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Afinidades e heterogeneidades de espírito

Há, entre as almas, afinidades, como também heterogeneidades profundas. Há formas de atração que só o bom pode ter em relação ao bom. Quanto aos maus, possuem a esquisita ilusão de que, perdendo os bons, podem libertar-se dos efeitos do mal que não querem deixar.

Entre as mil maravilhas que se narram na história da Igreja a respeito dos Santos, há mais de um caso de confessores, – padres, portanto, mas Santos, homens de uma alta virtude – que contavam que, ao ouvir confissões, percebiam por inteiro como eram as almas dos penitentes. Não por aquilo de que o indivíduo se acusava, o que servia de elemento para eles julgarem, mas pelo mau odor, porque cheiravam os defeitos da alma do penitente, a qual comunicava uma exalação verdadeiramente insuportável, sendo um tormento passar algumas horas ouvindo confissões. Por uma disposição divina, o mau odor da alma tornava-se sensível para as narinas dos confessores.

Efeito da presença das almas em pecado ou em graça

Na realidade, se pudéssemos ver as almas como vemos os corpos, que impressão teríamos quando víssemos os defeitos dos homens? Quando nos olhássemos a nós mesmos no espelho, que impressão teríamos da nossa própria alma? E que impressão teríamos da alma desse ou daquele que se acerca de nós?

AU Library, Campus Emdrup (CC3.0)
Batalha do Rei Valdemar II em 1219

Compreende-se, aliás, como é grande a sabedoria de Deus. Nós gostaríamos tanto de conhecer até o fundo as almas daqueles que se acercam de nós. A vida seria suportável? Tal é a hediondez das almas, tão frequente em nossa época, tal seria o mau odor que haveriam de exalar, que provavelmente, muitas vezes as pessoas desmaiariam de horror.

De quando em quando, as pessoas têm uma noção disso, embora de passagem e de forma fugidia. Talvez já lhes tenha acontecido encontrar com alguém – será um colega, uma pessoa que está no ônibus, alguém que passa pela rua –, olha-se e se tem a impressão de uma maldade, de um mau cheiro de alma insuportável. Não há quem não tenha tido vontade de mudar de lugar no ônibus, por exemplo, por causa de um indivíduo que se sentou ao lado, pelo asco que aquela figura causa, só por encontrar e sentir asco, horror daquela presença espiritual e psicológica que não se pode suportar. Quantas e quantas vezes eu senti isso!

O que isso significa? Qual é a reação de alma que isso produz em nós?

Num sentido contrário, às vezes encontramos uma pessoa com quem nos encantamos. Tudo ali nos agrada, atrai e empolga! Só de estarmos perto, sentimo-nos bem; ao nos separarmos, experimentamos uma dilaceração; quando nos reencontramos, sentimos uma grande alegria!

Afinidades e incompatibilidades

Isso significa que há, entre as almas, afinidades, como também heterogeneidades profundas. E que, na história dos homens, como na dos povos, nada é tão enérgico, tão carregado de força e tão determinante de acontecimentos quanto essas afinidades e essas heterogeneidades profundas entre homens, civilizações, povos, culturas e nações.

Nós constatamos essa realidade um número incontável de vezes ao longo da História. Povos que se odeiam, que se encontram no campo de batalha e se entrematam furiosamente. De olhar não se suportam! Vemos com tanta frequência homens que se encontram e se digladiam, seja no terreno da política, da cultura, ou mesmo no terreno dos fatos: um mata o outro. Por qual razão? Porque há uma incompatibilidade que provém do ver e do rejeitar. Como também, aliás, pode haver dedicações sem fim, amizades insondáveis provenientes do ver e do aceitar. A pessoa viu e rejeitou, ou viu e aceitou. É o que está no curso comum da vida.

Isso exprime que não pode haver uma neutralidade nesses sentimentos de oposição. Quando há uma oposição tão profunda, um é bom e outro é ruim. Entre dois ruins, não há essa oposição. As atrações tão fundas só se dão quando um é bom e outro é bom também. Porque essas atrações não se dão entre os maus. Há formas de atração que só o bom pode ter em relação ao bom. E também há formas de ódio que só o mau tem em relação ao bom. Há formas de repulsa, de desdém, de coragem de cruzado contra o mal que só o bom tem em relação ao mau.

Arquivo Revista
Dr. Plinio com o Sr. João Clá em 21 de abril de 1990

E, entre os maus, há uma cumplicidade odienta, pela qual o tempo inteiro eles se odeiam uns aos outros, mas, ao mesmo tempo, são cúmplices. De maneira que eles podem estar na pior luta; querem uni-los? Ponham um bom no meio. A oposição entre eles cessa e passam a hostilizar o bom. Tirem o bom e eles começam a lutar entre si. O tempo inteiro eles se odeiam, mas quando está um bom, eles formam um só contra este.

Donde provém isso? De algo que, no fundo, se explica da seguinte maneira: a alma humana é boa quando pratica os Mandamentos, quer dizer, quando é conforme a Deus, pois fica profundamente conforme à retidão de sua própria natureza. E aquele que vê um outro que tem uma natureza reta também – as retidões são afins – eles se olham e se alegram: “Tu também és dos retos! Tu também és de Deus e de Nossa Senhora! Então, somos um só!” Somos capazes de nos sacrificar um pelo outro, de nos dedicar, desejando-lhe o bem enormemente. Por quê? Porque entre retidão e retidão há a afinidade da natureza posta em ordem.

A melhor imagem de Deus na Terra não é imagem esculpida. Nenhuma obra de arte representa Deus tão bem quanto um homem em estado de graça. Só é necessário saber olhá-lo, interpretá-lo; nele há algum reflexo de Deus. Nós o vemos e o amamos, por quê? Pela mesma razão que, no Céu, vendo a Deus, O amaremos.

Inconformidade no Céu contra a desordem de Lúcifer

Sabemos que houve um que se levantou contra Deus e que uma terça parte das coortes celestes aderiram a esse infame. Mas, prælium magnum factum est in Cælo: uma grande batalha se travou no Céu, e São Miguel e seus Anjos expulsaram aqueles que não prestavam.

Vejam o curso dos acontecimentos: primeiro Deus criou todos, e eram todos retos. Eles se amavam porque amavam a Deus. Entre eles havia a maior concórdia. Estavam alegres de estarem juntos. De repente um se revoltou e apareceu nele a desordem. Aquele que é o antideus, apareceu. No momento em que ele se revoltou, passou a ser hediondo. Os demais viram, e, imediatamente, quando os primeiros se revoltaram, os outros se indignaram. Impossibilidade de conviver! Antes de tudo pela indignação. Como é que se revoltaram contra Deus e Senhor nosso? Não é possível!

Pode-se imaginar o contraste: aqueles espíritos angélicos conhecendo a Deus, pairando por cima dos Serafins e dos Querubins, na sua perfeição infinita debaixo de todos os pontos de vista; e uns anjos que deixam de ser esplendorosos – como foi Lúcifer – e se transformam nuns vermes medonhos, nuns bichos horrendos – estou imaginando o aspecto físico do que se deu de um modo espiritual –, com gestos descompostos, rugidos medonhos, carambolas pavorosas; de um modo ridículo, proclamam o seu ódio.

Mas os Anjos bons, em toda a sua natureza reta, vendo em Deus a própria retidão, a própria perfeição, voavam para o seu Criador e, de outro lado, tinham ódio daqueles que introduziam no Céu aquela desordem. Então, na primeira situação estavam todos perfeitamente bem, eram todos bons. Numa segunda situação surgiu a revolta: a tentativa ridícula, frustra, inútil de Satanás de querer abaixar Deus de seu trono; e o Todo-Poderoso brilhando como um sol!

Se imaginássemos um cachorro louco que, à força de ladrar, quisesse apagar o Sol, a cena seria mais desproporcionada do que um anjo que olha para Deus e quer derrotá-Lo.

Mas aqueles que amavam a ordem e a hierarquia, que queriam que as coisas fossem como deveriam ser e, portanto, queriam a glória de Deus no mais alto dos Céus, esses, evidentemente, se inconformaram e descarregaram o seu furor.

O choque entre duas forças inenarráveis

Começa então a terceira situação: uma grande luta. Eu não li nos intérpretes o que significa “uma grande luta”. Será que foi grande por que durou muito? Pode-se falar de tempo no tocante aos anjos, antes de aparecer a matéria? Algum acontecer histórico havia; em certo sentido, portanto, algum tempo havia. Mas, foi uma luta prolongada, por quê? Não será que São Miguel Arcanjo tinha facilidade em derrotar todos esses revoltosos? Ainda mais que ele era protegido pela luz e pelas sombras de Deus.

A luta foi grande pelo número incontável de espíritos que participaram dela? São Tomás sustenta que o número de anjos é muito maior que o de homens. Então, seria grande a luta pelo número enorme de combatentes? Eu sei que se estima que uma terça parte dos anjos se revoltou. Quantos seriam os anjos? Quanto seria essa terça parte?

Ou essa luta era enorme porque tomava cada espírito angélico totalmente, e era uma totalidade de impacto contrário, de parte a parte, que fazia dessa a luta por excelência?

R.M.N. / R.-G. Ojéda (CC3.0)
Expulsão dos Anjos Rebeldes – Les Très Riches Heures du Duc de Berry

O anjo tem muito mais densidade de ser do que nós. Uma vez ou outra Anjos da Guarda, os quais pertencem à categoria menos elevada da hierarquia celeste, têm aparecido para Santos. Mas, quando um deles aparece, os homens ficam tão encantados que são inclinados a adorá-lo como se fosse Deus.

Imaginem, então, os Anjos de categoria mais alta, que espécie de formosura apresentam! Não é calculável por nós, homens, a formosura, o esplendor que eles têm.

Mas, como eles hão de ser muito mais densos – basta dizer que são espírito e não matéria, para se compreender que possuem muito mais densidade de ser do que nós –, o seu amor e o seu ódio têm uma intensidade natural muito maior do que a nossa.

Então, o amor que levava os Anjos bons a lutarem por Deus era um amor de uma força inenarrável. Enquanto o ódio dos anjos maus contra Deus era de uma força inenarrável também. E o choque de uns contra os outros foi colossal. Seria por isso que a luta teria sido grande? Ou seria por todas essas razões somadas, e por mais algumas razões que não nos ocorre aqui no momento enumerar?

É possível que seja por todas essas razões, porque o choque foi tal que, ao longo de toda a História, não houve nada que tivesse o ímpeto dessa primeiríssima Revolução, anterior a todos os séculos, em que os seres superiores a todos os outros conduziram aquela batalha. De tal maneira que tudo quanto apareceu de revolucionário depois, era apenas uma reprodução do que houve naquela primeira Revolução.

A castidade incomoda os impuros

Podemos, assim, imaginar a beleza dessa luta e do ato pelo qual o homem repudia o mal e o pecado, combate-os e os empurra contra a parede.

Imaginemos um menino casto que entra num ambiente de meninos impuros. Serão os primos ou os irmãos dele, serão os companheiros de colégio ou outros que ele encontra na rua, será o que for. Por ser casto, ele é amável, tende ao estudo, à concentração do espírito, é tranquilo e, sobretudo, piedoso, muito voltado para todas as coisas que dizem respeito à Religião. Olha-se para ele e, pertença ele à raça que pertencer, seja qual for a sua origem, vê-se como que uma luz! É a luz da castidade que ilumina com o mesmo brilho as tezes brancas, vermelhas, amarelas ou pretas, pouco importa; ali está a luz da castidade.

Vagner H.
Briga na Classe – Museu Hermitage, São Petersburgo

Ao contrário, não se vê um impuro tranquilo. O interior dos impuros é agitado por um mal-estar que lhes vem da desordem interna. Assim como se eu tiver, por exemplo, os ossos do pulso mal colocados, este começa a doer e daqui a pouco eu inteiro estou em desordem – apesar de serem ossos minúsculos nos quais uma pequena desordem põe o organismo todo em tumulto – assim também um traço da alma que esteja errado a põe em polvorosa.

Ora, a pureza é muito mais do que é, no organismo humano, um pequeno osso do pulso. Ela é a espinha dorsal; se quiserem, ela é o coração.

O impuro está inquieto porque a concupiscência da impureza leva-o a querer o prazer com uma espécie de vibração, e ele não encontra sossego. Ele olha ao seu lado o menino puro, tranquilo, que está tão normal, com tanto bem-estar interior… Aquela paz, aquele paraíso interior, aquele frescor luminoso que ele nota no menino casto, o impuro quer prejudicar, levado por uma ilusão que vem do demônio. Ele tem a impressão de que, se prejudicar aquela paz, consegue um pouco de paz para si. E como ele está se contorcendo de agitação e de inquietação, quer ver se consegue libertar-se dos efeitos do seu mal, pondo esse mal em outros.

O exemplo do leproso

Antigamente, a lepra era uma doença incurável. Conta-se que havia entre os leprosos o mito de que quando tivessem contagiado sete pessoas sãs eles ficariam curados.

Essa é a ilusão esquisita do impuro diante do puro. Se ele quebrar aquela ordem, sujar aquilo, algo dentro dele sossega. E então vem o desejo de destruir o bom. Donde haver crianças incapazes de fazer uma conspiração, mas que tacitamente conspiram para perder quem é puro.

Arquivo Revista
Dr. Plinio em 27 de novembro de 1984

Começam então os casos que vemos se repetirem ao longo da vida: aparece um menino excepcionalmente puro e há um certo frio inicial em relação a ele. Quando os mais impuros percebem que este vazio está constituído em torno daquele, e todos já viram que aquele é puro, então começa a brincadeira. Esta vai se transformando em debique, cada vez mais cáustico, e depois começam os pontapés, caneladas, empurrões, até jogar aquele no chão, exigir que ele diga uma palavra imoral, do contrário apanha.

Se logram perder o rapaz, ficam como os leprosos que contagiaram mais um, com a ilusão de que conseguiram alguma coisa, e experimentam um aparente sossego interno. Mas o remorso começa de imediato: “Não devia ter feito! Olha aí, ele está um monstro, está como eu… Que horror! E fui eu que fiz aquilo!”

Qual é a solução? Pegar mais vinte outros e fazer a mesma coisa. Isso os impuros sentem entre si. Não precisam combinar. Basta ver um menino puro, que um impuro dá uma piscada para outro e já começa a sarabanda.

Mistério da impiedade de quem não tem fé

Isso se requinta ainda mais quando o assunto não é a pureza, mas a fé. Para quem, graças a Nossa Senhora, é católico, às vezes é difícil imaginar até que ponto há almas alheias à fé. Para essas pessoas, acreditar que há uma outra vida, um Céu com seres puramente espirituais e, no ápice destes seres, Deus; ou que há um Inferno cheio de espíritos malignos que não vemos, crer nisso é para elas incompreensível, consideram uma demência.

Graças a Nossa Senhora sempre fui católico. Mas logo que comecei a declarar mais energicamente a minha condição de católico, uma pessoa muito mais velha do que eu se sentou perto de mim e me disse, dando risada: “Diga-me uma coisa, você acredita realmente em alguma coisa que você não vê? Eu acredito no que eu vejo”.

Estávamos junto a uma mesa. A pessoa disse: “Neste objeto eu acredito, eu estou vendo. Acredito em você porque estou vendo você. Se eu quiser, agarro você, e como o sinto, nisto eu creio. Mas como é possível uma pessoa acreditar numa coisa que não vê?”

Naquele tempo o espiritismo estava muito divulgado. E a pessoa acrescentou: “Eu creio nos espíritos que aparecem numa seção espírita. Se estou sentado junto a uma mesa, vejo um tinteiro mover-se e voar, eu vi uma coisa e compreendo que há ali uma causa que eu não vi. Então compreendo ser uma causa espiritual. Mas aí é como se eu tivesse visto o espírito. Porém, não tendo visto nenhum efeito, não posso crer. E, portanto, chego à igreja, muito bonita, imagens, órgão, liturgia bonita; acreditar por isso que existe Deus? O órgão foi um homem que fez e há outro que toca. A imagem teve um escultor que a fez. A igreja teve o engenheiro que a construiu. Não tem mistério nenhum naquilo. No que eu vou acreditar?”

Giuseppe Enrie (CC3.0)

Eu percebi ali, até o fundo da alma da pessoa, o mistério da impiedade. Ela que se tinha dado tão profundamente aos sentidos, de tal maneira tinha amado sua própria baixeza e se entregado apenas às suas percepções, que não era mais capaz de considerar qualquer coisa elevada. Nem tinha vontade que a houvesse.

Notei que se lhe provassem que Deus existe, tomaria como um ônus, porque é algo que está acima dela. Essa pessoa queria aquela vida feita para si, pois a tinha como centro e mais nada.

Beleza da alma que vê, crê, ama e se dedica por inteiro!

Qual é a beleza da alma que é o oposto disso? Como descrevê-la? Eu só poderia dizer o seguinte: todos vimos fotografias do Santo Sudário de Turim. Pois bem, é o reflexo daquela figura sobre a alma daquele que a ama. É a disposição de realizar tudo para fazer vencer isso, com a resolução: “Eu vi, eu creio, amei e me dediquei. Farei tudo!”

Isso tem uma beleza perto da qual qualquer obra de arte não é nada. Qual é o artista que fez almas belas assim? Foi Nosso Senhor Jesus Cristo que, pela sua graça, obteve para aquela alma essas disposições de espírito. Tudo quanto há de belo em nós foi modelado pelo Divino Artista.

(Extraído de conferência de 10/11/1984)

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