Até 1789, o mundo não conheceu a aberração que se chama o agnosticismo de Estado. Nos povos pagãos como nos cristãos, era convicção o caráter religioso de que se deveriam revestir todas as manifestações da vida pública. Nas grandes monarquias, nas repúblicas aristocráticas ou burguesas, todos os acontecimentos de relevo da vida civil eram comemorados de modo religioso: investidura de chefes de Estados, celebração de heróis nacionais, glorificação de feitos de armas notáveis, expressão dos grandes lutos nacionais, tudo se fazia em cerimônias de culto, como a sagração, as Missas de ação de graças ou de requiem.
Esses atos não tinham um caráter exclusivamente simbólico ou alegórico. Embora servissem também para manifestar de modo oficial o louvor, a alegria ou a tristeza nacional, eles tinham um conteúdo muito real, que era o ato religioso pelo qual a coletividade nacional, como tal, referia ao Criador suas alegrias e suas dores, sua glória e seu infortúnio, adorando, agradecendo, expiando ou suplicando graças, oficialmente reunida aos pés do Deus três vezes Santo.
Com a Revolução Francesa, começaram os atos públicos de caráter meramente leigo, os quais procuravam copiar as manifestações públicas de fundo religioso do Ancien Régime. Despidas forçosamente essas manifestações de seu conteúdo real, que era religioso, ficaram elas reduzidas à condição de fórmulas ocas, sem nenhum outro valor que o de uma fria alegoria.
Com o passar dos anos de laicismo, a composição de alegorias cívicas evoluiu e, aos poucos, encontraram-se nesse terreno expressões de formosura literária ou cênica perfeitamente capazes de impressionar uma grande multidão. Mas, no fundo de todas elas, fica sempre a impressão das alegorias que se desvanecem logo depois da cerimônia.
Infelizmente, à força de sentir um conteúdo meramente alegórico e convencional nas manifestações laicas do Estado, as massas transpuseram erradamente essa impressão para as cerimônias da Igreja. Tendência perigosíssima que tem um efeito danoso no caso da consagração ao Coração Imaculado de Maria.
Para compreendermos bem esse ato, devemos, antes de tudo, varrer do espírito qualquer ideia de cerimônia meramente simbólica e figurativa. Quando alguém se consagra a Nossa Senhora, seu ato pressupõe várias disposições internas, das quais queremos focalizar:
1. Renúncia formal a tudo quanto o incompatibilizava com a Virgem Santíssima, isto é, a todos os pecados, a todas as heresias, a todo o desleixo na prática da Religião;
2. Propósito de honrar, servir, glorificar, de modo muito especial, a Nossa Senhora;
3. Súplica para que a Mãe de Deus aceite essas disposições e cubra com sua especial assistência a pessoa que assim a Ela se consagra.
Na consagração, pomos, pois, um propósito negativo: nada fazer contra Aquela a quem nos consagramos; um propósito positivo: fazer tudo por Ela; e uma súplica: que Ela aceite essa oferenda e, por sua vez, nos cubra com sua especial tutela.
Ora, nada disso é simbólico. Quando seriamente pensado, querido, executado, é de uma gravidade transcendental. E nem esses atos podem ser feitos sem maturidade e ponderação, pois realizá-los levianamente seria, ao pé da letra, tomar em vão o Santo Nome de Deus.
De nossa parte, a consagração é muitíssimo séria. Mais ainda ela o é da parte de Nossa Senhora.
Aparecendo aos pastores de Fátima, a Virgem Santíssima prometeu as maiores graças como fruto da consagração a seu Imaculado Coração. Inútil insistir sobre a importância de uma promessa d’Aquela a quem a Igreja chama de Virgo fidelis – Virgem fiel.
Em rigor, porém, por mais confortadora que essa promessa seja, ela não é indispensável. Com efeito, Nossa Senhora é Mãe. Qual a mãe zelosa que ouviria distraída e negligentemente as carícias de seus filhos? Qual a mãe que diante de sua família, toda reunida para lhe tributar homenagem, houvesse de desviar indiferente o pensamento e retribuir, com a máxima frieza interior, todo o carinho de que estivesse sendo objeto?
Tendo diante de Si fiéis que a Ela se consagram, Maria Santíssima haveria de Se mostrar indiferente a essa consagração? Haveria de fechar os olhos a nossos propósitos e recusar nossa súplica? Evidentemente, jamais.
De onde se deduz que o fruto da consagração é o estabelecimento de um vínculo real e especial entre o Coração de Maria e nós, e que esse vínculo, pondo-nos em posição privilegiada perante a Rainha do Céu, influirá de modo feliz em toda a nossa economia espiritual.*
* Cf. Legionário n. 675, 15/7/1945.



