A alma do contrarrevolucionário é insaciável de tudo quanto é nobre e elevado. Entretanto, Deus mesmo colocou na Criação elementos graciosos que, em alguns momentos, pudessem deleitar e descansar a alma que aspira o sublime.
A alma contrarrevolucionária quer a Terra organizada como o Céu. Ela deseja, inclusive nas menores coisas, tudo reto, tudo arranjado, tudo tendendo para o mais nobre. É insaciável. A insaciabilidade é a característica da alma verdadeiramente contrarrevolucionária. Ela nunca se sacia inteiramente com as coisas que são de Deus, com o sublime, o nobre, o elevado. Deseja sempre mais, e mais, e mais. E daí vem o mistério do encanto que causam determinados monumentos.
Por exemplo, a Abadia do Mont-Saint-Michel, na França. Qual é o sentido daquela flecha? Exatamente conduz a alma para um fim insaciável. Ela parece entrar diretamente no Céu. Pode-se ficar horas e horas contemplando-a, e tem-se a impressão de que ela ajuda a conceber, a imaginar coisas cada vez mais maravilhosas, mais magníficas. Assim deve ser a alma do contrarrevolucionário.
A alma que apresenta tendências para o oposto tem influências revolucionárias e deve então, diante da influência revolucionária que sofreu, fazer uma luta para se tornar completamente contrarrevolucionária.
O descanso do sublime no gracioso
Alguém poderá dizer: “O sublime, entretanto, cansa; e Deus, que fez na natureza coisas sublimes, fez também coisas graciosas e amenas”.
Há uma florzinha chamada miosótis, minúscula, mas de um azul encantador; as pétalas, a construção do miosótis são uma verdadeira beleza! Deus criou tanto as águias, como o miosótis. Ele não criou essas coisas para nos deleitarem, para nos descansarem do sublime? Sim, mas elas nunca entram em contradição com o sublime. Não estão na linha oposta do sublime. Entre o miosótis e a águia não existe a contradição que há entre o porco e o miosótis, ou entre ele e a águia. O miosótis é encantador, faz sorrir. A águia empolga, entusiasma. Porque o miosótis é uma gota apenas daquela beleza de que a águia é um oceano. Entre a gota e o oceano não há contradição, mas continuidade.
Quantas vezes, contemplando o mar, me encantava isto: o mar alto, enorme, misterioso; mais adiante ele batia numa pedra. Eram os choques da água com a pedra, depois refluía. Logo, olhava, perto de mim uma pedrinha, e era um marzinho que entrava ali e que fazia, em ponto pequeno, o mesmo que a pedra grande tinha feito. Uma coisa engraçadinha, encantadora, feita como um brinquedinho para despertar um sorriso da cena parecida com a que me despertara admiração. E eu pensava: Deus fez isso para que minha alma, depois de ter contemplado o sublime, pudesse ter um sorriso e descansasse. Descansa-se do sublime no gracioso, no leve.
Deus criou o leão. Há coisa mais bonita do que contemplar o leão? Mas ele criou a ovelha, tão mansa, tão cordata, tão engraçadinha, tão própria ao convívio humano.
Complementariedade entre duas raças
Deus criou uma raça de cão com o qual eu confesso que tenho umas complacências, com algumas oposições, que é o Bulldog. O lado do Bulldog de que eu gosto é como ele é categórico. Ele é feio, até caricato; além disso, tem um mau humor instalado nele de forma permanente e com o qual não posso estar de acordo. Entretanto, ele está sempre pronto a morder; isso eu acho interessante. E quando é hora de morder, morde mesmo e, se for preciso, até a morte, mas o que ele precisa fazer, ele faz.
Ao mesmo tempo, Deus criou uma outra raça de cachorro que, no meu tempo, se chamava Galgo Grego. Comprido, focinho alongado, pelo feito de seda, passos elegantes, harmoniosos. É o extremo oposto do Bulldog. É uma outra forma de beleza. Um bicho feito não para morder os adversários, mas para distrair-nos quando estamos em casa. O Bulldog toma conta da casa do lado de fora, e dentro temos o bicho de pelo sedoso para passar a mão, para distrair-nos. É um aspecto suave da criação que forma o complemento do aspecto belamente feroz do Bulldog.
Exemplos do que não se deve ser
Deus fez todas essas coisas magníficas. Ele não fez o grotesco, a baixa de nível, a coisa ordinária. Deus é o criador dos porcos, do cisne, mas também do pato… Não há coisa mais horrível do que o pato andando, com aquele sentimento de contentamento com que ele olha, pisando torto de um lado para outro e tocando para a frente! Deus fez um mundo de bichos feios, esquisitos; criou a matéria susceptível de se putrefazer. Mas essas coisas são as imagens do pecado, as quais Deus criou para termos horror de pecar.
Por exemplo, o porco é daquele jeito para nos ajudar a ter horror à impureza. Ele é bom para ser comido, alimentar o corpo; para ser visto, causa horror por sua impureza.
O pato é, evidentemente, a imagem da mediocridade. É o bicho medíocre por excelência. Em tudo e por tudo. Saudável, bem implantado no chão, contentando-se com qualquer coisa; entretanto, banal, vulgar, caricato. Bom para ser comido também. Ou seja, só serve depois de morto. Em vida ele serve apenas para nos dar a ideia de um certo defeito moral.
Uma lição da Criação
Diz-se que quando o mundo terminar, for incendiado e tudo quanto houver de vivo nele for eliminado, a matéria suja será atirada no Inferno. Quando vemos algo muito sujo na Terra, devemos olhar e pensar: se o mundo acabasse agora, isso cairia na cabeça de Satanás. Devemos ter horror a isso, porque são gotículas que estão na Terra feitas para o Inferno, e vão ser empurradas lá por ordem dos Anjos. Aquilo não é para nós, a não ser para termos uma ideia de como é o Inferno. São coisas que estão em contradição com a obra de Deus. Ele as criou para nosso ensino e para nos dar horror.
Um indivíduo que passa e olha uma coisa feia, suja ou porca e não sente horror, pelo contrário, se porta com toda a naturalidade em face daquilo, ele, de fato, se porta como revolucionário. O revolucionário não liga para nada de sublime. Ele tende a ser coerente, a ser um só com tudo quanto não presta. Pelo contrário, o contrarrevolucionário tem horror a tudo que o distancia do sublime.v
(Extraído de conferência de 27/11/1976)











