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Regina Prophetarum

Nossa Senhora é a Regina Prophetarum, a Rainha de todos os Profetas. Embora Ela não tenha sido incumbida de nenhum profetismo especial, Ela é profetisa num grau como nenhum dos profetas o foi.

O profetismo de todos os profetas foi posto n’Ela e, depois de possuído por Ela, inabitado n’Ela, feito um com a alma d’Ela, foi dado em migalhas para os outros. De tal maneira que não há nenhuma proporção entre o profetismo de todos os profetas passados, presentes e futuros e o que Ela tem. É completamente sem proporção!

Ser Rainha de todos os profetas não quer dizer também que Ela apenas tem poder sobre eles, mas que Ela é a fonte propulsora de todos eles, é o canal do profetismo, o oceano do profetismo enchido por Deus e do qual, depois, vêm as águas para os que devem ser profetas.

O Profeta por excelência

Nosso Senhor Jesus Cristo, Homem-Deus, é o Rei dos Profetas. Ele foi o maior de todos os profetas que houve e que haverá. Os profetas, em geral, preveem o que vai acontecer; Nosso Senhor não só profetizou, mas realizou a profecia que fez.

Rainha de todos os profetas, Nossa Senhora é a fonte propulsora do profetismo.

Do alto da Cruz, quando Ele estava agonizando no meio de tormentos sem nome, esteve presente diante d’Ele cada homem que nasceria. Ele pensou individualmente em cada um de nós, Ele teve conhecimento das atitudes que tomaríamos diante da Igreja Católica que Ele tinha fundado. Ele via quantos pecados haveria, quantas ofensas e, naturalmente, Ele previu profeticamente os dias desoladores pelos quais estamos passando. E este deve ter sido um dos maiores sofrimentos de Nosso Senhor na Cruz.

O conhecimento profético de Nossa Senhora

Ele estava só pregado na Cruz? Ou, aos pés d’Ele, Alguém sofria como, excetuado Ele, nunca ninguém mais sofreu nem sofrerá? “Iuxta crucem dolorosa, stabat Mater ­lacrimosa”. Junto à Cruz, cheia de dor estava – em latim stare é estar de pé – estava de pé a Mãe lacrimosa, ou cheia de lágrimas, ­lacrimejante. Nós não temos pena de Nossa Senhora? Não nos lembramos de quanto ao pé da Cruz Ela chorou?

Nossa Senhora enquanto Rainha dos Profetas é também a Rainha de uma espécie de filhos que viviam mais especialmente da confiança.

Alguém poderia dizer: “Chorava pela morte do Filho”. É verdade. Antes, chorava por tudo quanto era feito contra seu Divino Filho, mas chorava também porque, Rainha dos Profetas e Mãe d’Ele, tudo leva a crer que Ela foi associada a essa visão profética d’Ele. Ela, que é contemplativa por excelência, conhecia o passado, o presente, o futuro, interpretando, por assim dizer vibrando, participando de cada passo da História. E é normal imaginar que Ela tenha conhecido por revelação profética todos os homens que haveriam de nascer, e viu, por comunicação de Nosso Senhor, todas as ingratidões e pecados que se cometeriam até o fim do mundo, abusando da sua Paixão. Ela viu tudo quanto haveríamos de sofrer e, inclusive, o que haveria de acontecer à Igreja em nossos dias, a dissolução da sociedade, os pecados de nosso tempo. Ela por eles chorou!

O Padre Eterno pediu a Ela consentimento para o Filho d’Ela morrer. A condição para que os homens se salvassem era que Ele morresse. Se Ela dissesse “Não”, Ele não morreria. Ela via aquela angústia, aquele mal-estar de Nosso Senhor, e disse: “Eu quero esse mal-estar, e quero essa morte, para que os homens se salvem”.

É possível que Ela tenha tido em mente cada homem. Se um só dependesse daqueles padecimentos, Ela diria: “Por aquele a quem eu quero, e que também é meu filho; eu sacrifico meu Filho perfeito, para salvar meu filho pecador. Pecador, meu caro pecador, levanta-te, Eu te perdoo!”

Os profetas da Antiga Lei

Nossa Senhora enquanto Rainha dos Profetas é também a Rainha de uma espécie de filhos que viviam mais especialmente da confiança. Porque os profetas da Antiga Lei, anteriores a Nossa Senhora, tinham noção da vinda do Messias; Elias Profeta foi o primeiro que teve uma noção da vinda de Nossa Senhora. Do alto do Monte Carmelo, ele rezou para chover sobre todo o país de Israel. Estava fazendo uma seca medonha, ele rezou muito e apareceu uma nuvenzinha no céu, esta nuvem se transformou numa nuvem enorme que cobriu o céu inteiro e veio uma chuva torrencial.

Flávio Lourenço
Santo Elias – Igreja do Carmo, Caudete, Espanha

Isso é visto como uma profecia a respeito de Nossa Senhora: Ela é a nuvenzinha pequena e Nosso Senhor Jesus Cristo é a nuvem enorme que toma o céu inteiro e dá fecundidade a toda a Terra. Não pela chuva de água, mas pela chuva do Sangue d’Ele, precioso, que derramou sobre a terra para nos salvar.

Daí em diante os profetas viveram dessa esperança. Eles recebiam revelações, e muitas vezes essas profecias pareciam desmentidas pelos fatos. Isso acontecia para acentuar a confiança deles, mas depois de parecerem desmentidos, de repente aquilo se confirmava. Por exemplo: a prova muito bonita de confiança em Jonas Profeta. Ele foi tragado pela baleia e ficou alguns dias dentro do estômago do peixe sem sofrer nada (cf. Jn 2, 1). Quando chegou próximo do lugar onde ele tinha que descer, a baleia chegou perto da praia e o pôs fora (cf. Jn 2, 11). Ele fez a viagem no mar – o primeiro submarino foi a baleia que conduziu Jonas – e durante todos esses dias em que esteve dentro da baleia, ele vivia apenas de confiança. Ele saiu e realizou sua missão profética.

Nossa Senhora apareceu maternal, mas guiando para a luta

Além disso, Nossa Senhora não é a grande Profetisa da “Bagarre”, dos castigos da Revolução e do espírito com que Ela quer que se veja a Revolução? Ela, em Fátima, profetizou o Reino d’Ela no momento em que este Reino pareceria impossível!

Nossa Senhora não é a grande Profetisa dos castigos da Revolução e do espírito com que Ela quer que se veja a Revolução?

Ultimamente eu tenho começado a rezar, por mim e por todos nós, a Ela com a invocação de Regina Prophetarum, ora pro nobis! É uma esplêndida invocação que eu recomendo.

Teodoro Reis
Nossa Senhora de Fátima (coleção particular)

O Imaculado Coração de Maria aparece com grande ternura e fazendo a obra do Sagrado Coração de Jesus em duas aparições corolárias uma da outra: Nossa Senhora das Graças, na Rue du Bac, quando Ela apareceu a Santa Catarina Labouré, e no Miracolo, quando apareceu em Roma com os mesmos atributos da Rue du Bac. Ela derramou um mundo de doçura, e doçura marial, que é uma espécie de quintessência da doçura de Nosso Senhor Jesus Cristo. Isso não exclui que a grande maioria das aparições de Nossa Senhora nesse tempo não tenham tido essa característica. Por um lado, Ela deixou aparecer essa bondade, o que ficava bem como Mãe, mas, por outro lado, há um denominador comum: Ela apareceu guiando para a luta. É algo que liga muito formosamente uma aparição com a outra.

Em Lourdes Ela mostra muita misericórdia para com aqueles doentes, mas a razão principal das aparições não era a de curá-los, mas a de esmagar o ateísmo, porque com isso estava esmagado o resto. É, portanto, Nossa Senhora revelando essa ternura especial, quintessenciada, mas a linha geral das aparições d’Ela é a luta. Daqueles miraculados de Lourdes nenhum deu numa pessoa insigne de gratidão. La Salette, é melhor nem comentar…

Em Fátima Nossa Senhora apareceu como Regina Prophetarum

Por outro lado, em Fátima não é a torrente de misericórdia que se sente. A meu ver é uma coisa diferente. Ali Ela justifica este título que a Igreja Lhe dá na Ladainha Lauretana: Regina Prophetarum. É Nossa Senhora numa atitude profética procurando guiar o povo na luta contra o mal!

Porque, sem ser uma profecia oficial, como são, por exemplo, as profecias do Antigo e do Novo Testamento, em Fátima Ela fez uma previsão do futuro, nesse sentido uma profecia, com a ciência revelada que Ela tinha daquilo que Deus Lhe contou. Ela profetiza com uma verdadeira realeza, pelo menos sobre todas as profecias particulares que existem ao longo do Novo Testamento.

E Ela apareceu e comunicou por meio de três crianças, três pequenos pastores – não investidos de uma missão oficial junto ao mundo, mas de uma missão particular – essa profecia para o gênero humano. Os sinais do Sol que Nossa Senhora fez sentir naquela ocasião foram fatos inteiramente notórios para milhares de pessoas, Portugal inteiro teve conhecimento. As pessoas não tomam em consideração que uma realização desses sinais do céu foi a aurora boreal que anunciou a Segunda Guerra Mundial. E Lúcia confirma o que estou dizendo.

Toda profecia é, de si, um segredo não conhecido. Nossa Senhora tem um segredo, e Ela o guarda no Coração.

Diante da situação internacional, percebemos perfeitamente que, de um momento para outro, se descarregará sobre o mundo o castigo que Nossa Senhora previu em Fátima, quer dizer, “muitas nações serão aniquiladas” etc. e, no fim, “O meu Imaculado Coração triunfará!”

Nossa Senhora do Segredo

A invocação Regina Prophetarum se relaciona especialmente com o que menciona São Luís Grignion de Montfort sobre o Segredo de Maria. Nós poderíamos conceber então uma linda invocação: Nossa Senhora do Segredo, e pedir-Lhe que apresse a intervenção d’Ela em nossas almas manifestando seu segredo, que deve ser alguma coisa de altamente importante e útil para nossa santificação.

Como toda profecia é, de si, um segredo não conhecido – nem todo segredo é profético, mas toda profecia participa de um segredo –, a profecia é a revelação de algo que os homens, por recursos naturais, não têm meios de conhecer, e que o profeta revela. Ele é aquele que recebe algo que Deus manteve em segredo, não quis que os homens conhecessem, e que, em determinado momento, é incumbido de revelar. De modo que o profeta revela uma parte do segredo.

Tomando isso em consideração, causa um pouco de espanto que não se tenha feito a relação entre a Regina Prophetarum e a Rainha do Segredo. Nossa Senhora do Segredo, a qual nós cultuaríamos quer enquanto revelando o segredo, quer enquanto guardando o segredo. Mas só o ter bem em mente que Ela tem um segredo e que Ela o guarda no Coração já é, no momento de rezar, um elemento de intensificação da piedade muito valioso.

Eu rezei Regina Prophetarum incontáveis vezes na Ladainha, mas nunca rezei a Nossa Senhora do Segredo, e ocorre-me agora essa invocação.

O profetismo é uma representação símile, na Terra, do poder angélico.

O profetismo se assemelha à atuação angélica entre os homens

Considerando o profetismo, pode-se dizer que ele se encaixa mais na linha angélica do que na dos poderes terrenos. Ele é uma representação símile, na Terra, do poder angélico. Ele tem a liberdade de movimentos dos poderes terrenos, das estruturas eclesiásticas e civis, mas acrescido da liberdade que têm também os Anjos. Neste caso, a liberdade não é o direito de fazer o que quiser, mas é a possibilidade de fazer o que quiser, sem nenhuma pressão, coerção ou imposição.

Flávio Lourenço
Pentecostes – Basílica de Nossa Senhora de Maastricht, Países Baixos

Seria muito de acordo com os hábitos da Providência que, havendo a hierarquia celeste e a terrena, houvesse realmente entre uma e outra um símbolo da celeste em termos deste mundo: o profetismo. Porque a Providência, sempre que faz um valo, coloca de cada lado dele um símile. Não é uma imposição da Sabedoria, mas é uma excelência dela, que, por causa disso, faz parte do que poderíamos chamar “os hábitos de Deus”.

Na Igreja nascente, Nossa Senhora desempenhava um papel análogo ao da hierarquia celeste. Ela era submetida a São Pedro. Ela estava até sob poder de São João, Ela não fazia nada sem pedir licença ao Apóstolo virgem; eu imagino que São João se ajoelhava para dar a licença ao que Ela queria.

São situações meio colaterais, mas de um esplendor específico. Por exemplo, Nossa Senhora poderia revelar uma verdade de Fé de tal maneira que se tornasse obrigatória para todos? Eu não creio.

O que Ela dizia para os Apóstolos não estava na ordem jurídica. Ela não ficou com o governo da Igreja tendo São Pedro como um vigário-geral de aparência. Aliás, eu tenho toda a impressão de que São Pedro se movia e fazia ex cogitatione propria – pensando por si mesmo.

O profetismo, visto assim, é um misto de sabedoria que se comprova pela fé e pela razão e que, com isso, obtém adesão e uma “transparência” que ajuda a aceitação dada em virtude do normal desenvolvimento intelectual.

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