Todo homem tem uma espécie de horizontes de profundidades que ele é chamado a contemplar. Ser fiel a esse ponto corresponde a um heroísmo que cria ocasião para que Nossa Senhora conceda à alma o discernimento dos espíritos.

O discernimento dos espíritos é um dom que Nossa Senhora pode obter para qualquer pessoa, mesmo para quem esteja em pecado mortal. Portanto, não é fruto da virtude, mas uma ação que Deus exerce sobre a alma.
Resolução íntegra de ser contrarrevolucionário
Como se formou em mim o discernimento dos espíritos?
Não sei até que ponto chega a capacidade psicológica e até que ponto chega o dom. Na realidade, o discernimento que utilizo para o apostolado formou-se em mim a partir da resolução de ser inteiramente contrarrevolucionário em tudo e por tudo, de não conceder a amizade de minha alma a quem fosse revolucionário.
Não adianta algum “fariseu” vir me dizer que a caridade se deve a todos, porque eu a diferencio da amizade. A caridade é o desejo do bem para todos, não tem dúvida – inclusive para com o “fariseu” – nos devidos termos. Mas uma coisa é essa caridade, outra é sentir-se amigo de alguém, ou seja, congênere com alguém e ligado a ele por uma afetiva e verdadeira afinidade.


Dado que todas as disposições da alma são maculadas, em princípio, pelo pecado de Revolução, não existe possibilidade, no cerne do homem que se tornou de fato revolucionário, de ter alguma coisa que não seja maculada, segundo as vias comuns da graça e as operações comuns do demônio.
Donde decorre a conclusão de que, sendo ele revolucionário, no seu todo ele não é meu amigo, e eu, por inteiro, não sou amigo dele.
Origem do senso psicológico e do discernimento dos espíritos
Menciono uma reflexão tirada de minha remota infância.
Em frente da casa onde eu morava, havia uma série de casinhas pequenas; não era propriamente de nível operário, mas dessa minúscula burguesia meio operária que ainda não saiu do operariado.
Como é natural, aquelas famílias tinham seus filhos que iam crescendo, e muitos eram mais ou menos de minha idade ou da idade de meus primos. Não nos falávamos, mas nos víamos. Nós não sabíamos o nome deles, mas a respeito de alguns comentávamos: “Esse eu já conheço; já conheço essa cara, aquela outra…” Assim eu conhecia alguns.
Eu notava que, se fizesse essa operação de atravessar a rua e ir conversar com eles – mais distante do que uma viagem ao Polo Norte, para as circunstâncias daquele tempo assim devia ser, era bom que fosse – se fizesse isso, eles ficariam encantadíssimos em razão do fato de eu ser do outro lado da rua. Mas, ao cabo de vinte minutos de conversa, se eu saísse com um comentário contrarrevolucionário, eles romperiam.
De onde a pergunta: “Qual é o fundamento dessa atitude na alma deles? Como são eles?” Fazia o estudo da psicologia deles. E daí começava o senso psicológico: “No que essa psicologia é diferente da minha?”
Nessas várias disposições de alma, e na minha conservação fiel a essas posições, firmou-se a raiz psicológica na qual, segundo me parece, a graça inseriu em determinado momento um certo discernimento, quer dizer, algo a mais do que um mero senso psicológico.
Se compreendermos, de um lado, o princípio – exposto em Revolução e Contra-Revolução – da totalidade da Revolução, em virtude do qual, quando esta penetra numa alma, ainda que numa pequena concessão, como o gosto por um objeto revolucionário, por exemplo, ela começa a visar o centro da alma e, se não houver uma proteção muito especial de Nossa Senhora, atinge-o; de outro lado, quando a alma se deixa vulnerar num ponto, no centro, ela inteira fica embebida da Revolução.
Se tivermos inteira convicção disso, tomamos distâncias e o senso psicológico, o discernimento dos espíritos vai nascendo em nós, na medida em que a graça queira dá-lo.
Mas tenho esperança de que esse dom nos seja concedido, porque é tão necessário ao nosso apostolado que não vejo como possa realizar-se sem isso.
A preguiça de ser profundo
Qual é a principal dificuldade para a aquisição desse dom? Não é a tendência de simpatizar com a Revolução; é a preguiça de ser tão profundo.
A preguiça de ser profundo é uma coisa tremenda, porque o superficial “acha” – é uma coisa curiosa, ele não explicita – que o aprofundamento é supérfluo, e que “borboleteando” na superfície das coisas acaba afivelando e resolvendo tudo.
O superficial tem ideia de que se ele for aprofundar, encontrará muita coisa aborrecida e muito complexa para pensar, e que a vida é mais fácil não aprofundando, que o navio passa por cima desses escolhos submarinos sem bater. Portanto, não precisa ter conhecimento. No fundo, ele “acha” que “traz azar”, que as pessoas muito profundas ficam meio azaradas, enquanto as superficiais têm sorte.
Isso tem uma aparência de verdade, porque em geral as pessoas que têm muito daquilo que torna os outros felizes, são superficiais. Então, o indivíduo tentado pensa: “Como os superficiais são felizes! Se eu quero ser feliz, devo ser superficial”.
A saída para o caso é compreender que o mais banal dos homens, um indivíduo que esteja capinando, e que eu não estou vendo, tem na sua alma profundidades magníficas. Todo homem é magnífico. Porém, não são as magnificências que ele quereria ter e que o orgulho lhe sugere. Que ele procure saber onde é magnífico, e ele será como Deus quer.
Uma das coisas mais magníficas do homem – parece um jogo de palavras – é aceitar de não ser magnífico. Como ele fica magnífico quando aceita ser menos magnífico do que ele quer! Acaba sendo mais do que ele imagina. Não é um jogo de palavras, é uma realidade. Fica respeitabilíssimo, extraordinário.
Todo homem tem, portanto, uma espécie de horizontes de profundidades que ele é chamado a contemplar. E deve procurar esse horizonte. Ser fiel nesse ponto corresponde a um heroísmo que cria ocasião para o discernimento dos espíritos. Mas é só o Espírito Santo que concede esse dom.
A retidão dos princípios é fruto da inocência
Quando eu era muito criança ainda, dez, onze anos, não sei se com o caráter de um dom do Espírito Santo ou não, mas essa atual percepção das mentalidades começou a se dar.

Como explicar isso? Toda criança nessa idade, em via de regra, tem inocência. Graças a Nossa Senhora eu também a tinha. E, tendo-a, ela levantava no mais fundo da alma, numa zona que corresponde às cogitações doutrinárias mais profundas, um vínculo por onde eu, quando ouvia certos princípios, percebia não apenas a lógica ou o ilógico destes, mas a mentalidade que o indivíduo tinha com aquele princípio.
É claro que eu não fazia a figura ridícula de um doutorzinho, mas tanto quanto cabe na mentalidade de uma criança, eu ia notando isso. Não fui dessas crianças cintilantemente precoces; tinha uma boa precocidade normal, frequente. Mas, de um modo ou de outro, não deixava de ser verdadeiro que, ouvindo alguém dizer uma coisa com mau espírito, eu percebia melhor o princípio doutrinário que estava por trás. E ouvindo, pelo contrário, o princípio doutrinário errado, eu percebia o mau espírito.
Lembro-me de ouvir comentários assim no fim da Segunda Guerra Mundial: “O mundo agora vai ser um progresso! Uma coisa extraordinária!” E eu pensava: “Com essa cara que ele faz, não há progresso. Com essa eu não vou”.
Como se explicava isso? Naturalmente eu tinha em vista que o mau espírito resulta em erro de doutrina, e a má doutrina produz o mau espírito. E ia fazendo a conexão. Nisso entrava algo pelo qual eu ia conhecendo os espíritos no que eles tinham de mais tênue, e depois fazia a relação com as coisas menores. Eu não ia, de proche en proche, do pequeno sintoma até o mau espírito, mas no sentido inverso.
Por exemplo, o jogo de bolinha de gude, do qual eu gostava, sobretudo porque algumas bolinhas eram muito bonitas, pareciam pedras preciosas. Um belo dia, apareceu um menino que levava umas bolas de aço tiradas de roda de carro. Eu nunca tinha imaginado que pudesse haver bolinhas ali dentro, mas aquele menino apanhou-as.
À primeira vista, o reluzimento do aço era bonito. Porém, no bater da bolinha de aço na de vidro, a de vidro fugia e a de aço avançava. Percebi também que o menino que manuseava a bola de aço tinha um prazer maligno: tinha o gosto de que a força bruta do aço tivesse quebrado a bolinha bonita.
Daí surgiu uma associação de imagens mais ou menos da seguinte forma: “Tudo quanto é motor contra tudo quanto é vivo produz esse efeito. Ou seja, tudo quanto é moderno quebra a tradição. O espírito moderno é a bola de aço, o mundo antigo é a bola de vidro”.
Lembro-me inclusive da mão do rapaz jogando a bola de modo malfazejo; eu prestava atenção e pensava: “No fundo, nós não nos entendemos. Eu não posso iniciar a batalha da bola de vidro contra a de aço, pois é uma batalha perdida. Não quero comprar bolas de aço. Delas nunca me servirei. Nunca quebrarei uma bola de vidro com uma bola de aço. Se quebrar porque caiu no chão, não importa. Mas com bola de aço, não. Eu sou do partido do vidro, não sou do aço!”

Grosso modo, entendi que era feio e ruim, e que, portanto, tinha de ser falso, mas não percebi no que era falso. Eu percebi que aquilo me contundia no mais fundo da alma.
Inocência e retidão de alma de Dona Lucilia
Por outro lado, mamãe me ensinou muito mais por seu modo de ser do que pelo que ela dizia. O seu modo de ser era muito cauto. Prestando atenção, era uma pessoa muito desejosa de poder confiar, muito merecedora de confiança, mas não era uma pessoa que ia confiando em qualquer um. Isso não! Boba, ela não era!
Em relação a tudo ela tomava cautelas de uma índole um pouco diferente, mas encantadoras, para não ofender. Infelizmente, os exemplos concretos se esvaíram de minha memória e não posso inventar situações. Lembro-me da galáxia de coisas sem me lembrar de cada estrela.
Por exemplo, ao passar pito numa criada, ao dar ordem a uma criança, ao ensinar, ou no modo como ela entrava em qualquer ambiente – isso eu notava muito –, mesmo na casa dela. Ao entrar numa sala e encontrar duas ou três pessoas conversando comigo, com meu pai ou com outra pessoa, nunca a vi abrir uma porta com violência ou com uma espécie de caráter brusco. Ela manuseava o trinco com delicadeza, abria bem devagar e, ao mesmo tempo, eu percebia que ela passava o limiar da porta com lentidão.
O que é lentidão aí? Dona Lucilia ia entrando e eu notava que ela tinha “antenas”, com as quais procurava ver logo como estava o ambiente, e ia se impostando afetiva e temperamentalmente, pondo as várias modalidades de bondade dela ao alcance de todos os que estavam ali.
Às vezes, com discrição, ela percebia que estavam falando sobre temas muito altos e que não eram reservados. Se fossem reservados eu lhe diria, e ela não ficava nenhum pouco sentida: “Mãezinha, isso é reservado, a senhora dá licença”. Em geral, ficava um instantinho e depois saía com o maior comprazimento. Via-se que Dona Lucilia hauria um pouco do ambiente e saía. A alma dela muito reta, com muita inocência, muito aberta para tudo, sentia tudo e guardava.
Quando se tratava de chamar a atenção de alguma empregada, em primeiro lugar, nunca o fez, que eu me lembre, na minha presença nem na de minha irmã. Ou seja, para não humilhar, ela o fazia em separado. Eu não me lembro de nenhuma vez tê-la presenciado despedir uma empregada. Naturalmente, de vez em quando despedia, mas não me lembro de ter sido na minha presença. Ela o fazia a sós.
Bom trato ao despedir uma empregada
Em certas ocasiões, não querendo ouvir, mas com naturalidade por estar com a porta aberta, vi cenas dessas. E o sistema era curioso. Mamãe tinha hábitos para tudo, preparava as coisas, fazia muitas contas. No fim da vida, começaram a se generalizar essas maquininhas e eu quis comprar, mas ela disse que não queria. Tinha feito contas a vida inteira e queria ir até o fim. Eu procurei explicar como era uma máquina, que era fácil usar etc., mas não adiantou.
Dona Lucilia fazia a conta do que devia à empregada. Num tempo em que os clips eram para uso meramente comercial, ela arranjava uma notinha de papel em que escrevia a lápis, com uma caligrafia sempre muito bonita, a quantia a que a empregada tinha direito, de acordo com o número de dias, e prendia o dinheiro no papelucho com um alfinete.

O alfinete, quanto eu possa me lembrar, não era esse comum de prender roupa. Como não havia clips, ou ainda não eram de uso doméstico, ela tinha uma porção de alfinetezinhos um pouco mais ornamentais, para uso ou não de roupa. Então tinham pontazinhas de vidro, de massa, de porcelana, de qualquer coisa, coloridas. Aliás, muito mais bonitinhos do que os alfinetes de hoje, nem preciso dizer. Ela prendia o dinheiro e chamava a empregada. Esta entrava e mamãe, permanecendo sentada, atendia à pessoa com muita bondade, numa atitude inteiramente distendida: “Bom, fulana, eu já lhe disse que era melhor você sair; então nós vamos nos despedir agora e dou-lhe tanto assim. Eu desejo que você seja feliz, que Deus a acompanhe…” Eram gentilezas desse gênero. Era a hora de despedida porque tinha havido, em via de regra, pequenas desinteligências. Mas as empregadas, tanto quanto eu me lembro – se mudaram tanto os alfinetes, quanto mais as empregadas! –, ouviam com respeito, agradeciam, desejavam felicidades para ela e para a família; por fim davam o adeus, mas sem shake hands. Era uma espécie de pequeno julgamento acompanhado de perdão.
Vista em câmera lenta, lembro-me da despedida de uma criada de quarto chamada Benedita. Para minha ótica daquele tempo, parecia uma mulher enorme, com uma cara preguiçosa, uns olhos que pareciam não ver longe, nem tinham vontade de ver longe; queria sentar numa cadeira e ficar sem fazer nada. Flácida em tudo, tinha umas bochechonas, nariz de forma indefinida, mãos grandes que nadavam dentro do ar com dificuldade, e uns pelões enormes. Eu olhava para ela às vezes e pensava: “Que pés tem essa Benedita!” Não era para o meu mundo. O meu mundo era o da Fräulein Mathilde; aliás, provida de pés enormes também.
Todas as demissões foram nessa clave, mas me ficou uma ideia genérica delas, e algo da despedida da Benedita; porque das várias criadas que tivemos, lembro-me mais dessa. São os caprichos da memória ao longo da vida.
(Extraído de conferência de 27/6/1981)





