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Ianua Cœli

Imaginemos um homem que vive numa masmorra, mas onde há uma porta pela qual, todos os dias, no primeiro clarão da aurora, o sol começasse a entrar e, o dia inteiro, refletisse lá. Isso seria uma alegria.

A Terra é uma masmorra. Deus, um sol. A porta é Nossa Senhora, por Ela a luz do Céu vem até nós, o sol de Deus entra para nós!

Porta do Céu e sempre Virgem

Ela é a Porta do Céu, porque foi por meio d’Ela que o Menino Jesus entrou no mundo. Por uma obra do Divino Espírito Santo, Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, a Segunda Pessoa Se encarnou e nasceu do claustro santíssimo de Maria Virgem.

Mas Nossa Senhora foi virgem antes do parto, durante o parto e depois do parto. Como é que Nosso Senhor Se retirou desse claustro para começar a sua vida terrena? É um mistério que Deus conhece. Não é um absurdo, porque Ele, que pode tudo, pode fazer com que um corpo atravesse, por exemplo, as paredes de uma sala.

O espírito não pode ser detido pela matéria; ele é de uma natureza superior e não se incomoda com nada. Deter o espírito diante de uma parede seria uma coisa tão absurda como deter o olhar humano entre duas pessoas porque existe entre elas uma matéria plástica qualquer, formando como que uma vitrine. O olhar atravessa o plástico simplesmente com a mesma facilidade com que atravessa o ar. E Nosso Senhor terá atravessado assim os muros sagrados da Santíssima Virgem, de um modo misterioso, mas sem que Ela perdesse a virgindade, mesmo durante o próprio parto. De onde Ela, ao mesmo tempo, foi sempre virgem, mas tornou-Se a porta do Céu.

A porta do Céu, como toda porta, se abre e se fecha. A virgem é claustral. Sendo virgem, Ela nunca foi violada, mas, ao mesmo tempo em que ficou sempre virgem, através d’Ela passou misteriosamente o Filho de Deus, e Se fez homem. Encarnando-Se n’Ela, Ele nasceu e começou sua obra de Redentor até à Crucifixão e Morte, pela qual Ele resgatou o gênero humano.

Ela nos prepara para o Céu

Os homens que andam pelo mundo são todos mais ou menos selvagens, do asfalto ou da selva. Se eles vissem Nosso Senhor diretamente, de repente, não estariam preparados. Porque entre a sacral, sublime e divina pessoa d’Ele, grande de uma grandeza que não podemos nem sequer calcular, e nós, há uma distância a perder de vista. Ele é admirável e perfeitíssimo. Há momentos em que nós vemos reluzir n’Ele a santidade; em outros momentos, vemos reluzir o poder; em outros, a cólera, a misericórdia ou a vontade de curar, de ajeitar… em todos os momentos Ele é tão infinitamente maior do que nós, que nós não temos coragem de nos aproximar d’Ele. Mas, Ele, que conhecia essa diferença, ao seu lado estabeleceu sua Mãe.

Nossa Senhora brilha no céu da Igreja e Ela tem um brilho particular por onde Ela nos prepara para os esplendores do Céu. Por causa disso, Ela é chamada – a Igreja afirma isto, é um dos títulos d’Ela na Ladainha – Ianua Cœli. Ianua, em latim, quer dizer porta. É a verdade a respeito da qual nunca será suficiente insistir: Nossa Senhora é a Porta do Céu!

A meta de nossa escalada é o Céu

Ela é a porta para chegar até Ele e pela qual entramos no Céu. Só se chega à Santíssima Trindade por meio d’Ela!

Ela é aquela através de quem temos noções especialíssimas de Deus. Ela é a porta, mas, ao mesmo tempo, o trono das paragens do metafísico, do sobrenatural e daí para cima.

A intenção primeira, fundamental, de cada homem, é salvar sua própria alma. Nosso Senhor faz uma pergunta muito bonita: “Que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro se ele perder sua própria alma?” (cf. Mc 8, 36).

Nossa Senhora tem um brilho particular, Ela nos prepara para os esplendores do Céu.

Samuel Holanda
Nosso Senhor pregando – Igreja de São Sulpício Fougères, França

Nossa escalada não é desta Terra, é para o Céu! É rumo aos degraus do trono de Nossa Senhora para, chegando ali, oscular alguma vez seus pés imaculados, beijar a fímbria do seu manto e estar bem junto d’Ela, apesar de toda a nossa indignidade. E a escalada para o Céu se faz exatamente em união com Nossa Senhora.

Quanto mais familiarizados com Nossa Senhora, mais estaremos preparados para a visão beatífica

Uma vez que Ela é a Porta do Céu, Ianua Cœli, é bem evidente que é à medida em que nós entremos pelos umbrais dessa porta que alcançamos o Céu.

Portanto, a recomendação que eu dou é: procurem ser devotos de Nossa Senhora de todos os jeitos, de todos os modos possíveis. Se eu pudesse passar a vida inteira dizendo só isso: “Sede devotos de Nossa Senhora”, a minha vida estaria muito bem empregada.

Quem quer ter um antegosto do Céu seja devoto de Maria.

Quando a vida está dura; quando tudo parece desencontrado; quando sentimos a nossa fraqueza; quando estamos perplexos; quando julgamos que somos objeto de injustiça, ou quando fazemos justiça a nós mesmos e percebemos que não prestamos… nós devemos olhar para Ela. Há uma doçura, uma transparência, uma forma de sorriso e de majestade, de proteção e de convite para o alto, ao mesmo tempo de advertência e de força de atração, que a alma que reza muito a Nossa Senhora sente. Ela é bondosa, carinhosa, meiga como toda mãe deve ser; disposta a perdoar tudo, disposta a ajudar em todas as ocasiões, a voltar sempre de novo, a perdoar mais uma vez e dar mais uma ocasião. Quanto mais nos unirmos a Ela, mais as feridas de nossa alma sararão.

William Holman Hunt (CC3.0)
Parábola do vizinho importuno – Galeria Nacional da Vitória, Melbourne, Austrália

Se nós longamente familiarizarmos nosso espírito com Ela, ficaremos preparados para o Céu. Ela é nosso caminho. Ela é o Céu na Terra!

Sorrindo, Maria Santíssima apresenta nossos pedidos a Nosso Senhor

Da Terra, continuamente partem para o Céu pedidos de graça, e eles nunca chegariam a Deus se não fosse por meio d’Ela. Se todos os Santos e todos os Anjos que há no Céu pedissem uma graça e Maria não se associasse a esse pedido, eles nada obteriam. Nossa Senhora, sozinha, pedindo, sem a cooperação deles, pode obter, porque só Ela é pura, só Ela é imaculada, só Ela é perfeita a tal ponto, que Deus jamais recusa a Ela coisa alguma.

Por causa disso, os pedidos que Lhe dirigimos – Ela é Mãe que nunca nega coisa alguma aos filhos que Lhe pedem –, Ela os recebe e, sorrindo, apresenta-os a Ele.

Se a fisionomia d’Ela de tal maneira nos encanta, quanto encantará a Nosso Senhor Jesus Cristo? Que alegria Ele tem, no mais alto do Céu, ao olhar continuamente essa obra-prima da Criação que é Ela, contemplando todas as perfeições criadas possíveis que Ele colocou dentro d’Ela e, desta maneira, se comprazendo!

Lembremo-nos da parábola de um homem que estava deitado na cama e que outro veio pedir-lhe pão porque estava com visitas. O dono da casa não quis abrir, mas, afinal, o que pedia pão bateu tanto, que ele, para fazer cessar a importunidade, levantou-se e deu-lhe pão (cf. Lc 11, 5-8).

Se a fisionomia d’Ela de tal maneira nos encanta, quanto encantará a Nosso Senhor Jesus Cristo?

Nosso Senhor disse: “Fazei assim comigo”. Ou seja, muitas vezes temos a impressão de que a porta está fechada… nesses momentos, batamos, batamos, batamos e, lembrando a parábola, digamos: “Fostes Vós mesmo que dissestes isso; pelas mãos de vossa Mãe Santíssima nós batemos à vossa porta e pedimos, Senhor, que nos atendais! Maria, Porta do Céu, abri-Vos para nós, fazei que nossa prece penetre no Céu, levai-a a Deus”.

Porta do Céu, abri-Vos para nós, fazei que nossa prece penetre no Céu!

Samuel Holanda
Virgem Maria – Basílica da Estrela, Lisboa

Por meio de Nossa Senhora, nossas orações são onipotentes

A questão é rezar, se possível em todos os tempos disponíveis, e rezar com esperança. Pedir cada um por sua própria alma, antes de tudo. Este é o único ponto onde o homem deve ser egoísta: zelar por sua própria alma, mais do que por qualquer outra coisa.

Nossa Senhora é não só o veículo de nossas preces para o Céu, mas das graças que descem de lá para a Terra. Ela é o canal único de todas as graças que os homens recebem.

Em que termos isso se traduz na vida espiritual quotidiana de cada um de nós? É na convicção contínua de que nós não podemos, uma só vez, orar a Deus, nos dirigir a Nosso Senhor Jesus Cristo, pedir qualquer coisa ao Céu, sem ser por meio de Nossa Senhora. Todas as graças são dadas a quem se aproxima d’Ela.

Não é necessário que tenhamos isso explicitamente formulado em cada oração, mas é indispensável que isso esteja presente em nosso espírito pelo menos como fundo de quadro e que, constantemente, nos dirijamos a Nossa Senhora para, por meio d’Ela, nossas orações se tornarem onipotentes.

De outro lado, devemos ter uma grande confiança, porque quando se Lhe pede qualquer coisa, Ela concede mesmo! Se pedirmos, podemos ter a certeza de sermos atendidos.

No fim de nossa caminhada, veremos a Porta do Céu

O fim desta caminhada é a visão beatífica. E nós devemos fazer votos de que, dia virá em que todos nós, no Céu, genuflexos diante de um trono excelso – quanto mais alto do que todos os tronos da Terra! –, veremos Nossa Senhora, Aquela que é o Sacrário da Santíssima Trindade, Aquela que é verdadeiramente a Porta do Céu!

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