Está de acordo com nossa natureza e com os desígnios de Nosso Senhor Jesus Cristo, que o homem seja provado na Terra antes de merecer o Céu e que este nos seja dado como prêmio por uma luta, o que é mais glorioso do que conquistá-lo sem ela. Por isso, é bom na vida do homem, que ele enfrente coisas duras para ter a vantagem do mérito e alcançar o prêmio e a glória da santidade.
A dor, um dos mais belos ornatos da vida
A coisa dura, aquilo que pode fazer o homem sofrer, está de acordo com a ordem, e não é verdade que tudo quanto é duro, tudo quanto é dor, sofrimento ou destruição, seja um mal.
Perguntemos aos Santos Mártires se eles acham verdade que tudo quanto destrói é um mal. Perguntemos aos Apóstolos se eles acham que tudo quanto é martírio é um mal. Quase todos morreram mártires. Tanto trabalho, tantas dificuldades eles tiveram na expansão da Fé! São Paulo, por exemplo, fala que chegou até o fundo do mar, sofreu e aquilo… (cf. 2Cor 11, 25). Foi duro, mas ele fala com glória! Perguntemos a ele: “Foi um mal à sua vida isso?” Não se ousa perguntar, pois a pergunta engasga na garganta…
Se percorrermos toda a lista de Santos, as virgens, os homens virgens que souberam se abster do prazer, todos sofreram! Como alcançaram a glória? Com algo de negativo, que os fez sofrer, doeu, com o martírio e, às vezes, martírio tremendo!
Então, a tese pacifista não vale nada, porque um dos mais belos ornatos da vida e do universo se chama dor.
A quintessência do martírio
Pode haver sofrimentos de alma mais cruéis que o martírio físico. Eles, portanto, têm mais mérito que o próprio martírio. Eles podem ser muito prolongados, terríveis; e a pessoa que aceita esses sofrimentos por amor a Deus e, evidentemente, por amor a Nossa Senhora, pode sofrer um verdadeiro martírio interior, de alma. Um martírio incruento, mas um verdadeiro martírio.
O exemplo paradigmático disso é Nossa Senhora. Nós rezamos na Ladainha a invocação Regina Martyrum, Ela é Rainha de todos os mártires porque todos eles tiveram força por meio d’Ela. Ela é a Sancta Virgo Virginum e, num certo sentido, Ela poder-se-ia chamar a Mártir das mártires, uma vez que a quintessência do martírio estava n’Ela. Ela sofreu uma forma peculiar de martírio, única: se bem não Lhe tocassem no corpo sagrado, a alma d’Ela sofreu mais martírio que ninguém, em quantidade insondável! Todos os mártires e todos os outros homens até nós não sofremos o que Ela sofreu ao pé da Cruz! E isso sem falar de outras aflições… esta foi a vida d’Ela.
O martírio de Nossa Senhora durante a Paixão
Nós não podemos imaginar o que Nossa Senhora sofreu vendo seu Filho crucificado e depois morto. Não podemos imaginar! Eu vou dar um exemplo para calcularmos um pouco: imaginem Nossa Senhora assistindo à Crucifixão, o Divino Filho d’Ela deitado sobre a Cruz; a Cruz posta no chão e de qualquer jeito… Se estivesse numa posição incômoda para Ele, até melhor para os verdugos.
Discute-se como de fato os pés d’Ele foram pregados: se foram os dois paralelamente ou se foi um em cima do outro e o cravo perfurando os dois pés. Na tradição católica, vemos nas imagens uma coisa e outra. Alguém poderá pensar que é algo que não tem importância… Muitos opinam que não perfuraram propriamente os pés, mas os tornozelos, colocaram um sobre o outro e furaram. Ora, o tornozelo fica entre o pé e a perna, são ossos pequenos; podem imaginar a dor lancinante que deve produzir um prego atravessando esse ponto… Eu não sei por quê, mas imagino que deve ser muito mais dolorido do que se fosse nos pés.
Um dos mais belos ornatos da vida e do universo se chama dor.
Depois os dois braços, e começa o pior: levantam a Cruz e Ele começa a sentir a atração da gravidade. Se Ele se apoiasse nos tornozelos, aliviava um pouco os pregos das mãos. Se, pelo contrário, Ele relaxasse um pouco os tornozelos por estarem doendo muito, os pregos começavam a rasgar as mãos…
No meio de tudo isso, um dos piores tormentos que uma pessoa pode sofrer: a falta de ar. Ele tinha, ao longo da Paixão, perdido uma quantidade enorme de sangue, e essa espécie de hemorragia – pelo que me disseram –, a partir de certo momento, produz falta de ar. Então Ele começa a arfar para conseguir respirar, e, ao arfar, esses dois movimentos se tornam mais violentos, de maneira que, a cada momento, as dores nos pés e nos tornozelos vão se tornando mais cruéis.
Depois, a sede começa a aparecer, porque quem perdeu muito sangue fica com muita sede. Aí o fato de Ele dizer “Sitio – Eu tenho sede” (Jo 19, 28), e Lhe apresentaram aquela esponja com vinagre.
Eu sempre tive a impressão de que aquela esponja com vinagre era mais uma manifestação de crueldade, porque podiam dar uma esponja com água para Ele, mas deram vinagre. Eu ouvi umas interpretações de que isso foi um ato de caridade daqueles monstros; eles tiveram pena de Nosso Senhor, e o vinagre ajuda a matar a sede mais do que a água, e por isso Lho deram. Mas isso me parece tão impróprio que eu fico com dúvida…
Imaginem Nossa Senhora embaixo, vendo tudo isso e calculando, em cada ponto, a dor que Ele estava sofrendo!
Uma piedosa consideração
Há uma consideração muito bonita e que, habitualmente, as pessoas não fazem, e é a seguinte: é moralmente certo que Nossa Senhora comungou na Ceia. Embora no Evangelho esteja só referida a Comunhão aos Apóstolos, Nossa Senhora comungou. É também certo que Ela recebeu a Comunhão uma vez e que nunca mais aquela partícula se deteriorou no verdadeiro tabernáculo vivo que Ela era. Então, Nosso Senhor estava, ao mesmo tempo, na Cruz e em Nossa Senhora. Surge daí uma pergunta muito bonita: quando Nosso Senhor morreu na Cruz, cessou a presença eucarística em Nossa Senhora ou não?
Se cessou, que falta, que dor, que saudades, naqueles três dias de sepultamento! Se não cessou, que dor sentir dentro de Si o Filho que estava morrendo na Cruz! É um problema lindíssimo. Mas tudo isso representava para Ela uma dor pior do que o martírio.
No alto da Cruz, a sede de almas de Nosso Senhor Jesus Cristo
Imaginemos Nosso Senhor do alto da Cruz com a vista prejudicada – porque com a hemorragia, a vista vai perdendo a penetração –, e procurando, no meio das penumbras da queda da visão se algum Apóstolo tinha chegado. Não chegou… “Chegará algum antes de minha morte?”
É possível que a humanidade d’Ele não fosse informada disso pela divindade. De repente, a alegria de ver chegar São João Evangelista! Mas, depois, nenhum outro… E Nossa Senhora vendo isso, porque Ela conhecia, como ninguém conheceu nem conhecerá, o Sagrado Coração de Jesus. E o que Ele sentia?

O Filho d’Ela esperando os amigos, os discípulos, os filhos, e eles não vêm… Não são só os filhos que Ele esperava, é a Igreja, porque eles já eram Igreja. São Pedro não veio, e até o fim da Paixão, o Papa não veio! De tal maneira que, quando Ele entregou Nossa Senhora como Mãe a São João Evangelista e disse que ele era filho d’Ela, pode-se imaginar que, se estivesse ali São Pedro, ele A teria recebido, porque era o Papa.
Se isso é verdade, então poder-se-ia dizer que Ele procurou São Pedro até o fim, e em certo momento Ele disse: “Não, Pedro não virá mais…” E então entregou Nossa Senhora a São João mutuamente. São transes de dor medonhos! Ela viu tudo isso e, por isso, Ela foi verdadeiramente a Regina Martyrum.
Deus não permitiu que tocassem em Nossa Senhora na Via Crucis
Mas, por que não tocaram n’Ela? Por que não A esbofetearam? Simplesmente porque Ele proibiu, e aí Ela ficou como uma prova da glória d’Ele.
É quase inconcebível que aqueles bandidos – porque aquilo era a pior escória da cidade de Jerusalém – não tivessem feito alguma coisa com Ela. Eles estavam vendo que era a Mãe d’Ele, estavam vendo, evidentemente, que a presença d’Ela trazia a Ele algum reconforto. Não poderiam ter querido agarrá-La à força e obrigá-La a ir embora? E acompanhar isso com atos de brutalidade que nós preferimos nem imaginar? Podia se dar facilmente.
Nossa Senhora é Rainha de todos os mártires porque todos eles tiveram força por meio d’Ela.
O fato de aqueles bandidos não tocarem n’Ela provava que Ele estava sofrendo o que Ele sofria porque Ele queria. Porque quem tinha poder para impedi-los de tocar em sua Mãe, tinha poder para dar ordem àqueles pregos que se soltassem, para descer da Cruz e para dar ordem ao próprio corpo para que se cicatrizasse imediatamente. E Ele não fez isso porque queria morrer por nós!
A significação da presença de Nossa Senhora na Via Crucis é muito bonita, muito especial.
A mais bela troca de olhares da História
De todas as cenas da vida de Nosso Senhor, aquela que talvez eu lamente mais de não ter presenciado é a última troca de olhares entre Ele e Nossa Senhora. Quando Ela percebia que a hora da morte estava chegando – normalmente Ela deveria ter horror a que a morte d’Ele chegasse –, teve pressa, porque sofrer aquele horror, horror, horror, horror… então, não era melhor terminar já de uma vez?
Ela percebeu que Ele ia morrer e Ele disse: “Meu Pai, Eu entrego o meu espírito em vossas mãos” (Lc 23, 46). Quando Ele disse isso, Ela viu que Ele não podia Se enganar nunca a respeito de nada, e devem ter trocado um olhar. Esse olhar, eu tenho a impressão de que foi o maior olhar da História!
Nunca antes, nunca durante, nunca depois, houve uma troca de olhares tão penetrante, tão significativa, tão santa – do lado d’Ele, tão divina! E aí Ele expirou.
Acontecimentos que se seguiram à Paixão
Podemos imaginar Nossa Senhora vendo tudo o que se seguiu: o céu que se turva, a terra que treme, o véu do Templo que se rasga, os Anjos que saem do Templo e fica lá uma corja de demônios. Ela teve conhecimento de tudo!
Nossa Senhora brilha em tudo quanto seu corpo imaculado sofreu na Terra como repercussão do sofrimento moral.

Será que Ela não pediu isso? Será que Ela não pediu que as almas dos justos da Antiga Lei que estavam enterradas à maneira judaica – aliás, como enterraram Nosso Senhor: sob uma pedra –, que saíssem das pedras, todos amarrados com tirazinhas de pano como ficavam os mortos, passeassem pela cidade de Jerusalém reprovando a este, àquele e àquele outro, o mal que tinham feito?
Já imaginaram? Às três da tarde, uma cidade que fica no escuro como a noite, a terra que treme e os mortos que começam a passear pelas ruas fazendo recriminações? Urros, pânico, pânico, pânico! Mas, é a glória de Deus!
Anás, Caifás e outros bandidos do gênero, o moleirão nojento do Pilatos e toda essa gente, como agiram enquanto esses fatos se davam? É inconcebível, simplesmente…
Mas vale a pena procurar rememorar, porque reacende em nossas almas disposições de piedade que deveriam estar em estado de crescimento contínuo.
Imaginando as cerimônias celestes
Uma alma colocada no Céu vê, por assim dizer, uma infinitude de harmonias, cada uma maior que a outra. Ela se encanta, naturalmente, com essas harmonias, naquelas várias ordens intrinsecamente.
Vou falar antropomorficamente, à maneira em que falam os homens nesta Terra e não na eternidade. Eu vou então usar essa linguagem para descrever uma coisa do Céu, portanto, com as impropriedades específicas de uma linguagem aplicada a outro tema.
Vamos dizer, por exemplo, que Nossa Senhora seja aclamada por todos os mártires, em certo momento das liturgias celestes, como Regina Martyrum. E, para isso, tomam manifestações, glórias, esplendores d’Ela enquanto padecente. Dentro das reversibilidades celestes e perfeitas d’Ela, um aspecto da sua personalidade aflora e, em torno disso, se ordenam todas as outras perfeições: Rainha triunfante, Rainha que domina o Céu e a Terra, Rainha dos Anjos etc., tudo entra numa espécie de segundo plano e a Rainha sofredora fica no primeiro plano.
Os mártires todos no Céu coruscam nas suas cicatrizes. Cicatrizes, por enquanto, de alma, porque os corpos deles ainda estão na Terra, exceto dois corpos que nós temos certeza de que estão no Céu, pela fé: o de Nosso Senhor e o de Nossa Senhora. Nessa hora brilha n’Ela tudo quanto seu corpo imaculado sofreu na Terra como repercussão do sofrimento moral. E, sem que Ela jamais tenha sido ferida nem atingida por nenhum golpe, uma luz especial se irradia d’Ela, uma luz peculiar ao martírio, que Lhe dá uma glória especialíssima também.
O Coração Imaculado d’Ela, transpassado por um gládio de dor, como Simeão previu a Ela, sangra de um sangue suavíssimo, num fenômeno indolor e glorioso, que todos os mártires aclamam. Mas, por cima de tudo isso, muito por cima, Ela sangra em todas as cicatrizes d’Ele. E não sangra sangue, mas sangra luz!
Todo o Céu fica com aquele brilho peculiar do sofrimento pungente e triunfador.

O Sagrado Coração d’Ele também sangra luz. A ferida que Longinus operou ali fica como um sol brilhando, e Ela mesma fica toda iluminada da luz que irradia d’Ele. E essa luz repercute e recai sobre todos aqueles que estão no Céu.
Mais ainda, ninguém está no Céu que não tenha sofrido muito e que não tenha amado sofrer, e que não tenha pagado, portanto, a duras custas, sua entrada no Céu. Essas almas aparecem no Céu enquanto sofredoras: todas as perplexidades, os sofrimentos, os abandonos, os olvidos, tudo o que sofreram todos os Santos, nessa hora brilha também mais ainda. E todo o Céu fica com aquele brilho peculiar do sofrimento pungente e triunfador. É uma forma de glória toda especial. Regina Martyrum, ora pro nobis!
Não pareceria que, depois de ser a Mãe de Deus e de ter estado ao pé do Calvário, Nossa Senhora merecesse ou pudesse alcançar algum título a mais. Não pareceria, porque Mãe de Deus, Virgem-Mãe, concebida sem pecado original, Sede da Sabedoria, já é uma coisa tal, que não há o que dizer! Além disso, Ela esteve no Calvário e ali Se tornou Corredentora do gênero humano. São tais sóis, um em cima do outro e cada um mais ofuscante do que o outro, que se diria: “Chega!” Mas, para a munificência de Deus não chegou.
Depois de o coro dos sofredores ter, dessa maneira, se manifestado no Céu – onde não há crepúsculos, não há ocasos e não há auroras; onde tudo é um perpétuo meio-dia – há, entretanto, um lento e glorioso esmaecimento do colorido dos mártires e, por exemplo, começa a aparecer, a cantar mais forte o coro dos Apóstolos. Assim, estes e aqueles coros, sucessivamente, aclamam Nossa Senhora e, na pessoa d’Ela, Nosso Senhor Jesus Cristo.
Poder-se-ia imaginar assim, dentro do que ensina a Igreja, percorrendo ponto por ponto da Ladainha, as mil transformações do Céu, e fazer com isso uma meditação.



