O demônio alimenta um ódio total a toda hierarquia. Por isso, em todos os tempos, ele haveria de odiar as desigualdades e ser o modelo do espírito revolucionário. Por outro lado, o contrarrevolucionário é aquele que ama a hierarquia e o poder que esta exerce segundo a ordem imposta por Deus. Nem Salomão, em toda a sua glória, obteve as vitórias que as almas obedientes obtêm diante do absurdo.
Quando se fala em hierarquia, hoje em dia, quando todas as hierarquias tendem a ser abolidas, salta aos nossos olhos a hierarquia por excelência: a eclesiástica. No dia em que deixasse de haver hierarquia, deixaria de haver Igreja. Ora, como ela não pode deixar de existir, não pode deixar de existir a hierarquia.
O que é a hierarquia eclesiástica?
Analisemos um pouco a hierarquia eclesiástica. No que ela consiste?
Como nós sabemos, a Igreja é uma sociedade de desiguais, onde uns ensinam, governam e santificam; outros aprendem, são governados e são santificados. Aí temos duas classes definidas. Essas classes se definem pelo quê? Por aquilo que há de mais interno dentro da vida da Igreja: ela é feita para ensinar, governar e santificar.
Para ser executada, essa ação supõe duas espécies de pessoas. Uns ensinam e outros aprendem: ninguém pode ser professor se não tiver aluno. Uns governam e outros são governados: ninguém pode governar se não há povo. Imaginemos um pequeno rei daqueles reinos pagãos da Ásia Menor: se todo o povo morre na batalha, ainda que o rei se salve, não há mais rei.
Igualmente a santificação supõe alguém que seja santificado. Porque se a finalidade de alguém é santificar, deve haver um que esteja santificado e que santifica a outro.
Um papel ativo e outro receptivo
Supõe, portanto, haver outro sobre o qual se exerce uma ação: enquanto um tem o papel ativo, os demais, sem terem um papel que se possa chamar passivo, têm um papel receptivo. E é claro que exercer o papel ativo é, em si, mais do que exercer o papel receptivo.
E isso se dá até com as menores coisas. Vai uma pessoa a uma farmácia pedir ao farmacêutico para lhe pingar um colírio nos olhos. Quem é que exerceu o papel mais eminente nessa ação? É o farmacêutico. O que é arregalar o olho, à espera de que venha o colírio? Alguém dirá: “Não, mas pinga-se o colírio sobre um olho que não é de vidro! Esse olho tem depois um papel enorme na assimilação do colírio”. É verdade, isso eu conheço, mas tudo o que faz o olho na ação do colírio é um papel receptivo. O farmacêutico tem o papel ativo e este é mais que o outro.
Metafisicamente, na profundeza da realidade, na profundeza do ser, um é mais que outro.
Outras modalidades de desigualdade existente na Igreja
Existem, na Igreja, outras modalidades de desigualdade. Eu acho interessante que ninguém converse sobre isso, ninguém note. E é uma verdadeira maravilha!
Uma outra forma de desigualdade é a que resulta não mais desse papel ativo e do papel receptivo, mas de graus diversos na ação. Aí a desigualdade não é como a primeira; a primeira tem um barranco, a segunda é uma participação.
Por exemplo, o bispo tem a plenitude dos poderes sacerdotais. Ele, portanto, tem a missão, o poder de celebrar a Missa e oferecer a Deus, pelos fiéis, o sacrifício do Calvário; tem o poder de conferir todos os Sacramentos, inclusive o de ordenar padres e de sagrar outros bispos.
O padre, por sua vez, o que é? Ele está perante o bispo como um leigo? Não. Ele não tem papel passivo, ele tem um papel ativo em menor grau que o do bispo. Ele confere Sacramentos como o bispo: celebra a Missa; pode servir de testemunha oficial no casamento e, com procuração do bispo, ele pode crismar. Portanto, ele tem um largo papel ativo. Por quê? Porque ele tem o Sacramento da Ordem. Mas esse Sacramento que ele recebeu, ele não o pode conferir a outro. Só o bispo pode ordenar sacerdotes. Uma ordenação presbiteral feita por um padre seria nula.
E fazer a ordenação de um bispo, um padre não pode nem cogitar! Se ele tem um grau a menos no Sacramento da Ordem, como poderá conferir esse poder a alguém que terá mais poder? A causa não pode ser menor do que o efeito.
Então, apresenta-se de novo uma desigualdade que tem analogia com a primeira, mas não é idêntica. Entre o bispo e o padre há um corte, mas é um corte participativo. Entre a hierarquia e o leigo só há um vínculo comum: todos são cristãos.
Há dois sacramentos que, em circunstâncias especiais, os leigos podem conferir: in articulo mortis podemos batizar; e, quando não vai um padre a determinado lugar, e há razão ponderável para acreditar que durante um mês não apareça de novo, o marido e a esposa podem se aceitar como cônjuges perante testemunhas leigas; é um Sacramento.
Vemos, portanto, que é algo participativo, mas que tem uma diferença: um pode fazer o outro; o outro não pode fazer o um.
As mesmas formas de desigualdade também existiam nas sociedades
Essas duas formas de desigualdade, nós as víamos existentes também nas sociedades de outrora. Nas nações europeias nascidas durante a Idade Média, normalmente a desigualdade entre nobres e plebeus era essa. O nobre governava a res publica, a coisa pública, o Estado; ele mandava, dirigia. E o plebeu era governado, mandado, dirigido. Mas os nobres tinham participações desiguais no poder, assim como os que possuem o poder de governar na Igreja têm participações desiguais.

A diferença entre um duque e um conde era de espécie diversa da existente entre um conde e um plebeu.
Essa relação pela qual se estabelecem as autoridades pede um píncaro! Porque com uma série de bispos, a Igreja pede um monarca; com uma série de nobres, a sociedade temporal pede um monarca. É o píncaro que está para os outros nobres, como os nobres estão entre si.
O rei era o primeiro gentil-homem do reino; era, ele próprio, a personificação do reino.
Uma vez eu vi uma cena minúscula: estando hospedado no Hotel Glória, no Rio de Janeiro, recebi a visita de um príncipe deposto, o Príncipe Alberto da Baviera, pretendente ao trono da Baviera. Numa hora, ele quis telefonar para alguém, para dar um recado. Como eu já sabia qual era o recado – ele me tinha dito –, não havia indiscrição em permanecer perto do telefone e eu deixei-me ficar. Ouço-o telefonar para um alemão e lhe dizer: “Fala aqui a Baviera. Eu queria comunicar-lhe tal coisa assim, assim…” Quando ele disse isso, eu olhei para a fisionomia dele para ver. Ele o fazia com a naturalidade com que um de nós diria: “É fulano que fala”. Mas ele personificava o todo.
Um cardeal, por mais bem colocado que seja, não pode dizer: “Eu sou a Igreja Católica”. Mas o Papa pode! É o píncaro!
O Prælium Magnum: uma guerra entre o amor e o ódio às desigualdades
Saiamos da história humana, retrocedamos no passado até a revolta dos anjos.
A relação que existia entre Deus e os anjos não era igual a essa, mas infinitamente mais acentuada, porque Deus é a Causa causarum, o Motor imóvel, é a Sabedoria infinita, é o Absoluto, é a Perfeição. O mais esplêndido dos Anjos não é senão uma criatura que Deus tirou do nada e que, se Ele quiser, reduz ao nada também. Há um paredão entre Deus e a criatura – se eu assim ousasse exprimir –, sem comparação mais categórico, do que o paredão entre o rei e o último dos seus súditos.

Ora, o demônio se revoltou contra Deus porque Ele lhe revelou a Encarnação do Verbo, e que a Rainha dos Anjos seria a Mãe Imaculada do Verbo que haveria de nascer. O demônio se indignou e, no fundo, quando se revoltou, ele contestou o direito que Deus tinha de fazer isso.
Se Deus tinha esse direito, ele não podia se revoltar! Ele contestou o paredão, quer dizer, essas desigualdades. Ele odiou a desigualdade por excelência e, portanto, odiou todas as formas de desigualdades existentes entre eles. Por uma antipatia pessoal, por um ódio pessoal, ele odiou toda desigualdade possível.
São Miguel Arcanjo foi o príncipe glorioso que se entusiasmou e bradou: “Quem como esse Paredão? Quis ut Deus!”, e mandou a ralé para o Inferno! Era a ralé moral que estava ali e que foi expulsa.
Em todos os tempos o demônio haveria de odiar as desigualdades, porque elas são um espelho do que é Deus para os homens. E, por causa disso, o demônio haveria de ser revolucionário e nós, contrarrevolucionários! Quer dizer, amando sempre o poder que se exerce efetivamente segundo a lei de Deus, segundo a ordem imposta por Ele e para fazer a vontade d’Ele. Num certo sentido, quanto mais o poder é categórico e perpendicular, mais ele lembra a Deus.
O religioso flexível às ordens de seu superior, nunca cai no erro
Um dos traços mais bonitos da vida religiosa é que o religioso está sempre colocado diante de seu superior numa dependência como a do homem em face de Deus. Obedecendo ao seu superior em tudo, ele faz o que o demônio se recusou a fazer e deixa o demônio espumante. É assim que deve ser.
Então, mandam-no para este lugar, para aquele outro, para aquele outro, onde nunca pensou ir na vida; não sabe por que foi ele o escolhido e não os outros. A outros, manda-se ficar, também não sabem por quê. Mas o charme da coisa está nisso. É o contrarrevolucionário!
Alguém dirá: “Bom, mas pode ser que meu superior erre”.

Eu, obedecendo a ele, não erro! Porque Deus quis que houvesse homens colocados entre si nessa relação e quis que uns obedecessem aos outros. Portanto, Deus, daquele quis que ele dissesse “sim” ao que errou. O sublime está nisso!
Para terminar, conto um fato que eu acho tão bonito, na vida de São Charbel Makhlouf.
Para situarmos bem o episódio, precisamos lembrar que ele era uma espécie de camaldulense num daqueles mosteiros do Líbano, daquele Líbano ainda todo impregnado de recordações bíblicas, da atmosfera da Sagrada Escritura e onde vicejavam – no tempo dele, não sei se ainda hoje – os famosos cedros do Líbano, das árvores maiores do mundo! Coníferas magníficas!
Ele era muito firme no cumprimento das regras – é claro, do contrário não seria um bem-aventurado! Mas muitos frades do tempo dele não entendiam isso. Ele pedia licença ao superior para fazer coisas que era óbvio que o superior quereria, mas a questão é que a regra dizia que não podia fazer sem licença do superior. Então, ele chegava para o superior e perguntava:
— Padre Superior, eu posso fazer tal coisa?
Às vezes, o superior, que era um espírito bronco, dizia para ele aos berros:
— Será possível que o senhor seja tão burro, que não compreenda que pode fazer? Vai importunar-me para pedir licença para uma coisa que o senhor não precisava de licença para fazer? Isso qualquer um faz!
Ele ficava quieto, parado… sem sair. Porque não tinha licença. Então o superior, para se ver livre dele, dizia:
— Está bom, dou licença!

Uma noite, esse homem obedientíssimo se viu num apuro: ele tinha que rezar ainda uma parte do breviário, antes da meia-noite. Entrou na cela e verificou que já não havia azeite na lâmpada. Então, apesar disso, ele arranjou um jeito de fazer luz no quarto e começou a rezar. O superior, que estava à procura de uma ocasião para pegá-lo em alguma irregularidade, foi como uma ventania até o quarto dele:
— Como é que o senhor, a esta hora, está rezando o breviário aqui? Não há mais azeite em nenhuma lâmpada, foi retirado. Onde é que conseguiu este azeite contra a regra?
Ele respondeu com toda a simplicidade:
— Padre Superior, o que tem aqui dentro é água.
O superior verificou a lamparina… e disse:
— Reze por mim! – fechou a porta e foi embora.
É o caso de dizer que nunca Salomão, em toda a sua glória, teve uma vitória como esta de São Charbel Makhlouf. Mas sem pensar em vencer. Obedecendo, de repente saiu a glória dele como uma chamarada! Deus quis glorificá-lo.
Ele, com certeza, foi dormir tranquilo…
Essas são coisas que o demônio odeia, odeia, odeia, e que nós amamos, amamos, amamos!
(Extraído de conferência de 27/3/1984)





