A Revolução Industrial expulsou os bons imponderáveis e introduziu a tirania da obediência à moda. Essa obediência, apesar de mover o mundo inteiro, não é feita através de palavras, e possui um verdadeiro poder legislativo e punitivo. No mundo revolucionário, que se diz democrático, aqueles que se mantêm inconformes à moda são inflexivelmente silenciados e maltratados.
Na Igreja, até certo tempo atrás pelo menos, a atitude do bom fiel para com o bom padre tinha muito disso: o acatamento com que ele recebia o ensinamento, a instrução religiosa, a formação ou o conselho do sacerdote estavam ligados à ideia de que o padre não tinha apenas o conhecimento da Teologia, que é indispensável, ou o carisma de participar de algum modo da docência da Igreja, mas que ele possuía uma série de imponderáveis em função dos quais era consultado.
Por exemplo, frequentemente a mãe de família perguntava para o padre, com mais confiança do que para qualquer outra pessoa, se fulano era uma boa pessoa para se casar com a filha dela. Entrava a ideia, meio confusa, de que, por ser padre, ele conhecia melhor a situação.
Às vezes chegavam até a perguntar se valia ou não a pena comprar tal sítio. E o padre, muitas vezes, aconselhava sem entender do assunto, mas levado por uma espécie de sentimento patriarcal de proteção, uma experiência confusa da vida pela qual as pessoas se guiavam muito por ele.
Os antigos coronéis, conselheiros considerados capazes
Algo semelhante se dava com os antigos coronéis, não do Exército, mas da Guarda Nacional, como havia no interior de São Paulo. Era em geral um fazendeirão rico e o chefe da zona. Também esse era tido como dotado de uma espécie de visão superior. As pessoas pediam-lhe conselho a respeito dos negócios, informações sobre qual era o melhor médico da capital a ser consultado em determinada doença. Perguntas como essas se faziam ao coronel, o qual era reputado capaz, pelo menos de um modo suficiente, de responder satisfatoriamente. Isso é próprio à sociedade orgânica.

Por exemplo, um sujeito a quem tinham morrido os pais e era relativamente moço; precisava de um conselho a respeito de uma carreira a seguir, ou qualquer outra coisa. Então podia ir ao coronel, como também a um parente e, às vezes, um parente distante. Por serem parentes, ele chegava e dizia: “Primo tal, eu quis visitá-lo. Vou tomar-lhe uns minutinhos. Eu queria saber tal coisa assim…” Ainda acabava jantando naquela casa, depois jogava um pouco de víspora, de dominó e voltava para sua casa. Tudo se fazia assim numa atmosfera de imponderáveis.
A Revolução Industrial quebrou os bons imponderáveis e introduziu outros
Ora, precisamente a Revolução Industrial traz consigo uma expulsão desses imponderáveis. E como ninguém escapa ao império dos imponderáveis, são outros imponderáveis que entram.
Vi isso em mais de uma casa. Era um período em que se faziam muitos jogos: de whist, de poker etc. As pessoas, sobretudo os homens, jogavam fumando. O dono da casa punha um cinzeiro junto ao lugar de cada jogador, de maneira que, ao chegarem perto da mesa para jogar, estava tudo devidamente posto. Uma coisa banal.
Mais antigamente não era assim. O cinzeiro não ficava em cima da mesa, mas havia um cinzeiro grande posto entre duas pessoas. Assim, cada pessoa tinha a seu lado um cinzeiro que chegava até ao chão.
Durante algum tempo usou-se o cinzeirão, depois passaram a usar os cinzeirinhos, que não eram de aspecto desagradável. Punha-se um em cima do outro, formando uma pilha no centro da mesa. À medida que as pessoas queriam, iam tirando aquilo e usando. Eram cinzeiros feitos de não sei que material, mas com cores alegres e vivas: uns verdes, vermelhos, amarelos, quatro ou cinco empilhados.
De repente passou a moda e ficaram uns cinzeirinhos à maneira de prato raso imitando prata ou tendo uma liga com um pouco de prata. Os antigos cinzeiros podiam estar aproveitáveis como fossem, a família era obrigada a aposentá-los e comprar os novos, sob pena de parecer algo antiquado, fora de propósito.
Artifício para ativar a indústria
Como se dava isso? A moda era introduzida e se espalhava para todo o mundo. Não cheguei a entender como era. De repente eu percebia que tinha mudado para uma série de pessoas.
Certa vez, um ecônomo definiu isso muito bem. Dizia ele tratar-se de um artifício de má economia feito para ativar a indústria. Porque essas mudanças bruscas se davam com material fabricado no Brasil. Para as indústrias poderem fabricar muito e lucrar com a venda de seus produtos, era conveniente, com certa frequência, pôr fora de uso tudo o que tinham fabricado e obrigar o seu parque de consumidores a mudar de natureza de objetos e comprar outra coisa. Essa definição me parece muito plausível, muito admissível.
Para vender bastante, isso era posto à venda a prestações, de maneira que mesmo a pequena burguesia podia comprar. Então era um sistema pelo qual as pessoas compravam objetos que não lhes eram necessários, com o dinheiro que não tinham.
À tirania da moda, obediência cega
Em geral isso se fazia pelo contágio de uma certa apetência e não por meio de propaganda. A propaganda ajudava a ativar a apetência, mas esta era o principal.
Por exemplo, vendo esses cinzeirinhos de cores diversas, eu percebi que aquelas cores alegres comunicavam uma certa alegriazinha à mesa de jogo, e com isso uma certa esperançazinha a cada um de ganhar. Mas era tão discretamente que se alguém quisesse fazer esse comentário com as pessoas daquele tempo, elas negariam ser assim. Ou seja, elas eram levadas a uma espécie de segredo sobre esse caso a ponto de não só não dizer que era assim, mas de negar e de desacreditar quem afirmasse isso: “Imagine esse tipo! Olhe com que argumentação rebuscada ele vem me explicar a coisa mais simples do mundo! É só porque eu comprei outros cinzeiros”.

Todos percebiam que esse sujeito “infamado” tinha dito a verdade, mas havia um imperativo por onde ninguém tinha coragem de concordar com ele. Com isso, se exerce uma obediência seguida mais estritamente do que a obediência nas famílias religiosas. E isso se passa em todos os campos: no mundo da política, da cultura, o que for.
Outro exemplo de costume imposto pela moda
Lembro-me de outro exemplo: nos restaurantes bons introduziram umas geladeiras grandes – hoje são colocadas na copa, porque não tem propósito pôr em outro lugar –, com um vidro através do qual se via o que estava em seu interior. Criava-se a ilusão de que aquilo que estava no frio era fresquinho e, portanto, comer alguma coisa lá de dentro era mais saboroso, mais recente e mais gostoso do que algo que não tivesse passado por lá.
Na primeira vez que fui a um restaurante onde havia uma geladeira assim, passei em frente dela e vi que tinha uns pedaços bonitos de carne de ave, não me lembro qual. Fiquei muito atraído, sentei-me e mandei trazer aquela carne. Quando eu pus aquilo na boca, senti que não era o gosto tradicional, tinha o efeito deteriorante do freezer sobre o sabor da comida, mas causava uma impressão falsa e apetecível. Com isso, todo mundo foi na onda e, depois, quando viram que era tapeação, não deixaram de fazer assim, porque há uma ordem a ser seguida.
O mecanismo por meio do qual a moda é difundida
Como é essa ordem da qual emana a vitalidade de todo um setor da indústria? Como é comunicada, sugerida, conservada, de maneira tal que o parque industrial de uma cidade grande como São Paulo pode ser modificado por esse mecanismo?
Há qualquer coisa que talvez participe da sugestão. Mas não é só sugestão, porque há algumas pessoas que intuem que, se elas se colocarem como as zeladoras daquela mentira, elas têm a possibilidade de oprimir um que se revolte. Então elas exercem essa opressão sem nenhuma delegação, mas porque sentem que, se elas fizerem isso, têm um prêmio de um consenso geral: “Ora essa, falando contra os freezers esse sujeito aqui!” E o sujeito torna-se desqualificado.
Então existem os difusores de uma patota e os penitenciários que mantêm a patota em vida. Tudo isso cessa quando ficou resolvido lançar outra moda.
É evidente que a psicologia do penitenciário do freezer é diferente da psicologia do penitenciário de um tipo de gravata. Como se move e remove tudo isso de maneira a obter verdadeiramente uma obediência? Porque o mundo todo se move com isso.
Se precisasse sempre de uma palavra, o mecanismo estaria torto. É preciso que seja por um meio que, às vezes, é simplesmente um muxoxo pelo qual o indivíduo ri de quem usa uma gravata que ele próprio estava usando na véspera.
O “poder” legislativo e punitivo da moda
São dogmas, mas há fábricas que os produzem e fazem sucessão dos dogmas. De um modo ou de outro tem uma coerção, uma obrigação.
Se alguém se encontrasse com uma pessoa ligada a uma Ordem religiosa e perguntasse:
— O que é isso? Você agora está usando colarinho extremamente baixo?
E ele respondesse:
— Meu superior me mandou usar.
Poderia dar em uma vaia. Mas se, em vez disso, ele dissesse:
— É porque todos estão usando.
— Ah, estão usando… Olha, aí está bem, não tem dúvida nenhuma.
Ora, que poder legislativo é esse? Poder que, além de legislar, pune?
Um gosto inocente de Dr. Plinio, criticado por não ser conforme a moda
Antigamente eu ia, toda noite, a uma confeitaria que ficava em frente à nossa sede da Rua Vieira de Carvalho, chamada Fazzano. Eu não estava ainda sujeito ao regime imposto pelos médicos e, por isso, com a maior sem-cerimônia mandava vir sorvete de creme com cerejas em conserva e creme chantilly.

Eu notava que havia uma espécie de rejeição à cereja, o que fazia com que ninguém na minha mesa mandasse vir; além disso, um respeito humano de todos diante do garçom que toda noite já vinha me trazendo aquelas cerejas com creme chantilly. Até que um dos que me acompanhavam – esse mais tarde nos abandonou – uma vez explodiu e disse em tom muito agressivo:
— O que é isso? Mais uma vez cereja? Que negócio é esse?
Mas ele disse com a ênfase de quem era o justiceiro do universo, que estava castigando este idiota que não percebeu que não se come cereja assim com a desenvoltura com que eu comia.
Aí vinha a crítica:
— Isso é sobremesa de menino de quinze anos.
Nisso estava o veneno da cobra, porque ele implicava com o gosto inocente, cândido e, se quiserem, um pouco infantil.
Os que não aceitam a moda são maltratados e silenciados
Este é o estado de espírito condenado: não se pode ostentá-lo sem que fique mal.
Há convenções dessas: tal coisa assim não pode ser e está acabado. A pessoa sente que é para não ser, mas: “Cale a boca, obedeça, ou vá entrando melancolicamente no mundo de sombra daqueles que não se conformam…” E, nesse mundo democrático, os inconformistas são inflexivelmente maltratados, se não estiverem “dentro do vento”.
(Extraído de conferência de 26/12/1992)



