Eu creio que se combinam maravilhosamente as três jaculatórias: Refugium peccatorum, Consolatrix afflictorum e Auxilium christianorum. Elas se conjugam porque Nossa Senhora é refúgio, é consoladora e é auxílio. Qualquer caso, por mais intrincado que seja, é resolvido por Ela.
Essas invocações constituem uma ladainha dentro da Ladainha, um todo dentro do todo e, segundo eu entendo, devem estar muito presentes em nosso espírito.
Rezo essas jaculatórias várias vezes ao dia e as acho excelentes! Eu gosto porque me sinto encaixado nas três: quando rezo Refugium peccatorum, reconheço-me como um pecador; Consolatrix afflictorum, muitas vezes estou aflito; Auxilium christianorum, porque preciso muito do auxílio d’Ela. Rezo com toda confiança, e com isso Ela me atende.
Refugium peccatorum
Uma das jaculatórias que recito com mais frequência para mim e, evidentemente, também para os demais, é Refugium peccatorum, ora pro nobis; ela nos dá uma segurança inteira de sermos sempre ouvidos.
O que significa Refugium peccatorum? O refúgio é o lugar para onde alguém deve correr a fim de se proteger. Maria Santíssima é refúgio do pecador, a cujo encalço está Deus para castigar. Eu não acho nada de mais bonito do que irmos correndo para junto de Nossa Senhora, carregados com nossos defeitos, e nos refugiar n’Ela. Não há nada de mais bonito, nada de mais seguro, e acho que eu ficaria louco se não tivesse a certeza de que poderia me refugiar junto a Ela. Eu me escondo d’Ele junto a Ela. Eu fujo d’Ele nos braços d’Ela.
Refúgio até daqueles que ainda não se arrependeram
Nossa Senhora é refúgio dos que pecaram e se arrependeram, mas Ela é – e em que medida! – refúgio daqueles que pecaram e não se arrependeram, mas que vão junto a Ela para pedir o arrependimento e a emenda do pecado.

De fato, para ter esperança em Nossa Senhora, não precisamos possuir algo de bom. O “Lembrai-Vos” é muito expressivo nesse sentido: “Lembrai-Vos… que nunca se ouviu dizer que alguém que tenha recorrido…” Este alguém que recorre a Ela é uma pessoa boa? Não! “Gemendo sob o peso de meus pecados, me prostro a vossos pés”. Não é alguém que se emendou e se confessou; é o que está no estado de pecado, mas que se aproxima de Nossa Senhora dizendo a Ela: “Eu estou aqui! Lembrai-Vos de mim, tende pena de mim!” Até os ruins podem recorrer a Ela; se pedirem perdão, Ela atende.
Portanto, num exame de consciência, pode-se perguntar: “Tenho em vista que Nossa Senhora é o refúgio dos pecadores e que quanto mais eu me sinto pecador, tanto mais Ela me é refúgio? Sei evitar assim o desânimo e esperar tudo d’Ela?”
Existindo Nossa Senhora, não há motivos para desanimar
Não há razão para desânimo! Se fosse confiar porque sou bom… nada feito! Mas se é confiar porque sou pecador, é o meu caso! Não é o refúgio dos pecadores? Então é o meu lugar próprio, é onde eu posso estar refugiado.
Até na hora do pecado devemos olhar para Ela e dizer: “Refúgio dos pecadores, rogai por nós!” Arrependermo-nos, levantarmo-nos e ir para frente!
Aqui está um segredo da devoção marial difícil de fazer entrar na cabeça das pessoas: o amor de Nossa Senhora para com o pecador é tal, que não sofre nenhum empanamento, nenhuma diminuição de brilho quando este reconhece as próprias misérias; pelo contrário. Poderia até haver na Ladainha Lauretana uma invocação: “Mãe dos miseráveis, rogai por nós”, ou: “Nossa Senhora, esperança dos culpados”, “Nossa Senhora de mil perdões”, “Nossa Senhora de todos os perdões”, são invocações análogas a Refugium peccatorum, e que teriam muito significado.
Não há razão para desânimo! Em todas as ocasiões da vida, nossa saída é nos aproximarmos de Nossa Senhora como pecadores que se refugiam junto a Ela.
Se nós, antes de fazermos nossas orações, nos lembrássemos disso, encontraríamos muito mais alento no rezar. Exatamente o que desanima é a ideia de que nossas orações não valem nada. A pessoa pensa:
— Afinal de contas, se eu deito um olhar para dentro de mim e vejo quem sou, eu desanimo completamente… Não adianta eu rezar!
Ora, isso não é verdade! Se me sinto culpado, então o lugar adequado para mim é Nossa Senhora.
Em todas as ocasiões da vida, nossa saída é nos aproximarmos de Nossa Senhora como pecadores que pedem auxílio e se refugiam junto a Ela; prendermo-nos, ligarmo-nos a Ela, porque, por mais perturbados que estejamos, Ela auxilia sempre. Ela tem toda espécie, toda forma, todo gênero de predisposições afetuosas para com os homens. Especialmente – sob um ponto de vista – para com os pecadores. Então, uma sugestão para os aflitos e para os encalhados é: pedir a Nossa Senhora, recitar bem devagarzinho a “Salve Rainha” ou então o “Lembrai-Vos”.
Obtenção do perdão por invocar Nossa Senhora
Cito uma antiga recordação de família:
Meu pai me contava que um tio dele, lá de Pernambuco, era senhor de engenho de açúcar, como em geral os homens de seu tempo. Esse tio era um homem forte e mandão. Era a época da escravatura e ele levava os escravos dele com muito rigor, mas, de outro lado, ele tinha um coração muito bom, era muito devoto de Nossa Senhora e queria incutir essa devoção em seus escravos.
Ele combinava com o feitor que, quando chamasse algum escravo para receber um açoite, ele antes o ensinasse a gritar: “Pela Imaculada Conceição, não!”, e aí ele mandaria parar o castigo.
A “Consoladora dos aflitos” foi, antes de tudo, a “Consoladora do Grande Aflito”.

Ficava, então, o tio na sacada da casa da fazenda e vinha, trazido por outros, o escravo que tinha feito qualquer coisa errada. O feitor puxava o açoite, levantava-o, mas o escravo gritava: “Pela Imaculada Conceição, não!”, então meu tio dizia: “Pare! Pare! Invocou a Imaculada Conceição, não tem castigo!”
É preciso dizer aqui, colateralmente, que essa é uma saída eminentemente brasileira. Vê-se aí o jeitinho; tem jeitinho a mais não poder dentro de tudo isso. Se é preciso castigar castiga, mas depois encontra um jeitinho bondoso de adoçar o castigo. O jeitinho serve para alguma coisa também.
Mas, sobretudo, a saída é eminentemente católica, porque faz sentir que o escravo deveria ser castigado devido ao fato de ter procedido mal, mas, de outro lado, apareceu Nossa Senhora… Incutia no escravo e à escravaria toda, a ideia de que, recorrendo a Nossa Senhora, junto a Deus, Ela consegue tudo.
Consolatrix afflictorum
Consolatrix afflictorum! Nossa Senhora foi chamada por São Luís Grignion de Montfort o “Paraíso de Deus”.1 Eu, quando li a expressão, fiquei meio espantado: “O que quer dizer isso?” E a explicação dele é luminosíssima. Ela foi para Deus o lugar de delícias. Ele habitou n’Ela como Adão no Paraíso. É uma honra altíssima, não se tem palavras para descrever!
Ele quis, ao pé da Cruz, ter o seu Paraíso, e Ela estava naquela aflição sem nome, mas a “Consoladora dos aflitos” foi, antes de tudo, a “Consoladora do Grande Aflito”.
Nossa Senhora é incomparável!
Nenhum ente criado tem qualquer forma de comparação possível com Nossa Senhora. Nós podemos tomar o mais rutilante dos Anjos, o Santo com o mais assombroso grau de virtude, não há nenhuma comparação possível com Ela.
Um grão de areia e o mais belo dos brilhantes são muito mais próximos um do outro, do que o mais alto Querubim, o mais alto Serafim ou o mais alto Santo em relação a Nossa Senhora. Ela sabe disso, conhece a nossa fraqueza e, por causa disso, Ela é Mãe de Misericórdia também neste sentido: Ela não nos pede apenas sacrifícios de estrangular e aflições de escaldar, mas Ela é, Ela mesma, a nossa consoladora.
Ela vem, socorre os que sofrem, diminui-lhes as penas, atenua-lhes as aflições, intervém a propósito de mil circunstâncias para mostrar que Ela é Mãe; para sorrir e para nos fazer entender que não nos será exigido o que foi exigido d’Ela, porque, se um de nós tivesse que suportar a dor que Ela teve num só dos episódios da Paixão de Nosso Senhor, este se desintegraria.
Ela nos dá forças nos sofrimentos
Por exemplo, se nós tivéssemos a ventura de amar Nosso Senhor Jesus Cristo como Ela O amou, e passássemos pelo ato – uma verdadeira cerimônia – do encontro, onde Ela O viu desfigurado, na Via-Sacra, nós, literalmente, nos desintegraríamos. Nossa Senhora sabe disso. E Ela, muito do que sofreu ali, foi para que nós não tivéssemos que sofrer tanto. E é por isso que a Rainha dos Mártires é, ao mesmo tempo, a Consoladora dos aflitos. Há quase uma contradição, porque a Rainha dos Mártires deve ensinar os mártires a sofrer, e a Consoladora dos aflitos ajuda-os a não sofrer, afasta o sofrimento dos homens.
Maria Santíssima, muitas vezes, nos dá forças para suportar uma aflição; outras vezes, Ela afasta de nós essa aflição. Nossa Senhora é Consoladora inclusive do pecador que tem aflição pelo seu pecado. Ela consola de que maneira? Dando-lhe a esperança da cura, de que ele se modifique. Quantas e quantas vezes!
Nossa Senhora socorre os que sofrem, diminui-lhes as penas, atenua-lhes as aflições.

Devemos pedir a Ela condescendência para com nossas misérias e forças para vencê-las
É nesse Paraíso que nós teremos condições de ser heroicos, de ser castos, de ser contrarrevolucionários; fora dele, tudo fica tão cambaleante, tão difícil… Eu acho que isso para nós é muito bom, muito dignificante e muito santificante.
Aos pés de Nossa Senhora, nós saberemos apresentar as aflições que não suportamos, e devemos dizer a Ela: “Minha Mãe, vede a minha fraqueza. Se Vós não me dais forças excepcionais, eu não aguento, apressai-Vos em me socorrer”. Ou dizer: “Minha Mãe, eu não tenho nem coragem de Vos pedir forças excepcionais, mas eu Vos peço um sorriso para minha fraqueza, um perdão para minha fraqueza, uma condescendência para com minha fraqueza. Mais adiante, talvez eu aguente alguma coisa. Se eu não aguentar, perdoai-me a levai-me para o Céu assim mesmo, porque Vós sois Mãe de toda misericórdia”. Esta é a posição que a Fé nos ensina que devemos tomar.
Aí está Nossa Senhora como modelo de fé, considerada em função das aflições de nossa vida particular.
Um conselho de confiança
Tenham coragem! Não recuem diante de nenhum esforço quando sentirem que lhes faltam forças. Recorram a Nossa Senhora Consoladora dos aflitos, protetora dos pecadores e, ainda mais, protetora dos homens de virtude. A força nunca deixará de vir, e, vindo, se salvarão.
Consolatrix tem também o sentido corrente de consolar numa dor, de enxugar as lágrimas, de diminuir a dor, isso em um sentido secundário. Estamos longe de dizer a Nossa Senhora que essa consolação não desejamos, porque d’Ela queremos todos os graus, formas e meios de favores, em todos os tempos e circunstâncias possíveis.

Que Ela também nos dê isso, mas talvez o que d’Ela mais precisamos não é o secar as nossas lágrimas, mas nos dar coragem, nos dar decisão diante da dor.
Auxilium christianorum
Auxilium christianorum – Auxiliadora dos cristãos! Essa expressiva invocação se encontra nos lábios de todos os fiéis em estado de necessidade ou aflição, a partir do momento em que, na famosa batalha naval de Lepanto, a Virgem Auxiliadora mostrou especialmente seu auxílio aos fiéis na luta contra os inimigos da Fé: apareceu à esquadra otomana já quase vencedora e a dispersou em razão do terror que lhe incutiu, auxiliando assim a esquadra hispano-ítalo-pontifícia a vencer os turcos, na data de 7 de outubro de 1571. Lepanto, em primeira linha, foi uma grandiosa vitória da Cruz!
Essa é uma invocação que celebra em Nossa Senhora o fato de que, com frequência, com solicitude materna, com generosidade, com amplidão de graças e de dons especiais, Ela intervém frequentemente na vida dos fiéis para ajudá-los, quer para sua santificação, quer para sua luta em favor da Igreja, quer para suas necessidades de caráter pessoal e terreno.
Nossa Senhora Auxiliadora é Nossa Senhora enquanto votada, propensa a auxiliar, esperando as nossas orações e pedidos, a todo momento.
Uma invocação particularmente materna
Mas é Nossa Senhora Auxiliadora de quem? Dos cristãos! Há um sabor especial nesta especificação: Auxiliadora dos cristãos. O título não A celebra como auxiliadora de qualquer um, Auxilium omni homini, embora Ela auxilie todos os homens. Ela é Mãe de todos os homens, mas o é mais especialmente dos fiéis: Auxilium christianorum!
Ela é auxiliadora específica dos cristãos – o que quer dizer católico, porque o único cristão no sentido pleno e próprio da palavra, em estado de saúde, é o católico apostólico romano –, mais do que de todos os outros, porque estes são os verdadeiros filhos d’Ela, os filhos por excelência. Essa invocação se considera enquanto particularmente materna em relação aos católicos: Nossa Senhora é sobretudo ajudadora dos católicos enquanto católicos, enquanto ligados à Igreja, vivendo do espírito da Igreja e, portanto, Ela é sobretudo auxiliadora dos mais fiéis, dos que lutam pela Religião Católica. Então, Auxiliadora dos cristãos é a auxiliadora dos contrarrevolucionários.
Quando ainda menino…
Auxiliadora dos cristãos é exatamente uma invocação à qual eu tenho uma devoção quase tão velha quanto eu mesmo. De que maneira essa devoção se firmou em minha vida?
Eu era menino, tinha entre dez ou onze anos, era aluno do Colégio São Luís quando eu cometi uma ação que não deveria de maneira nenhuma cometer.2 Isso chegou ao conhecimento de meus pais… Eu estava na iminência de ser mandado para um colégio interno, que era, naquele tempo, uma espécie de castigo para todas as crianças do Brasil, reputado de uma severidade terrível.
Auxiliadora dos cristãos! Essa expressiva invocação se encontra nos lábios de todos os fiéis em estado de necessidade ou aflição.


Aliás, o colégio era em Minas Gerais e lá era tido como muito bom colégio, mas, em São Paulo, tinha a fama de uma masmorra para crianças, o Colégio Caraça.
Alguém poderia dizer: “Dr. Plinio, o senhor está tomando a trágico coisas de crianças”. Diz-se muito bem que para uma criança, uma tragédia dessas pode toldar o horizonte como outra coisa maior tolda um homem maduro.
Até essa ocasião eu tinha pouca devoção a Nossa Senhora. É uma coisa horrorosa, mas eu tinha uma espécie de objeção, pois me parecia que a devoção a Ela criava obstáculos à devoção a Nosso Senhor Jesus Cristo.
Foi nessa ocasião de dificuldade em que eu me coloquei quase que por acaso – o acaso não existe, mas digamos – diante de uma imagem de Nossa Senhora na Igreja do Coração de Jesus. É uma linda igreja, com uma harmonia estupenda, é um cântico para a alma! A igreja ficava muito perto de minha casa e era onde minha família costumava ir à Missa aos domingos, e eu ia com eles. Eu fui muito, mas muito aborrecido e preocupado para a igreja e comecei a rezar. Fiquei no fundo, tendo em vista aquela imagem toda alva, branca, de Nossa Senhora Auxiliadora dos cristãos, de mármore, que está na nave do lado direito. Era tal e qual hoje em dia, apenas não tinha umas pinturas douradas que depois foram feitas.
…uma experiência da misericórdia de Nossa Senhora
Quando olhei para aquela imagem – eu estava naquela aflição –, vieram-me à mente as palavras da “Salve Rainha”: “Salve Rainha, Mãe de Misericórdia…” Eu não sabia latim e pensei que “Salve” quisesse dizer salvar. Julguei que estava muito bem a oração, pois me dei bem conta de que, naquele estado em que eu me encontrava, só Ela tendo misericórdia de mim, por ser minha Mãe! Ela é a suprema Rainha, mas é de tal maneira misericordiosa, que é uma Mãe toda feita de misericórdia, toda feita de bondade: “Vida, doçura, esperança minha, salve!” A ideia de Rainha me ligou com a de ajuda e de misericórdia, e é realmente como a Igreja A entende.
Eu pensei: “Eu sou cristão; Ela é Nossa Senhora e Ela vai me ajudar. Ela é minha mãe; Dona Lucilia tão boa me ajuda em tanta coisa; será que minha Mãe no Céu não me ajuda mais do que a minha mãe na Terra? Eu vou rezar”.
Ela é sobretudo auxiliadora dos mais fiéis, dos que lutam pela Religião Católica.
Comparando com o que era mamãe, veio-me a ideia muito clara de como Maria Santíssima deveria ser misericordiosa, porque Dona Lucilia o era em extremo para comigo. Então, Ela ainda mais, porque era mais verdadeiramente Mãe do que mamãe. E porque Nossa Senhora possuía todas as virtudes sem comparação possível com ninguém, Ela deveria ter uma misericórdia incomparavelmente maior do que mamãe.
Nossa Senhora é a suprema Rainha, mas é de tal maneira misericordiosa, que é uma Mãe toda feita de bondade.

Comecei a rezar a Ela e as palavras da “Salve Rainha” me foram entrando uma por uma como se fosse uma luz: “Então é isso, Ela é Mãe de misericórdia, vida, doçura e esperança”, e ia pensando: “Está vendo como Ela é minha vida?” Eu estaria liquidado se Ela pelo menos não tivesse pena de mim e não advogasse minha causa junto ao Filho d’Ela.
“Doçura”, que doçura restaria em minha vida se não fosse a possibilidade de rezar a Ela? “Esperança”, minha esperança é Ela e não tem outra esperança. Porque se Ela não tem pena de um trapo sujo como eu, os trapos sujos não têm mais solução na Terra… mas eu tenho esperança de que Ela terá pena de mim. E assim por diante a oração foi se desfiando, em todas as suas palavras, uma por uma, e me parecendo verdadeiramente maravilhosa.
Sem que eu tivesse tido nenhuma revelação, aparição, visão, nem nada disso – que eu nunca tive –, recebi uma graça muito grande: num determinado momento, tive uma impressão – uma pura impressão – de que a imagem me olhava com muita bondade e sorria para mim. Pareceu-me que algo da imagem de Nossa Senhora Auxiliadora incutia em mim a certeza de que Maria Santíssima nunca, jamais, em nenhuma circunstância me abandonaria. Quando eu olhasse para Ela ou eu me lembrasse d’Ela e pedisse seu auxílio, eu seria ajudado. Sempre nos momentos de dificuldade, em todos os casos, em todas as aflições, em todos os perigos, até em todas as infidelidades, Ela teria pena de mim, e não havia o que eu fizesse que Ela não me socorresse e não me ajudasse.
Uma firme convicção: Maria Santíssima nunca abandona seus filhos
Donde eu formei ali a seguinte convicção: “Você está vendo, você vai para o Inferno se você não se agarrar a Ela, porque você não tem forças para continuar bem seu caminho. Você é um menino sem força de vontade, sem categoria, sem nada, um trapo, que não fará nada que preste; se você se agarrar a Ela, entenda bem que tudo muda: terá forças, energia, poderá modificar o seu modo de ser e ser uma pessoa exímia. Mas não se esqueça da verdade que você aprendeu: tudo se resolve com Ela e com mais ninguém! Ela é quem arranja, para você, as coisas com Nosso Senhor. Ou você orienta toda a sua vida rumo a Ela ou, se você defletir um pouco que seja, não tem nada para você. Com Ela tem tudo quanto razoavelmente você possa aspirar. Sem Ela você não tem absolutamente nada! Note bem: com Ela, toda suavidade, toda bondade; será fácil, será atraente; sem Ela, não será nada”. E Nossa Senhora mesma me ajudou a ter isso em vista a vida inteira.
A partir daí passei a rezar a Ela na certeza de que todas as graças que eu vinha recebendo eram a confirmação desse perdão d’Ela. Eram posteriores perdões, eram crescentes misericórdias, tudo dado sem eu merecer ou excedendo méritos que porventura eu tivesse, mas sempre numa proporção onde entrava a misericórdia muitíssimo mais do que uma justiça; e sempre na certeza de que tudo, no fundo, haveria de dar certo porque Ela é Auxílio dos cristãos.
Nunca vou à Igreja do Sagrado Coração de Jesus sem passar por esse altar. Digo mais: quando eu vou a essa igreja, fundamentalmente vou para ver essa imagem.
As palavras da “Salve Rainha” me foram entrando uma por uma como se fosse uma luz…

Desde os primórdios do apostolado
Devemos nos lembrar de que, em nossa capela, temos aquela imagem tão simples de Nossa Senhora Auxiliadora, com todos os atributos e características dessa invocação. O simbolismo dela é muito bonito.
É uma imagem que nos acompanha desde os primórdios de nosso apostolado. Comprei-a para a sala da Junta Arquidiocesana da Ação Católica – era a primeira associação religiosa na minha vida para a qual eu comprava uma imagem; comprei-a e fiquei muito contente de encontrá-la.
Essa foi a imagem das lutas épicas que tive naquele tempo. Colei um cartão de visita embaixo da base da imagem escrito: “Pertence a”, depois vinha o nome impresso “Plinio Corrêa de Oliveira”, porque era propriedade particular. Quando saímos da Ação Católica, levei-a comigo e ela ficou num altarzinho da capela que tínhamos na sede da Rua Martim Francisco. De lá mudou-se para nossa capela na Rua Vieira de Carvalho, depois para a capela da Rua Pará; depois esteve durante muito tempo na sala que eu usava no antigo Buissonnets, e depois passou para a Sede do Reino de Maria. Sempre com o hábito de, quando mudássemos de sede, transportá-la no automóvel, rezando o terço durante o percurso, de maneira que daí vem a nossa invocação também na oração da noite: Auxilium christianorum, ora pro nobis. Essa imagem vem sendo nosso ponto de mira em todas as nossas aflições e angústias.
Nós precisamos, a cada passo, do auxílio de Nossa Senhora
Se eu me sinto muito mambembe, muito fraco, aí está Nossa Senhora para auxiliar. É Auxiliadora dos fracos, dos mambembes, dos que não têm energia, dos pobres coitados… Às vezes, pessoas me perguntam o que fazer quando se apresentam essas grandes dificuldades de dentro das quais não se sabe como sair; não vou repetir sempre o mesmo conselho, mas a resposta que eu gostaria de dar é: primeiro, reze. Antes de pretensiosamente estar pensando com seu próprio intelecto, peça o auxílio com uma jaculatória interior: Auxilium christianorum, ora pro me, ora pro nobis!

Nessa devoção está insinuado bem exatamente o contrário de uma atitude que D. Chautard condena, o erro de certos apóstolos que pensam o seguinte: “Meu Deus! Eu sou tão inteligente, tão competente, tão rico, tão poderoso, tão tudo… com o meu talento, a minha capacidade e a minha energia, resolvo por mim mesmo e vou fazer vencer a vossa Causa sem Vós. De Vós e de Nossa Senhora eu espero apenas que me ajudeis nas dificuldades extraordinárias da vida, que afasteis de meu caminho o azar muito grande, porque o resto faço eu. Nas dificuldades comuns eu não preciso do auxílio… É até um pouco sem graça se Vós fizerdes, porque o bonito é vencer por mim mesmo”. Em matéria de apostolado, como em matéria de tudo, esse raciocínio é falso. Mas em matéria de apostolado é falso a um título especial, de modo muito particular.
Para o êxito do apostolado, como para o êxito de nossa vida interior, nós precisamos, a cada passo, do auxílio da Santíssima Virgem. Por exemplo, para que estas palavras que estou dizendo tenham alguma fecundidade, esta só pode resultar exclusivamente da graça. E essa graça é Ela que obtém de Deus, o Autor da graça, a fonte última, verdadeira e profunda de todo bem, de todo dom perfeito. De maneira que, se Nossa Senhora não me auxiliar, estas palavras resultam vãs. E se quero esse auxílio, devo pedi-lo, reconhecendo a dependência em relação a Ela e reportando minha esperança no auxílio d’Ela para resolver todos os meus problemas. Isso diz respeito aos problemas do apostolado, e, sobretudo, aos da vida interior.
O poder onipotente das súplicas de Nossa Senhora
Leão XIII uma vez escreveu numa de suas encíclicas uma frase que eu espero nunca me esquecer na vida. Ele dizia o seguinte: os que verdadeiramente governam o mundo não são os homens inteligentes, nem são os homens poderosos, nem são os homens ativos, mas são os homens que rezam.
O homem, na ordem sobrenatural, é totalmente impotente, e mesmo na ordem natural ele precisa constantemente do auxílio de Deus. Quer para uma, quer para outra, ele deve estar constantemente pedindo o auxílio d’Aquela que é a Medianeira de todas as graças, e que é Nossa Senhora Auxiliadora.
A oração é o cetro do mundo, sobretudo para aqueles que são escravos de Nossa Senhora e que têm certeza de que Ela reza com eles. Eles têm o cetro do mundo porque Nossa Senhora, de Si, não pode nada, mas a oração d’Ela é tão grata a Deus, que Ele faz tudo quanto Ela quer e, por causa disso, alguns teólogos A têm chamado muito bem de Onipotência Suplicante, Aquela que, por suas súplicas, é todo-poderosa.
…algo da imagem incutia em mim a certeza de que em todas as aflições, em todos os perigos, até em todas as infidelidades, Ela teria pena de mim.
A imagem de Nossa Senhora Auxiliadora tem uma coroa na cabeça. Ela está com o Menino Jesus numa mão, e Ele também tem a sua coroa. A coroa se prende à ideia de Nossa Senhora Auxiliadora, porque, para auxiliar, é preciso ter muito poder. Quando não se tem poder, de que adianta auxiliar? Então, Nossa Senhora Auxiliadora é indizivelmente misericordiosa, a todo momento está disposta a nos auxiliar! Ela nos conferirá os auxílios mais inesperados, os auxílios maiores, mais súbitos, os mais estrondosos. Depende apenas de nós pedirmos, pedirmos e pedirmos.
Pedir muito, pedir tudo
Qual é o pedido que devemos fazer a Nossa Senhora Auxiliadora?
Ela, como Auxiliadora, gosta que se Lhe peça muita coisa. Nossa Senhora não é como os potentados da Terra a quem se pede pouco para obter algo; pelo contrário, Ela é uma Mãe boníssima que gosta que os filhos Lhe peçam muito, e que quanto mais coisas os filhos Lhe pedem, mais Ela se agrada disso.
Mas as coisas devem ser pedidas, sobretudo, com ordem à glória d’Ela e à implantação do Reino d’Ela, à ordem sobrenatural.

Nossa Senhora é tão boa, que Ela atende, muitas vezes, pedidos de pessoas que pedem apenas para proveito próprio e mais nada. Chegam diante d’Ela e: “Minha Mãe, meu braço não está funcionando, eu Vos peço que ele melhore”. Nossa Senhora põe em funcionamento o braço do miserável, e ele não se converte… Mas, assim mesmo, a bondade d’Ela se exerceu e Ela tira daí um proveito: mostrar que é tão boa, até para quem não merece. Mas se Ela é boa até para os filhos das trevas, quanto mais Ela pode ser para quem, com maior ou menor fidelidade, pode chamar-se filho da Luz!
É extraordinário constatar como na vida de São João Bosco vê-se, a todo momento, Nossa Senhora intervindo para consertar as coisas, para arranjar, para tocar uma obra para frente, que teria ruído cem vezes se não fosse o auxílio d’Ela. Isso é um estímulo para nós! Então devemos pedir a Maria Santíssima, ao menos por termos a fidelidade de perseverar na verdadeira Fé Católica Apostólica Romana, que Ela tenha pena de nós, seja o nosso auxílio e faça por nós aquilo que não seríamos capazes de fazer.
A Ela, nós podemos pedir tudo quanto quisermos, em todas as circunstâncias, em todas as situações, em todas as dificuldades, difíceis ou fáceis, de nosso apostolado. Peçamos, pois, que Ela nos ajude, nos dê as forças, os meios e os recursos para fazermos aquilo que queremos para nosso apostolado.
Pedir, eis a nossa obrigação, e com isso resolvemos dificuldades muito maiores do que pensamos. Por isso, eu aconselho: sempre quando puderem, façam jaculatórias contínuas a Nossa Senhora: Auxilium christianorum, ora pro nobis. Ela reza por nós!
Para o êxito do apostolado, como de nossa vida interior, precisamos, a cada passo, do auxílio da Santíssima Virgem.
Duas jaculatória que tocam a fundo na alma
Eu acho que, até eu morrer, as duas jaculatórias que vão tocar mais minha alma são: “Salve Regina, Mater misericordiæ, vita dulcedo spes notra, salve!” e “Auxilium christianorum”. São modos de ser da alma de cada um… Para mim lembram os primeiros sorrisos de Nossa Senhora. Esses sorrisos me têm guiado até hoje. Se Deus quiser, eu pensarei neles e fecharei os olhos pensando neles. De maneira que, para mim, minha vida está marcada e as minhas jaculatórias são essas. Meus filhos podem adotá-las, acrescentá-las ou adaptá-las. Isso depende do modo de ser de cada um. Para mim, desde o começo da vida até o fim, é isto!
1) SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. O Segredo de Maria, n.19.
2) Dr. Plinio faz menção à rasura que fez no boletim mensal no qual constava a nota 6 de comportamento na matéria de Geografia.


