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Miserere – O cântico da alma arrependida – III

Ao final do Miserere, encontra-se a síntese de todo o Salmo: um ato de arrependimento profundo unido à extrema confiança leva a alma, que foi objeto da misericórdia de Deus, a desejar vê-Lo amado e servido também por todo o mundo, nascendo assim o anseio de que o Reino de Deus se estabeleça em toda a Terra.

Continuando o Miserere, Davi faz uma promessa de apostolado: “Se Vós fizerdes isso por mim, eu trabalharei por Vós”.

Uma promessa de apostolado

Docebo iniquos vias tuas: et impii ad te convertentur – Eu ensinarei aos iníquos os vossos caminhos e os ímpios se converterão a Vós” (Sl 50, 15).

O subentendido é: “Se me fizerdes, ó Deus, todos esses benefícios que estou pedindo, se curardes este pecador, então eu também serei de alguma utilidade para vossa glória”.

Qual seria a utilidade? Ele sabe que será sumamente agradável a Deus, se ele fizer pelos pecadores o que Deus fez por ele. Então ele promete: “Eu ensinarei aos ímpios os vossos caminhos”. Ele vai ensinar o bem, vai chamar à virtude, vai fazer apostolado junto aos ímpios. É uma tarefa árdua, desagradável, e que às vezes põe em brasas o respeito humano, mas ele se compromete. Ele sabe que Deus, que quer tanto a salvação de cada homem e que fez por ele tudo quanto fez – ele foi perdoado, foi lavado e reintroduzido no amor de Deus –, Deus quer o mesmo para todos os homens. Ele tem certeza de que Deus ama o pecador.

Arquivo Revista
Dr. Plinio em 1994

Prelúdio do Reino de Maria

Et impii ad te convertentur…” esta frase tem uma sonoridade muito bonita, é de uma beleza poética! Os ímpios, os homens de má vida, de má doutrina, os revolucionários “ad te convertentur”. O que isso significa?

Este final de versículo, abaixo, tem qualquer coisa que, pelo menos segundo o meu modo de sentir, preludia em algo o Reino de Maria.

Não quero dizer com isso que ele tenha tido a intenção de profetizar o Reino de Maria; mas ele deseja que se estabeleça na Terra uma ordem ideal. A expressão “et impii ad te convertentur” não diz respeito a cada ímpio individualmente, mas a generalidade deles se converterá. Uma terra onde praticamente todos os homens se convertem e, portanto, conhecem a Deus, a Igreja Católica, a Nosso Senhor Jesus Cristo, a Nossa Senhora, ela vive e ama tudo isso, é algo que, se não for o Reino de Maria, é muito parecido com ele.

É uma promessa que ele faz: entregar a Deus um mundo convertido, porque Deus o converteu.

No meu modo de sentir, é de uma grande beleza! Acho tocante esse extremo de humildade e de rejeição ao pecado. Essas fórmulas filiais e quase hiperbólicas para exprimir a Deus a confiança de que Ele tem pena do pecador e não o rejeita para longe de Si, é absolutamente comovedor. Todas as orações que encontramos nos devocionários pedindo perdão pelo pecado não têm, nem de longe, a força e o voo que essas exclamações possuem. Este Salmo é ditado pelo Espírito Santo e tem uma grandeza extraordinária!

A última fase do histórico de uma alma

Considerando este Salmo 50, percebe-se que ele retrata o histórico de uma alma que foi amada por Deus e que, por seu lado, também amava a Deus. Essa alma pecou e foi objeto da execração de Deus, arrependeu-se e foi perdoada. Começa então a época não mais da inocência e do pecado, mas do perdão que restaura de alguma maneira a inocência e afasta o pecado.

Nesse sentido, podemos dizer que o mundo está sofrendo castigos cada vez maiores. É mais do que compreensível que Deus, na sua misericórdia, por bondade, em vez de exterminar o gênero humano, o castigue ainda mais, para ver se ele abre os olhos.

“O pai que poupa o castigo a seu filho, odeia seu filho” (Pr 13, 24), diz a Escritura; logo, o pai que castiga seu filho, ama-o. E quando vemos os castigos se lançarem de tal maneira contra a humanidade, a atitude normal da alma é de exclamar: “Quanto amor!” Eu sei que para essas mentalidades que andam por aí, que enchem e infestam o mundo, amor é não amolar. Se Deus não amolasse a humanidade, se a deixasse pecar à vontade, dir-se-ia: “Quanto amor!” Como Ele não deixa e não quer ver a humanidade decair ao grau a que ela está ameaçada, Ele a castiga para que se emende. “Esse castigo – que é a marcha para o amor de vara em punho – é uma severidade exagerada”, dizem eles.

Perdoado, ele se torna capaz de cantar louvores a Deus

Libera me de sanguinibus Deus, Deus salutis meæ: et exsultabit lingua mea iustitiam tuam – Livrai-me do sangue, Senhor; Senhor de minha salvação, minha língua exaltará vossa justiça” (Sl 50, 16).

Gabriel K.
Sacrifício de Noé – Museu do Vaticano

Davi criou a ocasião de morte para o marido de Betsabeia, então ele queria ser libertado do sangue que havia derramado: “Livrai-me do sangue que eu derramei”.

Domine, labia mea aperies: et os meum anuntiabit laudem tuam – Senhor, abrireis os meus lábios, e a minha boca anunciará vossos louvores” (Sl 50, 17).

Parece esquisito um ser que sabe falar, mas que não falará a não ser quando Deus lhe abra os lábios. Por que isso? Por que é preciso que Deus lhe abra os lábios para enunciar os louvores d’Ele? Qual é o sentido profundo que há nisso?

É porque sem a graça de Deus, o homem não é capaz de louvá-Lo dignamente. O amor de Deus e o amor à verdade revelada são tais, que o homem não é capaz de os enunciar sem um auxílio sobrenatural. O que ele diz neste versículo é: “Senhor, tornai-me digno de Vos louvar. Sem isso eu sou indigno, sou incapaz, e de minha boca não se pode esperar um cântico de louvor a Vós. Se Vós me mandardes a vossa graça, eu – que me sinto incapaz de Vos elogiar e de Vos louvar condignamente –, serei animado por vossa graça e proclamarei os vossos louvores. Farei um cântico que Vos agradará e Vos pagarei com a glorificação que Vos dá o pecador arrependido”. E isso foi o que fez Davi, porque os Salmos compostos por ele perduraram por todos os séculos.

Outra ideia presente nesse versículo é a da situação de indignidade em que se encontra aquele que está falando. Ele está meio brigado com Deus e apenas quando, pela ação da graça, Deus o perdoar, o tornar capaz de cantar louvores e o transformar, só assim a reconciliação se operará. Então aqui está o estado de pecado e a reconciliação.

Um sacrifício de holocausto

Quoniam si voluisses sacrificium, dedissem utique: holocaustis non delectaberis – Porque se quisésseis um sacrifício, eu o teria oferecido; mas Vós não Vos comprazeis com holocaustos” (Sl 50, 18).

A Lei Antiga compreendia numerosos sacrifícios. Em geral eram animais – bois e ovelhas, pombos etc. – sacrificados em holocausto a Deus. Era um modo de oferecer. Por exemplo, se um cordeiro é queimado em homenagem a Deus, é muito diferente de tomar um cordeiro, matá-lo e distribuir as partes aos pobres.

A ação de repartir com os necessitados é eminentemente louvável, mas não é idêntica, como significado, à ação de destruir para oferecer a Deus. O oferecimento de algo que tem um fim prático – saciar a fome do mendigo – é bom, mas o objeto imediato daquela ação é o pobre; portanto, há alguma coisa que não é Deus e sobre a qual recai o efeito próximo da ação sacrifical.

Ora, para que o sacrifício se eleve a Deus diretamente, e somente para Ele, sem nenhuma outra razão a não ser porque Ele é Deus e nada mais, é preciso que a oferta não seja utilizada por ninguém. Deus criou aquele animal e eu poderia servir-me dele, ou poderia servir a outros, mas eu quis que ele só para Deus existisse. É como se Deus fosse um amigo de honra, um rei que se dignou sentar-se à minha mesa, para quem eu preparo um banquete, só para ele, e o que sobrar eu mando queimar. O fato de ser servido só para o rei, nesta metáfora que estou formulando, confere um caráter puramente sacrifical, estrita e unicamente religioso, que faz essa ação pairar sobre todas as demais.

Flávio Lourenço
Apresentação do Menino Jesus ao Templo – Mosteiro de San Millán de la Cogolla, La Rioja, Espanha

Nesse espírito, eram numerosos os sacrifícios de animais que se faziam na Antiga Lei. Nossa Senhora e São José – portanto, quando a Antiga Lei estava para se encerrar porque o Messias já tinha nascido e logo mais a Redenção seria operada, e os rituais antigos não mais teriam valor – de acordo com a prescrição da Lei, levaram pombinhos ao Templo para serem imolados em louvor a Deus (cf. Lc 2, 24).

Mais que a oferta material, agrada a Deus o holocausto de alma

O que este versículo quer dizer é o seguinte: Deus não Se satisfaz com meros oferecimentos materiais, por exemplo, imolar um cordeiro ou um pombo. Para os pecadores isso não adianta; é preciso um sacrifício antes de tudo da própria alma. Há coisas que a alma deve imolar, estão nela e precisa sacrificar; enquanto uma renúncia não for feita, as pazes com Deus não são restabelecidas.

Por exemplo, do mundo contemporâneo Deus quer a castidade. Enquanto não houver castidade nele, não há oferecimento que possa servir.

Imaginemos que houvesse uma falsa revelação, aparecesse de repente um profeta de Baal, ou seja, um profeta do demônio, e dissesse: “Deus reconhece que a humanidade chegou a um tal grau de infâmia, que não poderá oferecer a Ele o sacrifício de manter a castidade. Então Deus, na sua bondade, declarou: ‘Eu perdoo os homens e deixo-os continuar impuros, desde que me ofereçam cinquenta mil bois e vacas procedentes de todos os continentes, num lugar qualquer de uma significação extraordinária”.

Vamos supor, no Monte Sinai, lugar de uma significação imensíssima, os homens se reuniriam e ofereceriam não cinquenta mil, mas quinhentos mil bois por ano, para que eles ficassem com a licença de pecar contra a castidade à vontade.

Este não seria um holocausto verdadeiro. Por quê? Porque eles não fariam um sacrifício de alma, não seria ela que se tornaria casta. Era mandar matar uns bois e umas vacas, e Deus que se contentasse com isso. Por isso Davi argumenta: “Porque se quisésseis um sacrifício, eu o teria oferecido: mas Vós não Vos comprazeis com holocaustos”.

A mera oferta de bens materiais não satisfaz a Deus inteiramente

Eu ainda alcancei o tempo em que havia publicação de lista de doadores de obras de misericórdia. Quando chegava o fim do ano, certas instituições de caridade costumavam divulgar um rol dos benfeitores, com o valor recebido e as datas do donativo. Assim, todos ficavam conhecendo quais eram os bons doadores e isso projetava-os em boa situação aos olhos do público. E mesmo quando o doador era um pecador público, ele muitas vezes se comprazia em fazer uma grande doação, com a ideia de que quem lesse isso diria: “Ele peca muito, mas ele dá muito e, por causa disso, à última hora Deus ainda o salva. Quem sabe se por esse motivo esse homem se livra do Inferno…” Era uma saída para a situação.

Mas o Salmo, com séculos de antecedência, retifica esse erro. A doação pode ser feita até pelo pecador; ela até deve ser feita materialmente quando o indivíduo tem recursos para isso. Um pecador rico, que toma uma parte de sua fortuna e dá em esmolas é uma coisa que inclina a benevolência de Deus, mas não O satisfaz.

O salmista não diz que Deus não Se contenta, mas que Ele não fica satisfeito. Quem está satisfeito não quer mais nada. Isso basta para compreendermos o sentido da palavra. Deus aceita presentes monetários, vê com bons olhos os sacrifícios, os holocaustos que têm certo alcance monetário, mas Ele não Se agrada apenas com isso.

Flávio Lourenço
A Confissão – Palácio de Nymphenburg, Munique

Um coração contrito e humilhado atrai a Deus

Sacrificium Deo spiritus contribulatus: cor contritum, et humiliatum Deus non despicies – O sacrifício digno de Vós é um espírito compungido; não desprezareis, ó Deus, um coração contrito e humilhado” (Sl 50, 19).

Espírito que tem tristeza, que reconhece o mal que fez e mede até o fim a gravidade de seus pecados, esse é um espírito compungido.

“Vós não desprezareis, ó Deus…” Está sempre presente o medo de ser desprezado porque merece, e o ato de confiança: “Vós tereis pena de mim”.

“…um coração contrito e humilhado”. Como cada palavra da Escritura deve ser saboreada, essas duas palavras precisam ser analisadas com cuidado.

O que significa contrito? A linguagem católica é muito precisa: a contrição é o arrependimento de nossos pecados. A atrição também é uma maneira de arrependimento, mas essas formas são profundamente diversas entre si.

A contrição é o arrependimento do pecador que, movido pela graça, considerou o quanto seu pecado ofendeu a Deus e, por ser Deus quem é, ele se arrependeu e está disposto a não pecar mais. De tal maneira que, ainda se não houvesse o Céu e o Inferno, mas porque Deus existe, ele não torna a pecar. É evidente que esta motivação dá ao arrependimento um alto valor religioso, porque está motivado por puro amor a Deus.

Por isso uma pessoa que está verdadeiramente contrita dos pecados que cometeu está perdoada. Ela deve confessar-se para que o perdão sacramental complete esse começo de perdão que foi operado pelo arrependimento por amor de Deus. Mas, se ela está à beira da morte, não tem tempo para confessar-se; com esse arrependimento perfeito ela readquire o estado de graça, apesar de não ter recebido o perdão sacramental.

Outra coisa é a atrição. Ela se dá quando o pecador se arrepende não por amor de Deus, mas por medo da condenação eterna. Pode acontecer que, ao considerar o Inferno, a pessoa tenha um arrepio, um susto de cair na situação dos condenados e decida não pecar mais. Esta resolução provém não do amor a Deus, mas do temor, de tal maneira que se não houvesse Inferno, ela pecaria.

Essa é uma disposição de alma muito inferior à primeira. Resultado: a pessoa que se arrepende por temor só poderá ser perdoada através da Confissão sacramental. Por este Sacramento juntar-se-á ao temor dela algo a mais: os méritos infinitos de Nosso Senhor Jesus Cristo e, por isso, ela é restaurada.

Contrito e humilhado: é preciso que o homem tenha vergonha e horror, diante de si e diante de Deus, daquilo que fez, e então se humilha. Um coração contrito e humilhado é o que Deus deseja, os animais oferecidos em holocausto não bastam para obter o perdão. É um elemento do ato de reparação, é uma circunstância boa, favorável e exigida por Deus na Antiga Lei, mas não satisfaz.

Nessas palavras da Escritura, podemos notar como tudo é pesado, tudo tem um sentido profundo e convém eminentemente meditarmos.

Sião, prefiguração da Santa Igreja

Davi passa a falar do próprio país. A cidade de Sião pecou tanto quanto ele, participam todos das infâmias dele.

Ele é membro da nação eleita e fala em nome de todo o povo. A nação de Israel era prefiguração da Igreja, então é como se um de nós, no extremo de seu arrependimento e sem ter mais o que alegar para obter o perdão de Deus, dissesse: “Tende pena da Igreja Católica para que se reedifiquem os muros dela. Eu sou uma célula viva da Igreja, e se eu, por mim, enquanto Plinio Corrêa de Oliveira, não mereço nada de vossa misericórdia, eu sei quanto Vós amais a Igreja; eu sou um membro dela, então, enquanto a Igreja vivendo em mim, tende pena dela e levantai este muro da Igreja que está caído. Por amor à vossa Igreja, fazei bem a mim”.

Benigne fac Domine in bona voluntate tua Sion: ut ædificentur muri Ierusalem – Senhor, sede benigno com Sião por vossa vontade bondosa, para que se edifiquem os muros de Jerusalém” (Sl 50, 20).

Aqui “bona voluntate” tem um sentido profundo: “Pela bondade de vossa vontade, porque sois santo e sois bom, e vossa vontade é boa e Vos inclina ao bem, sede benigno para com Sião”.

Os muros de Jerusalém foram destruídos pelo adversário como castigo. Naquele tempo, toda cidade sem muros era sem valor, podia ser tomada a qualquer momento. Os muros eram a fortificação da cidade, era do alto da muralha que seus defensores se defendiam contra os atacantes. Então vem este pedido: Senhor, sede benigno com Sião por vossa boa vontade, para que se edifiquem os muros de Jerusalém.

Luis C. R. Abreu
Filho Pródigo – Paróquia do Salvador, Santa Cruz de la Palma, Espanha

A ideia que há nesse versículo é a seguinte: “Para se edificarem os muros destruídos de Jerusalém, para que a cidade santa pecadora – santa por vocação, santa por intenção de Deus, mas pecadora como se tornou – possa de novo ter muralhas como nos gloriosos dias de outrora, sede benigno para com ela. Jerusalém não merece nada, mas, Senhor, a bondade de vossa vontade, despertada pelo pranto de um coração contrito e humilhado, pode mudar os destinos de Jerusalém nas vossas altas e sacrossantas ponderações. Senhor, sede benigno com Sião”.

Uma aplicação para o Reino de Maria,

Tunc acceptabis sacrificium iustitiæ, oblitiones, et holocausta: tunc imponente super altare tuum vitulos – Então aceitareis os sacrifícios legítimos; então serão colocados bezerros sobre os vossos altares” (Sl 50, 21).

Ou seja, quando o mundo tiver sido tão surrado que, afinal de contas, pela ação da graça apareça nele uma centelha de amor, mas de um amor proporcionado à imensidade do pecado cometido, estará tudo reconciliado. Que tamanho deverá ter essa contrição? Que tamanho terá o amor que a motivará?

Diante desse grande amor, Deus benigno permitirá que os muros de Jerusalém sejam reconstruídos e aceitará o holocausto do homem pecador, porque ele foi perdoado e os presentes dele serão agradáveis a Deus. A aliança entre Deus e o pecador se restaurou e a necessidade do culto se restabelecerá também.

Davi termina afirmando: “Isso acontecerá. Haverá um momento em que meu coração ficará humilhado porque Vós o tereis humilhado, e me dareis a graça de estar reconciliado convosco. Então meus sacrifícios Vos serão agradáveis e a normalidade das relações entre a vossa grandeza e minha pequenez estará restituída”.

Que beleza quando Jerusalém, no Reino de Maria a Santa Igreja, for como uma cidade cujas muralhas foram fortificadas. Muros altos, magníficos, com ameias, com barbacãs cercando donjons, torres de menagem colossais, tudo ordenado segundo grande beleza, mas sobretudo grande força e grande perspicácia. Muros construídos de tal maneira, que ainda têm um valo de água circundando-os e a porta por onde se entra, de considerável grossura.

Um pensamento tem relação com outro, e podemos nos alegrar pensando nessa cidade forte, cidade de Maria, onde Ela é Rainha, e nossos corações, dentro da miséria e da lama contemporânea, exultam e cantam internamente o Magnificat. Virá esse dia!

Quando os homens, por fim, forem assim, Deus aceitará também os dons materiais. Será a época em que as fortunas se comprazerão em comprar pedrarias no Oriente e madeiras preciosas do Brasil para fazer móveis para as Igrejas, adornar os ostensórios, exaltar e superglorificar os altares de Maria e daí por diante. Aí Deus receberá esses sacrifícios, porque foram oferecidos por corações contritos e humilhados.

A misericórdia na Nova Lei

Com isso concluo o comentário ao Salmo 50, o Miserere.

Seria verdadeiramente belo se essa oração fosse rezada diariamente com compunção, por exemplo, nas igrejas e oratórios! Isso não seria muito próprio a regenerar almas perdidas?

Depois de recitar o Miserere só cabe cantar o Alle psalite,1 porque é cantar a grande alegria vinda através do perdão. Deus não Se lembra mais do pecado, acolhe o pecador, é a festa do filho pródigo que retorna a casa…

Bárbara N.
Nossa Senhora Auxiliadora – Santuário de Nossa Senhora de Betharram, França

A vantagem que há em comentar os Salmos Penitenciais é exatamente de incutir em nós as duas disposições de alma que parecem mais necessárias: um arrependimento profundo de nossas faltas, medidas e sondadas em todas as suas agravantes. Eu quereria que fôssemos escafandros de nosso subconsciente, de nossos pecados, e que entrássemos em nosso interior, medindo ponto por ponto: “Eu tive tal agravante, esta agravante ainda acrescida por isso, depois por aquilo chegou a tal ponto…”

E depois um ato de confiança: “Ó minha Mãe, eu Vos peço a Vós, tende pena de mim porque vossa misericórdia é maior do que todas as agravantes que encontrei em mim. Era preciso que eu descobrisse essas agravantes para me humilhar, mas agora faço um ato de confiança em vossa misericórdia. Vosso perdão é muito maior que a imensidade de crimes que eu cometi e, por causa disso, eu me volto para Vós. Minha Mãe, tende pena de mim!”

Davi não tinha Nossa Senhora; não tinha sequer Nosso Senhor Jesus Cristo, era direto com a Santíssima Trindade. Nós temos Nosso Senhor, temos Nossa Senhora e uma abundância de recursos de clemência da Nova Lei, de modo que tudo o que neste Salmo se refere à misericórdia de Deus, deve-se entender ao cêntuplo.

Mas, também o pecado se torna mais grave porque nós abusamos de uma graça maior. É evidente: se há mais misericórdia, o pecado é maior. Devemos, portanto, nos humilhar mais. De outro lado, o superavit da misericórdia é sempre enorme. Devemos nos voltar para Nossa Senhora sempre com toda a confiança.

Uma recordação pessoal

Acrescento uma recordação pessoal, cheia de gratidão.

Quando eu era pequeno, em certo momento de minha infância eu andei mal; Nossa Senhora teve pena de mim e me abriu os olhos. Uma graça procedente da imagem de Nossa Senhora Auxiliadora, da Igreja do Coração de Jesus, me fez dar os primeiros passos na vida espiritual. Nesse tempo, por coincidência eu li esse Salmo, senti-me tocado a fundo e me converti.

Não posso deixar de agradecer a Nossa Senhora, diante de cuja imagem essa modificação de alma se deu, e de convidar a todos a fazerem o mesmo quanto às suas vidas individuais. Se alguém andou mal em alguma ocasião – e quem não andou mal? – ajoelhe-se, peça perdão a Nossa Senhora e diga a Ela: “Eu vou batalhar para a instauração do vosso reino. Vou ensinar aos ímpios o caminho das vossas vias e eles se converterão. Vós conquistareis o mundo, ó minha Mãe, porque eu lutarei por Vós, e toda a força que Vós me derdes será gasta, inexoravelmente empregada em vencer o mundo!”2

1) Hino geralmente associado ao Tempo Pascal, que pede que o louvor seja realizado com total devoção.

2) Comentários extraídos de conferências de 28/2/1966, 15/10/1968, 18/10/1968, 20/5/1994, 25/5/1994, 1/6/1994.

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