Princípios claros, bondade extrema, afabilidade e cumprimento do dever, eis alguns traços da formação dada por Dona Lucilia aos filhos.
As primeiras recordações que eu tenho de minha mãe, em pequeno, são das carícias que ela me fazia. É próprio a uma criança gostar de ser acariciada, sobretudo pela mãe.
Dona Lucilia possuía, como ninguém, o conhecimento de o por onde eu me sentiria melhor acariciado e, portanto, como fazer para agradar-me plenamente, incutindo em mim um gosto muito grande pelas carícias.
Eu sentia, com profunda comoção, esse mundo de comprazimento por parte de mamãe. Ora, quando nos encontramos diante do afeto, a forma do entusiasmo que se tem chama-se emoção. Portanto, ficava profundamente emocionado.
Mas, de outro lado, encantava-me com aquela ordenação que correspondia ao que eu tanto apreciava, ou seja, que ela me quisesse bem, não apenas com um amor quase meramente instintivo, por ser seu filho, mas antes de tudo, porque eu amava a Deus.
Preparando o Jacó que lutaria contra o Esaú
Nela havia duas qualidades que pareciam antitéticas, mas que se completavam muito bem. Ela era muitíssimo carinhosa enquanto notava em mim, ou numa outra criança, a debilidade da infância. Seu entranhado carinho se debruçava para amparar a criança na sua fragilidade.
Quando menino, eu sentia muito que minha debilidade de criança era uma razão especial para ela me querer bem. E não posso dizer quantas vezes eu a vi sorrir a essa debilidade e como ela a manuseava amavelmente, afavelmente, delicadamente, ora brincando, gracejando um tanto, ora explicando um pouco o mundo dos mais velhos, na medida em que uma criança pudesse compreender.
E eu me sentia “ultra” à vontade com a tradução que ela fazia do mundo dos mais velhos para os mais novos. Eu também sentia muito isso nos cuidados dela para conosco. Mais especialmente, prestava atenção no modo de ela cuidar de mim, é natural. Quer dizer, cuidados com a saúde, com o corpo, com as maneiras – não fazer brincadeiras abrutalhadas –, cuidado com tudo. Um cuidado meticuloso e afetuoso, tudo bem direito, arranjado, como deveria ser, mas de uma observação benevolente e disposta a sorrir a qualquer pequeno defeito, desde que não houvesse a insistência nele. A persistência no defeito ela não tolerava.
Por outro lado, sentia muito nela uma espécie de guindaste: ela me suspendia. Era dotada de uma fortaleza de alma, por onde a força da convicção dela fortalecia minhas convicções. A retidão de sua conduta dava-me retidão na minha. A repulsa que ela fazia do mal, do erro e do feio, fazia-me repudiá-los também.
Eu era um menino muito mole – aliás, pode-se perceber isso pelas fotografias –, e ela me animava enormemente. Para usar uma figura da Sagrada Escritura: de um lado, ela apoiava em mim o Jacó, no que este tinha de delicado em comparação com Esaú; de outro lado, ela preparava em mim o Jacó que lutaria contra Esaú. Nesse sentido também, fez-me um bem colossal!
Atitude ao ser acordada durante um sono profundo
Lembro-me ainda de como era o carinho de mamãe em minha mais tenra infância, quando eu acordava durante a noite com insônia. Eu percebia que ela estava desvairada de sono.
Eu me sentava sobre seu peito e abria seus olhos com as mãos – aí minha truculência já se anunciava… Ela abria os olhos, olhava-me com afeto e dizia-me: “Meu filho!”
Ela sentava-se na cama, trazia-me para junto de si, tirava seu travesseiro, punha-me sentado nele – eu era uma criança de dois, três anos – e começava a brincar comigo.
Naquele tempo eu pensava: “Querer bem é isso e com ela eu me arranjo!” Não era um pensamento utilitário; a ideia era: “Eu preciso querê-la assim e já a estou querendo”.
Ela me salvara daquele naufrágio, o qual consistia em estar acordado sozinho, num quarto escuro, onde apenas entrava um pouco de luz por uma fresta de porta. Ela tinha me salvado do desespero, e com que abundância, com que bondade!
Quando vinha o sono, ela me deitava, brincava ainda um pouquinho comigo, e eu dormia.
Desvelo durante as doenças dos filhos na infância
Uma coisa que eu, em vida de mamãe, notava muito – e ela a possuía em alto grau – era uma forma de presença que o simples trato comum de uma dona de casa – quer dizer, de uma senhora com o seu marido, os seus filhos, a residência – ela o fazia com uma ordenação interior, do mais profundo do seu espírito tão composto, harmonioso, sério, elevado, mas tão afável, acolhedor, virtuoso, que aquilo contagiava, no sentido bom da palavra. E as pessoas com isso ficavam de repente distendidas, acalmadas e tranquilas.
Lembro-me, por exemplo, de que, quando eu era pequeno, tive toda espécie dessas doenças que criança tem: crupe, coqueluche, caxumba. E, naturalmente, quem tratava de mim era Dona Lucilia. Mas, como toda criança, começava a ficar torcendo para não ter mais febre. E ela era uma campeã do termômetro, vira e mexe o usava.
Ela notava que eu me impacientava com o termômetro, pois, enquanto não passasse a febre, ela não me deixaria sair da cama, e eu preferia não ter esse controle e levantar logo. Então, não querendo acentuar demais o uso desse instrumento, ela punha a mão sobre a minha testa.
Só o sentir a mão de mamãe sobre a minha fronte, já transmitia uma impressão de frescor, de tranquilidade, de suavidade e todas as minhas impaciências passavam.

Às vezes mamãe vinha até mim e eu pensava: “Que bom! Ela não vai fazer baixar minha febre, mas aliviará qualquer coisa em mim que está fervendo!” Ela punha a mão na minha testa e dizia: “Meu filho, você ainda tem um pouco de febre…” Ela fazia baixar a sensação de febre, e era uma tranquilidade…
Muitas vezes a presença de Dona Lucilia dava-me também a sensação da proteção da Providência, pelo modo de me sentir garantido de tudo, pois ela me protegeria. Quando pequeno, por ser ela minha mãe e, portanto, uma pessoa mais poderosa do que eu; depois, com o tempo, isso continuava, mas de uma maneira diversa.
“Sua voz alegre já me diz tudo”
Eu tive, quando estava com uns dez anos de idade, uma doença gravíssima e contagiosíssima, chamada angina diftérica, também denominada crupe. Não é caxumba, que é uma doencinha comum.
Crupe é uma doença infecciosa medonha e muitas vezes mortal, porque é uma infecção que dá na garganta, e a pessoa fica prostrada com uma febre elevadíssima. Atinge sobretudo crianças, mas, às vezes, também gente adulta, se não me engano. A garganta vai inchando, inchando, se fecha e impede a respiração; a pessoa morre por falta de ar.
Eu me lembro de que acordei uma manhã com a voz embargada, e falei ao empregado: “Chame Dona Lucilia!”
Ela veio, e eu disse:
— Meu bem, eu não me levanto agora porque estou muito doente.
— O que é, meu filho?
Expliquei o que eu sentia. Ela pegou uma caixa com brinquedos – dos melhores, que me interessavam mais –, pôs na cama e disse: “Vá brincando aqui, enquanto eu consulto o médico”.
Lembro-me bem de que eu me sentei para brincar, porque era um brinquedo que não dava para utilizar deitado. Senti meu corpo amolecer e afundei na cama de novo.


O médico que mamãe consultara pelo telefone indicou alguns remédios. Mas a doença era contagiosíssima. Ela podia perfeitamente contratar uma enfermeira para tratar de mim, porque era muito doente do fígado e, se ela tomasse esse crupe, morria na certa. Ela não quis saber de enfermeira, do começo até o fim.
Havia, sobretudo, um momento decisivo no crupe que era especialmente contagioso, a respeito do qual o médico, homeopata, preveniu mamãe.
Eu tomava o remédio periodicamente e minha febre ia subindo. Ela telefonava para o médico – que era amigo da família e recebia os telefonemas de muito bom grado – e ele dizia para ela: “A senhora não se assuste, a febre do Plinio ainda vai subir mais. Mas, em certo momento, se o remédio fizer bem, a membrana infeccionada que ele tem na garganta será expelida. No momento em que ele lançar fora essa membrana, a senhora tenha um pano qualquer sobre o colo e faça-o expelir nesse pano. E mande imediatamente uma das criadas levá-lo ao jardim, onde já deve haver um buraco pronto, e enterrá-lo bem fundo, porque essa membrana é ultracontagiosa. E se a senhora puser em qualquer outro lugar da casa, pega em alguém”.
Ela podia contratar uma enfermeira, pelo menos para essa hora, mas não o fez. Lembro-me dela sentadinha junto a mim. Em certo momento, fiz sinal de que ia acontecer qualquer coisa.
Mas eu estava julgando, com minha mentalidade de menino, que ia morrer. Mamãe me ajudou e expeli a tal membrana na toalha colocada sobre o seu colo. Ela imediatamente a dobrou para evitar um pouco a expansão dos micróbios. Depois me agradou um pouquinho, chamou uma empregada da casa e lhe disse: “Madalena, pegue isto com a ponta dos dedos e enterre no buraco que foi feito lá no fundo do quintal”.
A Madalena foi correndo e fez como Dona Lucilia mandara. Graças a Deus, nem mamãe nem a Madalena foram contagiadas. Dentro de alguns dias, eu já estava restabelecido.
Quando expeli a membrana e minha mãe viu que, portanto, o perigo tinha passado, ela telefonou ao médico para contar-lhe o ocorrido, dizendo:
— Doutor Fulano!
Ele respondeu:
— A senhora não precisa contar o resto. Sua voz alegre já me diz tudo…
Educando através do maravilhoso
Quando eu tinha doze, treze anos de idade, minha irmã, meus primos e eu formávamos uma roda grande de meninos, meninas, e tínhamos grande entusiasmo por ouvir histórias narradas por Dona Lucilia.
Ela, que era muito imbuída de cultura francesa, nos contava histórias de Alexandre Dumas, como “Os três mosqueteiros” que, naturalmente, adaptava, tirando o que havia de inconveniente. Então os mosqueteiros D’Artagnan, Aramis, Athos e Porthos eram personagens familiares, como se convivessem conosco.
Diariamente – como fazem todos os meninos com seus pais –, eu me levantava, rezava, fazia a toilette e ia dizer “bom-dia” para ela. Para esse “bom-dia”, minha governanta alemã queria horário fixo, sem dúvida, mas ela já tinha compreendido o jeito de ser brasileiro e que o horário era fixo em linhas gerais, pois, em certos dias, tudo começava mais tarde, porque eu tinha ficado conversando com Dona Lucilia.
Lembro-me dela, deitada na cama – era doente, levantava-se tarde, e essa cena dava-se em seu quarto, pelas oito e meia da manhã –, quando estava acabando de tomar o café.
Meu pai levantava-se mais cedo; eu entrava pelo lado da cama onde dormia meu pai e chegava até ela. Abraçava-a, beijava-a várias vezes, e depois ficava aos pés da cama, ou sentado ou, muitas vezes, deitado, e olhando para ela, numa atitude de afeto em que entrava muitíssima admiração. Ou, se quiserem, numa atitude de admiração em que entrava muitíssimo afeto.
Falávamos um pouquinho e eu pedia para ela contar alguma história. Mas então era uma história só para mim.
Também moravam em casa uma irmã e uma prima, as quais tinham horários e afazeres de meninas, naturalmente separados dos meus. E elas, nessa ocasião, estavam fora; eu então tinha mamãe só para mim, única e exclusivamente.
E eu percebia que ela, com os seus olhos marrom-escuros, prestava atenção em mim e como que existia só para mim. E conversávamos.
Ela então me contava esses contos próprios para criancinhas: Gata Borralheira etc. Mas o caso do qual eu mais gostava era o do Gato de Botas, que todos ouviram em pequeno. São histórias mundiais; tenho a impressão de que até na Índia, no Afeganistão, se conta o caso do Gato de Botas.
Mas ela era muito imaginosa e eu muito pormenorizado. No conto do Gato de Botas – vê-se aqui uma espécie de fermento de Contra-Revolução que já trabalhava em mim –, o grande personagem, para mim, não era o gato. Eu achava mais ou menos banal que um gato tivesse aquelas botas, falasse; não me espantava muito com isso. Entretanto, eu me interessava enormemente por um dos personagens da história do Gato de Botas, que era o Marquês de Carabás.
Ela possuía essa intuição afetiva das mães; além disso, com muito senso psicológico, via por onde caminhava meu interesse e fantasiava a história de acordo com minha curiosidade. Enquanto ela ia contando a história, eu ficava à espera do momento em que entrava o Marquês de Carabás.
Eu conservo a confusa ideia de que o Gato de Botas acabou sendo aliado do Marquês de Carabás, mas não me lembro bem por quê.
Mamãe apresentava o Marquês de Carabás como um homem que morava num castelo e saía a certa hora numa carruagem toda dourada, com os vidros de cristal bombeados, plumas em cima do carro e várias parelhas de cavalos tocados por cocheiros com chapéu tricórnio, com plumas, alamares etc., lacaios atrás. Ele era dono de vastidões enormes que o olhar humano não podia alcançar, com trigais dourados, agitáveis pelo vento numa direção e noutra. O Marquês, então, passeava olhando os seus trigais de dentro de sua carruagem.
Eu achava essa situação maravilhosa e tinha um verdadeiro entusiasmo pelo Marquês de Carabás, pelos adornos dele, pelos postilhões, pelos lacaios etc. E quando chegava a hora de ele entrar em cena, eu começava com as perguntas.
Não pensem que tenha ficado estéril o que ela contava com um encanto extraordinário – ao menos para mim.
A viagem à Europa em 1912
Em 1912 ela esteve sete meses na Europa e fez ali uma operação de vesícula biliar. Ela teve uma doença, que hoje é muito comum e trata-se facilmente. Mas, naquele tempo, era uma doença gravíssima, e só havia um meio de não morrer: fazer uma operação que, no mundo inteiro, só um médico alemão – que, aliás, era também médico do Kaiser –, o Dr. Bier, realizava. E consistia em tirar a vesícula biliar.

Quando mamãe chegou a Berlim, o médico disse-lhe que ela era a segunda senhora do mundo da qual iria tirar a vesícula biliar; a primeira tinha sido uma senhora hindu. Ela então foi operada.
Depois de consolidar a saúde, viajou para a terra de atração de todos os homens naquele tempo, que era a Cidade Luz: Paris. Ela ia visitar aqueles lugares históricos e queria que minha irmã e eu – eu tinha quatro anos e minha irmã, cinco anos e meio – fôssemos também. Então, alguns parentes diziam para mamãe:
— Para que você leva essas duas crianças? Só vão atrapalhar, não compreendem nada; deixe-as trancadas no quarto com a governanta!
Ela respondia:

— Não sei qual é o futuro deles; talvez tenham uma vida pobre e difícil e nunca poderão vir à Europa! Quem sabe qual é o dia de amanhã, nas reviravoltas do mundo de hoje? Quero que cada um deles possa dizer: “Eu estive no Louvre, em Versailles etc. Minha mãe me levou até lá”.
Alma admirativa
Lembro-me mais dela em Paris do que em outros lugares, e lá, recordo-me bem de que a sua atitude era de uma admiração constante.
Ela sabia perceber a cultura francesa, o modo de ser francês, nas menores coisas. E como quem fala com criança, ela se dirigia à minha irmã e a mim: “Prestem atenção nisto! Olhem para aquilo! Vejam aquilo outro!” Eram as coisas que as crianças podiam admirar, como ela também.
Por exemplo, passávamos diante de muitas lojas. Minha irmã queria parar diante de lojas que vendiam tecidos e eu, muito guloso, queria parar diante daquelas que vendiam comida.
É a índole masculina e a feminina… O mundo dos tecidos para mim é brumoso e inexistente. Mas o mundo gastronômico altamente existente!
Passando diante de uma confeitaria, eu olhava para a comida exposta e, às vezes, elogiava alguma coisa. Eu gostava muito de doces feitos com café; os franceses fazem doces de café de primeiríssima ordem! Se ainda não tínhamos tomado lanche, mamãe entrava para eu comer aquilo que havia admirado. Ela me fazia saborear, mas me fazia compreender a fundo: “Olhe que delícia! Isto é assim, de tal jeito”. Eu ia prestando atenção para sentir o gosto da coisa. E na saída eu pedia: “Posso levar alguns doces?” E sempre podia!
Então, levava um pacotão para o hotel e, lá, comedoria.

Desse modo ela me ensinou a ver Versailles, o Louvre, a ver todas essas coisas e a começar a compreendê-las pela admiração intensa que ela tinha por isso tudo.
Diante da dor alheia
Pouco tempo depois de esses primeiros fatos da minha infância terem se passado, arrebentou a Guerra Mundial. Entendi mais ou menos o que era essa guerra, mas tinha a noção da distância enorme que havia entre o Brasil e a Europa. Portanto, era impossível que a guerra chegasse até aqui. Enquanto a Europa passava por todo aquele sofrimento, no Brasil havia a boa vida tranquila e folgada; o Brasil não entraria em guerra, e por isso as pessoas aqui gostavam de celebrar a tranquilidade brasileira. Não só apreciavam isso os brasileiros, mas os estrangeiros oriundos de países que estavam na conflagração e que tinham vindo para o Brasil antes da guerra. Eles tinham pais, irmãos, filhos, netos, metidos na conflagração. Isso lhes interessava, mas, sobretudo, o que eles possuíam era um bem-estar de, pessoalmente, não participar da guerra.
Tudo isso representava o sofrimento, e eu notava que Dona Lucilia tinha, em face desses fatos, uma atitude muito mais pensativa e mais séria do que as outras pessoas. Estas comentavam, como ela, as notícias que os jornais publicavam, por vezes com sensacionalismo que impressionava muito o público, é natural.
Por exemplo, acabava o almoço de domingo, todos se espalhavam pela sala de jantar e começavam a conversar sobre esses assuntos. Lembro-me até hoje de que quando um velho relógio de parede, com um bonito som, marcava duas horas da tarde, havia sempre um espírito mais leviano e superficial que dizia com uma voz que dominava a todos: “Meus caros, agora chegou a vez de nos divertirmos. Você vai para onde? E você? Vamos fazer os nossos programas”. Então, uns iam passear nos arredores da cidade, outros faziam visitas, enfim, essa vida leve dos domingos.
Eu percebia que Dona Lucilia acompanhava, mas que o espírito dela ia para a compaixão por aqueles que tinham sofrido, fazia oração por eles para Nossa Senhora aliviar ou até para evitar esse sofrimento. Mas, sobretudo, fazia a reflexão sobre o grande, o nobre, o magnífico tema da dor. E dentro desse tema, outro ainda mais bonito: o heroísmo, a coragem.
Isso ia formando a alma de um menino…
Paciência com um sobrinho surdo-mudo
Dona Lucilia tinha um sobrinho surdo de nascença, com um temperamento muito difícil. Às vezes, ele ia à casa de minha avó materna, onde morávamos, e começava a brigar com ela. Mamãe ficava olhando aquilo e, quando percebia ter chegado a um certo paroxismo, aproximava-se dele, tranquilizava-o e ia com ele para uma saleta onde o entretinha durante mais de uma hora. Sendo surdo, não graduava bem o volume de sua voz, e soltava algumas palavras aos gritos. Ao cabo de uma hora e tanto, o Tito – era o seu apelido doméstico – saía tranquilo, beijava-a e ia embora.
Isso acontecia quando ele e eu éramos meninos, e até durante nossa viagem a Paris. Os pais do Tito estavam lá com Dona Lucilia. Mamãe demonstrava uma tal paciência com o Tito, sacrificando por vezes os atrativos da viagem, que quando preparava a mala a fim de voltar para São Paulo, encontrou dentro um vestido muito bonito, muito fino, que ela não havia encomendado. Ergueu-o e viu que estava de acordo com o tamanho dela perfeitamente. Ficou intrigada e, mexendo na vestimenta, caiu um cartãozinho, escrito pela mãe do Tito: “À querida Tia Lucilia, mil agradecimentos de Tito”.
Pitos equilibrados
Já contei o que se passava quando, em criança, eu fazia alguma coisa errada. De um jeito ou doutro, ficava esperando a repreensão. Para mim, a sanção suprema da Fräulein era falar com mamãe:

— Ich werde es Mutter sagen!
O que significa: “Eu vou dizer isso à mãe”. Em alemão se diz “à mãe” assim: Mutter.
Eu replicava:
— Mutter sagen? Não! Não quero, porque vai aborrecê-la! Ainda que provisoriamente ela se sinta distante de mim, não quero! Faça o que quiser, mas isso eu não quero!
No entanto, quando a coisa era pesada a Fräulein me acusava e mamãe me mandava chamar. Vinha a criada:
— Sr. Plinio, Dona Lucilia mandou chamá-lo.
Eu já sabia o que era e ia entristecido, mas com a esperança de levar um pito, porque eles me pareciam maravilhosos.
Habitualmente, mamãe permanecia deitada na chaise-longue. Ela passava o braço pela minha cintura – eu era menino, baixinho –, punha-me bem perto dela e me olhava com um olhar penetrante, até o fundo da alma.
Seus olhos eram marrom-escuros, mas nessas horas ficavam pretos. Olhava-me bem firme e dizia:
— Filhão, é verdade que você fez isso?
Eu, atraidíssimo, tinha vontade de dar-lhe um beijo, mas sabia não ser a hora, pois ela não o receberia bem.
E respondia:

— Sim, senhora, eu fiz isso.
— Mas, pense um pouco, não é possível! Veja tal coisa assim…
Dito com tal gravidade, mas com tanto afeto! Finalmente me perguntava:
— Você está arrependido?
Eu invariavelmente estava:
— Estou.
— Está bem. Você promete a mamãe que nunca mais faz isso?
— Prometo, sim senhora!
— Então agora dê um beijo em mamãe.
Aí vinha o ósculo com delícias. E eu pensava: “Ah! Que pito maravilhoso! Que coisa incomparável! Que contato de alma extraordinário!” Ela toda me parecia aveludada nessa ocasião.
Ao ver essa atitude de mamãe, dava-se algo curioso comigo. Eu me comovia profundamente, mas como um homem se comove; não chorava, mas me tocava a alma a fundo. Depois ia brincar ou estudar, coisas que me davam muito menos ânimo do que estar com ela, mas ia e tocava a vida.
Quando me encontrava de novo com ela, era como se não tivesse acontecido nada; ela, contente. E na hora do “boa-noite” ela não repetia a queixa, não voltava à carga. Aquilo estava esquecido.
Era um equilíbrio muito equilibrante, porque ajudava a criança tratada assim a tomar equilíbrio.
Entrada no Colégio
Entrei no Colégio São Luís pelos dez anos de idade.
Ora, aconteceu-me de, por essa época, receber nota 6 em uma disciplina e, inconformado, no boletim escrevi sobre ela um “10”.
Cheguei a minha casa e encontrei mamãe no quarto de toilette dela – era uma espécie de sala de estar que as senhoras tinham antigamente –, sentada numa cadeira de balanço perto da escrivaninha. Lembro-me perfeitamente da cena. Ela, com certeza, havia escrito alguma coisa e estava descansando um pouco.
Entrei e disse-lhe:
— Meu bem, aqui está o meu boletim.
Muito afetuosa, ela o abriu e seus olhos caíram imediatamente naquele empastelado.
Perguntou-me, então:
— O que é isto aqui? O que aconteceu?
— Mamãe, recebi esse boletim e, mesmo debaixo da chuva, eu quis ver quais eram as minhas notas e caiu água sobre ele.
— Mas aqui em cima dessa nota seis o que você escreveu? A letra é sua. Por que você anotou uma coisa em cima daquilo que o padre escreveu? Você quer me explicar isso? Vamos, explique!
Ao saber do fato, mamãe – sempre muito afetiva, mas também firme –, por mais que quisesse minha companhia, me disse:
— Se ficar provado que você não merecia a nota que escreveu, inabilmente, com seu próprio punho no boletim, mandarei você para o Caraça.
Tratava-se de um colégio muito bom de Minas Gerais, com regime de internato, mas cuja fama em São Paulo, por razões que ignoro, era a de uma penitenciária de crianças.
Fiquei horrorizado e ela acrescentou:
— Eu vou passar um ano sem vê-lo, e você também vai passar um ano sem me ver. Sofrerei muito mais do que você, porque eu quero mais bem a você do que você quer a mim. Mas, se é para seu bem, eu o mando para lá. Estando no Caraça, lembre-se de que sua mãe está chorando infeliz porque você está na prisão. Mas você vai para a cadeia.
Entrei numa grande depressão, mas não disse nada a ela. Não pedi perdão – o que era malfeito, pois devia ter pedido. Ela não se aproximou de mim para que eu a beijasse; todos os dias, quando eu chegava do colégio eu a beijava várias vezes, e ela me beijava também. Entendi que eu não podia nem me aproximar, porque era um falsário! Como é que um falsário vai se aproximar de uma senhora digna de tal veneração e pela qual eu tinha tanta ternura? Saí e fiquei muito abatido.
Se não me engano, era um sábado e o Colégio São Luís já estava fechado. Então, papai iria ao colégio somente na segunda-feira. Fiquei esperando, portanto, o resto de sábado, domingo e parte da segunda-feira. Mas eu nem ousei perguntar a meu pai a que horas ele iria; fiquei quieto, colocando-me de lado como uma espécie de bicho doente e repugnante.
Naturalmente, a ideia de ir para o Caraça causava-me horror.
Na segunda-feira, ao chegar a minha casa, perguntei para o copeiro:
— Dr. João Paulo já voltou do São Luís?
Tinha ele uma voz cantante:
— Já, sim, senhor.
— Onde ele está?
— Com Dona Lucilia.
Estavam no apartamento deles, que era um prolongamento da casa. Fui para lá e encontrei os dois conversando, mas não tinham fisionomia carrancuda. Mamãe muito calma me olhou e disse:
— Filhão, venha cá e dê um abraço e um beijo em sua mãe.
Eu corri em direção a ela.
Mamãe continuou:
— Você está inocente. Seu pai foi falar com o padre, o qual mandou chamar o funcionário que passa a limpo as notas. O próprio funcionário reconheceu que a sua nota era dez e por engano ele anotou seis. Agora, você não faça mais essa bobagem de estar alterando notas; isso é muito feio.
E não falou mais em me mandar para o Caraça.
Na saída, ela me disse:
— Então, mais um beijo para mamãe.
Tirei várias vantagens desse fato. Primeira: aprendi a ter temor reverencial a mamãe. É sempre bom ter medo dos superiores. Segunda vantagem: aprendi a querê-la ainda mais, por causa da perfeição moral que eu notava nela. Terceira, a qual vale todas as vantagens da Terra e mais algumas do Céu: começou aí a minha devoção a Nossa Senhora.
As notas de comportamento
Pode dar-se o caso – e desconfio que hoje seja bem mais frequente do que outrora – de uma mãe perder a paciência com o filho sem ser justa, porque está nervosa, irritada, os negócios não vão bem, ou simplesmente porque ela não controla os nervos, se zanga fora de hora, depois agrada fora de hora etc. Ela não é justa na hora que pune nem na hora que premia.
Dona Lucilia foi um modelo no sentido contrário. Em todas as ocasiões de punir, ela punia mesmo; em todas as horas de premiar, premiava mesmo. Ela levava as coisas até os últimos pormenores.
Por exemplo, ela prestava muita atenção nas notas que eu tinha no colégio. Naquele tempo, o Colégio São Luís, dos padres jesuítas, era o melhor de São Paulo.

Todos os meses, entregavam um boletim para cada aluno com as notas do aproveitamento do estudo e do comportamento em cada matéria. Eu mostrava o boletim a mamãe, ela o abria e, às vezes, para evitar que me esquecesse, dizia: “Olha, vou ver antes a nota do comportamento. Porque na nota do comportamento você é o responsável. Se for bom o comportamento, você merece um prêmio; se for mau, você é culpado, porque depende de você”.
Depois ela acrescentava para me estimular: “A nota do aproveitamento já não é tanto assim, porque eu não sei se tive um filho burro ou inteligente. Ainda não está demonstrado. E se você é burro, não tem culpa. Aparece aí a nota baixa, fico vendo que o Plinio é burro. Mas não vou punir um filho porque é burro, pois não puniria um filho porque é doente, por exemplo. Simplesmente constato: meu filho é um burro”.
Mamãe olhava a nota do comportamento e, em geral, sempre foi bem boa: nove ou dez. Ela tolerava nove em uma matéria ou duas, não mais do que isso. Porque receber nove em algumas matérias queria dizer que estava decaindo no comportamento, portanto no caráter, e era preciso ver qual a razão dessa decadência.
No fim do ano, os padres distribuíam um prêmio destinado a poucos alunos. Então, para cada matéria havia uma medalha de ouro e outra de prata, correspondentes ao primeiro e segundo lugar em cada disciplina.
E uma vez eu recebi quatro medalhas. Era reputado um belo total no Colégio São Luís. E eles prendiam as medalhas no peito do aluno. Mamãe ia sempre às festas de distribuição de prêmios a fim de prestigiá-las e para eu compreender que precisava dar duro mesmo.
Mas nesse ano ela não foi. Quando cheguei a casa, mamãe estava me esperando. Toquei a campainha, ela foi correndo à porta e me vendo com as quatro medalhas me abraçou e beijou muito. Mas eram quatro medalhas de prata, não de ouro; não sei se ela percebeu bem isso. Eu não disse nada e vi que ela estava muito contente.
Também no ano seguinte ela não pôde ir à festa, pois sofria muito do fígado. Quando cheguei a casa, toquei a campainha, ela logo atendeu a porta e perguntou:
— Então, filhão, como foi?
Eu estava com três medalhas. Ela olhou e disse:
— Três medalhas só?!
— Mãezinha, uma é de ouro…
Então ela me abraçou e beijou muito. Conto isso para notarem como ela olhava para as menores coisas
Reação de bondade ao saber o resultado de uma prova de aritmética
Algo dessa bondade dos antigos tempos ainda me foi dado conhecer vendo-a praticada a meu favor. Lembro-me de um fato característico nesse sentido.
Quando eu era ainda menino, meus tios, irmãos e irmãs de mamãe, interessavam-se pela educação dos filhos dela, assim como ela pela dos sobrinhos. Um cuidado oriundo da ideia de que todos eram parentes estreitamente unidos e deviam uns aos outros essa preocupação afetiva, carinhosa, pelo futuro dos membros mais novos da família.
E, naquela época, por volta de 1920, no fim do ano todos os alunos de colégios particulares tinham de prestar exame num estabelecimento do governo para efeitos de controle de qualidade de ensino. Eu, juntamente com um primo, fui fazer prova de aritmética, para a qual estudara com razoável empenho. Mas, talvez por muita ansiedade de minha parte, nervosismo de estudante, não me saí bem. Os cálculos não batiam, e desisti de prolongar aquela aflição. Fui o primeiro a entregar o exame aos professores e me retirei da sala.
Dirigi-me ao Jardim da Luz, próximo ao local, e ali fiquei passeando, à espera de meu primo.
Quando este veio me encontrar, perguntei-lhe:
— Então, qual foi a reação dos professores ao corrigirem a minha prova?
— Olha, parece-me que sua situação não é das melhores.
Na minha vã ilusão, posto que eu sabia ter errado quase tudo, ainda tinha esperanças de um resultado favorável.
Insisti, e ele me disse:
— Pela fisionomia dos examinadores ao correrem os olhos pela sua prova, não creio que você deva esperar um bom resultado.
De fato, quando fui ver a nota que havia recebido, estava bem abaixo da média. Ou seja, tinha sido reprovado. Agora entra o aspecto compaixão daquele tempo. Meu primo e eu voltamos para nossas respectivas casas, a dele era mais perto e, portanto, chegou antes de mim. Quando se encontrou com seu pai, irmão de mamãe, terá comentado o meu fracasso no exame.
Ora, precisamente naqueles dias mamãe se achava muito mal de saúde. Então meu tio, preocupado com a repercussão que a notícia de minha nota poderia provocar no já debilitado estado físico dela, dirigiu-se imediatamente ao ginásio e pediu que fosse atendido pelos professores. Estes o receberam com muita gentileza, e ele se explicou:
— Vim para verificar o exame de um sobrinho. Sei que não está bom, mas afinal de contas eu gostaria de lhes dizer que a mãe dele é minha irmã, e está num estado de saúde muito delicado. Se ela souber que seu filho teve uma nota ruim, pode piorar ainda mais, e eu quero evitar que isso aconteça.
Eles foram muito atenciosos, procuraram minha prova no meio das outras, e a mostraram para meu tio:
— Compreendemos a situação, mas lamentamos: veja o senhor mesmo, e se pergunte se poderia dar outra nota senão a que demos.
Meu tio leu e viu que realmente não cabia outra avaliação. A nota dos professores tinha sido justa. Agradeceu a atenção que lhe dispensaram e saiu de lá em direção à minha casa, onde ele mesmo deu a notícia a Dona Lucilia.
Qual foi a atitude de mamãe? Sem dúvida aquela nota representou uma má surpresa para ela, pois não podia esperar um resultado tão desfavorável. Eu, por minha vez, receava um pito, uma censura mais veemente, levantando a hipótese de me mandar para o internato do Colégio Caraça, como ela já havia feito anteriormente, por ocasião de uma nota que eu modifiquei no meu boletim.
Mas mamãe percebeu que aquele mau resultado se devia mais a um nervosismo de minha parte do que a qualquer outro fator. Ela me tinha visto estudar muito, sabia de minha boa vontade e a aplicação que eu deitara para me sair bem nas provas. Em virtude disso, a atitude dela foi inteiramente diferente daquela tomada quando alterei a nota baixa que me haviam dado no Colégio São Luís.

Para meu espanto, mamãe fez um comentário superficial, e em seguida me disse:
— À tarde, você chama seu primo e vão os dois tomar um sorvete e se distrair um pouco na cidade.
Dias depois era a festa do meu aniversário. Tudo transcorreu normalmente, sem nenhuma “sanção”. O mesmo se verificou no Natal, não havendo qualquer mudança na demonstração do afeto dela para comigo, por exemplo, dando-me presentes de valor menor aos do ano anterior ou coisa semelhante. Nada disso.
No próximo exame, eu passaria com nota bem regular. Ela manifestou seu contentamento, sem me fazer grandes elogios. Tudo terminou em boa paz. Era o carinho à moda brasileira que evitava um castigo, e, dessa forma, só contribuiu para me aproximar ainda mais de mamãe.
A bondade e a compaixão de mamãe eram reflexos da infinita misericórdia do Sagrado Coração de Jesus, e me foram de grande auxílio para compreender essa divina clemência que se debruça sobre cada homem.
Para o bem, tudo, até a vida
O que havia por detrás disso? Era sempre o princípio: para o bem, tudo, até dar a vida; para a bagatela que não tem sentido, nada! Era o sistema pelo qual se formou a minha intransigência.
E, vendo-a querer-me bem daquela maneira, aprendi com ela e nela a querê-la bem do mesmo modo. Isto é verdadeiramente união.
Quando se vê uma qualidade em alguém e se ama de maneira a modelar o espírito de acordo com aquilo, dá-se a união. Porque é ver, admirar, inalar, receber, acolher e modelar-se. Isto é unir-se.
Uma alma de presença agradável
Enfim, a inocência de Dona Lucilia consistia, antes de tudo, na pureza, nas virtudes próprias à boa católica, comuns nas senhoras daquele tempo e que hoje se tornaram raras devido à decadência moral do mundo.
Ela possuía essa inocência em alto grau.
Entretanto, tinha outra forma de inocência que tornava o convívio com ela extraordinariamente agradável e consistia em um desprendimento de si mesma, pelo qual a última coisa em que ela pensava era na vantagem própria, nos seus direitos, no que ela queria ou no que lhe convinha. Ela pensava muito na vantagem dos filhos, mas nas vantagens dela, absolutamente não.
Por exemplo, se uma pessoa quisesse ou lhe pedisse algo, encontrava uma generosidade, um prazer em dar, um contentamento em conceder, que era extraordinário e feito sem pretensão. Não se portava como certas pessoas que, ao fazer algum obséquio, ficam com uma fisionomia e um ar de quem diz: “Olhe aqui, você receba isto e veja que colosso eu sou!”
Mamãe não era assim. Ela dava aquilo que lhe pediam como uma muito boa irmã concederia para outra irmã. E se ela se lembrasse, depois, de que podia dar mais algo que a pessoa não tinha pedido, ela ia atrás e dizia: “Olhe, eu me lembrei de que ainda podia fazer por você tal coisa assim!”, e fazia. Isso tornava toda a presença dela muito agradável.
Devemos desejar encontrar muita gente assim em nossa vida, e, quando encontrarmos, saber reconhecê-las. Em geral, prestamos atenção nas pessoas pelas razões mais fúteis – porque riem ou fazem rir, são inteligentes, mil banalidades –, e não pelo verdadeiro valor que elas têm.
Resultado: habitualmente encontramo-nos em estado de injustiça em relação aos outros. Nós damos valor a quem não tem, e não a quem tem. E é muito bom sabermos procurar os valores onde estão e nos unir a eles, celebrá-los como merecem ser celebrados.
Eu fazia isso às torrentes com mamãe. Quando ela estava numa sala, quer em minha casa ou em outra, a primeira pessoa para mim era ela. Sendo outra residência, naturalmente, ao chegar, eu saudaria primeiro a dona da casa. Entretanto, logo depois me dirigiria à mamãe. E assim a punha em primeiríssimo lugar, com os primeiríssimos agrados, nas primeiríssimas manifestações de consideração, de respeito etc.; o píncaro era ela. Com isso eu tinha também a intenção de fazer justiça a ela.

É recomendável que adquiramos o hábito de fazer o mesmo com as outras pessoas. Aprendamos a apreciar as pessoas isentas de egoísmos que encontremos em torno de nós. Saibamos imitá-las, lavando, assim, as nossas almas da influência da Revolução.
Princípios claros incutidos nos filhos
Como Dona Lucilia concorreu para que eu fosse contrarrevolucionário? Enganar-se-ia quem supusesse que ela fez discursos, explicando que se deve ser combativo e contrarrevolucionário.
Ela realizou uma coisa muito melhor, mais límpida, muito mais clara: pôs em meu cérebro, em primeiro lugar, a convicção de que Deus é o Ser supremo, Criador de todas as coisas e, portanto, merece nosso amor primordialmente. Mais do que à mamãe, eu deveria querer bem a Deus. Isso ela me ensinou muito bem, com o talento que têm as boas mães de falar aos filhos de maneira que estes ouvem a voz delas como ao longo da vida não ouvirão voz nenhuma.
Antes de minha irmã e eu aprendermos a dizer “papai” e “mamãe”, aprendemos a dizer “Jesus”. Minha irmã era um ano e meio mais velha do que eu. Mamãe, estando de vez em quando em seu quarto, arranjando alguma coisa, colocava minha irmã nos braços e, apontando com um dedo para a imagem de Nosso Senhor, de modo que os olhos da criança acompanhassem, dizia-lhe sorrindo afetuosamente, meigamente: “Onde está Jesus? Jesus está ali. Agora repita: Jesus, Jesus”.
Minha irmã, que tinha muita vivacidade, respondia: “Jesus, Jesus”. Depois ela fez a mesma coisa comigo. De maneira que mais tarde, quando chegava a hora, espontaneamente íamos aprendendo a dizer “papai”, “mamãe”, como todas as crianças.
A segunda ideia é que, em relação a Deus, nós temos deveres os quais são mais importantes do que as obrigações para com qualquer pessoa na Terra. Devemos obedecê-Lo antes e acima de tudo, cumprindo os Dez Mandamentos.

Já no meu tempo de criança – nasci em 1908 –, a preocupação principal de um grande número de paulistas era ficar rico. Ficou rico, acertou na vida. Não ficou rico, foi um nulo. Perdeu fortuna, tornou-se pobre, foi um elemento negativo na vida, desprezado por todo mundo.
Mamãe dizia o contrário: “Eu prefiro ter um filho empobrecido, tido em conta de nada, mas que cumpra os Mandamentos da Lei de Deus, do que um filho rico, a quem todo mundo faça cortesias, mas que não pratica os Mandamentos. A primeira obrigação é fazer a vontade de Deus; as outras coisas vêm depois”.
Fazer a vontade de Deus significa conhecer o que Ele ensinou e cumprir exatamente o que Ele mandou. Não se pode relaxar, dizendo: “Dou tal jeitinho”. É preciso, antes de qualquer outra coisa, cumprir inteiramente a vontade de Deus com amor. Mas aprendi com mamãe que as coisas verdadeiramente sérias devem ser feitas até o último ponto do exato.















