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Rumo ao ápice

Durante as invasões bárbaras ocorridas no tempo do Império Romano, os magistrados fugiam, mas a Igreja permanecia. Lentamente ela foi elaborando novos costumes e, com o tempo, a barbárie foi adquirindo hábitos inspirados pelo catolicismo. Assim nasceu a Idade Média. Porém, todos os frutos da ação da Santa Igreja ainda estão por vir e chegarão ao seu ápice com maravilhas novas, coerentes com o impulso primeiro.

Em matéria de Idade Média, o curso dos acontecimentos, a concatenação de um fato com outro é diferente de outras épocas históricas, e isso faz com que as pessoas de hoje, lendo sobre a Idade Média, não compreendam bem como as coisas se passaram, e dão então interpretações erradas.

Os bárbaros no Império Romano

A Idade Média nasceu dos escombros do Império Romano do Ocidente. O Império Romano tinha sido dividido em dois: o do Oriente e o do Ocidente. O Império do Ocidente tinha por capital Roma, enquanto o do Oriente tinha por capital Constantinopla.

Em linhas muito gerais, o Império do Ocidente abarcava da Itália até a Suíça, do Reno e do Danúbio até o Mar do Norte. O resto, ocupando uma parte dos Bálcãs, havia o Império Romano do Oriente, que se espraiava por uma parte da Ásia e um tanto da África. Além dessas fronteiras, vinha o mundo dos bárbaros.

Entretanto, não é tão simples delimitar assim porque, por exemplo, durante largos períodos, o sul da Itália esteve sujeito aos gregos, Império do Ocidente, portanto. Depois esteve sujeito aos normandos, que eram bárbaros, e ele já não era mais romano. Mas, em linhas gerais, o Império do Ocidente pode ser visto assim.

Em cima dos escombros desses dois impérios entraram os bárbaros, estabeleceram-se ali e começaram uma espécie de coexistência pacífica entre uns e outros. Pacífica no sentido de que os bárbaros esmurravam os decadentes, e estes apanhavam. É o próprio do decadente, é feito para apanhar. Aos poucos os bárbaros foram se fundindo e se habituando à civilização romana.

Arquivo Revista
Dr. Plinio em março de 1991

No entanto, ao se habituarem, eles a degradaram ainda mais. Quando as primeiras hordas de bárbaros invadiram o Império do Ocidente, se pernoitassem na cidade, dormiam em praça pública, porque sentiam falta de ar de dormir dentro das casas. E esses não eram os bárbaros mais requintados, os quais iam dormir no mato porque sentiam falta de ar de dormir na cidade. Analfabetos e com preconceito contra a alfabetização, levando os costumes deles, mas olhando os civilizados que continuavam a viver à civilizados, mais ou menos, na medida em que era possível.

O papel civilizador da Igreja

Com isso, os descendentes de civilizados se degradavam e os descendentes de bárbaros subiam um pouco; deu uma mistura medonha. Esses bárbaros eram nômades e pertenciam a reinos ambulantes diferentes. Esses reinos, estabelecendo-se, estabilizando-se e se fixando, também começaram a fazer alianças com os romanos ou com outros bárbaros de outros reinos. Ademais, por cima desses bárbaros vieram depois, na Espanha, em Portugal, no sul da França, as invasões dos árabes, que ainda deixaram gente morando por lá. Pode-se imaginar a “marmelada” tremenda que isso produziu.

À vista dessa situação, uma pessoa com a mentalidade ocidental pensaria imediatamente em qual seria a autoridade que poderia elaborar alguns decretos, leis ou regulamentos, mediante os quais isso tudo entraria em ordem, ou ao menos pareceria entrar em ordem… Entretanto, lei, decreto, regulamento, aqueles bárbaros nem entendiam o que significava. Na melhor das hipóteses, matavam o sujeito que viesse falar com eles sobre isso.

É então que aparece em toda a sua plenitude, como talvez em nenhuma outra época histórica, o papel civilizador da Igreja. Porque, enquanto os bárbaros invadiam, pilhavam, saqueavam, os governadores romanos fugiam, em geral para o norte da África, onde os maometanos ainda não tinham penetrado e onde havia civilização e cultura muito mais do que há hoje. O resultado disso era que o Império desaparecia, porque todas as autoridades imperiais se evaporavam. A Igreja, entretanto, ficava, porque nenhum bispo, nenhum pároco saía de onde estava. Começavam as conversões e, à medida que iam se convertendo, iam se “desbarbarizando” e se catolicizando.

A civilização medieval

Outra dificuldade que há para compreender a Idade Média está em que, quando um homem contemporâneo ouve falar de uma conversão, pensa num fato análogo a uma conversão contemporânea: leva para uma igreja, o indivíduo é batizado e depois continua a viver mais ou menos como antes. Na Idade Média não era assim. A conversão entrava a fundo, as pessoas se convertiam realmente, e, ao cabo de algumas gerações, estavam praticando bem os Mandamentos. São, portanto, os bisnetos desse magma que fizeram a população global da Idade Média.

Alguém me poderia objetar que isso é horrendo. Eu digo: mas não fui eu que fiz, isso aconteceu, e a História é o estudo do que aconteceu. Feio ou bonito não vem ao caso. Mas a questão é que eu acho isso muito bonito!

Poniol60 (CC3.0)
Invasão dos Bárbaros

Aquela gente, tomando profundamente a sério a conversão, porém com barbarismos de todo jeito pelo meio, foi lentamente elaborando uma série de hábitos inspirados pela Igreja, não sob a direção de um bispo que dava ordens, pois não havia uma cúria que publicava decretos, menos ainda sob a direção de um governador ou de um rei, mas pelo costume. Daí nasceu um impulso geral da população para a cristianização completa, que foi a vida da Idade Média.

Eis o efeito importantíssimo do costume na Idade Média, pois foi ele que organizou a civilização medieval sob a inspiração, o bafejo da Igreja.

Os bárbaros prontos para batalha…

Davam-se situações engraçadas assim: os bárbaros que invadiam o Império do Ocidente eram uns homens fortões, grandões, braços, pés e mãos de tamanhos telúricos; as mulheres, umas valquírias de meter medo! Há cronistas romanos que descrevem os bárbaros prontos para a batalha. Os romanos tinham aquelas legiões, preparadas em quadriláteros, com armamentos esplêndidos para a época. Entretanto, não podiam pôr aquele exército subindo uma montanha, pois se desorganizava todo. Então, o jeito era esperar na planície.

Os bárbaros se reuniam no alto da montanha. E, na véspera da batalha, faziam um festival que consistia numa bebedeira, da qual as mulheres faziam parte. Os homens não cortavam o cabelo, as mulheres de cabelo solto; eles, frequentemente, por causa da bebedeira ou de oftalmias, com os olhos vermelhos como brasas.

Ao escurecer, a bebida começava a circular no alto da montanha e tinham início as danças e os cantos de guerra ameaçando os romanos. As mulheres pegavam os filhinhos nos braços e utilizavam-nos como batuques; dançavam e pulavam mostrando-os aos romanos.

De manhã, chegada a hora do combate, os bárbaros amarravam sobre suas cabeças crânios de animais, uivavam e silvavam como feras, para meter medo nos romanos.

No momento do ataque, os bárbaros desciam e se enfrentavam com as legiões romanas decadentes, que iam recuando.

Impostação verdadeira diante da Idade Média

Estudando a Idade Média, notamos essa barbárie se extinguindo com o tempo, mais ou menos como se apaga uma fogueira que ninguém alimentou. Estando já para se extinguir, de repente, de um pedaço de lenha que ainda não queimou, sai uma língua de fogo; pensamos que vai recomeçar toda a história da fogueira, mas não recomeça. Contudo, às vezes, leva algum tempo para se apagar.

A Idade Média, com um intuito de virtude e de esplendor, saiu engatinhando e toda suja dessa fossa de barbárie.

Alguns historiadores apontam costumes bárbaros no século IX, mas não comparam isso com o homem do século IV. Não analisam que diferença houve e, sobretudo, não têm a menor ideia de atribuir essa mudança à ação civilizadora da Igreja. Ora, só pode fazer bem a história da Idade Média quem se coloca nessa impostação.

Valter Domingo
O Batismo de Clóvis

Tomem uma cura muito lenta que atravessa uma longa convalescença. O que vai ficando da doença é feio, o que vai nascendo e se instalando da saúde é bonito. Esse ocaso da doença e essa aurora da saúde são fatos simultâneos.

Por detrás da impressão, a doutrina e a Fé

Na minha primeira infância, em certo momento me dei conta de que a Igreja Católica existia. Antes de começar o curso de catecismo, era muito pequenininho, via a Religião e ela me parecia uma coisa tão espontânea e tão natural quanto a existência de paredes e teto nas casas. Não refletia sobre o caso. Eu amava certas coisas e detestava outras, mas sem saber bem por quê, nem as tendo bem metodizado: “Dessas eu gosto, dessas não gosto; e qual relação há entre as coisas de que não gosto em si mesmas? E das que gosto?” Eu não tinha capacidade para fazer isso, ficando numa indefinição própria ao espírito infantil.

Quando eu, em determinado momento, subconscientemente, disciplinando e ordenando as impressões que eu tinha na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, me dei conta da Santa Igreja, do Sagrado Coração, de Nossa Senhora, do bem, do mal etc., julgo ter percebido o bem em toda sua beleza, e também o mal em toda a sua rejeitabilidade e hediondez, tanto quanto uma criança pode perceber, em toda medida que cabia em mim.

De onde a seguinte atitude: tudo o que se filia a essa impressão de bem que eu ia percebendo, que mais do que uma impressão é uma realidade ordenada por uma noção de que existe uma doutrina atrás de tudo, a taça na qual ia beber a doutrina era a impressão. Então, tudo quanto via de belo, de ordenado, de bom, compreendia que fazia parte de uma família de boas impressões, que se justificavam por uma doutrina.

Era uma arquidoutrina, não era algo de um mequetrefe qualquer que chegou na esquina, pensou uma coisa, escreveu e publicou um livro. Era uma coisa pensada, alta como o Céu, razoável, serena, singela, forte.

Daí veio-me a tendência posterior de filiar todas as coisas boas, tanto quanto a realidade dos fatos permita, a esse gérmen de todo bem que são a Doutrina e a Fé Católica; como também de filiar à influência oposta tudo quanto eu via de mal. E disso nasceu a compreensão profunda da Idade Média.

A História sob o olhar da graça

Por exemplo, ao ouvir a história de que Santa Clotilde era católica e Clóvis, pagão, não queria se fazer batizar, mas em certo momento ele, num apuro de uma batalha, diz que se vencesse se converteria ao Deus de Clotilde, parecia-me entrever como era Santa Clotilde através dessa narração.

Então a história de Clóvis, que entrou na igrejinha do Bispo Saint Remi, que não era a gótica ainda – faltava muito para chegar até esse estilo –, e disse ao santo: “Pai, então, é o Céu?” Lembro-me de que impressões tive quando li isso no meu livro de História!

A impressão que tinha era essa: uma igreja ornada com vegetação, porque não tinham outra coisa para ornar senão galharia colhida no mato. Vinha a ideia: se Clóvis entrou e teve essa impressão, ele teve uma impressão parecida com a que eu tive na Igreja do Sagrado Coração de Jesus.

E algo que eu não sabia chamar graça – vim a saber depois – algo da graça tocou isso e fez aparecer fulgores, tintas e esplendores… não irreais, porque a graça não mente, mas que nos conta, a propósito da realidade comum, uma outra coisa, como quem nos falasse do Céu. E então a igreja de Saint Remi devia estar uma beleza.

Arquivo Revista
Dr. Plinio em março de 1991

Entra Clóvis, e eu imaginava Saint Remi sério, velho, alquebrado; no entanto, mandando em Clóvis absolutamente! Era o domínio do espírito sobre o truculento – no qual eu me recusaria a ver um boxer contemporâneo, eu tomaria a comparação como uma blasfêmia. Eu imaginava Saint Remi com uma mitra pequena como eles usavam naquele tempo, com uma túnica branca cheia de pregas espontâneas, porque não ocorria a ninguém passar ferro bonitinho e fazer uma túnica bem dobrada. Era tudo, na melhor das hipóteses, limpo; quando ele falava, as mangas muito largas corriam e deixavam aparecer o braço temível do asceta, lembrando os jejuns, as penitências tremendas. Ele pregando e Clóvis como uma criançona diante de uma maravilha: “Oh!” E a graça trabalhando o coração de Clóvis…

A continuação da Idade Média

Tudo o que veio depois da Idade Média e que não nasceu sob o bafejo muito exato e próximo da Igreja está presente nos dias de hoje, como também estão presentes algumas coisas nascidas da Idade Média. Para os dias de hoje, há uma luta contínua entre os frutos germinados na Idade Média e os germinados na anti-Idade Média, e que são, em última análise, a Revolução e a Contra-Revolução.

Como desejamos fazer renascer e prolongar a Idade Média com os necessários desenvolvimentos, nós queremos, de fato, construir um mundo do qual esteja excluído o antimedieval que veio depois. E queremos, isso sim, sobre a semente incompletamente aproveitada da Idade Média, fazê-la florescer. Porém, com a nossa contribuição, porque nós somos arquitetos que, ao reconstruir a coisa em base num estilo transato, pomos nesse estilo o efeito do nosso amor.

Nós nos reputamos inspirados pela Idade Média, mas nem por isso nos reputamos copistas da Idade Média. Mais ou menos como um músico pode inspirar outro, o que não quer dizer que ele o copie. E assim como uma escola musical se desenvolve com originalidades coerentes com o impulso primeiro, assim também nós nos desenvolvemos em originalidades coerentes com o impulso primeiro da Idade Média.

Nessas condições, a finalidade de nosso trabalho não é simplesmente a restauração do que houve, mas a continuação de uma construção interrompida e que queremos levar ao ápice com os complementos adequados. É um trabalho complexo. Nós nos ajoelhamos diante de Nossa Senhora e pedimos as graças para isso, e vamos em frente.

(Extraído de conferência de 1/3/1991)

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