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O pórtico da devoção a Nossa Senhora

O primeiro elemento da devoção à Santíssima Virgem Maria – falando em termos não puramente teológicos, mas de vida espiritual – é um profundo conhecimento, vivo, contínuo, constante, da própria miséria, mesmo do homem mais virtuoso que houvesse no mundo, porque o pecado original pôs nele uma fonte contínua de más inclinações.

Ademais, o justo peca sete vezes ao dia. Não quer dizer que cometa pecado mortal, nem mesmo venial, mas são as tais semicondescendências, oposições não tão completas como deveriam ser, a tal sacrossanta implacabilidade que deveríamos cultivar até o último ponto e que cultivamos tão frouxamente.

Ligada a isso, vem uma sensação, uma convicção de carência, de falta de potência e, portanto, uma verdadeira necessidade de misericórdia. E aqui está o pórtico da devoção a Nossa Senhora: uma real e contínua necessidade de misericórdia e a compreensão de que, a não ser por uma bondade inteiramente materna e gratuita, nós não nos arranjamos, vamos para o Inferno.

Donde uma abertura da alma para a misericórdia, para a bondade, uma espécie de comércio – no sentido de convívio – com Nossa Senhora, em que se vê bem como Ela é a mais elevada personificação criada, a mais alta representação, e detentora, na ordem da Criação, dessa misericórdia e dessa bondade, às quais nós podemos ter acesso, se continuamente recorrermos a Ela. Mas à maneira de mendigos, de joelhos em terra, de chapéu na mão, batendo no peito e entendendo que não temos o direito de ser atendidos. Aí Nossa Senhora Se faz toda doçura, toda suavidade, toda paciência, até para as coisas mais descabeladas.

Se não nos colocamos nessa perspectiva, a Salve-Rainha, o Lembrai-Vos e certas invocações como, por exemplo, Refúgio dos pecadores, não têm sentido; é preciso ter essa ideia da bondade, do perdão, e esse contínuo, constante apelo ao perdão e à bondade, sem o qual nada tem significado.

Com efeito, o que mais me tocou, primeiramente, em Nossa Senhora, não foi tanto a santidade d’Ela, mas a compaixão com que essa santidade olhava para quem não é santo, atendendo com pena, com vontade de ajudar, com uma misericórdia inesgotável, pacientíssima, clementíssima, pronta a auxiliar a qualquer momento de um modo inimaginável, sem nunca um suspiro de cansaço, de extenuação, de impaciência, mas sempre disposta não só a repetir-Se a Si própria, mas a Se superar. De maneira tal que, feita tal misericórdia e sendo mal correspondida, vem uma misericórdia maior. E, por assim dizer, nossos abismos vão atraindo a luz para o fundo. E quanto mais nós fugimos d’Ela, mais as graças d’Ela se prolongam e se iluminam em nossa direção.

Quando a devoção a Nossa Senhora não é nessa base, ela pode estar cheia de toda a teologia que queiram, mas não é devoção. É como se alguém viesse me dizer: “Eu conheço muito bem, segundo o direito natural, o que é uma mãe, e, portanto, trato bem minha mãe”.

O perfeito relacionamento não se segue daí. Ou ele trata sua mãe com um mundo de confiança, de ternura, uma certeza cega da bondade dela para com ele e, tratando-se da Santíssima Virgem, um desejo de servi-La e de ser escravo d’Ela por amor, ou nada feito.*

* Cf. Conferências de 8/6/1968 e 9/1/1982.

Na presente edição foram utilizadas as seguintes fontes bibliográficas: Conferências de 1963, 1964, 18/8/1965, 24/8/1965, 21/4/1966, 1/10/1966, 1/5/1967, 7/10/1968, 29/5/1970, 8/9/1970, 24/3/1973, 16/6/1973, 17/3/1974, 14/4/1975, 22/3/1977, 16/7/1977, 13/12/1977, 16/1/1978, 16/1/1978, 20/3/1978, 29/10/1978, 21/12/1978, 28/1/1979, 13/7/1979, 27/6/1980, 6/7/1980, 9/7/1980, 13/10/1980, 25/10/1980, 26/10/1980, 12/4/1981, 12/4/1981, 11/8/1981, 24/10/1981, 5/12/1981, 18/12/1981, 23/6/1982, 18/12/1982, 23/6/1983, 4/8/1983, 3/9/1983, 21/2/1984, 15/2/1985, 14/7/1985, 26/11/1985, 3/2/1988, 9/3/1988, 31/8/1988, 14/9/1988, 29/6/1989, 16/7/1989, 29/3/1990, 8/8/1990, 30/1/1991, 7/9/1991, 27/9/1991, 28/11/1991, 29/11/1991, 1/12/1991, 2/12/1991, 19/12/1991, 18/2/1992, 31/7/1992, 17/9/1992, 25/10/1992, 25/10/1992, 25/10/1992, 5/12/1992, 7/12/1992, 10/4/1993, 24/6/1993, 19/7/1993, 19/7/1993, 19/7/1993, 28/8/1993, 7/10/1993, 30/10/1993, 21/7/1994, 3/12/1994, 30/12/1994, 26/3/1995, 17/4/1995, 29/7/1995.

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