gênero humano não daria se não tivesse prevaricado. Ela é a grande presença humana no Paraíso.

Nossa Senhora é um vaso com uma plenitude inimaginável de todos os perfumes.

Flávio Lourenço
A Virgem – Igreja de São Filipe Néri, Vic, Espanha

Quando São Luís Grignion chama Nossa Senhora de Paraíso de Deus, ele diz no sentido de que Nosso Senhor Jesus Cristo encontrou n’Ela seu paraíso. Mas ele também poderia dizer significando que Ela está no Paraíso de Deus, e que Ele Se encanta em produzir tudo em seu Paraíso, simplesmente por Ela estar ali.

Ela é o hífen entre o Paraíso e nós. Tudo quanto Abel deveria ter feito e não fez porque Caim o matou, vive n’Ela, e daí por diante.

Se eu interpreto bem as invocações Vas spirituale, Vas honorabile, Vas insigne devotionis, Nossa Senhora é um vaso com uma plenitude inimaginável de todos os perfumes, por assim dizer, um vaso cheio de Anjos.

Pela escravidão a Nossa Senhora temos uma participação em todos os bens d’Ela

Nós precisaríamos ter consciência de que, por um favor de Nossa Senhora, não merecido, mas muito real, nós temos uma enorme participação em todos os bens d’Ela. E, por causa disso, podemos e devemos ser chamados, a seu modo vas honorabile, vaso de toda honra. Nós somos como um cálice no qual se reúne a plenitude do bom espírito que houve no passado da Igreja Católica e que continua vivendo dentro da tempestade contemporânea, mas vivendo acrescentado pela semente do Reino de Maria!

Esta é a honra! É uma compostura, uma dignidade, uma consciência de um valor religioso, uma seriedade, uma tranquilidade, uma força, uma combatividade, uma afirmatividade e, sobretudo, é fé! Porque tudo isso nasce da fé, que faz com que um escravo de Maria Santíssima seja completamente diferente dos outros homens.

Isso é um modo de honra que os pagãos podem conhecer ou não conhecer, ver ou não ver, mas que existe e é a nossa recompensa na Terra! Ela vale mil vezes mais do que ter toda espécie de luxo, possuir todo fausto e gozar desse brilho passageiro.

Essa é a recompensa que Nossa Senhora nos oferece pelo fato de não procurarmos as honras deste mundo.

Nós constituímos então esse vas honorabile que, por toda parte, causa arrepio e mal-estar nos precitos e admiração até em quem não quer. E por quê? Porque entrou a honra.

Nós temos a honra de pertencer a Nossa Senhora, de participar de algo d’Ela e de servi-La. Esses somos nós e devemos fazer isso com essa consciência.

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