Ocorreu-me a esmo fazer um comentário sobre invocações pouco comentadas da Ladainha Lauretana: Turris Davidica e Turris eburnea – Torre de Davi e Torre de marfim. São invocações que têm uma reminiscência bíblica e que eu acho muito bonitas. No fundo, fazer metáforas ajuda enormemente o homem a dizer tudo, ou quase tudo…
Torre, um dispositivo próprio para a defesa em tempo de guerra
A torre era um dispositivo de defesa em guerra nos tempos antigos. Na Sagrada Escritura, a torre costuma ser representada isolada. Pode haver maior afirmação de intransigência do que, numa planície, uma torre? Um terreno plano, horizontal, onde está tudo de acordo com uma pequena dimensão, e no meio dessa planície levantar-se uma torre que se eleva para o alto, que se distancia de tudo, que quebra todo o panorama, porque irrompe violentamente, e que é ela mesma, inteira, sozinha, uma disfunção com todo o panorama no qual se encontra?
Nossa Senhora é chamada Torre de Davi, porque Ela defende a Igreja e a Cristandade.
Turris Davidica: uma fortificação reputada especialmente forte; do lado de fora penduravam todos os escudos e armas dos guerreiros. Se quisessem investir contra a fortaleza, os escudos a defendiam (cf. Ct 4, 4).
Nossa Senhora é chamada Torre de Davi, porque Ela defende a Igreja e a Cristandade como uma torre.
Alvo e resistente, o marfim é também um material precioso e cheio de significado
Turris eburnea quer dizer torre de marfim.
Tenho em minha casa uma bonita peça de marfim. Eu a vejo sempre que entro, porque ela fica numa parede logo em frente à porta. Eu não me detenho, mas, de passagem, várias vezes me agrada olhá-la. É sempre a mesma peça, dura, pura, alva, com aquela forma específica da ponta do dente do elefante; pesada, mas com aspecto de ligeira. Para mim, observá-la não é monótono, e seria uma perda se eu a deixasse de ver, porque as coisas de qualidade, quando são monotônicas, deixam transparecer um tom muito bonito, de alta categoria, e que não gostaríamos de mudar por nada.
Os antigos tinham o marfim como um dos materiais mais duros e mais resistentes da natureza. Ele é, ao mesmo tempo, branco, muito alvo, puríssimo e de grande beleza.
Por isso o Autor Sagrado imagina uma torre de marfim, torre fortíssima para resistir às lanças e aos dardos do adversário, com uma grande resistência às ofensivas, que outros materiais não têm.
A alvura, a lisura, a dureza, a classe de uma peça de marfim é permanente. Uma torre revestida de marfim não era combustível, não era destrutível! Uma torre de pedra pode acabar se desconjuntando. A torre de marfim, não, pois seria preciso quebrá-lo, o que é dificílimo.
Eu acho que poucas imagens poderiam dar tanto a ideia de intransigência quanto a torre de marfim. Poderíamos tomar essa torre como o símbolo da intransigência.
Além de ser um meio de fortificação magnífico, um utilíssimo instrumento de defesa na guerra, essa torre é um ornato, em qualquer panorama onde esteja erguida.
Nossa Senhora, a torre perfeitíssima, inexpugnável, que aponta o caminho
E assim há certas almas que são ebúrneas. Na realidade, tudo o que se diz do marfim se aplica esplendidamente a Nossa Senhora como a ninguém! Como Nossa Senhora merece ser chamada Torre de marfim! E quando a Igreja A chama com este título, é para indicar que Ela é uma torre firme, brilhante.
Porque, naquele mundo paganizado, horrível, do tempo em que Nossa Senhora nasceu e viveu – um mundo que teve como desfecho o deicídio – Ela era a Virgem Mãe Imaculada!
Ela é a torre toda feita de marfim, que se levanta no meio das abominações e dos horrores. Ela não cede, não Se deixa abater, Ela resiste! Ela nunca Se mancha, nunca Se dobra, nunca recua…
Torre que não pode ser tomada, nem é expugnável, porque ebúrnea!
Ela é a Torre de luta contra o adversário, esplendorosa, bela e pura como é o marfim!
Torre de luta contra o adversário, esplendorosa, bela e pura como é o marfim!
Torre forte! Ela é a fortíssima: é a Acies Ordinata, e seu coração é comparado pela Escritura a um exército em ordem de batalha (Ct 6, 10).
Ela é a torre que aponta o caminho!
Um pedido a ser feito a Nossa Senhora
Podemos pedir a Ela, portanto, que nos dê essas qualidades na luta contra o mal: que sejamos uma torre fortificada. Seja Ela para nós também uma torre de marfim, onde habitemos, onde encontremos nossa segurança e nossa honra; onde encontremos as nossas delícias, e dentro da qual estejamos de tal maneira que, não só todas as investidas, mas também todas as opiniões e censuras do adversário, absolutamente não possam nos atingir. Durante a luta, digamos a Nossa Senhora: Torre de marfim, dai-me a vossa força e a vossa pureza nos dias da nossa luta!
Turris Davidica, Turris eburnea, ora pro nobis!
Palácio de ouro de Deus, Nossa Senhora Se fará ver, no Reino de Maria, com um esplendor enorme!

A Igreja Católica é para mim uma torre de marfim como Nossa Senhora. Límpida, branca, magnífica, que se ergue só e vertical no meio do pantanal da vida humana, não tendo nenhum erro e contendo todas as verdades. Ela é nosso escudo, é nosso gládio, é nossa protetora, nossa mãe; ela é, de algum modo, a Turris eburnea, a torre de marfim na qual nos refugiamos para resistir ao inimigo. É o papel natural dela. É nesta Igreja que eu creio! A ela, um respeito e uma confiança sem nome…
Domus aurea
Nossa Senhora deve ser vista como Domus aurea, a Casa de ouro da era do Reino de Maria, o Palácio de ouro de Deus, o Paraíso d’Ele. Ela é monumental! E certos mistérios d’Ela exprimem bem isso: pode haver uma coisa mais monumental do que ser virgem e mãe ao mesmo tempo? É uma monumentalidade que não é contraditória, mas toca às raias da contradição. Isso é o auge da monumentalidade. E eu tenho a impressão de que, no Reino de Maria, Ela Se fará ver assim, com esplendor enorme!
Alguém dirá: “Mas, Dr. Plinio, eu não tenho uma alma assim, eu gostaria de vê-La na casa de Nazaré”.
Eu digo: “Você não compreendeu a monumentalidade, porque ela abarca Nossa Senhora na casa de Nazaré também, é claro! Não exclui, pois do contrário está tudo errado!”
A pessoa pensa numa monumentalidade espetada, segundo os tempos modernos, e não é isso. É diferente: é a monumentalidade, por assim dizer, gótica de Nossa Senhora, onde cabem todos os aspectos!
E eu acho que Ela Se manifestará de um modo que nós não cogitamos.
Este é um apanhado sobre Nossa Senhora Casa de ouro, Torre de Davi, aparecendo-nos sobre os escombros da campânula maldita da Revolução, na aurora do Reino de Maria!


