No Miserere, Salmo 50, encontram-se as duas notas da contrição católica: de um lado, a consciência da gravidade do pecado, de outro, a convicção de que a misericórdia de Deus é maior do que toda iniquidade.
Para saborearmos convenientemente o Salmo 50 – e a palavra saborear nada tem de exagerado porque é o santo sabor da obra do Espírito Santo, da ação do Paráclito –, convém ter claros os seus antecedentes, do contrário o espírito facilmente se perde.
Antecedentes do Salmo 50
Para o compreendermos melhor, devemos ter em consideração que ele foi composto pelo Rei Davi nas seguintes circunstâncias: Davi se apaixonou pela mulher de um de seus soldados, Urias, num momento em que teve um olhar imprudente. A partir dessa ocasião, originou-se no espírito de Davi um incêndio de sensualidade, pelo qual ele pecou, entrou em concubinato com a mulher de Urias e, para se ver livre de seu esposo incômodo, Davi o mandou para a frente de batalha para que perecesse na guerra, e Urias morreu (cf. 2Sm 11, 1-27).
O Profeta Natã recebeu de Deus a missão de falar com Davi. Ele o procurou e contou-lhe o caso de um homem que possuía uma multidão de ovelhas e rebanhos, enquanto ao seu lado o vizinho – Urias – tinha apenas uma ovelha. Entretanto, esse homem, querendo se apossar da única ovelha, roubou-a. Então, o profeta pedia ao rei justiça contra esse homem (2Sm 12, 1-4).
Davi, indignado, concordou em intervir e perguntou a Natã: “Mas quem é esse homem?” Natã, num gesto magnífico, respondeu-lhe: “Esse homem és tu, ó Rei!” (2Sm 12, 5-7). E aplicou o conto a ele. Explicou-lhe que o pecado cometido era pior que o da parábola, pois ele era soberano de um reino. Ele era um pecador: matou Urias para roubar a sua esposa.
Davi estava tão embotado no ato que praticara, que nem percebeu a semelhança, e não tinha remorso. Mas, naturalmente, com essa denúncia fulgurante, houve um golpe da graça e ele se arrependeu e começou a se penitenciar com aquelas penitências orientais imensamente poéticas, imensamente bonitas e, talvez não muito compreensíveis para o gênio ocidental moderno, mas que eu acho magníficas.
Apesar disso, o castigo que devia vir sobre Davi, segundo as palavras do Profeta Natã, cumpriu-se: o filho dele morreu. Outro de seus filhos, Absalão, revoltou-se contra ele fazendo-o quase perder o trono; Davi andou perseguido, foi apedrejado quando fugia em situação miserável… Afinal, Absalão morreu durante essa revolta e Davi tomou essa rebelião como uma punição para si. Durante todo esse período dos castigos, ele – Davi era um rei citarista – compunha e recitava salmos, que formam os Sete Salmos de Penitência.

Da catástrofe à misericórdia
Davi teve, entretanto, Salomão, que foi um filho cheio de doçura, um filho magnífico, que o sucedeu no trono esplendidamente, até o momento em que, por sua vez, prevaricou; mas Davi fechou os olhos na paz de Deus, olhando para o reinado de Salomão que se aproximava. Ele não viu essa prevaricação.
É, como esquema, uma vida um pouco parecida com a de Jó: uma grande situação seguida de uma catástrofe em que ele afunda até o barro; depois, pela misericórdia de Deus, ele volta para uma posição melhor que a anterior. Mas, com uma diferença fundamental: Jó era um varão justo, ele não pecou, ele sofreu para ser provado; enquanto Davi pecou e merecia o castigo que recebeu.
Davi que fora um homem boníssimo, muito reto, muito bem visto por Deus, conduzido por Ele para ser o primeiro da sua dinastia a reinar sobre Israel… relaxou, caiu no pecado de adultério e se precipitou num abismo de maldade, porque houve a impureza e depois essa espécie de velado assassinato, um ato de verdadeira felonia.
Por isso compreendem-se bem algumas referências saudosas que Davi faz ao tempo em que ele era bom.
O Salmo 50, tendo em consideração o adultério que cometeu, foi profético porque faz alusão a Nosso Senhor Jesus Cristo. Pode-se dizer que é a humanidade pedindo perdão de seus crimes, a Ele, que era o Cordeiro de Deus, inocente.
Ressalva prévia à análise dos Salmos
Eu já tenho dito – e por uma cautela explicável eu relembro – não tenho tido tempo de ler comentários a respeito desses Salmos. Eu os li em várias épocas de minha vida, no tempo de menino e em outras épocas; de vez em quando os releio e depois os deixo, porque não posso passar a vida inteira só os lendo.
De maneira que, de bom grado, estendo a mão à palmatória, desde que se me demonstre que alguma coisa que eu digo não confere com a oficial interpretação ou comentário da Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Não só nos documentos do Magistério, mas naquilo que se possa chamar o consenso dos bons e verdadeiros teólogos. Graças a Deus, ainda existem alguns sobre a face da Terra.
Essa é a nota prévia que eu quero pôr no início do comentário aos Salmos; convém que tudo isso esteja bem claro.
Feita essa ressalva, eu passo a dar a impressão que a leitura dos Salmos me dá, sem mais valor do que a da minha impressão pessoal, que será partilhada com a esperança de que a leitura feita assim em comum produza em todos o bem espiritual que me faz, ao relê-los e comentá-los para mim mesmo no íntimo de minha alma.
Eu o lerei em latim, porque o som dessa língua tem qualquer coisa de incomparável; depois, naturalmente, o traduzirei para o português.
“Tende piedade de mim…”
O Salmo 50 começa assim: “Miserere mei, Deus, secundum magnam misericordiam tuam – Tende piedade de mim, ó Deus, segundo a vossa grande misericórdia” (Sl 50, 3a).
A humildade contida nos imponderáveis dessa súplica é que o orante – no caso Davi, que pecou – se dirige a Deus pedindo misericórdia. Em que termos ele pede essa misericórdia? Ele pede perdão segundo a misericórdia de Deus? Não, segundo a grande misericórdia de Deus.
É o modo pelo qual o pecador se humilha: ele dá a entender que sabe que seu pecado é tão grave, que sem uma misericórdia insigne, uma bondade excepcional, não pode ser perdoado. Ele declara: “Eu me encontro num tal estado, que só por meio de uma misericórdia muito grande Vós podereis ter piedade de mim. Pelo pecado que eu cometi, não basta qualquer misericórdia, meu pecado foi grave. Eu tenho que Vos pedir muita misericórdia, e é ela que eu invoco: tende piedade de mim, Senhor, pela vossa grande misericórdia”.
Vê-se as duas notas da contrição católica como estão bem representadas aí. De um lado, a consciência da gravidade do pecado; mas, de outro, a convicção de que a misericórdia é maior do que a de todos os pecados. Ele faz um ato de confiança em que Deus, por essa bondade excepcional, terá pena dele. Há tristeza, mas também confiança.
Este é o primeiro versículo.
A multidão de clemências de Deus
Depois continua: “Et secundum multitudinem miserationum tuarum, dele iniquitatem meam – E segundo a multidão das vossas clemências, apagai a minha iniquidade” (Sl 50, 3b).

É muito bonita a expressão “a multidão de vossas clemências”. Deus é clemente e tem potencialmente em Si multidões de atos de clemência. Diante do pecador contrito que está ajoelhado na presença d’Ele – e Deus vê tudo quanto se passa na alma do pecador –, o pecador sabe disso e diz a Deus: “Não é segundo uma clemência comum, não é conforme a clemência com a qual habitualmente Vós, que sois infinitamente bom, tratais as criaturas. Meu Deus, não é assim que eu me dirijo a Vós…”
Como é bonita a palavra “clemência” aplicada aí no plural, “vossas clemências”, indicando ainda mais ênfase.
O que o pecador quer? “Apagai a minha iniquidade”, quer dizer: “O meu ato iníquo, a maldade que há em mim”. É notável a antítese: Deus tem uma multidão de clemências, mas o pecador tem muitas iniquidades.
Apagar nos lembra – embora não houvesse lousa naquele tempo – o que faz o apagador com o que está escrito num quadro-negro. O quadro pode estar cheio de acusações contra o pecador, mas se a pessoa contra a qual esses pecados foram feitos se levantar e passar o apagador sobre tudo o que está escrito em giz, aquilo se desfaz em pó e o quadro fica preto como antes.
Assim é também a situação do pecador: ele ofendeu a Deus, mas se Deus se levantar e passar o “apagador” sobre as iniquidades dele, então fica como se nunca tivesse havido pecado. O que ele pede é propriamente isso.
A palavra “iniquidade” é muito bonita. Ela é carregada de sentido, de força, porque ela se refere ao pecado e à malícia que há no pecado. Falando de iniquidades, dá a entender que o pecador se reconhece portador de muitas iniquidades. Essa palavra, quase que por seu som, carrega uma nota de execração especial ao pecado a que se está fazendo alusão. No caso de Davi é um adultério que ele cometeu, sobrecarregado de pormenores ultracensuráveis.
Contra essa iniquidade, não se trata simplesmente de Davi fazer um ato como, por exemplo, distribuir muitas esmolas aos pobres de Israel. Ele privar-se-ia dos regalos que o dinheiro poderia lhe proporcionar, o que é, até certo ponto, um ato penitencial. Mas não é isso, aqui ele pede para apagar as suas iniquidades.
Para que as muitas iniquidades sejam absolvidas, não basta um arrependimento qualquer que o pecador tenha, porque isso não tem proporção com a ofensa feita a Deus. Também não basta um ato de clemência; é necessária uma multidão de clemências de Deus para que “minha iniquidade seja apagada”. É como se o pecador dissesse a Deus: “Eu noto em mim um certo pesar. Mas, quando eu considero o pesar que eu deveria ter e o comparo com aquele que tenho… Meu Deus! Que pesarzinho insignificante! Se não fosse a multidão de vossas clemências, a minha iniquidade não seria apagada”.
Compreende-se a profunda compenetração que a alma tem do mal que há no pecado, mas no meio disso, ou no fundo de tudo, há uma confiança enorme na misericórdia de Deus. É também uma bonita ideia da ação da graça.
Esse trecho é como um lindo comentário do opus tuum fac: “Eu sei, meu Deus, que fiz o mal; eu estou sujo, estou enodoado, desfigurado pelo pecado que cometi, mas Vós tendes multidões de clemências. Só Vós tendes o poder de fazer uma coisa: apagar em mim o meu pecado, dar-me arrependimento verdadeiro e tirar de dentro de mim o mal que eu mesmo introduzi, dar-me uma emenda verdadeira, transformar-me de pecador em homem que conhece, que admira, que ama a virtude e que quer praticá-la.
“Meu Deus, tomando em consideração a vossa bondade, eu dobro os joelhos e Vos peço: apagai Vós a maldade que há em mim; que esse pecado seja, na minha vida, como uma página arrancada de um caderno e queimada. Que aqueles dias de maldição e de pecado, meu Deus, sejam arrancados do caderno de minha vida. Não sejam julgados por Vós no dia em que eu comparecer diante de Vós como meu justo juiz e Vós exigirdes conta do que fiz. Que tudo seja incinerado pelos raios de vossa bondade. Dai-me uma forma de perdão tão completa, tão radical, que eu fique diante de Vós como se jamais tivesse pecado, como se nunca na vossa presença eu tivesse cometido a minha ignomínia.
“Vós sois o Senhor de todas as almas e as regeis como quereis. Senhor, eu Vos peço: mudai a minha alma, mudai a minha iniquidade tão profunda, e para isso é preciso o oceano das vossas misericórdias; mas eu confio nesse oceano. Eu Vos peço: tende pena de mim!”
Apagar a iniquidade é isso. Como este Salmo é bem construído e é próprio a nos ensinar a gravidade do pecado e a confiança na misericórdia de Deus!
O pecador suplica ser lavado da sordície do pecado
O salmista continua:
“Amplius lava me ab iniquitate mea: et a peccato meo munda me – Lavai-me mais e mais da minha iniquidade e purificai-me do meu pecado” (Sl 50, 4).
Vê-se a ênfase e a beleza dessa súplica. Cada um dos versículos poderia ser destacado, constituindo uma oração por si. Esse é outro pedido; depois de ter suplicado tudo isso, ele retoma o tema e faz a mesma súplica sob outra forma, com uma outra metáfora. Não é algo que um apagador vai apagar, mas é uma coisa imunda que a água vai lavar.
Então, por isso, ele diz: “Lavai-me mais e mais de minha iniquidade e purificai-me do meu pecado” (Sl 50, 4).
Ele insiste mais uma vez: “Meu Deus, eu estou tão imundo, tão sujo, a ação que eu pratiquei é tão péssima, dói-me tanto, meu Deus, de Vos ter ofendido dessa maneira! E por essa razão compreendo que, para readquirir a vossa graça, para que o vosso sorriso brilhe de novo sobre mim, para que eu seja novamente Davi, o vosso predileto, e não Davi, o vosso traidor, que Vos ofendeu por causa da esposa de um guerreiro… então eu tenho que Vos pedir: lavai-me, porque se Vós não me lavardes, a ganga asquerosa do meu pecado não descolará de mim.
“Vós podeis tudo, e a água que passar pelas vossas mãos e cair sobre o meu corpo impuro, participará de vosso poder soberano, e então a iniquidade, que torna infectado o meu corpo, passará, e eu ficarei lavado. Para isso é preciso, Senhor, que me deis vários perdões, que me concedais várias misericórdias dentre essas multidões de misericórdia que Vós possuís, porque com uma só ação de lavar eu não saro; Vós precisareis me lavar muitas vezes para que, afinal, o meu pecado, que é tão horrível, a sordície de minha falta, que é como uma lepra aderente e que não me larga, por fim se descole de mim. Meu Senhor, eu confio em Vós! Lavai-me mais e mais de minha iniquidade. Se Vós derdes ordem: ‘Sai, ó lepra!’, ela foge como um demônio.
“Meu Deus, aqui estou eu trazendo a minha lepra, e venho Vos pedir: dizei ao pecado: ‘Lepra da alma, saí’, e eu ficarei lavado”.
Ele reconhece a ofensa cometida contra Deus
Por que é que ele pede isso a Deus? Porque: “Eu conheço a minha maldade e meu pecado está sempre diante de mim”. Em latim é um pouco mais forte: “Quoniam iniquitatem meam ego cognosco: et peccatum meum contra me est semper” (Sl 50, 5).
A frase é linda. O que há de mau, o que há de errado, o que há de criminoso na ação que praticou, ele conhece.
De tal maneira ele sabe que, durante o tempo inteiro, dia e noite, enquanto ele está fazendo uma coisa ou outra, o pecado o persegue como um fantasma em pé diante dele; continuamente ele tem diante dos olhos a ideia do mal que fez: “Os meus olhos exaustos, a minha mente contrita, a minha vontade humilhada consideram constantemente a ação má que eu não deveria ter feito e fiz. O meu pecado me acusa: ‘Você fez e não deveria ter feito! Esta ação você não poderia ter cometido!’”

O pecado está diante dele como um acusador: “Eu sou o adultério, sou a falta de fidelidade à fé prometida, sou a sensualidade, sou o desbragamento. Eu sou o que induz os homens à prática de ações péssimas, como o enviar um guerreiro, esposo de uma mulher, para o lugar mais difícil do combate a fim de que morra, para que ela se enviúve e tu fiques dono dessa mulher. Tudo isso eu sou! Eu sou o pecado, e tu, Davi, tu és meu escravo e eu moro em ti, eu te domino! Tu és como eu! Tu me praticaste, e por causa disso eu me aderi a ti, eu fiquei como que fazendo parte de ti. Como a lepra está inerente ao corpo do leproso, assim eu, pecado… Oh, oh! Eu estou colado a ti!”
Davi pedindo misericórdia a Deus, como que responde ao demônio: “É verdade, esse pecado está o dia inteiro me increpando e ele tem razão. Mas porque dia e noite eu meço a gravidade de meu pecado, eu peço: Senhor, lavai-me porque este remorso eu não aguento, ele me venceu, e a confiança na vossa misericórdia me conduz para os vossos braços. Vós, ó Deus, podeis me limpar e, no momento em que eu esteja limpo, ele, meu pecado, não terá mais o que dizer! E eu replicarei então a ele: ‘Tu foste eu, mas eu hoje sou teu inimigo capital. Fora!’”
O pecado é sempre cometido na presença de Deus
“Tibi soli peccavi, et malum coram te feci: ut iustificeris in sermonibus tuis, et vincas cum iudicaris – Só contra Vós pequei, o que é mau fiz diante de Vós. Vossa sentença assim se manifesta justa, e reto o vosso julgamento” (Sl 50, 6).
“Eu pequei só contra Vós” significa: “Vós sois tal, que, embora tenhais uma multidão incontável de criaturas, cada ação é conhecida, pesada, ponderada e julgada como se cada homem estivesse só diante de Vós.
“Quando eu pequei, ó Deus, eu, louco, desatinado, transviado, eu pequei diante de Vós como se apenas eu estivesse diante Vós. Eu entrei na sala dos vossos julgamentos, estáveis no vosso trono cercado do incenso dos Anjos e na reverência de toda a corte celeste. Eu entrei e não me incomodei; fui e, diante de Vós, pequei contra Vós!…
“Ó Deus, que louco eu fui! Mas pequei, preciso me arrepender, e Vós, ó Deus, tende pena de mim”.
Pelo pecado original somos concebidos na iniquidade
Nos primeiros versículos já comentados, Davi se acusa de seu próprio pecado e manifesta sua esperança na misericórdia de Deus, mas depois ele passa a fazer apelos e a insistir sobre sua falta: pecado, misericórdia; pecado, misericórdia… Ele começa a desenvolver mais a ideia da misericórdia para acabar inclinando a piedade de Deus a seu favor e obter que Ele lhe perdoe o pecado que cometeu. Então o primeiro argumento que ele dá é o seguinte:
“Ecce enim in iniquitatibus conceptus sum: et in peccatis concepit me mater mea – Eis que eu fui concebido em iniquidades, e minha mãe concebeu-me no pecado” (Sl 50, 7).
Que significa: “Tende em consideração, ó Deus, minha infelicidade. O mal que há em mim vem da raiz. Eu sou, de fato, responsável pelo que fiz, porque dei consentimento a algo de péssimo que, dentro de mim, me convidava para o mal. Mas tende pena e permiti que – envergonhado, acanhado, humilhado – eu murmure uma atenuante em meu favor: minha mãe era pecadora. Ela, como todas as mulheres, foi concebida no pecado original, e eu gerado nesse pecado. Eu herdei, portanto, uma porção de defeitos e, em virtude disso, antes mesmo de eu ter pecado, já tinha inclinação para o mal. Eu cedi e aqui estou para pedir perdão. Mas lembrai-Vos que o primeiro impulso me veio de alguma coisa de que eu não tinha culpa diretamente”.

É uma espécie de histórico que ele dá de si resumidissimamente: o nascimento, a inocência e o pecado. Então, depois de reconhecer o pecado, ele dá a Deus um primeiro argumento: “Eu fui concebido no pecado original, tende pena de mim”.
Davi tem saudades do tempo em que era inocente
E prossegue mencionando que, antes de pecar, ele era amigo de Deus. Esta frase é linda:
“Ecce enim veritatem dilexisti: incerta, et oculta sapientiæ tuæ manifestasti mihi – Eis que Vós amastes a verdade e me revelastes o segredo e o mistério da vossa sabedoria” (Sl 50, 8).
Aqui está o segundo argumento: “Vós outrora fostes meu Amigo, Vós outrora me amastes, tende pena de mim em lembrança da amizade que, outrora, tivestes para comigo. Dizei que Vós amastes a verdade e me revelastes o segredo e o mistério da vossa sabedoria”.
Davi tinha sido muito amado por Deus. Ele era um pastorzinho e foi escolhido para suceder a Saul, o rei de Israel que tinha incorrido no desagrado de Deus. Davi possuía a sabedoria de Deus por causa do convívio com o Espírito Santo. Deus falava com ele, por meio da virtude da sabedoria esclarecia a inteligência e ele conhecia coisas que Deus não revela aos outros homens. Ele era um confidente de Deus.
“Eis que Vós amastes a verdade”, como quem diz: “Eu não amei a verdade; fui adúltero e o adultério vem carregado de mentira. Essa mentira eu a cometi e não amei a verdade. Que diferença, ó Deus, entre Vós, que eu vejo sentado num trono carregado pelos Querubins e pelos Serafins, e eu mentiroso…
“‘Deus odeia a boca mentirosa’, diz a Escritura. Uma dessas bocas é a minha, ela está no meu rosto e, ao invés de me servir da palavra dada por Deus a cada homem para dizer a verdade, eu utilizei os meus lábios pecadores, minha voz prevaricadora, para mentir…
“É tão nobre comunicar o próprio pensamento, transmitir a verdade a um outro que também diz a verdade! E como é vil dois homens se entreterem na mentira e no pecado… que indignidade! Esse indigno sou eu, meu Deus! E eu fiz isso diante de Vós”.
E, por fim, vem a conclusão: ele já se acusou largamente e espera ser perdoado. Nós vemos a alvura da alma perdoada que começa a transparecer de dentro das trevas do pecado.
A misericórdia de Deus pode restaurar a inocência na alma pecadora
Depois de lembrar o tempo de sua amizade com Deus, ele dá um passo mais longe e diz: “Asperges me hyssopo, et mundabor: lavabis me, et super nivem dealbabor – Vós me aspergireis com o hissope e serei purificado; lavar-me-eis e me tornarei mais alvo que a neve” (Sl 50, 9).
Hissope é aquele instrumentozinho que o padre usa para aspergir com água benta. Provavelmente no Antigo Testamento deveria haver um objeto da mesma natureza. Aqui simbolicamente significa algo com que se asperge e a pessoa fica completamente limpa.
Davi diz então: “Está em vossas mãos curar-me. Vós me lavareis e eu me tornarei mais alvo que a neve”.
Pouco antes ele pediu: “Lavai-me” (Sl 50, 4). Agora ele já considera como algo que certamente Deus vai fazer: “Vós fareis isso”, como quem ouviu dos lábios de Deus a palavra de perdão e de misericórdia. A este imundo, a este pecador, Deus fará nascer o sol de seu amor e, tendo em consideração o arrependimento, dirá a ele alguma palavra inefável, como “Meu filho”, por exemplo.
Ele então se enche de esperança e, num ato de confiança, exclama: “Eu sou tudo isto, mas porque Vós sois quem sois, com a vossa misericórdia Vós vencereis o meu pecado. Eu serei purificado e tornar-me-ei mais alvo que a neve, quer dizer, de uma alvura éclatante,1 quase de ferir a vista”. A analogia contida nesse trecho provavelmente é feita com uma ferida, ou com o homem que está inchado; se ele recebe umas “gotas” da misericórdia de Deus, a carne se torna sadia. Ele, o porco, o nauseabundo, está perfumado como uma flor. É porque o perdão de Deus baixou sobre ele.
“Auditui meo dabis gaudium et lætitiam: et exsultabunt ossa humiliata – Vós me fareis ouvir uma palavra de gozo e de alegria e se regozijarão os meus ossos humilhados” (Sl 50, 10).

“Et exultabunt ossa humiliata – os meus ossos humilhados exultarão”, essa expressão é muito bonita!
O que ela significa? “Eu estava humilhado e envergonhado até aos ossos por causa dos meus pecados”.
É como uma pessoa sensível à umidade – em São Paulo, por exemplo, há momentos em que a umidade é sentida até os ossos. Então, há momentos em que a humilhação penetra até o fundo do homem, até o que ele tem de mais central, que são seus ossos. Por isso Davi diz: “Os meus ossos estão humilhados, mas vossa palavra é tão poderosa, tão santa, tão extraordinária que desde que Vós me façais ouvir só uma palavra de alegria… quando Vós me disserdes essas palavras de perdão, os meus ossos humilhados pelo pecado e pela contrição exultarão e estremecerão de gáudio”.
Imaginemos que uma palavra de perdão de Deus é dirigida a ele: “Meu filho, estou alegre contigo”. Ouvindo-as, ele se enche de alegria; o bem-estar, a suavidade, a alegria lhe penetram também até aos ossos!
O único remédio é o perdão
“Averte faciem tuam a peccatis meis: et omnes iniquitates meas dele – Apartai vosso rosto dos meus pecados, apagai todas as minhas iniquidades” (Sl 50, 11). Novamente volta o pedido para apagar suas iniquidades, mas é interessante a formulação: “Senhor, o meu pecado é tão horroroso, eu reconheço que o único remédio que eu tenho para obter vossa misericórdia é pedir-Vos que não o olheis. Apartai vosso rosto de minhas iniquidades, não o afasteis de mim, mas apagai os efeitos do meu pecado e limpai meu rosto para, afinal, poderdes olhá-lo sem náusea, sem horror, dai-me uma face que seja o reflexo de vossa suprema beleza”.
O que ele pede a todo momento não é só um perdão, mas que, pela graça de Deus, sua maldade seja retirada. É muito tocante como ele reconhece o péssimo do pecado. Há nisso um senso moral esplêndido! De outro lado, como ele confia a todo momento que a misericórdia divina fará por ele maravilhas!
O pecado deforma a alma
“Cor mundum crea in me Deus – Criai em mim, Senhor, um coração puro” (Sl 50, 12a).
Ele reconhece que seu coração tornou-se impuro por causa do adultério em que caiu, então pede: “Criai em mim um coração puro, pois eu o perdi… Completai vossa obra: eliminai, arrancai este coração impuro que está em mim e dai-me um outro que seja puro, ó meu Deus!” É a descrição da alma regenerada.
“Et spiritum rectum innova in visceribus meis – E renovai em minhas entranhas um espírito reto” (Sl 50, 12b).
Outrora ele tivera um espírito reto, um espírito amigo de tudo quanto é íntegro, isto é, uma alma que vive habitualmente no estado de graça. Mas ele o perdeu por causa do pecado. Ele sabe que por isso ele ficou com o espírito torto; então trata-se de renovar aquilo que ele não tem mais, porque aquilo que não foi perdido não tem necessidade de renovar.

Então ele pede: “Eu estou podre, o espírito reto me abandonou e já eu não possuo bom espírito. Eu não tenho mais retidão de alma. Meu pecado da carne penetrou por minha alma adentro e putrefez minha alma. Dai-me, por vossa graça, um amor novo às coisas retas, o estado de graça.
“Renova em mim o espírito reto, tão reto, que a retidão dele penetre até minhas entranhas. A minha emenda é completa, ela chega até ao que há de mais íntimo em mim e eu volto a ser o velho Davi, amigo de Deus. Meu espírito torto, sinuoso, mentiroso e débil foi assim até ao momento em que a graça agiu sobre ele; tornar-se-á reto até as entranhas”.
Este “renovai” contém uma profunda nostalgia. Há pouco ele lembrou que Deus o tinha amado e que outrora ele possuía o espírito reto, mas tudo isso ele perdeu por própria culpa. Ele diz: “Senhor, renovai. Eu Vos peço por vossa misericórdia: dai-me o espírito reto que eu perdi”.
O temor de não ter sido perdoado
“Ne proiicias me a facie tua: et spiritum sanctum tuum ne auferas a me – Não me arremesseis de vossa presença e não tireis de mim o vosso Espírito, que é Santo” (Sl 50, 13).
No fundo, depois de ter pedido tudo, ele fica ainda com medo: “Mas, quem sabe? Eu estou tão arrependido, eu sei qual é a misericórdia d’Ele, mas eis que, como uma baforada do passado, a lembrança do que eu fiz ainda sobe até mim: ‘Lembra-te, pecador, o que fizeste’, e um temor me assalta: Será que Ele me perdoou mesmo?…”
Quer dizer: “Eu reconheço que Vós teríeis o direito, por causa do adultério que eu cometi, de me pôr longe de vossa presença. Como pecador, eu não sou digno de me apresentar diante de Vós, pois vossa cólera me rechaçaria merecidamente. Mas, por vossa misericórdia, eu Vos peço: não me rejeiteis! Eu Vos peço ainda mais: que não afasteis de mim o vosso Espírito, que é Santo. Eu não sou santo, mas vosso Espírito é Santo; se Vós o afastardes de mim, o que acontecerá? Eu ficarei reduzido a zero. Não me aniquileis, eu Vos suplico”.
Depois ele continua:
“Redde mihi lætitiam salutaris tui: et spiritu principali confirma me – Dai-me a alegria de vossa salvação e confortai-me com o espírito magnânimo” (Sl 50,14).
Isso quer dizer: “Prometei-me a vossa salvação, por onde eu, que pequei, me alegre. Dai-me a virtude que salva! E confortai-me, dai-me a força de um espírito grande, magnânimo. A força ligada à grandeza de alma, anima magna; nada de coisas tacanhas, pequenininhas, banais e de todos os dias”.
A pessoa acomodada só se preocupa com o banal, com o trivial; ele não tem esse espírito magnânimo.
O “spiritu principali” parece significar o espírito que contempla tudo segundo sua hierarquia e, portanto, dá maior valor àquilo que tem importância, e menor ao que tem importância menor. Julga, portanto, todas as coisas segundo o que valem perante Deus.
1) Do francês: deslumbrante.






