Ao atingir a idade madura, Dr. Plinio viu-se obrigado a diminuir gradualmente o convívio com sua extremosa mãe, a fim de levar adiante os trabalhos que lhe exigiam a dedicação à Santa Igreja e a manutenção de sua nascente Obra. O isolamento no qual esteve Dona Lucilia haveria de acrisolar sua devoção ao Sagrado Coração de Jesus e tornar mais sólidas as virtudes em seu espírito.
O isolamento em que mamãe vivia, creio que se deu gradualmente. Tenho uma certa impressão de que, quando menina – e o ambiente todo era muito menos revolucionário do que é hoje –, ela não sentiu esse colapso, esse choque com o ambiente, mas com uma ou outra pessoa dentro do ambiente, e com uma ou outra atitude singular de certos indivíduos. Então, com algumas pessoas, cujo todo não lhe agradava, ela demonstrava boa vontade; era o contrário do que ela achava que deveriam ser. Mas havia também atitudes dissonantes, inesperadas, tomadas por indivíduos a quem ela queria bem e que a chocavam.


E isso dava a ela uma ideia triste desta vida, onde situações assim são possíveis. Depois, com a evolução geral das coisas, o estilo de afetividade dela, que era o estilo em curso, digamos, até a primeira década da República, portanto, até 1900, passou gradualmente a ficar menos em curso.
Martírio da alma
Então ela, que era muito benquista anteriormente, passou a ser menos querida. Embora ela continuasse a querer bem aos outros, passou a ser ignorada até o final da sua vida, ficou completamente posta à margem e enigmática para todo mundo; inclusive para as pessoas contemporâneas dela, que foram adquirindo os novos modos de ser e o novo estilo de afetividade.
Eu mesmo presenciei várias situações por onde ela ia compreendendo que, em face de sua bondade, as pessoas, na sua grande maioria, ficariam indiferentes. Entretanto, ela mantinha sua posição por amor de algo infinitamente mais alto, quer dizer, de Deus Nosso Senhor.
Esse isolamento e essa incompreensão graduais iam dando a ela uma compreensão cada vez maior do que era a vida, o ser humano, a realidade; e determinavam um refugiar-se axiológico no Sagrado Coração de Jesus e em Nossa Senhora, que lhe concediam aquilo que ela não tinha.
Ao longo da vida, ela foi constatando que essa atitude das pessoas não era apenas uma falha, mas que quase se poderia dizer o contrário: que, dentro do homem, a bondade constitui um lapso, ou seja, de vez em quando acontece de ser bom. Mas, se não for fiel à graça, e por razões religiosas, o ser humano é estável e continuamente ruim. Portanto, esta vida, essas criaturas humanas terrenas que ela se preparava para querer tanto, não eram senão o contrário do que ela esperava, das quais recebia apenas decepção e ingratidão. E isso entre os mais próximos!


Compreende-se bem como isso ia maturando a alma dela para fazer o seguinte balanço: “Ou minha vida foi vivida toda para Deus – e então se explica –, ou se não tivesse sido vivida para Ele, teria sido o maior erro que se possa imaginar, porque passei minha existência dando-me, dando-me, dando-me e recebendo dos homens essa retribuição”.
De maneira que houve uma espécie de gradualidade do martírio. Mas martírio ao pé da letra, porque era uma dor sofrida pela fidelidade a uma determinada atitude de alma e, portanto, um exílio branco, que, nem por isso, deixava de ser um exílio muito real, progressivo, injusto, sem motivo e caminhando cada vez mais para a incompreensão total. E ela sempre fiel à sua posição. Isso caracteriza bem o martírio da alma.
Ela teve também muitos desgostos na vida íntima. Mas eu a via sofrer com uma resignação, uma dignidade, uma serenidade, uma força e uma doçura extraordinárias! Nos maiores sofrimentos físicos e morais pelos quais a vi passar, era sempre a mesma atitude. Nos padecimentos morais, diante de algo que acontecia e a fazia sofrer profundamente, a atitude dela era o silêncio, um pouco de recolhimento, normalidade, afabilidade, bondade, humildade: Deus quis, Deus fez, Deus seja bendito!
Desejo de ter sempre a presença de seu filho
Quando meus pais eram vivos, todos os dias eu almoçava com eles e, terminada a refeição, saía correndo para o trabalho. Eles estavam tão habituados a isso que nem prestavam atenção se eu tinha saído ou não, pois tinham como certo que, tendo acabado de almoçar, já estava fora de casa. Mas, um dia, talvez por ter esquecido algo em casa, voltei e encontrei esta cena: os dois numa sala de estar; meu pai sentado e minha mãe, de pé, dizia para ele:
— Mas você acha mesmo que esse menu está bom? O Plinio gostará de comer esses pratos? Ou será melhor fazer outra coisa?
Meu pai, que estava com sono e com vontade de fazer a sesta, respondeu:
— Oh, senhora! Faça com ele o que eu faria. Se eu tivesse que organizar o menu, diria: “Rapaz, para o jantar tem isto. Se você quiser, coma; se não quiser, vá comer fora!”
Ora, era precisamente o que mamãe não queria. Seu desejo era que eu jantasse com ela. Ela não disse nada, mas notei que ficou desapontada, porque queria uma ajuda que ele não deu. De fato, ele não podia ajudar, pois essas são coisas que uma dona de casa pensa e um homem não. Ela ficou assim quietinha e depois saiu da sala. Retirei-me de maneira a não perceberem que eu tinha presenciado a cena. Mas saí pensando: “Bem se vê que pai é pai, mas mãe é mãe!”
Preparativos para a festa de aniversário
Mamãe comemorava muito mais o meu aniversário do que eu o dela, de maneira que o meu era mais festivo: havia no almoço e no jantar um menu redobrado.
Os preparativos começavam com uma semana de antecedência – enquanto eu, numa vida muito atrapalhada, estava pensando em tudo, menos no meu aniversário. Em geral, ela me avisava durante uma refeição:
— Filhão, vai haver seu aniversário no dia 13, que está chegando.
Eu caía das nuvens:
— É verdade, tem meu aniversário.
Ela então me perguntava:
— O que você quer neste ano para o lanche de seu aniversário?
Eu escolhia o que fosse mais cômodo para ela fazer, pois sabia ser de seu agrado preparar pessoalmente essa refeição. À medida que ela foi ficando mais idosa, a cozinheira começou a fazer quase tudo, mas ela é quem dava o tempero.
Na realidade, para mim, a festa de aniversário não representava nada além de uma ocasião para agradecer a Nossa Senhora os favores que me havia concedido. Mas, dar a mamãe a alegria de fazer a festa, era a razão de minha festa. Aliás, com todos os homens é assim: quando se tem mãe, a festa é mais para ela do que para o filho. No fundo, a festa de meu aniversário era uma festa para ela, a meu propósito.
Mamãe concordava com minhas propostas e fazia indiretamente umas contrapropostas:
— Você não preferia tal coisa ou tal outra?
Em geral, era algo que ela sentia estar mais na proporção de suas forças.
Eu concordava:
— Muito boa ideia! Façamos assim.
Evidentemente, eu tomava cuidado para que ela não pensasse ser uma resposta convencional. Às vezes eu fingia certa perplexidade e dizia:
— Vamos pensar… É verdade, a senhora tem razão, é uma boa ideia.
Desse modo ela ficava inteiramente satisfeita, estava atendida bem como ela queria.
Começavam, então, os preparativos.

No jantar de meu aniversário ela sempre mandava me servirem um pombinho, em recordação de nossa estadia no hotel de uma estação de curas na Alemanha, numa cidade chamada Wiesbaden.
Num almoço nesse hotel, serviram pombinhos e eu – sempre muito interessado em assuntos gastronômicos – comi vários deles, tendo manifestado uma alegria enorme. Nos dias subsequentes, quando o garçom entrava, eu já ficava esperando de longe, para ver se apareciam os pombinhos e, quando, de fato, vinham, eu dizia em voz alta:
— Mamãe, mamãe, olhe lá! Pombinhos!
Ela fazia sinal indicando que eu não devia proceder assim na sala de jantar de um hotel tão solene – basta dizer que, no fundo do salão, havia uma mesa reservada para o Kaiser e as pessoas de sua corte…
Nas comemorações de aniversário, era tradição entregar os presentes depois do jantar. Apareciam, então, alguns parentes e uns dois ou três amigos que costumavam frequentar minha casa. E, por volta de meia-noite, meia-noite e meia, mamãe oferecia um lanche com bolo de aniversário para todos os convidados.
Dona Lucilia estava com a audição muito diminuída, de maneira que, durante muitos anos, ela ficava um pouco à margem da reunião. Mas prestava muita atenção no serviço, verificando se todos estavam bem atendidos, se tinham comido bastante, pois era o papel da dona-de-casa.
Quando eu obtive para ela um aparelho de audição, começou uma espécie de vida nova. Muito expansiva, Dona Lucilia voltou a tomar parte nas conversas e, então, as festas começaram a significar, novamente, muito mais para ela.

Essa era a nossa despretensiosa vida comum, mas que, para mim, era um tesouro com valores sem nome! Assim foi até o último dia 13 de dezembro, antes da sua morte. Depois tudo isso cessou. A morte de mamãe acabou com os “13 de dezembro” em minha casa, e as festas domésticas terminaram.
Amoldando-se ao temperamento de todos
Dona Lucilia causava a impressão de ser uma pessoa de temperamento tão irisado, que, bem se poderia dizer, as cores variavam conforme a posição. Cada impressão vivida, cada acontecimento, cada circunstância, determinavam a manifestação de seu espírito de forma singular, como uma opala na qual incide um raio solar fazendo com que se desprenda um colorido não muito diferente, mas discretamente irisado.
Nela conjugavam-se firmeza e doçura, sem que alterasse em algo o seu modo de ser, pois ela possuía uma flexibilidade de alma por onde adequava admiravelmente o trato a cada pessoa com quem se relacionava, sabendo apanhar os lados razoáveis, dignos de estímulo e de respeito, não deixando, nem por isso, de compreender perfeitamente os lados débeis. Mas a forma de tratar os lados débeis, participava da veneração que ela possuía aos aspectos que admirava, e, no momento de admirar, causava a impressão de esquecer-se por completo da debilidade.
Esse modo de ser se exemplificava no trato dela para com sua mãe, Dona Gabriela, personagem de ampla envergadura para aquele tempo. Era uma senhora que, ao fim da vida, tocava nas debilidades da idade, pois era quase nonagenária. A forma de Dona Lucilia a auxiliar nas mínimas coisas, como apanhar um lenço que caíra no chão e trocá-lo, era feita com uma solicitude e uma alegria como quem se deleitasse em praticar aquela atitude, que encantava presenciar tal cena. Quando Dona Gabriela tomava alguma atitude em que se fazia notar imponência, dignidade ou firmeza de autoridade, Dona Lucilia assumia uma posição de vigilância para ver se também os outros tinham feito como sua mãe desejava, não como quem cobrasse, mas esperando a participação na mesma admiração e, portanto, na mesma docilidade.
Mas, concluído o trato com Dona Gabriela, caso ela fosse chamada para tratar com uma criança da família que vinha, por exemplo, lhe trazer uma flor, Dona Lucilia era capaz de penetrar na admiração que a criança tinha pela flor, cuidando dela como a criança gostaria que ela cuidasse, levando a sério os lados que a criança levava e, ao mesmo tempo, proporcionando ao pequeno uma sensação de solicitude e proteção, por onde ele se sentisse completamente penetrado e envolvido. E, se nesse momento, fosse necessário ministrar um remédio a um parente que adoecera, ela o fazia com perfeição, entrando também nas dores do convalescente.
Era um modo de ser embevecedor, mas nem sempre admirado inteiramente, sem que jamais ela tenha denotado amargura por não se sentir retribuída.
Serenidade na morte de Dona Gabriela
A casa em que morávamos era dessas residências de antigamente, térreas e enormes. E a distância entre o quarto de dormir de Da. Gabriela e o de mamãe era grande. Minha avó tinha uma espécie de governanta de casa muito boa, dedicada, correta, que dormia ao seu lado. De maneira que qualquer coisa que minha avó quisesse, essa mulher atendia. Ela estava inteiramente bem atendida.

Minha mãe mandou puxar um cordão elétrico, com campainha, da cama de minha avó até a cama dela; porque a mãe dela estava velha e, em caso de urgência, podia levar certo tempo de a tal governanta chegar até o quarto de mamãe, e ela queria, tocando a campainha, ir correndo atender minha avó.
Quando a sua mãe morreu, fizeram-se as exéquias e compareceu muita gente. Cumprimenta um, recebe abraço de outro, perde-se um pouquinho a noção das coisas. Em certo momento, me lembrei: mamãe, onde estará? Comecei a procurá-la e não a vi. Com certeza, pensei, ela se sentiu muito abalada e foi para o seu quarto, e é possível que esteja com alguma indisposição. Fui ao quarto dela para ver. Ela estava deitada, em atitude inteiramente serena, com uma fisionomia muito triste, a posição composta e pensando.
É a tal coisa: o vagalhão não alcança! Nunca eu vi vagalhão algum atingi-la. Em duas vezes, porém, quase a alcançou…
Plinio cai do cavalo
Certa ocasião, sentia-me muito cansado e um amigo ofereceu-me de irmos à fazenda dele, em Botucatu, para descansarmos um pouco. Chegando lá, resolvemos, como todos os rapazes fazem, andar a cavalo.
Mas o caipira que preparou os animais apertou mal a barrigueira do meu cavalo. Eu não percebi, montei e, antes mesmo de sairmos, fiz um movimento meio brusco, virei e tomei uma queda muito forte; bati com a espinha numa pedra e passei dois ou três meses andando de bengala.
Não dei maior importância à coisa. Voltei a São Paulo e mamãe também não se preocupou com o fato.
Certa noite, meu amigo veio à minha casa e disse a Dona Lucilia: “Olha, estive com meu tio – era um dos melhores clínicos de São Paulo naquele tempo – e ele mandou dizer à senhora que vale a pena mandar tirar uma radiografia da espinha do Plinio, porque, às vezes, não há sinal de perda de mobilidade das pernas; mas, quando ele tiver 40, 50 anos, se manifesta uma lesão que pode ser muito ruim. Era melhor tirar uma radiografia”.
Ela ficou muito alarmada.
Resolvemos, no dia seguinte, ir a um hospital, no qual havia um parque enorme, chamado Instituto Paulista. Mamãe quis ir junto. Fomos ela, meu amigo e eu; andamos por todo aquele jardim etc., e eu me apoiando na bengala. Depois eu quis ir à capela desse instituto, onde tinha recebido uma graça e uma consolação colossal anos atrás, e fui rezar lá. Eu nem estava pensando no negócio da espinha…


Quando afinal voltei, encontrei mamãe sentada num local perto da sala das radiografias, rezando o rosário durante todo o tempo e com os olhos úmidos de lágrimas. Eu disse: “Mas mãezinha, o que é isso?” Ela continuou a rezar e não respondeu. Continuei:
— Mas me explique um pouco…
— Eu estou muito apreensiva – afirmou ela.
— Mas, por que a senhora está apreensiva?
— Conforme for o resultado, você verá.
Daí a algum tempo, veio o médico, que era conhecido nosso, com a radiografia, e disse a ela:
— Não tem nada.
Ela perguntou:
— Mas, Doutor, o senhor garante que não tem nada mesmo?
Ele a tranquilizou:
— Dona Lucilia, a senhora não vai entender, mas posso mostrar um pouco nesta radiografia que está tudo perfeito.
Notei que ela teve um desafogo.
Dia da formatura na Faculdade do Largo São Francisco
Outro momento no qual ela passou por grande aflição foi quando cheguei quase atrasado à minha formatura na Faculdade de Direito. Aí ela fez um drama comigo que nunca fizera em outra ocasião. Chamou-me para irmos ao quarto dela, que era longe, no outro lado da casa. Entramos, era dia de formatura e pensei que ela fosse me dizer alguma coisa agradável; ela passou a chave na porta, coisa que nunca havia feito, e pôs-se de joelhos diante de mim.
Eu disse:
— Mas, mãezinha, o que é isso?!
Ela respondeu:
— Você não sabe o que eu sofri durante esse tempo, e você vai me prometer que nunca mais repetirá isso.

Então percebi o que era. Dei risada, ajudei-a a levantar-se.
Ela afirmou:
— Não, você não está tomando a sério o que estou dizendo, e a coisa é seríssima.
— Está bem, eu prometo tudo o que a senhora quiser…
Passamos, então, à sala onde estavam as outras pessoas. Foram as duas vezes que a vi assim.
Filial preocupação com Dona Lucilia
Lembro-me de como foi o dia da inauguração da Constituinte. Com um mês de antecedência, anunciaram que os deputados eleitos da Chapa Única por São Paulo Unido iriam juntos para o Rio de Janeiro a fim de começarem a exercer o mandato. Naquele tempo, as cerimônias se realizavam com muito mais solenidade do que hoje. Eu queria absolutamente que mamãe assistisse à minha posse. As razões são evidentes: a ocasião e porque eu a “transqueria” e, portanto, achava que ela tinha que ir.
Convidei minha irmã e também meu pai; eu mesmo paguei as despesas dele, porque ele se encontrava em condições econômicas péssimas. Ora, eu me perguntava qual seria a posição de Dona Lucilia com a situação e julguei que ela poderia tomar duas atitudes eventuais: uma, seria levar em consideração que eu tinha sido eleito deputado católico sem nenhum compromisso com a República e que, não sendo oficialmente monarquista, iria desempenhar uma missão sacralizante em oposição ao laicismo republicano.
Mas, poderia ser que ela tomasse a coisa do lado oposto, julgando que assistiríamos apenas a uma função da República: a inauguração de uma Constituinte. No entanto, eu não levantei nenhum problema com ela, apenas perguntei se ela, minha irmã e meu pai queriam ir. Ela aceitou com a maior naturalidade. Assim começaram os preparativos para a viagem.

No dia da inauguração da Constituinte, fomos de automóvel, os quatro juntos, ao Palácio Tiradentes, Sede do Congresso Nacional. Para os gostos do tempo, não era um palácio bonito, mas era luxuoso, com ar imponente. Entramos na Câmara, minha mãe, meu pai, minha irmã e eu.
Logo me preocupei se tinham arranjado um lugar conveniente para minha mãe; talvez tivesse havido uma dificuldade, ela não estivesse tão bem instalada quanto eu desejaria. Nessas ocasiões, há aventureiros e gente de toda ordem que, de vez em quando, força uma pessoa a entregar o lugar, e ela não era de brigas. Queria ver se ela estava sentada, porque, conforme fosse, eu subiria lá e me desdobraria com toda espécie de cuidados e preocupações.
Eram três tribunas e custei um pouco para encontrá-la. Pus-me de costas para o gabinete da presidência, procurando-a na tribuna da frente. Devido à distância, não enxergava bem; saí do meu lugar, fui andando pelo corredor central dos bancos, no sulco que dividia as cadeiras em dois blocos, buscando-a com o olhar. Quando cheguei perto, eu a vi bem e percebi que estava rindo, contentíssima! Muito afetuosamente, ela tomou um lencinho e me fez um sinal, querendo dizer que não me incomodasse, porque estava bem instalada. Ao lado dela, encontrava-se minha irmã, que fazia o mesmo gesto. Eu as saudei e voltei para minha cadeira.

Maior foi a alegria do afeto do que a de vê-lo deputado
À noite, cheguei ao hotel para jantar. Mamãe, que sofria muito do fígado, tinha deixado aviso na recepção de que não jantaria na sala de jantar embaixo, porque estava um pouco indisposta. Em geral, eram pequenas indisposições, não me preocupei. Fui ao meu quarto, tirei o fraque com o qual estava e troquei de roupa, colocando uma mais escura, adequada para o jantar. Mandamos subir a refeição para ela, que jantou sozinha.
Terminado o jantar, minha irmã e meu pai ficaram no salão conversando com conhecidos, e eu subi até o quarto de minha mãe, para ver como ela estava. Cheguei e encontrei-a de chambre, na posição em que eu queria que ela estivesse: numa cadeira muito cômoda que havia no quarto e que ela tinha mandado o copeiro deixar bem em frente a um janelão.

O céu estava límpido, a Lua dourada – há ocasiões em que, no Rio, a Lua fica assim – que se refletia sobre o mar do Flamengo de um modo lindíssimo. Havia umas palmeiras colocadas como que de propósito e que aumentavam a beleza do panorama. Mamãe estava sentada olhando para aquilo muito atentamente, absorta no cenário. Ela era muito sensível a bonitos panoramas e coisas do gênero.
Não havia cadeira perto dela, então eu me ajoelhei junto a ela que, naquela época, já estava com problema de audição; agradei-a e comecei a conversar um pouquinho, perguntei se estava contente, gostando da viagem; comentamos um pouco a Lua, porque estava dos luares mais bonitos que há, era uma noite linda! E, em certo momento, fiz algum gracejo ligeiro, ao que ela me disse, como gracejando também:

— Meu filho, você está gracejando comigo, mas deixemos o gracejo e falemos de uma coisa séria: você não tem ideia do contentamento que deu à sua mãe hoje. Você me fez uma que eu não esquecerei até a hora da morte.
Eu fiquei um pouco surpreso. Perguntei:
— Mas, por quê, meu bem?
— Eu estou contemplando o panorama, mas, de fato, estou pensando em você e lembrando-me de sua fisionomia: no momento que era tão absorvente para você estrear sua vida política, situação que lhe impunha deitar a atenção em tudo quanto se estava passando ao seu redor, você, entretanto, se preocupou sobremaneira em arranjar-me um lugar tão bom; e ainda, lá debaixo, lembrar-se de sua mãe, voltando as costas para a Constituinte, deixando seu lugar à minha procura, para saber se eu estava de fato bem instalada. Eu tive uma tal impressão de desvelo e de afeto com os quais me procurava, que me valeu mais do que a alegria de vê-lo deputado. Nunca me esquecerei disso! Isso foi uma coisa que me fez tanto bem, que até agora eu vejo sua fisionomia me dizendo adeus, e o seu olhar era a mesma coisa que um beijo.
Eu fiquei meio pasmo, porque eu estava disposto a fazer tanto mais… Era um pequeno gesto banal e comum, que nem me ocorreu de achá-lo extraordinário. No entanto, ela estava encantada. Eu pensei em dizer: “Mamãe, perto do bem que eu lhe quero, é tão pequena coisa que é uma bagatela, uma ninharia. A senhora pense nisso com muito mais profundidade, aí a senhora encontrará a fórmula de benquerença”. Mas eu não disse o que pensei, as palavras me faltaram. Eu a agradei. Depois desci para falar um pouco com as pessoas.
Eu não posso me esquecer desse pequeno dito dela, que marca muito a atenção que ela possuía, mas também marca muito a tabela de valores das coisas, porque esse é o ânimo materno: ela resolveu valorizar uma coisinha pequena.
Durante todo esse tempo, ao longo da conversa, o problema “República” nem passou pela mente dela. Ela só fixou o olhar no lado religioso da missão, com a qual ela estava “ultra”, “arqui” de acordo e mais nada. Para grande número de senhoras, o mais importante seria que o filho fosse deputado. Carinho ou não carinho… pondo carinho é melhor, mas não pondo também iria bem, desde que fosse um deputado muito votado, com muito prestígio. Isso é que seria o importante para contar junto às amigas e orgulhar-se. Mas a tabela de valores dela era inteiramente diferente.
Despojamento de tudo, até de seu filho
Ao longo dos anos, eu a via progredir na dor, no isolamento, numa espécie de despojamento de tudo, ponto por ponto, até o mais crucial, o mais interno e o mais doloroso. Nunca comentei com ela, mas creio que mamãe percebia meu afeto tanto quanto possível crescente, minha solicitude que se desdobrava, minha vontade de agradá-la de todos os modos, como mais não saberia fazer.
Pequenas circunstâncias fortuitas levaram a que, em determinado momento, mesmo a meu respeito, ela tivesse algumas provações. Por exemplo, eu percebia que ela experimentava uma certa dificuldade em compreender a razão pela qual eu dedicava tanto tempo ao nosso Movimento, deixando-a sozinha. O que eu, no meio de mil carinhos, fazia inexoravelmente, por saber ser a minha obrigação.
Em certa ocasião, quando nos encontramos fortuitamente num corredor de nosso apartamento – estávamos os dois a sós em casa –, ela parou e me fez um agrado, algo assim. Depois me olhou e, tendo-me nos braços, disse: “Meu filho, eu só tenho você no mundo, mas a você eu tenho inteiro!” Aí foi a minha vez de olhar para ela, como ela olhara para mim.
Tais palavras me ficaram no espírito para sempre. Tendo ela dito isso, eu nada respondi, pois não existem palavras capazes de exprimir os próprios sentimentos em situações como essa. Eu só a beijei e abracei, como sempre fiz. Mas posso tranquilamente dizer que ela me tinha mesmo, e por inteiro!
Vê-se que, depois, a Providência começou a exigir dela, até disso, um certo desapego: “Não pense em mais nada, nem em ninguém. Pense só em Deus”.
Daí a calma que vemos em certas fotografias dela já bem idosa. É uma pessoa que viveu sua vida e tem a sensação de que os vagalhões todos vieram, mas não penetraram nem desarranjaram em nada esse tabernáculo interior, e que, portanto, a vida estava feita. Alguma coisa que nessa idade ainda viesse não era mais nada. Ela estava se preparando para o Céu.
Serenidade e desapego ante a perspectiva da morte
Quando ela fez talvez uns oitenta anos, notei que algo no seu modo carinhoso de me tratar estava mudando um pouco. Até então, desde pequeno, ela me tratara como a pessoa a quem mais queria bem na família, a ponto de os familiares brincarem com ela de todos os modos, dizendo ser isso excessivo. Ela não se incomodava e continuava do mesmo jeito.
De repente, isso diminuiu. Depois eu soube, por um dito dela, que ela estava reduzindo as manifestações de afeto porque percebia estar já muito idosa e a morte estar se aproximando, e eu sentiria demais a sua falta se esse afeto mútuo fosse tão grande. Ela preferia que isso declinasse um tanto, para que a ausência que eu sentisse dela fosse menor.
Não sei se chego a exprimir bem todo o desapego que ia, a ponto de me deixar pensar que ela estava esfriada no afeto para comigo. É um requinte difícil de imaginar!
Ela possuía uma gaveta na mesa de toilette dela, onde guardava papéis. Algum tempo antes de morrer, vi que ela andava remexendo aquilo e rasgando muitos papéis. Uns dias depois de sua morte, fomos verificar o que havia na gaveta, e vimos que ela guardou o essencial; e que fizera aquilo para não termos trabalho com os papéis dela, quando tivesse morrido. Observei, então, que ela mandou jogar fora coisas que eu teria gostado enormemente de conservar. Mamãe fazia as contas da casa – era uma empresa que fornecia aos fregueses uma espécie de notas, formando um caderno com todos os dias do ano –, e escrevia, a cada dia, as despesas. Tudo isso ela jogou fora, pela preocupação de não dar trabalho a ninguém. Vemos, assim, a serenidade no transpor a morte, com a tendência ainda de dar, com isso, uma prova de amor e receber uma prova de amor, que era o carinho dela até onde chegava. Mas na calma, vivendo a existência de todos os dias.
De maneira que, quando ela adoeceu, foi uma coisa completamente inopinada. Ao cabo de dois, três dias, estava morta.
“Senti a imensidade que nos separava…”
A cena que mais me emocionou na vida foi o encontro com minha mãe, que Deus acabava de chamar a Si. Mamãe faleceu bem idosa, com 92 anos, mas não tive a felicidade de assistir à sua morte. A noite anterior ao seu falecimento, ela passara com problemas cardíacos muito acentuados. Eu estava em meu quarto – que ficava a um passo do dela – lendo o jornal, com a intenção de logo que me levantasse ir vê-la. De repente, entraram no meu quarto e disseram-me, da parte do médico que a estava assistindo, que, se eu quisesse encontrá-la com vida, fosse depressa, pois ela estava em seus últimos momentos.
Por causa de implicações da diabete, eu tinha sofrido uma amputação no pé e o ferimento ainda não estava cicatrizado. Como não tinha muletas nem cadeira de rodas, mandei vir duas vassouras e, apoiando-me nelas, dirigi-me o mais rapidamente possível ao quarto de mamãe.
Quando entrei, o médico me disse: “Ela já morreu!”
Ela já não estava lá. Não a alcancei! E senti a imensidade que nos separava. Deus e Nossa Senhora nos uniam, e isto bastava. No entanto… quando entrei no quarto e vi seu corpo já sem vida, senti que aquelas mãos, que tanto me haviam abençoado e acariciado, não me acariciariam mais; aqueles lábios, que tantas coisas me haviam ensinado, não me ensinariam mais; aqueles lábios, enfim, que tanto haviam orado por mim, não se moveriam mais…
Senti então, naquele momento, passar-se algo comigo que me sacudia de modo profundo e por inteiro, como se eu fosse uma corda que arrebentasse, e algo, que era quase eu mesmo, separar-se categórica e drasticamente de mim. Nunca, nunca em minha vida tivera uma emoção igual ou comparável àquela.
Na véspera, havia passado o dia inteiro junto de mamãe, no quarto, não saindo, a bem dizer, para nada. Eu sabia que ela estava prestes a morrer, e a razão de eu permanecer ali era a consciência plena desse fato. Mas – fato singular – aquele drama da morte só se pôs, para mim, no instante em que ela expirou e senti a ausência do seu carinho… muito mais do que isso, a própria ausência dela. E, então, chorei copiosamente…
O médico contou-me como havia sido aquele momento extremo: Dona Lucilia estava com a respiração curta, mas tão serena que não se podia prever que morresse naquele momento. De repente, fez o Nome do Padre muito grande e morreu. Sempre com a mesma paz, a mesma serenidade, a mesma humildade. É a calma e a glória no Céu, no plano natural e no sobrenatural.
“Éramos um”
Tenho saudades dela, no sentido de que eu gostaria imensamente de osculá-la, de conversar com ela, imensissimamente, mas na minha alma é como se ela estivesse viva. Não é que eu converse com ela, mas aquela sensação da presença, da convivência, eu tenho com ela; e não sensação de ausência que eu teria, quando mamãe vivia, por exemplo, estando eu na Europa. E considerem que ela está no Céu e eu aqui na Terra!
Sobretudo nos últimos anos da vida de mamãe, não era a conversa, mas a presença, uma coisa que eu não sei explicar, e isso para mim continua como se ela estivesse viva.
E considero o xale lilás guardado nessa caixa, lembrando-me da fisionomia prateada e lilás da senhora que o portava, e sinto-me ainda mais emocionado. Não posso me esquecer das conversas de mamãe comigo, em horas sempre noturnas, ela recostada em sua cama e eu sentado junto a seus pés. Nessas ocasiões, era-me dado notar nos horizontes do seu olhar, nos imponderáveis da voz, no trato de um carinho, uma delicadeza e uma elevação requintadas, que havia no espírito dela muito mais do que suas palavras exprimiam.
Percebia que ela possuía, por assim dizer, dois horizontes e duas vidas. Um, o horizonte da vida quotidiana de uma dona-de-casa, inteiramente imbricada no seu meio. A maior parte dos que conviveram com ela nesse ambiente nunca suspeitaram que houvesse um outro panorama, uma outra vida. Nesta, ela meditava em subidas verdades, com as quais a fé desdobrava os seus véus de ouro completamente. A devoção ao Sagrado Coração de Jesus, a Nossa Senhora, abriam-lhe toda uma série de firmamentos, concepções e patamares de alma.
Nós dois nos achávamos tão envolvidos naquele contexto espiritual, os fios de linha daquele tecido eram de tal maneira trançados, que nunca trocamos palavra um com o outro sobre esse ponto. Conversávamos pelo olhar. Ela me apoiava e, a partir de um certo momento, eu passei a estimulá-la nessa disposição de alma mais elevada. As nossas conversas, quando eram a sós e à noite, poderiam ser comparadas ao voo de dois pássaros que, nem de longe, chegariam até o Sol, mas se deleitavam em ver que os raios do astro soberano batiam sobre suas asas.
Sem abandonarmos esse imbricamento, nos entendíamos, falávamos a linguagem do imponderável, do inefável. Em seguida, nos despedíamos afetuosamente; eu me retirava para dormir e ela permanecia na cama. Nunca voltei ao quarto de mamãe para ver o que ela fazia depois de eu sair. Creio que cada um imergia em suas próprias cogitações.
Havia uma união de alma entre ela e mim tão profunda, que vinha dos mais íntimos alicerces do meu ser, de meu espírito, que coincidiam com os dela; de tal maneira que não era só uma afinidade temperamental, psicológica, enfim, os mil tipos de afinidades que possa haver entre mãe e filho, mas era uma coisa diferente; do fundo da alma, o quanto pode ser, eu sentia essa afinidade.
E fazíamos um só, de tal maneira éramos unidos. Eu me lembro de que uma arrumadeira portuguesa chamada Ana, que tivemos quando morávamos numa outra casa, fez a nosso respeito um comentário, do qual mamãe gostou muito. Com aquela simplicidade portuguesa, Ana dizia o seguinte: “Viver com a cordialidade que a senhora vive com o Dr. Plinio, nem marido e mulher, noivo e noiva têm, porque eles, quando são felizes, não possuem essa cordialidade”. Mas era realmente um encanto contínuo meu por ela, e um modo de tratar como eu nunca vi filho tratar mãe; e dela comigo, talvez ainda mais, porque nas menores coisas havia uma delicadeza e uma solicitude em procurar interpretar-me, mil coisas que os fatinhos concretos não podem exprimir, porque era o espírito com que o fatinho era realizado.

Isso tem uma projeção espiritual, quer dizer, de tal maneira éramos um, que não é possível aderir a um e não aderir ao outro.
Maravilhoso caminho traçado por Deus
Lembro-me de que, alguns meses antes de eu ser acometido pela crise de diabetes, durante um almoço com ela, senti qualquer incômodo pelo qual tive a impressão de estar gravemente doente. Meu pensamento imediato foi: “Este convívio tão bom entre ela e mim, haverá algo semelhante assim na Terra? Se Deus me levar, desfará isso. É um grãozinho de areia no qual Ele é Rei. Estes grãos de areia têm de ser desfeitos desta maneira?”
Pouco depois, abatia-se sobre mim a prenunciada doença, e meus receios se confirmavam: “O desfazimento final está para vir. Deus me levará, e mamãe ficará sozinha. Ou ela soçobra na ilucidez ou dar-se-á conta de algo e também morre”.
Aquele grão de areia parecia estar desfeito. Ora, não. Outros eram os desígnios da misericordiosa Providência. Sobrevivi à grave enfermidade e, durante o longo período de convalescença, minha casa se encheu de amigos. Estes conheceram de perto Dona Lucilia, e passaram a admirá-la, a agradá-la com toda a espécie de atenções e carinhos. Onde tudo parecia o fim, no que dizia respeito a ela, um frutuoso apostolado começava a nascer.
Como não posso ficar maravilhado diante do lindo traçado que Deus desenhou ao longo deste caminho, e cujos contornos foram obtidos pelas súplicas de Maria Santíssima?












